Veia Esportiva

Páginas Azuis. Lars Grael, a história reinventada de um campeão olímpico

Acidente que lhe custou a amputação da perna direita o obrigou a buscar outros objetivos, no esporte e na vida. (Foto: Aurélio Alves/ESPECIAL O POVO)

Confira a entrevista do medalhista olímpico Lars Grael, nas Páginas Azuis, do O POVO. Entrevista: Bruno Balacó | Foto: Aurélio Alves

Em 1998, Lars Grael vivia o auge de sua carreira de velejador quando foi obrigado a reprogramar sua vida após um acidente que resultou na amputação da perna direita. O recomeço veio com vários convites para assumir cargos de gestão esportiva.

Aos poucos, retomou o ritmo de competições na vela, tendo como ponto alto a conquista de mais um título mundial, na classe Star, em 2015. História de superação que rende a ele uma movimentada agenda de palestrante. Ao O POVO, além de contar sua trajetória de altos e baixos no esporte, tratou sobre o projeto para tornar o Brasil uma potência olímpica, o legado da Rio-2016, o paradesporto e a gestão esportiva no Brasil.

O POVO De referência esportiva sua história de vida o colocou em outro patamar devido ao acidente (em 1998, em Vitória, uma lancha invadiu a área de competição e bateu no barco, atingindo o velejador). O que passou pela sua cabeça na época?

LARS GRAEL – Naquele momento estava no auge da minha carreira. Era recém-bimedalhista olímpico, já sonhava em disputar as Olimpíadas de Sidney, em 2000. Era um ano em que o campeonato mundial de vela da classe Tornado, onde eu competia na Olimpíada, se realizava pela primeira vez no Brasil, em Búzios. Então, a motivação estava lá em cima. Tipo da coisa que você não programa para sua vida e, quando aconteceu, o chão sai de baixo.

Primeiro foi um momento de incerteza, de luta pela vida. E a medida que fui ganhando essa luta veio todo um sentimento de “e agora?”. Do auge da carreira a aceitar ser um deficiente físico, havia uma barreira psicológica considerável. Então, na verdade, pessoas que passaram por situações semelhantes foram fundamentais para me inspirar que a vida continuava. Enfrentar a vida do jeito que ela é, aceitar o próprio preconceito de, de uma hora para outra, me ver como deficiente. Mas, tentar produzir…

OP– Como você conseguiu reprogramar sua vida, seus objetivos?

LARS – A família foi fundamental, a forma como a família se uniu. Minha mãe, que já é falecida, meus irmãos, minha esposa Renata, amigos do esporte e eu tentar realmente um sentido para a vida. Quando estava em uma fase ainda de voltar para Niterói (RJ), que era onde eu morava, e tentar entender o que seria a minha proposta de vida, foi quando fui convidado para voltar a morar em Brasília e ocupar cargos de gestão, no então Ministério de Esporte e Turismo (1998).

Aí virei secretário Nacional do Esporte (2001), fui secretário estadual em São Paulo (2003-2006), mas sem nunca perder essa paixão pela vela. Então, ficava sempre flertando em querer voltar a competir pelo simples prazer, já sem muitas ambições. Foi quando o meu irmão Torben (dono de cinco medalhas olímpicas) mostrou a classe Star, a mais tradicional modalidade da vela internacional, em que ele se consagrou.

Ele achava que, pela configuração do barco, eu poderia voltar a competir. No início servi como sparring, que é o barco de referência para o treino do Torben, e estive nos Jogos de Sidney e Atenas (2004) como coordenador técnico da equipe olímpica de vela. E depois voltei a competir e os títulos vieram.

OP – O que mais dificultou o processo de recuperação?

LARS – Acho que, primeiro, o próprio preconceito. Aceitar essa nova existência. E pessoas que passaram por situações semelhantes foram fundamentais para mim. A partir dali, foi ocupar a minha vida. Sempre que surgia qualquer convite para exercer qualquer cargo, função, voluntário, ia aceitando como forma de ocupar a mente.

Passei a ter uma agenda bastante intensa. Começaram as palestras a partir de 2000. E voltar a competir foi extremamente saudável para eu fazer as pazes comigo mesmo. No ambiente onde dediquei a minha vida foi onde quase perdi a vida, que foi o mar, e fazer as pazes com o mar…

OP – Uma das atividades a que o senhor se dedicou após o acidente foi a de palestrante. Como se deu esse processo?

LARS – As pessoas me cobravam: ‘por que você não faz palestras?’. Não tinha experiência nisso. Não sabia como ia ser esse cenário. Nessa fase, estava trabalhando para o Governo Federal. A remuneração era bastante insuficiente para que eu pudesse manter a família e querer continuar a fazer o mínimo na vela.

Foi quando surgiu um empresário de palestras e falou ‘posso te ajudar a montar uma palestra e você ter uma fonte de receita alternativa’. Então, comecei isso em 2000 e rapidamente isso se tornou a minha principal fonte de receita.

OP – O senhor já esteve à frente de diversas iniciativas, ligadas ou não a governos, em prol do esporte. Como enxerga a gestão do esporte brasileiro atual?

LARS – Tudo no Brasil está decorrente do momento que nós vivemos. Uma crise política, econômica e social sem precedentes. Isso afeta qualquer atividade. E o esporte não é diferente. Até porque o esporte no Brasil viveu uma sequência de grandes eventos e isso foi gerando uma expectativa e uma relevância, que começou com os Jogos Sul-Americanos em 2002, depois vieram os Jogos Pan-Americanos em 2007, os Jogos Mundiais Militares em 2011, Copa do Mundo em 2014 e Jogos Olímpicos e Paralímpicos em 2016.

Então, como passou essa sequência de grandes eventos e o País está hoje em uma situação econômico-financeira grave, nos governos federal, estaduais e municipais, houve percepção de uma grande derrocada no esporte. Uma ressaca pós-olímpica. O que é um erro. Com certeza nós temos muito que melhorar. E hoje se fala muito em mudar a forma de governança no esporte brasileiro. A estrutura arcaica que nós tínhamos de confederações, aqueles dirigentes que se eternizavam nos cargos por décadas, isso realmente tem que mudar.

Não tem como sustentar. Você tem que ter uma gestão com mais transparência, uma gestão que seja moderna, profissional. O tema que se fala hoje é governança, melhoria de gestão e entidades comprovarem conformidade com as regras éticas e as leias, é claro. O esporte precisa ter credibilidade para que mereça recursos públicos. Tendo uma coerência de um país que desejou ser uma potência olímpica ou paralímpica. Não era um projeto que terminava em 2016, que foi uma fase de a gente medir o desempenho brasileiro.

OP – Qual acredita que tenha sido o real legado das Olimpíadas no Rio para o País?

LARS – Com certeza, a Olimpíada trouxe obras de infra-estrutura que deixaram melhoramentos urbanos, sobretudo no campo de mobilidade no Rio, e deixou um parque esportivo que é deficitário. Você manter um parque olímpico daquele tem que ter injeção de recursos, porque tem um custo grande.

Difícil adaptar programas sociais e formação de atletas em uma estrutura que foi modulada para sediar o maior evento da humanidade. A gente percebe muito mais os problemas decorrentes da crise que o estado (do Rio) enfrenta agora que os benefícios deixados pela Olimpíada.

OP – Ainda acredita que seja possível o Brasil se tornar uma potência olímpica?

LARS – Nós não temos que ter imediatismo quando se fala de esporte. Se você pensar o quadro de medalhas da China nas Olimpíadas de Montreal, em 1976, foi zero medalha. Era um País que começava a pensar o esporte como estratégia de propaganda governamental e também como programa nacional de educação e saúde. A China era um país totalmente irrelevante no esporte. Para virar uma potência foi um trabalho feito com coerência e por décadas. Então, aqui no Brasil, nós tínhamos um investimento mediano no esporte até os Jogos de Londres e fizemos uma aceleração de investimentos para o Rio.

Agora, em quatro anos não se faz uma potência olímpica. Medalha não se vende em supermercado, no atacado. Então, você tem que ter um trabalho de base que envolva qualificação da educação física nas escolas, a valorização do calendário esportivo escolar, usar a estrutura dos clubes para atender também à comunidade, com um programa nacional de formação de atletas… Esse trabalho com coerência é que nós temos que ter hoje, não só pensando em medalha, para a gente colher medalhas a médio e longo prazo. O trabalho em esporte requer um investimento contínuo.

OP – A vela é entendida como um esporte da elite. O senhor mesmo capitaneia um projeto que trabalha justamente no acesso a esta modalidade. O que mais pode ser feito neste sentido?

LARS – O Brasil é um país que tem muito pouca cultura náutica e mentalidade marítima. A nossa colonização se deu, principalmente, pelo imigrante europeu que veio para cá ou pelos africanos que foram escravizados. Essa colonização se deu através do mar. Hoje nós temos uma concentração populacional enorme na faixa litorânea. A gente paga caríssimo para viver com vista para o mar, mas a nossa cultura não costuma passar da rebentação das praias.

É muito mais uma questão cultural do que uma questão financeira. Aqui no País você consegue fazer, às vezes, ocupações desordenadas na beira do mar, de rio, lagos e represas jogando esgoto in natura no mar e pouco se faz contra isso, porque parece uma medida de compensação social. Agora, quando se fala em fazer marinas, na beira do mar, parece que você aciona todos os dispositivos ambientais contrários. Falta de cultura. Os países ditos desenvolvidos se desenvolveram porque tiveram cultura e mentalidade marítima. Conquistaram mercados, portos, estabeleceram colônias em outras regiões.

Nós não temos essa cultura. Então, as cidades que se desenvolveram fazendo aterros na beira do mar, colocando pistas de rodagem, separando os bairros residenciais do mar, não têm acesso público com facilidade para colocar ou tirar uma embarcação. Quase sempre uma parcela pequena da população tem acesso aos clubes. Então, o Brasil tem, ao mesmo tempo, no caso da vela, seu melhor quadro de medalhas em Olimpíada e ainda com poucos praticantes.

Como nós somos filhos de servidor público federal, não tivemos esse berço esplêndido para se desenvolver na vela, tudo que nós tínhamos era cultura de família do meu lado materno, a gente tentava dar uma contribuição para democratizar a vela. Criou-se assim o Projeto Grael lá em 1998, pegando os jovens da rede pública de ensino, de comunidades em Niterói, e levando para uma escolinha de vela. Aí depois a gente ensinou esses jovens a nadar, a remar caiaques, a ter uma educação ambiental e hoje é um programa já bastante reconhecido.

OP – Grael é o sobrenome mais forte da vela do mundo. Como viu essa conquista de ouro na última Olimpíada, da nova geração de velejadores, representada pela (sobrinha) Martine Grael?

LARS – Quando nós começamos na vela, quem era bom era o lado da minha mãe, de sobrenome Schmidt. Meus tios foram tricampeões mundiais de vela. Ouro e prata em Jogos Pan-Americanos e foram a duas Olimpíadas. Eles eram referência, os irmãos Erick e Axel Schmidt. Quando eu e o Torben começamos na vela, usávamos o sobrenome deles, que tinha tradição. Mas a gente não tinha resultados no início.

Aí começaram a comparar, ‘pô, vocês são ruins, hein? Os tios de vocês são tão bons’. Foi quando a gente decidiu mudar o sobrenome esportivo para Grael, ‘assim não vão cobrar a gente’. E a gente estabeleceu um padrão na vela brasileira, internacional, que passou a ser respeitado. E a gente começa a ver um problema, que é ver como a gente transfere isso de geração em geração. Meus filhos, meus sobrinhos carregam o sobrenome Grael, o que pode gerar uma cobrança inicial. Por um lado, gera notoriedade, expectativa, ‘esses caras devem ser bons de vela’. Meu filho hoje convive com essa cobrança, mas a Martine Grael conseguiu mostrar que a nova geração também é muito boa.

Durante esse ciclo de Londres para Rio foi campeã mundial uma vez, foi vice-campeã mundial outras duas vezes, quase sempre líderes de ranking (em parceria com Kahena Kunze). E, na Olimpíada, na última regata da classe 49er, que era a última esperança de medalha do Brasil que sobrava na vela, imagina a pressão que ficou sobre ela e a Kahena Kunze. Tiveram desempenho extraordinário, frieza, brilharam no melhor momento.

OP – E o esporte paralímpico? Como enxerga o potencial do Brasil para que a prática paralímpica seja democratizada e, consequentemente, possa trazer também mais resultados?

LARS – O paradesporto do Brasil está na vanguarda em toda a América Latina. Basta ver nosso resultado nos Jogos Parapan-Americanos. Mas temos muito ainda a avançar. E pensar que até 1995 não tínhamos um órgão de gestão do paradesporto. Criou-se então o comitê paralímpico brasileiro, em Niterói. Depois, a lei Agnelo Piva, que foi um divisor de águas para o setor.

No início, as pessoas tinham no máximo pena ou alguma admiração distante. Aí, a sociedade passou a entender mais e melhor que são brasileiros que suam a mesma camisa, dignificam a mesma bandeira e conquistam medalhas, ainda ultrapassando várias barreiras, dentre elas a do preconceito. Hoje o Brasil tem patrocinadores público-privados acreditando até no aspecto do marketing que representa o paradesporto. Um centro nacional de altíssimo rendimento em São Paulo, outros centros regionais… A tendência é crescer e sociedade abraçar essa causa como de todos nós.

OP – Quais obstáculos as pessoas com deficiência precisam vencer para estar no esporte?

LARS – Vi o caso do goleiro Jackson Follmann, que sofreu o acidente com a Chapecoense (em novembro de 2016) e teve uma das pernas amputadas. Ele fez uma experiência no centro paralímpico jogando vôlei sentado. Tem várias modalidades onde ele pode viver essa experiência e ver em qual delas se sente melhor. Tem o ex-goleiro do São Paulo, o Bruno Landgraf, que em um acidente de carro ficou tetraplégico, e representou o Brasil na Paralimpíada de 2016 na vela.

O paradesporto tem um papel social muito grande, porque além de gerar bem-estar, qualidade de vida para a pessoa com deficiência, ele ajuda a provar para a sociedade que essa letrinha ‘D’, de deficiência, cai. No esporte, mesmo a pessoa tendo uma deficiência, sendo ela física, sensorial ou mental, pode provar, através do esporte, eficiência. Como pode render, produzir em favor da sociedade, entendendo que no mercado de trabalho essas pessoas merecem espaço para serem úteis ao País. Então, o esporte é um vetor de inserção social muito grande.

OP – O senhor tem uma vivência também no âmbito da política. Como analisa o atual cenário político do Brasil?

LARS – Acho a situação lamentável. Hoje estamos em um país em que temos 32 ou mais partidos políticos e se você tentar identificar umas seis ou oito ideologias é muito. O sistema político-partidário perdeu muita credibilidade. Antes, cada um tentava, em um país dividido, separar o certo do errado.

Há uma sensação de que todo o sistema está errado. Acho que a Operação Laja Jato se propõe a isso. O País mergulhou em uma crise política e de consequências econômicas enormes e agora acho que o nosso interesse é de que tudo isso seja lavado e passado a limpo para criar uma nova nação, sob novos valores e superiores ao que nós fazíamos aqui, do que o jogo do “toma-lá-da-cá”, do jogo do “é dando que se recebe”, um grupo que se perpetuou no poder para saquear o próprio País. Então, acho que temos que mudar o conceito de servir à sociedade.

PALESTRA
A entrevista foi realizada no dia 1º de junho, no Centro de Eventos do Ceará, onde o velejador ministrou palestra no Congresso Médico Unimed Fortaleza.

EMOÇÃO
Lars ficou com os olhos marejados ao falar do acidente sofrido em 1998. Em outro momento, abriu largo sorriso quando a reportagem destacou os feitos da família Grael.

CEARÁ
Jericoacoara é apontada por Lars como um paraíso do Brasil Para o velejador, que fez questão de elogiar a beleza do litoral do Ceará, o Estado é a “terra dos bons ventos”.

PERFIL
Nascido em São Paulo, Lars Schmidt Grael tem 53 anos e fez história como velejador. É oriundo de uma família tradicional no iatismo brasileiro, que tem campeões mundiais em três gerações (os tios Erick e Axel, o irmão Torben e a sobrinha Martine), além de oito medalhas olímpicas. Participou de quatro Olimpíadas e conquistou duas medalhas de bronze, uma nos Jogos de Seul (1988) e outra em Atlanta (1996). É também bicampeão mundial, além de várias vezes campeão brasileiro, sul-americano e europeu.

 

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