{"id":68,"date":"2009-08-01T15:42:43","date_gmt":"2009-08-01T20:42:43","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/ancoradouro\/?p=68"},"modified":"2009-08-01T15:42:43","modified_gmt":"2009-08-01T20:42:43","slug":"a-industria-da-miseria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/2009\/08\/01\/a-industria-da-miseria\/","title":{"rendered":"A ind\u00fastria da mis\u00e9ria"},"content":{"rendered":"<p>A ind\u00fastria da mis\u00e9ria alimenta-se do infort\u00fanio, dos percal\u00e7os da exist\u00eancia humana. Uma rede de aproveitadores poderia ser localizada em diversos setores da sociedade que se nutrem destas realidades. Algumas podemos destacar.<\/p>\n<p>Como primeiro exemplo pode ser citado alguns programas de TV. Somente no Cear\u00e1, no m\u00ednimo, trinta horas semanais s\u00e3o dedicados a programas, exclusivamente, policiais. Editoriais que pregam o fim da viol\u00eancia e imagens chocantes constituem basicamente esse formato. Os \u00e2ncoras e rep\u00f3rteres desse estilo de programa\u00e7\u00e3o, na grande maioria das vezes, como vemos, ingressam na carreira pol\u00edtica. O caminho n\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil, basta um discurso arrumado, pois p\u00fablico tem, e em quantidade.<\/p>\n<p>A exibi\u00e7\u00e3o dos efeitos da viol\u00eancia n\u00e3o pode combat\u00ea-la eficazmente, se assim fosse, nesse caso, o Cear\u00e1 estaria livre dessa peste. Em pleno hor\u00e1rio de almo\u00e7o imagens de pessoas assassinadas s\u00e3o mostrados cada vez mais em close, outras em desespero, etc.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A programa\u00e7\u00e3o dominical aproveita-se de outras mis\u00e9rias para ganhar alguns pontinhos preciosos nos \u00edndices de audi\u00eancia. A moda agora \u00e9 o paternalismo produzido. Casas que s\u00e3o constru\u00eddas em poucos dias, pontos de trabalho reformados, pessoas que se submetem \u00e0s mais variadas provas para pagar suas d\u00edvidas ou que ficam \u00e0 espreita da roleta que lhes indicar\u00e1 se poder\u00e3o ou n\u00e3o fazer a cirurgia da qual se necessita. Quanto mais dram\u00e1tica a hist\u00f3ria melhor para o quadro que \u00e9 ricamente produzido.<\/p>\n<p>Pelo Nordeste j\u00e1 se ouviu falar da ind\u00fastria da seca, uma pol\u00edtica de manuten\u00e7\u00e3o desta mazela natural, mais as enchentes fez despontar mais um fornecedor de lucros nesse mercado. Foi manchete de muitos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o pessoas que se aproveitaram de donativos e roupas para fins de obten\u00e7\u00e3o de lucro. Claro, isso n\u00e3o acontece somente no Brasil.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A mis\u00e9ria n\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o querida por Deus. Ela \u00e9 fruto do ego\u00edsmo de cada um que ao somar transforma-se numa fatura \u00e0 primeira vista impag\u00e1vel. Em todos os casos citados existe um benef\u00edcio, mais este \u00e9 individual, atinge \u00a0poucas pessoas. Ent\u00e3o como n\u00e3o tem um alcance coletivo n\u00e3o constitui algo de todo bom.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Uma casa que \u00e9 dada a uma fam\u00edlia muito carente, por exemplo, num desses programas \u00e9 resultado positivo para aquela fam\u00edlia. Os idealizadores e produtores da atra\u00e7\u00e3o ganham pela audi\u00eancia e pelos comerciais e os patrocinadores do quadro lucram com a publicidade. E as outras milhares de pessoas que n\u00e3o tem casa ou vivem em condi\u00e7\u00f5es paup\u00e9rrimas em suas resid\u00eancias? O que ganham? No m\u00e1ximo o incentivo de tamb\u00e9m escrever uma carta\u00a0 e torcer para ser sorteado. Contudo sabemos que isso n\u00e3o resolve nada. Ilus\u00e3o n\u00e3o constr\u00f3i um pa\u00eds e nem motiva por muito tempo uma na\u00e7\u00e3o, ainda mais t\u00e3o grande como a nossa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ind\u00fastria da mis\u00e9ria alimenta-se do infort\u00fanio, dos percal\u00e7os da exist\u00eancia humana. 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