Varanda Casa Azul

O relacionamento entre grandes corporações e startups

Texto por Bernardo Castellini Bichucher, formado em Engenharia Mecânica pela USP, Bernardo trabalhou durante sua graduação nas mais diversas áreas, desde aeronáutica até ao desenvolvimento integrado de produtos inovadores. Hoje é analista na EloGroup trabalhando na frente de gestão da inovação. Como hobbies, é viciado em música na arte de cozinhar!

Não é de hoje que ouvimos esse nome por aí, startups. Existem zilhões de conceitos diferentes sobre este tipo de empresa e aquela que eu utilizo bastante no meu dia a dia foi dita pelo Eric Ries (por sinal, se você ainda não leu os livros dele, vai agora comprar… Correndo!) que diz: “Startup é uma instituição humana criada para entregar um novo produto ou serviço em condições de extrema incerteza”. Afinal, esta incerteza é fruto de um mundo atual extremamente dinâmico, conectado e veloz, com novas empresas surgindo – e outras falindo – cada vez mais rápido. Um estudo da consultoria de inovação Innosight diz que se você fosse dono de uma das empresas da S&P500 (500 ativos mais bem cotados nas bolsas americanas NYSE e NASDAQ) em 1965, muito provavelmente sua empresa continuaria fazendo parte deste índice pelos próximos 33 anos. Em 2016, esse número cairia para 24 anos. Em 2027? A previsão é apenas de 12…

Mas então, com esse mundo extremamente volátil, rápido e cheio de novas startups crescendo ao ponto de se tornarem unicórnios (evaluation de +US$1bi), como é possível uma grande corporação, criada há muitos anos, repleta de ritos bem engessados e com uma cultura tradicional, poder se posicionar como inovadora, rejuvenescida, ágil…? A resposta é mais simples do que parece: trazendo essas startups para dentro de casa. Esta ideia é englobada por outro conceito chamado de Open Innovation, termo famoso depois do lançamento do livro de Henry Chesbourgh (2003) “Open Innovation: the new imperative for creating and profiting from technology”. Basicamente, a ideia por trás da Inovação Aberta consiste no mindset de que uma empresa pode, e deve, utilizar ideias e novas formas de go-to market oriundas de fontes internas e também externas, para desenvolver novas tecnologias. Parece simples, não? Pois preparem-se para ver a meleca…

O grande problema, é que o modus operandi de qualquer grande corporação é tradicionalmente construído para assassinar qualquer tipo de modelo de trabalho um pouco mais parecido com o das startups. Processos extremamente burocráticos, mentalidade completamente adversa a riscos e a operação do dia a dia são alguns exemplos de características intrínsecas a estas empresas que sufocam algum tipo de inovação um pouquinho mais disruptiva dentro de casa.

“Mas Bernardo, eu tenho uma empresa gigantesca, fundada há muitos anos e que já iniciou os trabalhos de relacionamento com startups, mas não tenho tido bons resultados… O que que eu estou fazendo de errado?” Bom, só com uma frase tão curta assim, eu não sei te medicar. Mas te garanto que inovação aberta não é uma receita de bolo. Cada corporação terá a sua forma de se relacionar com o ecossistema inovador. O importante é ter estas iniciativas recebendo a devida atenção (lê-se c-level apoiando), alinhadas à estratégia da empresa, com governança, gestão, recursos alocados… Mas te digo mais, leitor da Varanda Casa Azul, existe sim um erro extremamente comum e o ponto central de todo esse texto: O relacionamento entre grandes corporações e startups deve passar por um processo de ganho de maturidade.

Um artigo bem legal para se ler sobre o assunto chama “Winning Together – a guide to successful corporate-startup collaborations” do Nesta, uma fundação de inovação britânica. Este texto retrata um pouco das diferentes maneiras de se relacionar com startups: contratação, hackathons, coworkings, programas de aceleração, fundos de investimento, etc., e como estes programas se atrelam a 4 principais objetivos de uma colaboração corporação-startup:

  1. Rejuvenescimento da cultura corporativa
  2. Posicionar a corporação como uma empresa inovadora
  3. Resolver desafios de negócio
  4. Expansão para novos mercados.

Por exemplo, caso seu objetivo neste relacionamento seja expandir para novos mercados, é muito mais provável alcança-lo através de investimentos na startup em si, ao invés de investir na criação de um coworking. Agora, se o seu objetivo principal é rejuvenescer sua cultura interna, pra quê comprar uma startup? Roda um hackathon que isso já incentiva seus colaboradores a mudarem de mindset!

Mas então, se você, executivo de uma grande empresa, tem vontade de começar este relacionamento e ter dos mais diversos programas dentro de casa, eu aconselho começar pequeno. É muito comum observarmos no mercado empresas com grandes programas de startups e ínfimos resultados. Isto devido exatamente a falta de maturidade das empresas ao se mostrarem disponíveis para estes relacionamentos! Não funciona rodar um programa de aceleração de startups com fundo de investimento logo no dia 0, porque a empresa não está preparada! A organização vai gastar dinheiro, tempo de seus executivos, mentores, e depois do programa o que vai acontecer? Nada. Por que a empresa não se preparou.

Agora, se eu sou uma grande corporação, com interesse em me relacionar com todo esse novo ecossistema, que tal começar contratando uma startup ao invés de um fornecedor tradicional? Assim, eu já mostro para os meus colaboradores e processos internos como este novo pessoal trabalha. Depois, eu posso evoluir para uma parceria com uma aceleradora externa que irá rodar o programa para a minha empresa. Quem sabe, posteriormente, eu mesmo rodo um programa de aceleração dentro de casa! E finalizo o meu plano investindo equity nessas novas empresas, através do novo braço de corporate venture da minha organização. “Voalá, I am the new Google”. Vai sonhando…

Então galera, a mensagem que eu quero deixar bem claro neste texto é: grandes organizações podem, e devem, se relacionar com startups pelos mais diversos motivos e objetivos. O importante é ter em mente que este relacionamento não deve ir direto pro casamento, se não vai terminar em divórcio. Paquera, namora e depois casa com x amigx, que vai dar tudo certo!

Espero que tenham gostado e não deixem de fuçar todas as referências que eu mencionei aqui, todas valem a leitura!

Recomendado para você