{"id":3495,"date":"2020-08-07T17:02:59","date_gmt":"2020-08-07T20:02:59","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/ancoradouro\/?p=3495"},"modified":"2020-08-07T17:02:59","modified_gmt":"2020-08-07T20:02:59","slug":"o-fantastico-e-o-aborto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/2020\/08\/07\/o-fantastico-e-o-aborto\/","title":{"rendered":"O Fant\u00e1stico e o aborto"},"content":{"rendered":"<p>Raramente indico artigos de outros autores, em especial, se eles forem longo, salvo exce\u00e7\u00f5es, como o que segue abaixo de autoria de Reinaldo Azevedo, sobre o Fant\u00e1stico e o aborto.<\/p>\n<p><strong>O Fant\u00e1stico e o aborto: assim n\u00e3o, companheiros! Ou: n\u00e3o se compensa pen\u00faria \u00e9tica de uma tese com n\u00fameros fabulosos<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/strong><br \/>\nO\u00a0Fant\u00e1stico levou ontem (Domingo,1 de\u00a0agosto de\u00a02010)\u00a0ao ar uma longa reportagem que fez a defesa sub-rept\u00edcia da legaliza\u00e7\u00e3o do aborto, embora n\u00e3o se tenha tocado nessa express\u00e3o em nenhum momento. Escolheu-se o chamado m\u00e9todo do terrorismo did\u00e1tico: convencer pelo horror. C\u00e2meras escondidas flagraram cl\u00ednicas clandestinas e carniceiros variados para evidenciar que, proibido embora \u2014 exceto em caso de estupro e risco de morte da m\u00e3e \u2014, o aborto \u00e9 feito \u00e0 larga. O corol\u00e1rio restou subjacente: se \u00e9 assim,\u00a0 a proibi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma hipocrisia e se legalize de vez a pr\u00e1tica para preservar a sa\u00fade das mulheres. A tese \u00e9 ruim. Que outras ilegalidades deveriam ser tornadas legais j\u00e1 que a gente n\u00e3o pode mesmo coibi-las totalmente? Levada a tese ao limite, em vez de combater os criminosos, as sociedades deveriam legalizar o crime. Tudo seria da lei. Voltar\u00edamos ao estado da natureza. E deixo de barato que a defesa da \u201csa\u00fade da mulher\u201d ignore, no caso, a vida do feto.<br \/>\nUma tese ruim irrita, sim. Mas o mais constrangedor da reportagem, depois do m\u00e9todo did\u00e1tico-terrorista, \u00e9 a manipula\u00e7\u00e3o desajeitada de supostas estat\u00edsticas ou pesquisas, o que levou o site do Fant\u00e1stico a cravar em seu site, na manchete: \u201cUma em cada cinco mulheres j\u00e1 fizeram aborto no Brasil\u201d. De onde saiu tal formula\u00e7\u00e3o?<br \/>\nDe uma pesquisa realizada por um grupo da UnB. Com voz muito pausada, s\u00edlabas escandidas de indigna\u00e7\u00e3o c\u00edvico-militante, \u00f3culos que anunciam \u201csou uma pensadora\u201d, a antrop\u00f3loga D\u00e9bora Diniz explica o que segue (leiam com aten\u00e7\u00e3o):<\/p>\n<p>\u201cA pesquisa nacional de aborto, cobriu todo o Brasil urbano, que s\u00e3o as capitais, e as grandes cidades, ou seja, ficou de fora o Brasil rural, porque n\u00e3o pod\u00edamos incluir mulheres analfabetas. As pesquisadoras entraram na casa das mulheres, com uma urna secreta, as mulheres de 18 a 39 anos, elas recebiam uma c\u00e9dula que constava de cinco perguntas, e uma delas \u00e9, \u2018voc\u00ea j\u00e1 fez aborto?\u2019. O que n\u00f3s sabemos \u00e9 que uma mulher em cada cinco, aos 40 anos, fez aborto. Significam 5 milh\u00f5es e 300 mil mulheres em algum momento da vida, j\u00e1 fizeram aborto. Metade delas usou medicamento, n\u00f3s n\u00e3o sabemos que medicamento \u00e9 esse; a outra metade precisou ficar internada pra finalizar o aborto. O que isso significa? Um tremendo impacto na sa\u00fade p\u00fablica brasileira. Quem \u00e9 essa mulher que faz aborto? Ela \u00e9 a mulher t\u00edpica brasileira. N\u00e3o h\u00e1 nada de particular na mulher que faz aborto\u201d.<br \/>\n\u00c9 evidente que se trata de um discurso em favor da legaliza\u00e7\u00e3o do aborto. Ocorre que a fala da antrop\u00f3loga \u00e9 um queijo su\u00ed\u00e7o, que s\u00f3 convence os incautos:<\/p>\n<p>1 &#8211; Qual \u00e9 a cientificidade de sua amostragem?<br \/>\n2 &#8211; Qual \u00e9 o tamanho da amostra?:<br \/>\n3 &#8211; Quer dizer que \u201ctodo o Brasil urbano s\u00e3o as capitais e as grandes cidades\u201d? Quem disse? Segundo qual ci\u00eancia?<br \/>\n4 &#8211; Todas as mulheres do campo s\u00e3o analfabetas?<br \/>\n5 &#8211; Se a antrop\u00f3loga confessa que o Brasil rural ficou fora da \u201cpesquisa\u201d, ent\u00e3o \u00e9 mentira que uma em cada cinco mulheres j\u00e1 fez aborto. Como posso afirmar isso? Ora, \u00e9 ela quem afirma quando confessa que sua amostra n\u00e3o representa o Brasil.<br \/>\n6 &#8211; Se o mal enxergado pela intelectual da voz pausada \u00e9 o impacto na sa\u00fade p\u00fablica, seria menor tal impacto no caso da legaliza\u00e7\u00e3o? Um aborto legal dispensa a curetagem ou a suc\u00e7\u00e3o?<br \/>\n7 &#8211; O que a doutora D\u00e9bora entende por \u201cmulher t\u00edpica brasileira\u201d? Ainda que fosse verdadeiro o chute de que uma em cada cinco mulheres entre 18 e 39 anos j\u00e1 fez aborto, isso significaria, ent\u00e3o, 20% do total. Com a devida v\u00eania, doutora, a \u201cmulher t\u00edpica\u201d \u00e9 aquela dos 80% que n\u00e3o fizeram, certo? Por mais que a senhora tente transformar o aborto numa banalidade como \u201cme passa o a\u00e7\u00facar\u201d, ele continua, at\u00e9 na sua pesquisa, uma exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Defender a morte de um feto \u00e9 dif\u00edcil, reconhe\u00e7a-se. Por isso essa gente gosta tanto de estat\u00edsticas e n\u00fameros. Um dado fornecido por uma pesquisa do Instituto do Cora\u00e7\u00e3o, da USP, foi considerado \u201cespantoso\u201d pelo Fant\u00e1stico:<\/p>\n<p>\u201cEntre 1995 e 2007, a curetagem depois do procedimento de aborto foi a cirurgia mais realizada pelo SUS: 3,1 milh\u00f5es de registros\u201d.<br \/>\nQuerem ver como, \u00e0s vezes, falta ao editor ou puxar as orelhas dos rep\u00f3rteres ou usar calculadora que fa\u00e7a apenas as quatro opera\u00e7\u00f5es (j\u00e1 nem digo ler o conjunto da obra em busca de incongru\u00eancias)? 3,1 milh\u00f5es de curetagens em 13 anos d\u00e3o uma m\u00e9dia de 238.461 procedimentos por ano. Aten\u00e7\u00e3o! Perguntem a especialistas da \u00e1rea e eles lhes dir\u00e3o: 25% das gesta\u00e7\u00f5es resultam em abortos espont\u00e2neos. Nascem, por ano, no Brasil, mais ou menos 2,8 milh\u00f5es de crian\u00e7as.<br \/>\nVamos supor, meus caros, s\u00f3 para efeitos de pensamento, que n\u00e3o houvesse um s\u00f3 aborto provocado no Brasil: aqueles 2,8 milh\u00f5es seriam apenas 75% das gesta\u00e7\u00f5es \u2014 ao todo, elas somariam 3,73 milh\u00f5es. REITERO: VAMOS FAZER DE CONTA QUE N\u00c3O EXISTEM ABORTOS PROVOCADOS. Ora, s\u00f3 os abortos espont\u00e2neos chegariam, ent\u00e3o, a 930 mil por ano. Como INEXISTE NOTIFICA\u00c7\u00c3O NOS HOSPITAIS PARA DISTINGUIR CURETAGEM DECORRENTE DE ABORTO ESPONT\u00c2NEO DE CURETAGEM DECORRENTE DE ABORTO PROVOCADO, chega-se \u00e0 conclus\u00e3o de que os quase 240 mil procedimentos s\u00e3o um n\u00famero \u201cespantoso\u201d, sim, Fant\u00e1stico: ESPANTOSAMENTE BAIXO!<br \/>\nSe encontrarem furo l\u00f3gico a\u00ed, cartas para o blog!<\/p>\n<p>O n\u00famero significa ainda mais \u2014 e mais grave: o SUS n\u00e3o tem, ent\u00e3o, estrutura para atender nem mesmo os casos de abortos espont\u00e2neos. Imaginem o que poderia acontecer, ent\u00e3o, com um aumento da demanda em caso de legaliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAs pessoas defendam o que bem entenderem. Fa\u00e7o o mesmo. N\u00e3o gosto \u00e9 que tentem me iludir com estat\u00edsticas furadas, que n\u00e3o resistem a uma conta de dividir e a uma regra de tr\u00eas. O que me incomoda na defesa da legaliza\u00e7\u00e3o do aborto \u00e9 que se tenta compensar a pen\u00faria \u00e9tica da tese com n\u00fameros. E n\u00fameros, lamento, podem auxiliar na cria\u00e7\u00e3o de uma moral, mas n\u00e3o a substituem.<br \/>\nOra, tenham a coragem, ent\u00e3o, de defender o aborto como \u201cum direito\u201d e ponto final! Poder ser horr\u00edvel, mas \u00e9, ao menos, intelectualmente mais honesto. E sem essa de chamar militante de \u201cespecialista\u201d. Militante s\u00f3 \u00e9 especialista da pr\u00f3pria causa.<\/p>\n<p>Por Reinaldo Azevedo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Raramente indico artigos de outros autores, em especial, se eles forem longo, salvo exce\u00e7\u00f5es, como o que segue abaixo de autoria de Reinaldo Azevedo, sobre&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":141,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[29,30],"tags":[28],"class_list":["post-3495","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigo","category-em-defesa-da-vida","tag-aborto"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3495","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/users\/141"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3495"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3495\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3495"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3495"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3495"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}