{"id":23468,"date":"2017-05-19T09:44:01","date_gmt":"2017-05-19T12:44:01","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/ancoradouro\/?p=23468"},"modified":"2017-05-19T09:44:01","modified_gmt":"2017-05-19T12:44:01","slug":"padre-antonio-vieira-leitura-atual-em-tempos-de-injustica-e-de-lava-jato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/2017\/05\/19\/padre-antonio-vieira-leitura-atual-em-tempos-de-injustica-e-de-lava-jato\/","title":{"rendered":"Padre Ant\u00f4nio Vieira: leitura atual em tempos de Lava Jato"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-23449\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-content\/uploads\/sites\/64\/2017\/05\/Vinancio-aruiqvo-pessoal-texto-blog-descri\u00e7\u00e3o-624x115.png\" alt=\"\" width=\"624\" height=\"115\" \/><\/p>\n<p>Padre Ant\u00f4nio Vieira nasceu em Lisboa em 1608 e morreu na Bahia em 1697. Viveu praticamente todo o s\u00e9culo XVII, sendo uma de suas principais figuras em termos de hist\u00f3ria e literatura. <strong>A beleza e a atualidade de seus serm\u00f5es fazem de Vieira um autor de leitura prazerosamente indispens\u00e1vel.<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_23469\" style=\"width: 634px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-23469\" class=\"size-large wp-image-23469\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-content\/uploads\/sites\/64\/2017\/05\/padre_antonio_vieira_20170301_pc-624x351.jpg\" alt=\"\" width=\"624\" height=\"351\" \/><p id=\"caption-attachment-23469\" class=\"wp-caption-text\">Padre Ant\u00f4nio Vieira. pintura de C\u00e2ndido Portinari.<\/p><\/div>\n<p>Sou cat\u00f3lico e graduado em Letras Portugu\u00eas, mas n\u00e3o foi dentro da Igreja nem da Universidade que conheci os serm\u00f5es do Padre Ant\u00f4nio Vieira. <strong>Comecei a ler o jesu\u00edta por conta pr\u00f3pria<\/strong>, quando tive que ministrar minhas primeiras aulas sobre literatura barroca.<\/p>\n<p>Imaginem s\u00f3 a situa\u00e7\u00e3o: serm\u00f5es do s\u00e9culo XVII em v\u00e1rios volumes, livros extensos e surrados, apar\u00eancia de coisa ultrapassada, cita\u00e7\u00f5es em latim&#8230; Lembro-me que fui \u00e0 biblioteca sonolento, na certeza de que n\u00e3o terminaria o primeiro serm\u00e3o sem antes cochilar duas ou tr\u00eas vezes.<strong> Mas logo no come\u00e7o a leitura foi impactante.<\/strong> As primeiras p\u00e1ginas me tiraram o sono e o engano inicial. Logo me senti entusiasmado com a profundidade da reflex\u00e3o e com o estilo fascinante e provocante da escrita do Padre Ant\u00f4nio Vieira.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Serm\u00e3o do Bom Ladr\u00e3o de Padre Ant\u00f4nio Vieira\" width=\"668\" height=\"501\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/lOT2ypm7NkA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>No comecinho do Serm\u00e3o no S\u00e1bado Quarto da Quaresma, Vieira comenta o evangelho da mulher ad\u00faltera: \u201cEsta mulher nesta mesma hora foi achada em adult\u00e9rio (Jo 8, 4). Esta mulher? E o c\u00famplice? Foram dois os pecadores, e \u00e9 uma s\u00f3 a culpada? Sempre a justi\u00e7a \u00e9 zelosa contra os que podem menos.\u201d <strong>Observemos as interroga\u00e7\u00f5es, t\u00e3o pr\u00f3prias da literatura barroca<\/strong>, que interpelam o leitor, chamando sua aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Notemos tamb\u00e9m o aforismo, a m\u00e1xima, o ensinamento que resume uma verdade: sempre a justi\u00e7a \u00e9 zelosa contra os que podem menos. Assim <strong>suas palavras se apresentam como exemplares,<\/strong> cit\u00e1veis, poss\u00edveis de serem reinscritas em diferentes textos, o que favorece e incentiva sua circula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m essas frases, em virtude de sua forma generalizante, proporcionam ao texto grande impessoalidade, <strong>como se n\u00e3o houvesse uma pessoa como autor particular concreto<\/strong>, mas apenas a voz do Sagrado exprimindo uma verdade imut\u00e1vel. Conv\u00e9m assinalar ainda que essas palavras do Padre Ant\u00f4nio Vieira nos servem como den\u00fancia do v\u00edcio machista de sempre querer colocar a culpa na mulher, v\u00edcio esse que, infelizmente, persiste nos dias de hoje. Vieira \u00e9 atual\u00edssimo!<\/p>\n<p><strong>Tamb\u00e9m \u00e9 imposs\u00edvel, em tempos de Lava Jato,<\/strong> n\u00e3o perceber a absoluta atualidade do Padre Ant\u00f4nio Vieira ao ler o Serm\u00e3o do Bom Ladr\u00e3o, em que o jesu\u00edta fala dos ladr\u00f5es \u201cde maior calibre e de mais alta esfera\u201d \u2013 gente do governo que rouba por todos os modos, em todas as pessoas e em todos os tempos, sempre na voz ativa, enquanto o povo sofre o roubo, passivamente.<\/p>\n<blockquote><p>No Serm\u00e3o da Quinta Quarta-Feira da Quaresma, Vieira ensina: \u201cA cegueira que cega cerrando os olhos, n\u00e3o \u00e9 a maior cegueira; a que cega deixando os olhos abertos, essa \u00e9 a mais cega de todos.\u201d O cego de olhos abertos. \u00c9 o paradoxo, a associa\u00e7\u00e3o de ideias contradit\u00f3rias, outro recurso de linguagem frequente nos serm\u00f5es de Vieira.<\/p><\/blockquote>\n<p>Voc\u00ea pode ou n\u00e3o concordar com o que diz o Padre Ant\u00f4nio Vieira, ineg\u00e1vel, por\u00e9m, \u00e9 a beleza e a atualidade dos seus serm\u00f5es. Encerro da melhor forma, citando mais uma vez Vieira, agora com um trecho do Serm\u00e3o da Quarta-Feira de Cinza:<\/p>\n<h6 style=\"text-align: left\">\u201cDistinguimo-nos os vivos dos mortos, assim como se distingue o p\u00f3 do p\u00f3. Os vivos s\u00e3o p\u00f3 levantado, os mortos s\u00e3o p\u00f3 ca\u00eddo; os vivos s\u00e3o o p\u00f3 que anda, os mortos s\u00e3o o p\u00f3 que jaz. [&#8230;] N\u00e3o aquieta o p\u00f3, nem pode estar quedo; anda, corre, voa; entra por essa rua, sai por aquela; j\u00e1 vai adiante, j\u00e1 torna atr\u00e1s; tudo enche, tudo cobre, tudo envolve, tudo perturba, tudo toma, tudo cega, tudo penetra; em tudo e por tudo se mete, sem aquietar nem sossegar um momento, enquanto o vento dura. Acalmou o vento, cai o p\u00f3, e onde o vento parou, ali fica; ou dentro de casa, ou na rua, ou em cima de um telhado, ou no mar, ou no rio, ou no monte, ou na campanha. N\u00e3o \u00e9 assim? Assim \u00e9. E que p\u00f3, e que vento \u00e9 este? O p\u00f3 somos n\u00f3s. O vento \u00e9 a nossa vida. Deu o vento, levantou-se o p\u00f3; parou o vento, caiu. Deu o vento, eis o p\u00f3 levantado; estes s\u00e3o os vivos. Parou o vento, eis o p\u00f3 ca\u00eddo; estes s\u00e3o os mortos. Os vivos p\u00f3, os mortos p\u00f3; os vivos p\u00f3 levantado, os mortos p\u00f3 ca\u00eddo; os vivos p\u00f3 com vento, e por isso v\u00e3os; os mortos p\u00f3 sem vento, e por isso sem vaidade. Esta \u00e9 a distin\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o h\u00e1 outra.\u201d<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Ant\u00f4nio Vieira nasceu em Lisboa em 1608 e morreu na Bahia em 1697. 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