{"id":120,"date":"2009-08-10T14:21:12","date_gmt":"2009-08-10T19:21:12","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/ancoradouro\/?p=120"},"modified":"2009-08-10T14:21:12","modified_gmt":"2009-08-10T19:21:12","slug":"um-conto-sobre-a-unidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/2009\/08\/10\/um-conto-sobre-a-unidade\/","title":{"rendered":"Um conto sobre a unidade baseado no Tesouro de E\u00e7a de Queiroz"},"content":{"rendered":"<p>Rui, Guanes e Rostabal. Estes s\u00e3o os nomes dos tr\u00eas irm\u00e3os do conto O Tesouro de E\u00e7a de Queiroz, literato da l\u00edngua portuguesa. Bem pequena, a hist\u00f3ria da trinca fraterna revela o reverso do cora\u00e7\u00e3o humano, <strong>o que este \u00e9 capaz de fazer quando se afoga nos mares da maldade.<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20566\" alt=\"tesouro02\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-content\/uploads\/sites\/64\/2009\/08\/tesouro02-625x271.jpg\" width=\"625\" height=\"271\" \/><\/p>\n<p>Certa vez ao andar pelas terras de Roquelane a tr\u00edade consangu\u00edneo achou um velho cofre que conservava tr\u00eas chaves. Ao abri-lo, um inc\u00eandio de ouro e pedrarias invadiu a vis\u00e3o. Ap\u00f3s o estupor da descoberta entreolharam-se desconfiadamente e chegaram a conclus\u00e3o: a peso de balan\u00e7a dividiriam o tesouro encontrado; antes por\u00e9m, escolheram Guanes para ir \u00e0 cidade vizinha, a fim de comprar v\u00edveres e &#8216;tr\u00eas botelhas de vinho&#8217;, <strong>afinal estavam esfaimados e precisavam comemorar o achado.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0 aus\u00eancia do irm\u00e3o, Rui, num argumento ludibrioso e ladino enla\u00e7a Rostabal e convence-o, ao retorno de Guanes, <strong>tirar-lhe a vida<\/strong> para que pudessem dividir somente entre os dois o ouro.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-20567 alignleft\" alt=\"tesouro01\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-content\/uploads\/sites\/64\/2009\/08\/tesouro01.jpg\" width=\"400\" height=\"302\" \/><\/p>\n<p>&#8220;<strong>Ambos se emboscaram por tr\u00e1s de um silvado, que dominava o atalho, estreito e pedregoso como um leito de torrente.<\/strong> Rostabal, assolapado na vala, tinha j\u00e1 a espada nua. Um vento leve arrepiou na encosta as folhas de \u00e1lamos [&#8230;] Rostabal rompeu de entre a sar\u00e7a por uma brecha, atirou o bra\u00e7o, a longa espada; &#8211; e toda l\u00e2mina se embebeu molemente na ilharga de Guanes, quando ao rumor, bruscamente, ele se virara na sela. Com um surdo arranco, tombou de lado, sobre as pedras.&#8221; (E\u00e7a de Queiroz, Contos, O Tesouro. Ediouro:1996)<\/p>\n<p>Com o cora\u00e7\u00e3o entregue \u00e0 vileza, Rui n\u00e3o d\u00e1 tr\u00e9gua \u00e0 sua maquina\u00e7\u00e3o mal\u00e9vola; trai\u00e7oeiramente perpassa a folha de sua navalha nas costas de Guanes que encontrava-se de bru\u00e7os, <strong>lavando o rosto respigado de sangue do irm\u00e3o Rostabal.<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20568\" alt=\"tesouro03\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-content\/uploads\/sites\/64\/2009\/08\/tesouro03-625x447.jpg\" width=\"625\" height=\"447\" \/><\/p>\n<p>Cego pela maldade e seduzido pelo brilho das pedrarias que incandesceu sua mente, Rui passou a<strong> solver em goles lentos o vinho<\/strong> trazido por Rostabal, agora inerte ao lado do outro cad\u00e1ver, o de Guanes.<\/p>\n<p>O desejo exacerbado e m\u00f3rbido pelo poder, tamb\u00e9m havia encontrado alojamento no cora\u00e7\u00e3o de Rostabal. Ao comprar os v\u00edveres na cidade, adquiriu somente duas botelhas de vinho \u00e0s quais misturou veneno letal comprado no com\u00e9rcio em cidade vizinha de Roquelane. <strong>Numa arma\u00e7\u00e3o arquitetada tamb\u00e9m planejava ficar sozinho com o tesouro encontrado.<\/strong><\/p>\n<p>Diante do cofre cheio de dobr\u00f5es de ouro achava-se estendido a merc\u00ea das aves carn\u00edvoras os corpos inertes de Rui, Guanes e Rostabal, <strong>v\u00edtimas da pr\u00f3pria gan\u00e2ncia<\/strong>.<\/p>\n<p>Quando li esse conto tr\u00e1gico, cujo desenrolar n\u00e3o trata de unidade, aprendi pela via negativa, que ao quebrarmos a unidade colocamos em risco a vida de nosso irm\u00e3o, a nossa pr\u00f3pria<strong> e a da comunidade da qual pertencemos<\/strong>.<\/p>\n<p>Quando orientador das rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o \u00a0somente \u00a0os sentimentos superficiais ditados pela gan\u00e2ncia e ego\u00edsmo, encontram entrada larga a indiferen\u00e7a e o individualismo, bra\u00e7os indolentes que arremessam a pessoa como p\u00e1ssaro \u00e0 rocha, <strong>deixando-a arquejar no pr\u00f3prio sangue<\/strong> quem n\u00e3o se disp\u00f4s a descer e descobrir os nobres sentimentos, aqueles encontrados ao fundo, no interior de cada um.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20569\" alt=\"tesouro04\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-content\/uploads\/sites\/64\/2009\/08\/tesouro04-625x833.jpg\" width=\"625\" height=\"833\" \/><\/p>\n<p>Somente a gra\u00e7a de Deus pode gerar comunh\u00e3o, a<strong> perfeita <em>Koinonia<\/em><\/strong>, a comunh\u00e3o da Trindade, cont\u00ednuo derramar e acolher de amor que \u00e9 &#8216;paciente, prestativo, n\u00e3o \u00e9 invejoso, n\u00e3o se ostenta, n\u00e3o se incha de orgulho, nada faz de inconveniente, n\u00e3o procura o seu pr\u00f3prio interesse, n\u00e3o se irrita, n\u00e3o guarda rancor, n\u00e3o se alegra com a injusti\u00e7a, regozija-se com a verdade, do outro, tudo desculpa, cr\u00ea, espera e suporta&#8217; (Cf: I Cor 13,3-8).<\/p>\n<p>Os movimentos de inveja, gan\u00e2ncia e individualismo como fortes vagas fizeram quedar mortalmente Rui, Guanes e Rostabal. <strong>A fuligem da maldade degustou seus cora\u00e7\u00f5es, cegou-lhes a vis\u00e3o.\u00a0<\/strong>Diante de nossos irm\u00e3os a Caridade de Cristo \u00e9 a \u00fanica virtude que pode permear de bondade e proteger os arrancos selvagens de nosso cora\u00e7\u00e3o contra a doa\u00e7\u00e3o. Esta Caridade \u00e9 poss\u00edvel e a hist\u00f3ria dos tr\u00eas irm\u00e3os de Roquelane poderia ser diferente. A nossa hist\u00f3ria pode ser diferente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rui, Guanes e Rostabal. Estes s\u00e3o os nomes dos tr\u00eas irm\u00e3os do conto O Tesouro de E\u00e7a de Queiroz, literato da l\u00edngua portuguesa. Bem pequena,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":141,"featured_media":20566,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[57],"tags":[94,95,96,97,98,99,100],"class_list":["post-120","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-conto","tag-egoismo","tag-fratricidio","tag-guanes","tag-rostabal","tag-rui","tag-trama","tag-unidade"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/120","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/users\/141"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=120"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/120\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20566"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=120"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=120"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=120"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}