{"id":427,"date":"2009-10-04T11:41:16","date_gmt":"2009-10-04T14:41:16","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/ancoradouro\/?p=427"},"modified":"2009-10-04T11:41:16","modified_gmt":"2009-10-04T14:41:16","slug":"religiao-e-ciencia-tem-como-base-a-fe-segundo-cientista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/2009\/10\/04\/religiao-e-ciencia-tem-como-base-a-fe-segundo-cientista\/","title":{"rendered":"Religi\u00e3o e Ci\u00eancia tem Como Base, a F\u00e9, Segundo Cientista"},"content":{"rendered":"<p>A rela\u00e7\u00e3o entre F\u00e9 e Raz\u00e3o no Magist\u00e9rio da Igreja Cat\u00f3lica n\u00e3o s\u00e3o antit\u00e9ticas, uma complementa a outra, para comparar, \u00e9 semelhante \u00e0 imagem de duas asas, como escreveu o Papa Jo\u00e3o Paulo II na Carta Enc\u00edclica <a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/\/john_paul_ii\/encyclicals\/documents\/hf_jp-ii_enc_15101998_fides-et-ratio_po.html\" target=\"_blank\">F\u00e9 e Raz\u00e3o<\/a>.<\/p>\n<p>\u00a0Contudo, entre os cientistas essa concep\u00e7\u00e3o n\u00e3o agrada, por isso insistem em afirmar a superioridade da Ci\u00eancia sobre a F\u00e9, tendo, esta \u00faltima, como uma realidade primitiva superada pelo homem evolu\u00eddo.<\/p>\n<p>No entanto, a ci\u00eancia n\u00e3o consegue dar uma resposta fechada quando as quest\u00f5es s\u00e3o a origem do universo e sua manuten\u00e7\u00e3o, por exemplo.<\/p>\n<p>Em 2007\u00a0o renomado f\u00edsico te\u00f3rico e cosm\u00f3logo ingl\u00eas, do Arizona State University Paul Davies, escreveu no jornal Americano The New York Time, artigo que mexeu no brio dos mais c\u00e9ticos, materialistas e naturalistas pesquisadores.<\/p>\n<p>Davies compara em seu elaborado artigo\u00a0que a base do m\u00e9todo cient\u00edfico \u00e9 a f\u00e9.<\/p>\n<p>Por estas e outras concep\u00e7\u00f5es que surgem na comunidade cient\u00edfica vemos que n\u00e3o est\u00e1 distante a necess\u00e1ria reconcilia\u00e7\u00e3o entre F\u00e9 e Raz\u00e3o, F\u00e9 e Ci\u00eancia.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0de Paul Davies:<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-429\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-content\/uploads\/2009\/10\/paul-davies1.bmp\" alt=\"paul davies\" width=\"169\" height=\"243\" \/>\u00a0A ci\u00eancia, como sempre escutamos falar, \u00e9 a mais confi\u00e1vel forma de conhecimento sobre o mundo porque se baseia em hip\u00f3teses pass\u00edveis de comprova\u00e7\u00e3o. A religi\u00e3o, por outro lado, baseia-se na f\u00e9. A figura de S\u00e3o Tom\u00e9 ilustra muito bem a diferen\u00e7a. Na ci\u00eancia, um ceticismo saud\u00e1vel \u00e9 requisito profissional; na religi\u00e3o, crer sem ter provas \u00e9 considerado virtude.<\/p>\n<p>\u00a0O problema dessa n\u00edtida separa\u00e7\u00e3o entre &#8220;dom\u00ednios do conhecimento que n\u00e3o se justap\u00f5em&#8221;, como Stephen Jay Gould descreveu a ci\u00eancia e a religi\u00e3o, \u00e9 que a ci\u00eancia possui o seu pr\u00f3prio sistema de cren\u00e7as baseado na f\u00e9. <strong>Toda a ci\u00eancia funciona a partir da suposi\u00e7\u00e3o de que a natureza \u00e9 organizada de uma maneira racional e intelig\u00edvel.<\/strong> Voc\u00ea jamais poderia ser um cientista se achasse que o universo \u00e9 uma confus\u00e3o de fragmentos sem sentido onde se acha de tudo um pouco, fra\u00e7\u00f5es justapostas ao acaso. Quando f\u00edsicos sondam um n\u00edvel mais profundo da estrutura subat\u00f4mica ou astr\u00f4nomos ampliam o alcance de seus instrumentos, eles esperam encontrar uma nova e coesa ordem matem\u00e1tica. E, at\u00e9 agora, essa f\u00e9 foi convincente.<\/p>\n<p>\u00a0A mais refinada express\u00e3o de inteligibilidade racional do cosmos se encontra nas leis da f\u00edsica, as regras fundamentais<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-430\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-content\/uploads\/2009\/10\/UNIVERSO.bmp\" alt=\"UNIVERSO\" width=\"303\" height=\"216\" \/> segundo as quais a natureza funciona. As leis da gravidade e do eletromagnetismo, as leis que regem o universo dentro do \u00e1tomo, as leis da mec\u00e2nica, todas s\u00e3o expressas por detalhadas rela\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas. Mas de onde v\u00eam essas leis? E por que s\u00e3o descritas desta forma?<\/p>\n<p>\u00a0No meu tempo de estudante, as leis da f\u00edsica eram consideradas como algo completamente intoc\u00e1vel. O trabalho do cientista, como nos diziam, era descobrir as leis e aplic\u00e1-las, n\u00e3o questionar sua origem. As leis eram tratadas como &#8220;pressupostos&#8221;, impressas no Universo como uma marca do criador no momento do nascimento c\u00f3smico, e imut\u00e1veis para todo o sempre. Portanto, <strong>para ser um cientista, era preciso ter f\u00e9 <\/strong>na id\u00e9ia de que o universo \u00e9 regido por leis matem\u00e1ticas, fidedignas, imut\u00e1veis, absolutas e universais, de origem n\u00e3o especificada. Era preciso acreditar que essas leis n\u00e3o falhariam que n\u00e3o acordar\u00edamos um belo dia e descobriremos o calor em fluxo do frio para o quente, ou a velocidade da luz mudando de hora em hora.<\/p>\n<p>\u00a0Ao longo dos anos, perguntei diversas vezes a meus colegas f\u00edsicos por que as leis da f\u00edsica s\u00e3o o que s\u00e3o. As respostas variavam de &#8220;essa n\u00e3o \u00e9 uma pergunta cient\u00edfica&#8221; at\u00e9 &#8220;ningu\u00e9m sabe&#8221;. A resposta favorita \u00e9: &#8220;n\u00e3o h\u00e1 motivo para elas serem o que s\u00e3o. Elas simplesmente s\u00e3o&#8221;. A id\u00e9ia de que as leis existem irracionalmente \u00e9 profundamente anti-racional. Afinal de contas, a pr\u00f3pria ess\u00eancia da explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de alguns fen\u00f4menos \u00e9 que o mundo \u00e9 organizado de maneira l\u00f3gica e existem motivos para as coisas serem como s\u00e3o. Se algu\u00e9m seguir as pistas desses motivos em todo o percurso at\u00e9 o fundamento da realidade, as leis da f\u00edsica, somente para descobrir que a raz\u00e3o naquele ponto nos abandonou isso seria zombar da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00a0Ser\u00e1 poss\u00edvel que a poderosa estrutura da ordem f\u00edsica que percebemos no mundo que nos diz respeito seja, em \u00faltima an\u00e1lise, alicer\u00e7ada em um absurdo irracional? Se sim, ent\u00e3o a natureza \u00e9 um embuste diabolicamente s\u00e1bio: absurdo e aus\u00eancia de sentido de alguma forma disfar\u00e7ando uma engenhosa ordem e racionalidade.<\/p>\n<p>\u00a0Embora os cientistas tenham durante muito tempo uma inclina\u00e7\u00e3o a jogar para baixo do tapete as d\u00favidas referentes \u00e0 origem das leis da f\u00edsica, vemos agora uma mudan\u00e7a consider\u00e1vel de postura. Isso se explica, em parte, pela crescente aceita\u00e7\u00e3o de que o surgimento da vida no Universo, e logo, a exist\u00eancia de observadores como n\u00f3s, depende sensivelmente da forma das leis. Se as leis da f\u00edsica fossem apenas um saco com um monte de regras velhas e esfarrapadas, \u00e9 quase certo que a vida n\u00e3o existiria.<\/p>\n<p>\u00a0Um segundo motivo pelo qual as leis da f\u00edsica agora come\u00e7am a entrar no escopo do questionamento cient\u00edfico \u00e9 a compreens\u00e3o de que aquilo h\u00e1 tanto tempo considerado como leis absolutas e universais poderia n\u00e3o ser sequer verdadeiramente fundamental, mas talvez algo mais parecido com regimentos locais. Elas poderiam variar de um lugar para outro em uma escala mega-c\u00f3smica. Uma vis\u00e3o de cima, panor\u00e2mica, poderia revelar uma enorme colcha de retalhos de Universos, cada um com seu pr\u00f3prio conjunto caracter\u00edstico de regimentos. Nesse &#8220;multiverso&#8221;, a vida surgiria apenas nos locais com leis prop\u00edcias \u00e0 vida, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 de se surpreender que nos encontremos em um universo de conto-de-fadas, ideal \u00e0 vida. Selecionamos isso por conta da nossa pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00a0<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-431\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2009\/10\/atomo4.jpg\" alt=\"atomo4\" width=\"300\" height=\"302\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-content\/uploads\/sites\/64\/2009\/10\/atomo4.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-content\/uploads\/sites\/64\/2009\/10\/atomo4-150x150.jpg 150w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-content\/uploads\/sites\/64\/2009\/10\/atomo4-120x121.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>A teoria do multiverso est\u00e1 se tornando cada vez mais popular, mas ela n\u00e3o explica exatamente as leis da f\u00edsica. Na verdade, esquiva-se da quest\u00e3o como um todo. Deve haver um mecanismo f\u00edsico para criar todos esses universos e conferi-los leis. Esse processo exigiria suas pr\u00f3prias leis ou meta-leis. De onde elas v\u00eam? O problema simplesmente foi transferido de um n\u00edvel superior de leis do universo para o das meta-leis do multiverso.<\/p>\n<p>\u00a0\u00c9 \u00f3bvio, portanto, que <strong>religi\u00e3o e ci\u00eancia fundamentam-se na f\u00e9<\/strong>, a saber, na cren\u00e7a da exist\u00eancia de algo externo ao Universo, como um Deus ou um conjunto de leis inexplicados, talvez at\u00e9 uma enorme forma\u00e7\u00e3o de Universos invis\u00edveis tamb\u00e9m. Por esse motivo, tanto a religi\u00e3o monote\u00edsta quanto a ci\u00eancia ortodoxa n\u00e3o s\u00e3o capazes de apresentar uma explica\u00e7\u00e3o completa da exist\u00eancia f\u00edsica.<\/p>\n<p>\u00a0Esse fracasso compartilhado n\u00e3o \u00e9 novidade, j\u00e1 que, antes de qualquer coisa, a pr\u00f3pria id\u00e9ia de lei da f\u00edsica \u00e9 teol\u00f3gica, fato que faz muitos cientistas torcer o nariz. Isaac Newton teve primeiramente a id\u00e9ia de leis absolutas, universais, perfeitas e imut\u00e1veis a partir da doutrina crist\u00e3 de que Deus criou o mundo e o organizou de forma racional. Os crist\u00e3os imaginam Deus como o sustent\u00e1culo da ordem natural de al\u00e9m do universo, enquanto os f\u00edsicos pensam em suas leis como ocupantes de um reino abstrato transcendente de rela\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas perfeitas.<\/p>\n<p>\u00a0E assim como os crist\u00e3os afirmam que a exist\u00eancia do mundo depende totalmente de Deus, embora o oposto n\u00e3o seja verdade, da mesma forma os f\u00edsicos cr\u00eaem em semelhante assimetria: o Universo \u00e9 regido por leis eternas (ou meta-leis), mas as leis s\u00e3o completamente resistentes e n\u00e3o afetadas pelo que acontece no Universo.<\/p>\n<p>\u00a0Para mim fica a impress\u00e3o de que n\u00e3o existe esperan\u00e7a para um dia explicarmos por que o universo f\u00edsico \u00e9 como \u00e9 enquanto estivermos presos a leis imut\u00e1veis ou meta-leis que existem irracionalmente ou s\u00e3o impostas pela provid\u00eancia divina. A alternativa \u00e9 considerar as leis da f\u00edsica e o Universo por elas regido como parte e componente de um sistema unit\u00e1rio, e serem incorporados juntos dentro de um esquema explanat\u00f3rio comum.<\/p>\n<p>\u00a0Em outras palavras, as leis devem ter uma explica\u00e7\u00e3o de dentro do Universo e n\u00e3o devem apelar a um agente externo. Os detalhes dessa explica\u00e7\u00e3o s\u00e3o assuntos para futuras pesquisas. Mas enquanto a ci\u00eancia n\u00e3o apresentar uma teoria das leis do Universo que seja pass\u00edvel de comprova\u00e7\u00e3o, sua alega\u00e7\u00e3o de que ela n\u00e3o se baseia em f\u00e9 permanece claramente falsa.<\/p>\n<p><strong>E-MAIS<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p>\u2022 Paul Davies \u00e9 diretor do Beyond, centro de pesquisa da Arizona State University, e autor do livro &#8220;Cosmic Jackpot: Why Our Universe Is Just Right for Life&#8221;.<\/p>\n<p>\u2022 (24 de Novembro de 2007 http:\/\/www.nytimes.com\/2007\/11\/24\/opinion\/24davies.html?_r=2&amp;hp&amp;oref=slogin&amp;oref=slogin )<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A rela\u00e7\u00e3o entre F\u00e9 e Raz\u00e3o no Magist\u00e9rio da Igreja Cat\u00f3lica n\u00e3o s\u00e3o antit\u00e9ticas, uma complementa a outra, para comparar, \u00e9 semelhante \u00e0 imagem de&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":141,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[298],"tags":[299,56,300,301],"class_list":["post-427","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ciencia","tag-ciencia","tag-cientista","tag-fe-e-razao","tag-paul-davies"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/427","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/users\/141"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=427"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/427\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=427"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=427"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=427"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}