{"id":227,"date":"2009-08-27T00:25:52","date_gmt":"2009-08-27T03:25:52","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/ancoradouro\/?p=227"},"modified":"2009-08-27T00:25:52","modified_gmt":"2009-08-27T03:25:52","slug":"um-conto-sobre-a-oracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/2009\/08\/27\/um-conto-sobre-a-oracao\/","title":{"rendered":"Um conto sobre a ora\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Ao longo o avistei. Era uma constru\u00e7\u00e3o fabulosa. A luz do sol banhava-o fazendo resplandecer em suas paredes altaneiras beleza e harmonia irradiantes. Seu formato recordava-me um diamante, suas linhas arquitet\u00f4nicas conc\u00eantricas avultavam uma caracter\u00edstica inusitada: o castelo n\u00e3o possu\u00eda teto.<\/p>\n<p>Desejei adentr\u00e1-lo. Embrenhei-me na mata fechada que me separava da esplendorosa constru\u00e7\u00e3o. Pondo-me em marcha multiplicaram-se as dificuldades, foi quando reminisc\u00eancias da inf\u00e2ncia visitaram minha mem\u00f3ria. Eram as boas lembran\u00e7as de quando voltava \u00e0s noites do col\u00e9gio para casa. Montado numa bicicleta serpenteava o caminho j\u00e1 conhecido e mesmo respirando ares de medo era maior o desejo de chegar a casa.<\/p>\n<p>A pouco de chegar \u00e0s portas do castelo observei que monstros horripilantes precipitavam-se uns sobre os outros. Eram figuras hibridas e zombeteiras. Por uma fra\u00e7\u00e3o de segundo transluziam um semblante de beleza, no entanto, ef\u00eameros, esmaeciam como v\u00e9u desvelando a realidade que se tinha por tr\u00e1s. Um dos monstros, repleto de olhos espalhado em seu corpo aproximou-se e com sua garra afiada perpassou meu antebra\u00e7o. Seus v\u00e1rios olhos piscavam numa disritmia alucin\u00f3gena.<\/p>\n<p>Em meio aos rosnados pavorosos escutei o seu nome: \u2018dispers\u00e3o\u2019, assim chamava uma criatura velhustra e envergada que trazia envencilhado \u00e0s costas um pesado embrulho. Murmurava litanias que evocava desespero e noutros momentos esbravejava imperativos imprecat\u00f3rios: \u2018voc\u00ea n\u00e3o vai conseguir\u2019, \u2018isto n\u00e3o \u00e9 para voc\u00ea\u2019, \u2018veja s\u00f3 quem \u00e9 voc\u00ea\u2019. A esta \u00faltima frase mostrou-me uma foto minha enlameada.<\/p>\n<p>De seus l\u00e1bios ressequidos e virulentos ouvi um riso entrecortado por lances de tossidos que alteavam \u00e0 medida que quedava minha cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Olhando o ch\u00e3o putrefato, cheio de visgo enxerguei algo inaudito, um filete de \u00e1gua mui l\u00edmpida e transparente oriundo dos rumos do castelo. Este fez-me erguer novamente o olhar. Fixei-me na porta encimada dum emadeiramento com a ep\u00edgrafe: \u201cNUNCA DEIXE A ORA\u00c7\u00c3O\u201d.<\/p>\n<p>O agouro dos monstros aumentou e com ele o furor. Joeiravam maus dizeres eivados de \u00f3dios e votos m\u00f3rbidos. No entanto, uma voz interior distinguia-se das demais e como um vetor orientava-me, encorajava-me e conduzia-me: \u201cn\u00e3o pares, Eu sou a porta, Eu te escolhi, prossiga.\u201d<\/p>\n<p>Ao chegar aos umbrais da porta os percebi respingado de sangue. Uma paz de efeito inenarr\u00e1vel envolveu-me e fez-me compreender que nunca devo deixar a vida de intimidade com o Senhor. A ora\u00e7\u00e3o precisa ser perseverante.<\/p>\n<p>No Senhor devo fixar-me e n\u00e3o nos meus pecados e fraquezas que tentam por primeiro esvair a reserva da ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao longo o avistei. Era uma constru\u00e7\u00e3o fabulosa. A luz do sol banhava-o fazendo resplandecer em suas paredes altaneiras beleza e harmonia irradiantes. Seu formato&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":141,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[57],"tags":[],"class_list":["post-227","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-conto"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/227","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/users\/141"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=227"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/227\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=227"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=227"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=227"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}