{"id":1596,"date":"2010-03-08T11:44:31","date_gmt":"2010-03-08T14:44:31","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/?p=1596"},"modified":"2010-03-08T11:44:31","modified_gmt":"2010-03-08T14:44:31","slug":"a-mulher-surpreendida-em-adulterio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/2010\/03\/08\/a-mulher-surpreendida-em-adulterio\/","title":{"rendered":"A Mulher Surpreendida em Adult\u00e9rio"},"content":{"rendered":"<p>Jesus entra <em>na situa\u00e7\u00e3o concreta e h\u00edst\u00f3rica da mulher, <\/em>situa\u00e7\u00e3o sobre a qual <em>pesa a heran\u00e7a do pecado. <\/em>Esta heran\u00e7a exprime-se, entre outras coisas, no costume que discrimina a mulher em favor do homem, e est\u00e1 enraizada tamb\u00e9m dentro dela. Deste ponto de vista, o epis\u00f3dio da mulher \u00ab surpreendida em adult\u00e9rio \u00bb (cf. <em>Jo <\/em>8, 3-11) parece ser particularmente eloquente.<\/p>\n<p>No fim Jesus lhe diz: \u00ab <em>n\u00e3o tornes a pecar<\/em> \u00bb; mas, primeiro ele <em>desperta a consci\u00eancia <\/em>do pecado nos homens que a acusam para apedrej\u00e1-la, manifestando assim a sua profunda capacidade de ver as consci\u00eancias e as obras humanas segundo a verdade. Jesus parece dizer aos acusadores: esta mulher, com todo o seu pecado, n\u00e3o \u00e9 talvez tamb\u00e9m, e antes de tudo, uma confirma\u00e7\u00e3o das vossas transgress\u00f5es, da vossa injusti\u00e7a \u00ab masculina \u00bb, dos vossos abusos?<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma verdade <em>v\u00e1lida para todo o g\u00eanero humano. <\/em>O fato narrado no Evangelho de Jo\u00e3o pode apresentar-se em in\u00fameras situa\u00e7\u00f5es an\u00e1logas em todas as \u00e9pocas da hist\u00f3ria. Uma mulher \u00e9 deixada s\u00f3, \u00e9 exposta diante da opini\u00e3o p\u00fablica com \u00ab o seu pecado \u00bb, enquanto por detr\u00e1s deste \u00ab seu \u00bb pecado se esconde um homem como pecador, culpado pelo \u00ab pecado do outro \u00bb, antes, co-respons\u00e1vel do mesmo.<\/p>\n<p>E, no entanto, o seu pecado escapa \u00e0 aten\u00e7\u00e3o, passa sob sil\u00eancio: aparece como n\u00e3o respons\u00e1vel pelo \u00ab pecado do outro \u00bb! \u00e0s vezes ele passa a ser at\u00e9 acusador, como no caso descrito, esquecido do pr\u00f3prio pecado. Quantas vezes, de modo semelhante, <em>a mulher paga <\/em>pelo pr\u00f3prio pecado (pode acontecer que seja ela, em certos casos, a culpada pelo pecado do homem como \u00ab pecado do outro \u00bb), mas paga ela s\u00f3 e paga <em>sozinha! <\/em>Quantas vezes ela fica abandonada na sua maternidade, quando o homem, pai da crian\u00e7a, n\u00e3o quer aceitar a sua responsabilidade? E ao lado das numerosas \u00ab m\u00e3es solteiras \u00bb das nossas sociedades, \u00e9 preciso tomar em considera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m todas aquelas que, muitas vezes, sofrendo diversas press\u00f5es, inclusive da parte do homem culpado, \u00ab se livram \u00bb da crian\u00e7a antes do seu nascimento. \u00ab Livram-se \u00bb: mas a que pre\u00e7o? A opini\u00e3o p\u00fablica de hoje tenta, de v\u00e1rias maneiras, \u00ab anular \u00bb o mal deste pecado; normalmente, por\u00e9m, <em>a consci\u00eancia da mulher n\u00e3o consegue esquecer <\/em>que tirou a vida do pr\u00f3prio filho, porque n\u00e3o consegue apagar a disponibilidade a acolher a vida, inscrita no seu \u00ab ethos \u00bb desde o \u00ab princ\u00edpio \u00bb.<\/p>\n<p>\u00c9\u00a0significativo o comportamento de Jesus no fato descrito no Evangelho de Jo\u00e3o 8, 3-11. Talvez em poucos momentos como neste se manifesta o seu poder \u2014 o poder da verdade \u2014 a respeito das consci\u00eancias humanas. Jesus est\u00e1 tranquilo, recolhido, pensativo. A sua consci\u00eancia, aqui como no col\u00f3quio com os Fariseus (cf. <em>Mt <\/em>19, 3-9), n\u00e3o estar\u00e1 talvez em contato com o mist\u00e9rio do \u00ab princ\u00edpio \u00bb, quando o homem foi<strong> <\/strong>criado homem e mulher, e a mulher foi confiada ao homem com a sua diversidade feminina, e tamb\u00e9m com a sua potencial maternidade? Tamb\u00e9m o homem foi confiado pelo Criador \u00e0 mulher.<\/p>\n<p>Foram <em>reciprocamente confiados um ao outro como pessoas <\/em>feitas \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a do pr\u00f3prio Deus. Nesse ato de confian\u00e7a est\u00e1 a medida do amor, do amor esponsal: para tornar-se \u00ab um dom sincero \u00bb um para o outro, \u00e9 preciso que cada um dos dois se sinta respons\u00e1vel pelo dom. Esta medida destina-se aos dois \u2014 homem e mulher \u2014 desde o \u00ab princ\u00edpio \u00bb. Ap\u00f3s o pecado original, for\u00e7as opostas operam no homem e na mulher, por causa da tr\u00edplice concupisc\u00eancia, \u00ab fonte do pecado \u00bb. Essas for\u00e7as agem no interior do homem.<\/p>\n<p>Por isso Jesus dir\u00e1 no Serm\u00e3o da montanha: \u00ab <em>todo aquele <\/em>que <em>olhar para uma mulher com mau desejo, j\u00e1 com ela cometeu adult\u00e9rio no seu cora\u00e7\u00e3o \u00bb (Mt <\/em>5, 28). Estas palavras, dirigidas diretamente ao homem, mostram a verdade fundamental da sua responsabilidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher: pela sua dignidade, pela sua maternidade, pela sua voca\u00e7\u00e3o. Mas, indiretamente, elas se referem tamb\u00e9m \u00e0 mulher.<\/p>\n<p>\u00a0Cristo fazia tudo o que estava ao seu alcance para que \u2014 no \u00e2mbito dos costumes e das rela\u00e7\u00f5es sociais daquele tempo \u2014 as mulheres reconhecessem no seu ensinamento e no seu agir a subjetividade e dignidade que lhes s\u00e3o pr\u00f3prias. Tendo por base a eterna \u00ab unidade dos dois \u00bb, <em>esta dignidade depende diretamente da pr\u00f3pria mulher, como sujeito respons\u00e1vel por si, <\/em>e <em>\u00e9 ao mesmo tempo \u00ab dada como responsabililade \u00bb ao homem. <\/em><\/p>\n<p>Coerentemente Cristo apela para a responsabilidade do homem. Na presente medita\u00e7\u00e3o sobre a dignidade e a voca\u00e7\u00e3o da mulher, hoje, \u00e9 preciso referir-se necessariamente \u00e0 imposta\u00e7\u00e3o que encontramos no Evangelho. A dignidade da mulher e a sua voca\u00e7\u00e3o \u2014 como, de resto, a do homem \u2014 encontram a sua vertente eterna no cora\u00e7\u00e3o de Deus e, nas condi\u00e7\u00f5es temporais da exist\u00eancia humana, est\u00e3o estreitamente conexas com a \u00ab unidade dos dois \u00bb.<\/p>\n<p>Por isso, cada homem deve olhar para dentro de si e ver se aquela que lhe \u00e9 confiada como irm\u00e3 na mesma humanidade, como esposa, n\u00e3o se tenha tornado objeto de adult\u00e9rio no seu cora\u00e7\u00e3o; se aquela que, sob diversos aspectos, \u00e9 o co-sujeito da sua exist\u00eancia no mundo, n\u00e3o se tenha tornado para ele \u00ab objeto<strong> <\/strong>\u00bb: objeto de prazer, de explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Trecho retirado da Carta A Dignidade da Mulher, escrito por Jo\u00e3o Paulo II, em 1987. Confira o texto na \u00edntegra, <a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/john_paul_ii\/apost_letters\/documents\/hf_jp-ii_apl_15081988_mulieris-dignitatem_po.html\" target=\"_blank\">aqui.<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jesus entra na situa\u00e7\u00e3o concreta e h\u00edst\u00f3rica da mulher, situa\u00e7\u00e3o sobre a qual pesa a heran\u00e7a do pecado. 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