{"id":1333,"date":"2018-12-01T10:06:58","date_gmt":"2018-12-01T13:06:58","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/artesanatodamente\/?p=1333"},"modified":"2018-12-01T10:06:58","modified_gmt":"2018-12-01T13:06:58","slug":"a-poesia-e-transmutacao-do-sofrimento-em-beleza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/artesanatodamente\/2018\/12\/01\/a-poesia-e-transmutacao-do-sofrimento-em-beleza\/","title":{"rendered":"A poesia \u00e9 transmuta\u00e7\u00e3o do sofrimento em beleza"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1334\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/artesanatodamente\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/artesanatodamente\/wp-content\/uploads\/sites\/52\/2018\/12\/imagem.jpg\" alt=\"\" width=\"608\" height=\"616\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/artesanatodamente\/wp-content\/uploads\/sites\/52\/2018\/12\/imagem.jpg 608w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/artesanatodamente\/wp-content\/uploads\/sites\/52\/2018\/12\/imagem-300x304.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/artesanatodamente\/wp-content\/uploads\/sites\/52\/2018\/12\/imagem-120x122.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 608px) 100vw, 608px\" \/><\/p>\n<p>Li um pequeno texto de autoria do grande poeta alem\u00e3o <strong>Rainer Maria Rilke <\/strong>que me fez viajar pelo mundo da poesia e compreender um pouco melhor o porqu\u00ea de ela tocar t\u00e3o fundo o cora\u00e7\u00e3o das pessoas sens\u00edveis. Confesso que nunca li nada t\u00e3o bonito e verdadeiro para falar sobre a constru\u00e7\u00e3o de uma poesia. Acompanhe&#8230;<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>************<\/p>\n<p><em>Para escrever um \u00fanico verso, \u00e9 preciso ter visto muitas cidades, homens e coisas. \u00c9 preciso conhecer os animais, sentir como voam os p\u00e1ssaros e saber que movimento fazem as flores min\u00fasculas quando se abrem pela manh\u00e3.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00c9 preciso repensar em caminhos em regi\u00f5es desconhecidas, em encontros inesperados, em partidas que v\u00edamos aproximar-se desde h\u00e1 muito tempo, em dias de inf\u00e2ncia cujo mist\u00e9rio ainda est\u00e1 por esclarecer, nos pais que mago\u00e1mos quando nos proporcionavam uma alegria que n\u00e3o compreend\u00edamos (era uma alegria feita para outra pessoa), em doen\u00e7as infantis que come\u00e7avam, t\u00e3o singularmente, por tantas transforma\u00e7\u00f5es profundas e graves, em dias passados em quartos calmos e contidos, em manh\u00e3s junto ao mar, no pr\u00f3prio mar, em mares, em noites de viagem que estremeciam l\u00e1 no alto e voavam com todas as estrelas \u2013 e nem sequer \u00e9 suficiente saber pensar em tudo isto.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00c9 preciso ter recorda\u00e7\u00f5es de muitas noites, em que nenhuma se pareceu com qualquer outra, de gritos de mulheres a chorar pelos filhos, e de outras, brandas, insones, adormecidas deitadas a fechar-se. \u00c9 preciso ainda ter estado junto de moribundos, ter estado tamb\u00e9m \u00e0 cabeceira de mortos, no quarto, com a janela aberta e os ru\u00eddos que se ouviam entrecortadamente. E nem sequer chega ter recorda\u00e7\u00f5es. \u00c9 preciso saber esquec\u00ea-las quando s\u00e3o numerosas e ter a maior paci\u00eancia para esperar que regressem. Porque as recorda\u00e7\u00f5es ainda n\u00e3o s\u00e3o isso. S\u00f3 quando se tornam em n\u00f3s sangue, olhar, gesto, quando deixam de ter nome e de se distinguir de n\u00f3s, s\u00f3 ent\u00e3o pode acontecer que, num momento muito raro, no meio delas, se levante a primeira palavra de um verso.<\/em><\/p>\n<p><em>Rainer Maria Rilke <\/em><\/p>\n<p>************<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o escrevo a partir de versos e m\u00e9tricas, mas muito do que escrevo considero po\u00e9tico, porque toca profundamente o cora\u00e7\u00e3o dos leitores que se mostram abertos para acolher as mensagens transmitidas. Esses versos de Rilke exprimem a mudan\u00e7a de olhar proporcionada pela pr\u00f3pria vida e suas experi\u00eancias. E o mais interessante de tudo \u00e9 que ele destaca as experi\u00eancias de sofrimento como mulheres chorando pelos filhos ou estar junto de moribundos.<\/p>\n<p>Essa sensibilidade de extrair beleza a partir do sofrimento me faz lembrar um dos meus poetas favoritos: <strong>Rubem Alves<\/strong>. Ele sempre dizia: <strong><em>\u201cOstra feliz n\u00e3o faz p\u00e9rola\u201d.<\/em><\/strong> As ostras s\u00f3 fazem p\u00e9rolas quando um gr\u00e3o de areia entra na carne fr\u00e1gil delas e gera um <a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/artesanatodamente\/2015\/05\/08\/a-diferenca-entre-dor-e-sofrimento\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">sofrimento<\/a> agudo. As p\u00e9rolas s\u00e3o a forma de elas pararem de sofrer&#8230;<\/p>\n<p>Essa met\u00e1fora \u00e9 muito linda! Assim como o Rubem, muitas vezes s\u00e3o nos momentos tristes que escrevo os textos mais tocantes, s\u00e3o como essas p\u00e9rolas que ajudam a dissipar o sofrimento.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a principal mensagem que quero transmitir. <strong>A escrita po\u00e9tica \u00e9 transmuta\u00e7\u00e3o da dor e do sofrimento em beleza e consci\u00eancia<\/strong>. A linguagem po\u00e9tica \u00e9 o que me faz acreditar que nosso mundo pode ser um lugar melhor, que quanto mais p\u00e9rolas forem espalhadas, mais cora\u00e7\u00f5es que est\u00e3o congelados ou petrificados tamb\u00e9m transformar\u00e3o suas dores em outras p\u00e9rolas.<\/p>\n<p>Em resumo, a poesia \u00e9 uma rever\u00eancia \u00e0 vida, ao que de melhor ela pode nos proporcionar. Se n\u00e3o fosse a poesia, nosso mundo seria em preto e branco e jamais conseguir\u00edamos ver a beleza das cores e o esplendor de tudo aquilo que mora nas coisas mais simples.<\/p>\n<p>Para concluir, compartilho algumas palavras do m\u00edstico oriental <strong>Osho<\/strong> que traduzem o que sinto sobre <a href=\"https:\/\/paralemdoagora.wordpress.com\/2013\/05\/02\/ser-poetico\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ser po\u00e9tico<\/a>&#8230;<\/p>\n<p>*******<\/p>\n<p><em>Torne-se mais e mais po\u00e9tico. \u00c9 necess\u00e1rio ter coragem para ser po\u00e9tico; voc\u00ea precisa ser corajoso o bastante para ser chamado de tolo pelo mundo, mas somente ent\u00e3o poder\u00e1 ser po\u00e9tico. E para ser po\u00e9tico, n\u00e3o quero dizer que voc\u00ea precisa escrever poesia. Escrever poesia \u00e9 apenas uma parte pequena e n\u00e3o essencial de ser po\u00e9tico. Uma pessoa pode ser poeta e jamais escrever uma \u00fanica linha de poesia, e uma outra pode escrever milhares de poemas e ainda n\u00e3o ser um poeta. Ser poeta \u00e9 um estilo de vida. \u00c9 amor pela vida, \u00e9 rever\u00eancia pela vida, \u00e9 um relacionamento sincero com a vida\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>Osho <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Li um pequeno texto de autoria do grande poeta alem\u00e3o Rainer Maria Rilke que me fez viajar pelo mundo da poesia e compreender um pouco&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":106,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[12,33,35,39,42,44],"class_list":["post-1333","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arte","tag-amor","tag-mudanca","tag-osho","tag-poesias","tag-rubem-alves","tag-sentimentos"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/artesanatodamente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1333","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/artesanatodamente\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/artesanatodamente\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/artesanatodamente\/wp-json\/wp\/v2\/users\/106"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/artesanatodamente\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1333"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/artesanatodamente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1333\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1336,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/artesanatodamente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1333\/revisions\/1336"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/artesanatodamente\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1333"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/artesanatodamente\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1333"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/artesanatodamente\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1333"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}