{"id":71,"date":"2009-08-02T15:09:30","date_gmt":"2009-08-02T20:09:30","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/ancoradouro\/?p=71"},"modified":"2009-08-02T15:09:30","modified_gmt":"2009-08-02T20:09:30","slug":"de-manaras-a-terra-dos-homens-felizes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/ancoradouro\/2009\/08\/02\/de-manaras-a-terra-dos-homens-felizes\/","title":{"rendered":"De Manar\u00e1s \u00e0 Terra dos homens felizes"},"content":{"rendered":"<p>Na terra das manar\u00e1s os reis proibiram os filhos de conhecer suas m\u00e3es. Logo ao nascerem os rec\u00e9m nascidos eram deportados \u00e0 cidade dos prantos, um vale entre as montanhas do L\u00edbano. L\u00e1 eram criados pelos ermos, homens que, de t\u00e3o marcados pela dor, pareciam desertos, e ao atingir cinco anos, os meninos seguiam para a vila dos combatentes e, as meninas, algumas eram vendidas para os mercadores de pedras, e outras, escravizadas na aldeia da pedra negra at\u00e9 crescerem e, serem dadas em casamento.<\/p>\n<p>Em Manar\u00e1s o clima era de constante treva. Um nevoeiro amea\u00e7ava em todo instante desaguar uma tempestade. Os semblantes sombrios eram vistos a qualquer hora do dia. Nessa terra, diziam os mais velhos, a esperan\u00e7a havia se posto por tr\u00e1s da grande montanha, um local extremamente alto e que, segredava a tradi\u00e7\u00e3o dos antigos, em seu sop\u00e9, pelo lado leste, moravam os homens felizes. Acreditavam eles que de l\u00e1 viria a luz que os tiraria das trevas quando se completasse o tempo.<\/p>\n<p>Aconteceu que T\u00e1cita uma das meninas criadas na aldeia da pedra negra, engravidara. Temerosa ante o que aconteceria a seu filho revelou ao esposo que pretendia contornar a montanha e encontrar a terra dos homens felizes ap\u00f3s os dois rios que delimitavam o territ\u00f3rio. Sabendo da persegui\u00e7\u00e3o que sofreria, ao in\u00edcio da noite, p\u00f4r-se logo em marcha. As candices, r\u00e9pteis alados, os espi\u00f5es da floresta, vagueavam de um lado a outro, ca\u00e7ando os que pretendessem fugir do territ\u00f3rio negro.<\/p>\n<p>T\u00e1cita embrenhou-se floresta adentro. Desde a juventude n\u00e3o se conformava com o absurdo que apregoava aquele tirano pr\u00edncipe. Recusava-se tomar a por\u00e7\u00e3o feita de ibogaina, um ung\u00fcento de ra\u00edzes que servia de entorpecente \u00e0s mulheres gr\u00e1vidas. O rem\u00e9dio as deixava qual zumbi.<\/p>\n<p>Esguiando-se para passar entre a rocha e a corrente da cachoeira que ca\u00eda forte, a mulher que confundia seus cabelos com a noite e envolvida de um sil\u00eancio sideral, aos poucos chegava ao limiar da terra que reinava a luz e da qual ouvira falar como sussurros de esperan\u00e7a quando presa nos c\u00e1rceres subterr\u00e2neos da aldeia.<\/p>\n<p>Ao ultrapassar o \u00faltimo obst\u00e1culo, o penhasco de melato, a mulher de olhos negros e gra\u00fados, vislumbrou sob o v\u00e9u da manh\u00e3 que despontava, um tapete de \u00e1guas l\u00edmpidas e puras \u00e0s quais adentrou afoitamente. A \u00e1gua cobria-lhe o tornozelo, subiu aos joelhos e muito r\u00e1pido chegou ao pesco\u00e7o e, quando menos esperava estava \u00e0 nado. As correntes d \u00e0gua a puxaram para a areia.<\/p>\n<p>Banhada pela c\u00e1lida luz que refletia nas gotas de \u00e1gua espalhadas em seu corpo, T\u00e1cita toca seu ventre com as duas m\u00e3os e ali trava um di\u00e1logo silencioso com seu beb\u00ea. Respira aliviada. A jovem lembra-se do terror de antes e ver-se na obriga\u00e7\u00e3o de um dia retornar e levar a luz \u00e0 terra das Manar\u00e1s, a terra que separou os filhos de suas m\u00e3es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na terra das manar\u00e1s os reis proibiram os filhos de conhecer suas m\u00e3es. 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