Sincronicidade

Retratando a vida em poesia

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Depois do sol poesiaPedes que eu escreva

o que não sinto.

Mas não posso, amigo.

Não minto.

Pela caneta transborda

o meu ser,

se esvai minha alma

e eu voo pela imaginação

nos campos do desejo.

Não posso amigo,

não vês,

que o que me inspira

a vida está aqui…

Entre uma letra e outra

é que eu vivo a vida.

Irene Madeiro

[Madeiro, Irene. Depois do sol: poesia. – Fortaleza, Premius, 2012. Poesia: A vida me inspira, p. 257.]

Não há nada mais cruel e doloroso para uma pessoa do que sentir-se estranho no mundo. A sensação de estranhamento é sempre dilacerante. Para conviver com ela, os que a sentem mais intensamente desenvolvem diferentes estratégias, dentre as quais se pode elencar a busca de paraísos artificiais, como a droga, ou, não menos trágica, a fuga para a loucura. Há outras, porém, mais viáveis, como a arte, por exemplo, dentre as quais se insere a poesia. Quando a transfiguração da estranheza em poesia obtém  sucesso, uma poetisa pode escrever com propriedade versos do quilate dos que se encontram na poesia que citei acima, em epígrafe a este texto: “Pela caneta transborda o meu ser” e “Entre uma letra e outra é que eu vivo a vida”.

O poeta é alguém que sente e vive, com toda pujança, a estranheza do ser e do mundo. Esse estranhamento – creio que não incorro em equívoco ao afirmá-lo-, é uma das pedras angulares das duzentos e quarenta poesias publicadas no livro “Depois do sol: poesia” de Irene Madeiro.  A sensação que se tem é que a autora nunca está onde parece estar. É como se o que ela é e sente ser não coubesse em si mesma: “É necessário / amar o estar aqui? / Eu acho que sim, / mas por mais que eu tente, / aqui não faz parte de mim” (Ser e estar, p. 69). Transparece aí a ânsia por um devir: “Ser, estar e vir a ser e estar” (idem,), devir esse que é também um alhures, sempre almejado mas nunca alcançado: “Ai de mim que sinto falta, / tanta falta de um lugar / que não sei onde fica” (Asas, p. 72). Em se tratando de uma poetisa, entretanto, não poderia ser diferente, posto que sua essência seja, exatamente, o transbordamento que somente o infinito abarca: “Dentro de mim, / há um infinito finito, / há um firmamento / que apenas a pele / separa do resto” (Luz, p. 73).

Não cabendo, pois, na realidade, resta-lhe transfigurá-la, subvertendo-lhe o sentido: “Mas acordada / é que sonho” (Cruel, p. 90). Nesse sonhar acordada, a poesia desponta como forma privilegiada de acesso ao sentido: “A poesia que eu não faço / me deixa sem sentido, / sem sentimento e oca” (A poesia, p. 33). Prenhe de versos, a autora toca um estado que diríamos quase uma epifania: “Eu me enchi de poesia / e o meu corpo inchou de emoção / Meu coração, que bate desritmado, / como um tambor, bateu forte e compassado. / Minha vida que era fraca, / meu caminho que era treva / meu sonho que era triste: / nenhum deles resiste/ à luz, à força, à taça / cheia de vinho / de calor e cor / da poesia” (Poesia I, p. 133).

Paradoxalmente, porém, a verdadeira palavra, o verso essencial, subsiste apenas no horizonte das possibilidades, o que leva Irene Madeiro a escrever, quase como um lamento: “A poesia mais bonita / que eu fiz e que eu faço / está no espaço, / no regaço do meu espírito, / jamais povoará com letras / os papéis em branco” (A mais bonita, p. 200). Talvez tenha que ser assim, pois, afinal, como afirma com lucidez em outro poema, “Da vida a poesia é apenas / um retrato” (Poesia, retrato da vida, p. 255).

Irene Madeiro nasceu em Quixeramobim-CE, em 21 de dezembro de 1975. Cursou a Faculdade de Letras/Espanhol na Universidade Federal do Ceará (UFC) e é funcionária pública do Tribunal Regional Eleitoral do Ceará.

Concluo este breve texto almejando à Irene Madeiro que ela continue pujante de versos, brindando seus leitores com outras tantas publicações como essa, pois o mundo carece muito de poesia.