{"id":10320,"date":"2011-12-24T16:48:15","date_gmt":"2011-12-24T19:48:15","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/ancoradouro\/?p=10320"},"modified":"2011-12-24T16:48:15","modified_gmt":"2011-12-24T19:48:15","slug":"mensagem-de-natal-do-papa-bento-xvi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/2011\/12\/24\/mensagem-de-natal-do-papa-bento-xvi\/","title":{"rendered":"Mensagem de Natal do Papa Bento XVI"},"content":{"rendered":"<p>O Papa Bento XVI celebra no Vaticano mais uma Festa lit\u00fargica do Natal de Jesus Cristo. Aos peregrinos de l\u00edngua portuguesa dirigiu uma palavra especial. Confira:<\/p>\n[youtube]http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=kycjzwLS9dI&amp;feature=related[\/youtube]\n<p><strong>Veja a homilia proferida pelo\u00a0Pont\u00edfice\u00a0Romano.<\/strong><\/p>\n<p><em>Amados irm\u00e3os e irm\u00e3s!<\/em><\/p>\n<p>A leitura que ouvimos, tirada da Carta do Ap\u00f3stolo S\u00e3o Paulo a Tito, come\u00e7a solenemente com a palavra \u00ab<em>apparuit<\/em>\u00bb, que encontramos de novo na leitura da Missa da Aurora: \u00ab<em>apparuit<\/em> \u2013 manifestou-se\u00bb. Esta \u00e9 uma palavra program\u00e1tica, escolhida pela Igreja para exprimir, resumidamente, a ess\u00eancia do Natal. Antes, os homens tinham falado e criado imagens humanas de Deus, das mais variadas formas; o pr\u00f3prio Deus falara de diversos modos aos homens (cf.\u00a0<em>Heb<\/em> 1, 1: leitura da Missa do Dia). Agora, por\u00e9m, aconteceu algo mais: Ele manifestou-Se, mostrou-Se, saiu da luz inacess\u00edvel em que habita. Ele, em pessoa, veio para o meio de n\u00f3s. Na Igreja antiga, esta era a grande alegria do Natal: Deus manifestou-Se. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas uma ideia, nem algo que se h\u00e1-de intuir a partir das palavras. Ele \u00abmanifestou-Se\u00bb. Mas agora perguntamo-nos: Como Se manifestou? Ele verdadeiramente quem \u00e9? A este respeito, diz a leitura da Missa da Aurora: \u00abManifestaram-se a bondade de Deus (\u2026) e o seu amor pelos homens\u00bb (<em>Tt<\/em> 3, 4). Para os homens do tempo pr\u00e9-crist\u00e3o \u2013 que, vendo os horrores e as contradi\u00e7\u00f5es do mundo, temiam que o pr\u00f3prio Deus n\u00e3o fosse totalmente bom, mas pudesse, sem d\u00favida, ser tamb\u00e9m cruel e arbitr\u00e1rio \u2013, esta era uma verdadeira \u00abepifania\u00bb, a grande luz que se nos manifestou: Deus \u00e9 pura bondade. Ainda hoje h\u00e1 pessoas que, n\u00e3o conseguindo reconhecer a Deus na f\u00e9, se interrogam se a For\u00e7a \u00faltima que segura e sustenta o mundo seja verdadeiramente boa, ou ent\u00e3o se o mal n\u00e3o seja t\u00e3o poderoso e primordial como o bem e a beleza que, por breves instantes luminosos, se nos deparam no nosso cosmos. \u00abManifestaram-se a bondade de Deus (\u2026) e o seu amor pelos homens\u00bb: eis a certeza nova e consoladora que nos \u00e9 dada no Natal.<\/p>\n<p>Na primeira das tr\u00eas leituras desta Missa de Natal, a liturgia cita um texto tirado do livro do Profeta Isa\u00edas, que descreve, de forma ainda mais concreta, a epifania que se verificou no Natal: \u00abUm Menino nasceu para n\u00f3s, um filho nos foi concedido. Tem o poder sobre os ombros, e d\u00e3o-lhe o seguinte nome: \u201cConselheiro admir\u00e1vel! Deus valoroso! Pai para sempre! Pr\u00edncipe da Paz!\u201d O poder ser\u00e1 engrandecido numa paz sem fim\u00bb (<em>Is<\/em> 9, 5-6). N\u00e3o sabemos se o profeta, ao falar assim, tenha em mente um menino concreto nascido no seu per\u00edodo hist\u00f3rico. Mas isso parece ser imposs\u00edvel. Trata-se do \u00fanico texto no Antigo Testamento, onde de um menino, de um ser humano, se diz: o seu nome ser\u00e1 Deus valoroso, Pai para sempre. Estamos perante uma vis\u00e3o que se estende muito para al\u00e9m daquele momento hist\u00f3rico apontando para algo misterioso, colocado no futuro. Um menino, em toda a sua fragilidade, \u00e9 Deus valoroso; um menino, em toda a sua indig\u00eancia e depend\u00eancia, \u00e9 Pai para sempre. E isto \u00abnuma paz sem fim\u00bb. Antes, o profeta falara duma esp\u00e9cie de \u00abgrande luz\u00bb e, a prop\u00f3sito da paz dimanada d\u2019Ele, afirmara que o bast\u00e3o do opressor, o cal\u00e7ado ruidoso da guerra, toda a veste manchada de sangue seriam lan\u00e7ados ao fogo (cf.\u00a0<em>Is<\/em> 9, 1.3-4).<\/p>\n<p>Deus manifestou-Se\u2026 como menino. \u00c9 precisamente assim que Ele Se contrap\u00f5e a toda a viol\u00eancia e traz uma mensagem de paz. Neste tempo, em que o mundo est\u00e1 continuamente amea\u00e7ado pela viol\u00eancia em tantos lugares e de muitos modos, em que n\u00e3o cessam de reaparecer bast\u00f5es do opressor e vestes manchadas de sangue, clamamos ao Senhor: V\u00f3s, o Deus forte, manifestastes-Vos como menino e mostrastes-Vos a n\u00f3s como Aquele que nos ama e por meio de quem o amor h\u00e1-de triunfar. Fizestes-nos compreender que, unidos convosco, devemos ser art\u00edfices de paz.\u00a0 Amamos o vosso ser menino, a vossa n\u00e3o-viol\u00eancia, mas sofremos pelo facto de perdurar no mundo a viol\u00eancia, levando-nos a rezar assim: Demonstrai a vossa for\u00e7a, \u00f3 Deus. Fazei que, neste nosso tempo e neste nosso mundo, sejam queimados os bast\u00f5es do opressor, as vestes manchadas de sangue e o cal\u00e7ado ruidoso da guerra, de tal modo que a vossa paz triunfe neste nosso mundo.<\/p>\n<p>Natal \u00e9 epifania: a manifesta\u00e7\u00e3o de Deus e da sua grande luz num menino que nasceu para n\u00f3s. Nascido no est\u00e1bulo de Bel\u00e9m, n\u00e3o nos pal\u00e1cios do rei. Em 1223, quando Francisco de Assis celebrou em Greccio o Natal com um boi, um jumento e uma manjedoura cheia de feno, tornou-se vis\u00edvel uma nova dimens\u00e3o do mist\u00e9rio do Natal. Francisco de Assis designou o Natal como \u00aba festa das festas\u00bb \u2013 mais do que todas as outras solenidades \u2013 e celebrou-a com \u00absolicitude inef\u00e1vel\u00bb (<em>2 Celano<\/em>, 199:\u00a0<em>Fontes Franciscanas<\/em>, 787). Beijava, com grande devo\u00e7\u00e3o, as imagens do menino e balbuciava-lhes palavras de ternura como se faz com os meninos \u2013 refere Tom\u00e1s de Celano (<em>ibidem<\/em>). Para a Igreja antiga, a festa das festas era a P\u00e1scoa: na ressurrei\u00e7\u00e3o, Cristo arrombara as portas da morte, e assim mudou radicalmente o mundo: criara para o homem um lugar no pr\u00f3prio Deus. Pois bem! Francisco n\u00e3o mudou, nem quis mudar, esta hierarquia objectiva das festas, a estrutura interior da f\u00e9 com o seu centro no mist\u00e9rio pascal. Mas, gra\u00e7as a Francisco e ao seu modo de crer, aconteceu algo de novo: ele descobriu, numa profundidade totalmente nova, a humanidade de Jesus. Este facto de Deus ser homem resultou-lhe evidente ao m\u00e1ximo, no momento em que o Filho de Deus, nascido da Virgem Maria, foi envolvido em panos e colocado numa manjedoura. A ressurrei\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e a encarna\u00e7\u00e3o. O Filho de Deus visto como menino, como verdadeiro filho de homem: isto tocou profundamente o cora\u00e7\u00e3o do Santo de Assis, transformando a f\u00e9 em amor. \u00abManifestaram-se a bondade de Deus e o seu amor pelos homens\u00bb: esta frase de S\u00e3o Paulo adquiria assim uma profundidade totalmente nova. No menino do est\u00e1bulo de Bel\u00e9m, pode-se, por assim dizer, tocar Deus e acarinh\u00e1-Lo. E o Ano Lit\u00fargico ganhou assim um segundo centro numa festa que \u00e9, antes de mais nada, uma festa do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo isto n\u00e3o tem nada de sentimentalismo. \u00c9 precisamente na nova experi\u00eancia da realidade da humanidade de Jesus que se revela o grande mist\u00e9rio da f\u00e9. Francisco amava Jesus menino, porque, neste ser menino, tornou-se-lhe clara a humildade de Deus. Deus tornou-Se pobre. O seu Filho nasceu na pobreza do est\u00e1bulo. No menino Jesus, Deus fez-Se dependente, necessitado do amor de pessoas humanas, reduzido \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de pedir o seu, o nosso, amor. Hoje, o Natal tornou-se uma festa dos neg\u00f3cios, cujo fulgor ofuscante esconde o mist\u00e9rio da humildade de Deus, que nos convida \u00e0 humildade e \u00e0 simplicidade. Pe\u00e7amos ao Senhor que nos ajude a alongar o olhar para al\u00e9m das fachadas lampejantes deste tempo a fim de podermos encontrar o menino no est\u00e1bulo de Bel\u00e9m e, assim, descobrimos a aut\u00eantica alegria e a verdadeira luz.<\/p>\n<p>Francisco fazia celebrar a sant\u00edssima Eucaristia, sobre a manjedoura que estava colocada entre o boi e o jumento (cf.\u00a0<em>1 Celano<\/em>, 85:\u00a0<em>Fontes<\/em>, 469). Depois, sobre esta manjedoura, construiu-se um altar para que, onde outrora os animais comeram o feno, os homens pudessem agora receber, para a salva\u00e7\u00e3o da alma e do corpo, a carne do Cordeiro imaculado \u2013 Jesus Cristo \u2013, como narra Celano (cf.\u00a0<em>1 Celano<\/em>, 87:\u00a0<em>Fontes<\/em>, 471). Na Noite santa de Greccio, Francisco \u2013 como di\u00e1cono que era \u2013 cantara, pessoalmente e com voz sonora, o Evangelho do Natal. E toda a celebra\u00e7\u00e3o parecia uma exulta\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de alegria, gra\u00e7as aos magn\u00edficos c\u00e2nticos natal\u00edcios dos Frades (cf.<em>1 Celano<\/em>, 85 e 86:\u00a0<em>Fontes<\/em>, 469 e 470). Era precisamente o encontro com a humildade de Deus que se transformava em j\u00fabilo: a sua bondade gera a verdadeira festa.<\/p>\n<p>Hoje, quem entra na igreja da Natividade de Jesus em Bel\u00e9m d\u00e1-se conta de que o portal de outrora com cinco metros e meio de altura, por onde entravam no edif\u00edcio os imperadores e os califas, foi em grande parte tapado, tendo ficado apenas uma entrada com metro e meio de altura. Provavelmente isso foi feito com a inten\u00e7\u00e3o de proteger melhor a igreja contra eventuais assaltos, mas sobretudo para evitar que se entrasse a cavalo na casa de Deus. Quem deseja entrar no lugar do nascimento de Jesus deve inclinar-se. Parece-me que nisto se encerra uma verdade mais profunda, pela qual nos queremos deixar tocar nesta noite santa: se quisermos encontrar Deus manifestado como menino, ent\u00e3o devemos descer do cavalo da nossa raz\u00e3o \u00abiluminada\u00bb. Devemos depor as nossas falsas certezas, a nossa soberba intelectual, que nos impede de perceber a proximidade de Deus. Devemos seguir o caminho interior de S\u00e3o Francisco: o caminho rumo \u00e0quela extrema simplicidade exterior e interior que torna o cora\u00e7\u00e3o capaz de ver. Devemos inclinar-nos, caminhar espiritualmente por assim dizer a p\u00e9, para podermos entrar pelo portal da f\u00e9 e encontrar o Deus que \u00e9 diverso dos nossos preconceitos e das nossas opini\u00f5es: o Deus que Se esconde na humildade dum menino acabado de nascer. Celebremos assim a liturgia desta Noite santa, renunciando a fixarmo-nos no que \u00e9 material, mensur\u00e1vel e palp\u00e1vel. Deixemo-nos fazer simples por aquele Deus que Se manifesta ao cora\u00e7\u00e3o que se tornou simples. E nesta hora rezemos tamb\u00e9m e sobretudo por todos aqueles que s\u00e3o obrigados a viver o Natal na pobreza, no sofrimento, na condi\u00e7\u00e3o de emigrante, pedindo que se lhes manifeste a bondade de Deus no seu esplendor, que nos toque a todos, a eles e a n\u00f3s, aquela bondade que Deus quis, com o nascimento de seu Filho no est\u00e1bulo, trazer ao mundo. Amen.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Papa Bento XVI celebra no Vaticano mais uma Festa lit\u00fargica do Natal de Jesus Cristo. Aos peregrinos de l\u00edngua portuguesa dirigiu uma palavra especial. 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