Asas e Flaps

A vida nas alturas: comissárias narram situações inusitadas vividas a bordo

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Não se engane, comissárias de voo fazem mais do que arrumar a sua mala no bagageiro

Ser comissário de voo é tudo de bom, afinal, eles podem viajar para onde quiserem – e de graça! Você já deve ter ouvido alguém dizer isso ou pode até mesmo ter falado algo parecido. Por conta dessa imagem que se criou em torno da profissão, muitos jovens decidem investir na carreira. Mas só quem trabalha a bordo de um avião sabe que, a exemplo de qualquer outro trabalho, este também é cheio de desafios.

Para começar, os comissários têm que lidar com uma infinidade de pessoas todos os dias, dos mais diferentes perfis. Diante disso, não é de se estranhar que eles tenham muitas histórias para contar. O UOL Viagem conversou com profissionais do ramo e publica aqui algumas dessas aventuras. Os nomes dos entrevistados foram trocados para preservar a identidade deles.

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Aqui não é o banheiro?

“Estávamos voando em direção ao Recife quando um passageiro, já mais idoso, entrou de repente no galley do avião – local onde armazenamos as comidas e bebidas e onde também ficam os assentos dos comissários, que são retráteis. Ele repentinamente fechou a cortina que temos ali para nos dar certa privacidade, abaixou o assento e começou a urinar. Quando questionado sobre a atitude, ele disse que não havia encontrado o banheiro. Resultado: o assento teve de ser interditado e uma das comissárias precisou procurar outro lugar para sentar-se na hora do pouso.”
Thaís*, 21 anos, de Santo André. É comissária de voo há um ano.

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Santa ingenuidade!

“Estávamos em pleno verão brasileiro quando uma senhora, que tinha cerca de 80 anos, embarcou como prioridade no avião e eu a acomodei na primeira fileira. Era o primeiro voo dela, por isso, estava muito apreensiva. Como as portas do avião ficaram muito tempo abertas até embarcarmos todos os passageiros, quando fechamos e o ar condicionado foi acionado, o resfriamento demorou um pouco para acontecer. Quando o voo decolou, a senhora me chamou, preocupada, e perguntou se eu poderia ajudá-la. Eu rapidamente disse que sim e  então ela me pediu: ‘Será que você pode abrir a janela para entrar um pouco de ar? Eu não estou conseguindo’. Infelizmente não pude ajudá-la, mas nunca mais esqueci essa história.”
Monalisa*, 35 anos, mora no Rio de Janeiro. É comissária de voo há 15 anos.

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O amor estava no ar

“Era um voo com destino a Londrina e, entre os passageiros, havia uma dupla sertaneja famosa, além da banda e da equipe técnica. Um dos integrantes da dupla me chamava a todo momento para pedir algo. No final, pediu o meu telefone. Ele dizia que tinha encontrado a mulher da vida dele. Eu não dei confiança, claro, mas fiz questão de tratá-lo bem. No momento do desembarque, ele entregou um papel com o telefone dele. Acabei tendo folga no dia seguinte, na cidade onde haveria show da dupla. Então, liguei para ele e fui com uma amiga ao show. Acabamos assistindo à apresentação do camarote e, no final, nós dois ficamos juntos. Chegamos a namorar por um tempo. Hoje, mantemos a amizade e, toda vez que estou em Londrina, ligo para eles.”
Denise*, 27 anos, de Minas Gerais. É comissária de voo há dois anos.

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Ops, foi mal!

“Eu estava realizando o serviço de bordo e perguntei a uma senhora com fone de ouvido se ela aceitaria uma bebida. Ela balançou a cabeça. Então, questionei: ‘qual bebida, senhora?’. Ela voltou a balançar a cabeça e eu deduzi que ela não estava prestando atenção no que eu dizia. Naquele momento, comecei a ficar impaciente, porque era um voo de 45 minutos em que 118 passageiros precisavam ser atendidos. Então, eu a pedi para retirar o fone. Para a minha surpresa, ela começou a falar na linguagem de sinais, me explicando que era deficiente auditiva. Completamente desconcertada, eu sorri e ela sorriu de volta. Ela usava fone porque provavelmente conseguia distinguir algum som, mas não o que eu estava dizendo.”
Amanda*, 24 anos, mora em São José do Rio Preto. É comissária de voo há quatro anos.

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Medo de voar

“Estava num voo de São Paulo para Fortaleza quando um rapaz turco foi para o final do avião pedir um copo de água. Ele tinha horror a voar e havia esquecido seu calmante na mala despachada. Como eu era a única mulher na tripulação, ele só teve coragem de conversar comigo. Assim, os outros comissários saíram para realizar o serviço de bordo e eu fiquei cuidando dele. Mas como ele andava muito de um lado para o outro, começou a assustar os outros passageiros, que já estavam comentando.

Para piorar, ele começou a reclamar de palpitação e a dizer que estava passando mal. Eu achei que teria que declarar uma emergência ali mesmo. Por sorte, havia um médico a bordo, que falava inglês e que se ofereceu para ajudar. Mais sorte ainda porque era um cardiologista. Ele examinou o outro passageiro e concluiu que os sintomas eram resultado de puro nervosismo. Para ajudar, o médico sugeriu que o turista se sentasse ao lado dele, onde o turco permaneceu tranquilo por mais duas horas de voo.”
Ana*, 23 anos, mora no Rio de Janeiro. Foi comissária de voo durante três anos e meio.

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Era para ser engraçado?

“Era meu primeiro voo para a Rússia e eu estava empolgada para conhecer o país. Foi então que, alguns minutos após o avião decolar, eu estava preparando o serviço de bordo e um passageiro da poltrona 23K tocou a campainha e me chamou. Fui até ele e perguntei o que desejava. Ele era muito educado e atraente. Me pediu um copo de leite. Eu expliquei que, naquele serviço, não serviríamos leite, mas eu tentaria fazer o possível para conseguir atendê-lo. Fui até a primeira classe, enchi um copo de leite integral e voltei. Quando entreguei o pedido, ele me disse, com um sorriso sarcástico: ‘Desculpe, mas eu queria do seu peito’. Sem saber como reagir, eu respirei fundo e disse que não estava mais amamentando.”
Cibele*, 24 anos, mora em Dubai. É comissária de voo há quatro anos.

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De cortar o coração

“Estava num voo do Recife para São Paulo, quando notei uma senhora muito triste, com os olhos cheios de lágrimas. Preocupada, me sentei ao lado dela e perguntei se ela viajava sozinha. Em meio a uma crise de choro, ela me contou que estava voltando para casa após uma viagem com o marido. Para acalmá-la, eu fui buscar um copo de água. Quando voltei, ela continuou a me contar a sua história. Disse que aquela tinha sido a primeira viagem de avião deles, um presente dos filhos, por ocasião dos 25 anos de casamento dos pais. Só que no segundo dia do passeio o marido havia sofrido um mal súbito e morreu. O corpo dele estava sendo levado no porão do avião. Segurando as lágrimas para não chorar também, eu fiquei ao lado dela por um bom tempo, todo o tempo que foi possível.”

Camila*, 35 anos, mora em Santo André. É comissária de voo há 13 anos.

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Viagem em alta tensão

“Eu já estava na terceira viagem do dia, de São Paulo para Brasília. Quando me aproximei do avião, percebi que havia muitos carros de polícia ao redor. Cheguei a pensar que transportaríamos algum político. Mas, quando entrei na aeronave, policiais me revistaram e me explicaram o que estava acontecendo. Na realidade, iríamos levar um preso para depor, além da esposa dele. Ele ficaria algemado, na última fileira, entre dois policiais à paisana. Ela seguiria sem algemas, mas também com duas policiais à paisana, na parte da frente da aeronave.

Outros três policiais à paisana, armados, estariam sentados em diferentes partes do avião. Fomos orientados a reportar qualquer atitude estranha dos passageiros a bordo. O voo estava lotado e foi muito tenso para toda a tripulação. Na hora de oferecer a refeição, eu precisei cortar a carne dele antes de entregar, já que ele estava algemado. Por fim, tudo correu bem e os passageiros nem perceberam o que estava acontecendo. Só depois que todos desembarcam é que os policias saíram com o prisioneiro.”
Fernanda*, 34 anos, mora em Cotia. Foi comissária de voo por dois anos.

Fonte

Marina Oliveira e Thaís Macena
Do UOL, em São Paulo

 

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