{"id":385,"date":"2019-06-28T14:27:04","date_gmt":"2019-06-28T17:27:04","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/?p=385"},"modified":"2019-08-02T10:23:45","modified_gmt":"2019-08-02T13:23:45","slug":"o-casamento-cosmico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/2019\/06\/28\/o-casamento-cosmico\/","title":{"rendered":"Casamento c\u00f3smico"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-388\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-content\/uploads\/sites\/89\/2019\/06\/Cosmic-Marriage.jpg\" alt=\"\" width=\"809\" height=\"584\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-content\/uploads\/sites\/89\/2019\/06\/Cosmic-Marriage.jpg 809w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-content\/uploads\/sites\/89\/2019\/06\/Cosmic-Marriage-300x217.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-content\/uploads\/sites\/89\/2019\/06\/Cosmic-Marriage-768x554.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-content\/uploads\/sites\/89\/2019\/06\/Cosmic-Marriage-740x534.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-content\/uploads\/sites\/89\/2019\/06\/Cosmic-Marriage-120x87.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 809px) 100vw, 809px\" \/><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: right\"><strong><span class=\"s1\"><i>\u201cO que o Santo Graal simboliza \u00e9 a mais alta realiza\u00e7\u00e3o espiritual de uma vida humana [&#8230;] <\/i><\/span><\/strong><strong><span class=\"s1\"><i>Isso tem a ver com a supera\u00e7\u00e3o das mesmas tenta\u00e7\u00f5es que o Buda venceu: o apego a isso e a outros detalhes da vida que o tiraram do rumo\u201d <\/i>(Joseph Campbell em <i>Reflex\u00f5es Sobre a Arte de Viver<\/i>)<\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Os mestres da arte de viver frequentemente nos lembram que mesmo a mais alta realiza\u00e7\u00e3o espiritual na vida n\u00e3o pode se desprender da jornada em si. Algu\u00e9m pode ser atingido na estrada para Damasco, mas a ilumina\u00e7\u00e3o espiritual \u00e9 igualmente sobre o que acontece depois e para o resto de sua vida. O segredo da arte parece estar dentro da capacidade de refletir, uma forma de recorda\u00e7\u00e3o que exige que a pessoa olhe para tr\u00e1s e avance continuamente no tempo.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Mas qual \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o fundamental que leva \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o da vida? Para come\u00e7ar, a resposta a essa pergunta n\u00e3o pode ser algo t\u00e3o complicado e obscuro, que apenas alguns &#8220;especialistas m\u00edsticos&#8221; possam ter acesso a ela. Por outro lado, n\u00e3o pode ser algo t\u00e3o simples e b\u00e1sico, que n\u00e3o tenha o poder de desafiar todo o nosso ser, deixando de nos levar \u00e0 nossa maior aventura. Como a busca pelo Santo Graal, a quest\u00e3o do sentido da vida \u00e9 projetada para ser ao mesmo tempo: completamente mundana e familiar, bem como absolutamente transcendente e fascinante. Como quando nos apaixonamos pela primeira vez, ao longo da jornada para a realiza\u00e7\u00e3o, o mundo inteiro \u00e9 transfigurado, at\u00e9 seus m\u00ednimos detalhes, no esplendor do Um.<\/span><\/p>\n<p><strong>O casamento<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">O fato de o pr\u00f3prio casamento simbolizar tal ideia paradoxal \u2014 a coabita\u00e7\u00e3o humana mundana e a realiza\u00e7\u00e3o espiritual mais elevada \u2014 n\u00e3o \u00e9 uma surpresa total. Esse \u00e9, afinal, um conceito intercultural que mistura a divindade do amor com a profanidade da vida cotidiana. Em sua dimens\u00e3o arquet\u00edpica, portanto, at\u00e9 mesmo o casamento mais comum aponta para o milagre do sagrado \u2014 uma percep\u00e7\u00e3o do casamento do finito com o infinito, que det\u00e9m a chave dos mais baixos e mais altos mist\u00e9rios da vida humana. Um s\u00edmbolo de transcend\u00eancia e iman\u00eancia ao mesmo tempo, o casamento encapsula nosso supremo cumprimento espiritual e biol\u00f3gico sem contradi\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><strong>Casamento e morte<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Sendo ao mesmo tempo real e ideal, a profundidade de um casamento n\u00e3o requer ideologia religiosa para provar sua ess\u00eancia e prop\u00f3sito vitais. Juntando o profano e o sagrado, a sexualidade e o amor, o casamento leva o ego\u00edsmo \u00e0 extin\u00e7\u00e3o na fus\u00e3o com o todo maior. Por essa raz\u00e3o, o casamento tamb\u00e9m est\u00e1 intimamente ligado \u00e0 morte, aquela m\u00e3e de todas as cifras, que \u00e9 o pano de fundo primordial oculto de toda experi\u00eancia metaf\u00edsica.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Joseph Campbell tamb\u00e9m estava ciente da misteriosa conjun\u00e7\u00e3o do casamento e da morte, do ponto de vista mitol\u00f3gico. Ele viu como o seu conte\u00fado metaf\u00edsico \u00e9 levado atrav\u00e9s de<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>suas fun\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas, o impulso para propagar a esp\u00e9cie e a cria\u00e7\u00e3o de filhos:<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">\u201c<i>Matrim\u00f4nio e Matan\u00e7a est\u00e3o relacionados. O Matrim\u00f4nio \u00e9 o assassinato da sua divis\u00e3o. Voc\u00ea est\u00e1 se tornando uma parte de uma unidade maior. Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 mais apartado. No Egito, Osiris gera seu filho, o her\u00f3i Horus, quando j\u00e1 est\u00e1 morto. Quando voc\u00ea gera um filho, agora voc\u00ea \u00e9 secund\u00e1rio. O filho \u00e9 prim\u00e1rio, e voc\u00ea est\u00e1 l\u00e1 como uma presen\u00e7a adotiva; voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 mais o n\u00famero um. E isso \u00e9 a morte para a sua exist\u00eancia prim\u00e1ria, voc\u00ea v\u00ea? Ent\u00e3o essas duas coisas est\u00e3o fortemente ligadas; cerim\u00f4nias de morte e casamento t\u00eam muito em comum\u201d.<\/i><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-387\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-content\/uploads\/sites\/89\/2019\/06\/EB-00018-Radha-and-Krishna-Walters-Museum-CC-attrib-c.-1780-pl7_w861_fnt_tr_aj98ii-740x461.jpg\" alt=\"\" width=\"740\" height=\"461\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-content\/uploads\/sites\/89\/2019\/06\/EB-00018-Radha-and-Krishna-Walters-Museum-CC-attrib-c.-1780-pl7_w861_fnt_tr_aj98ii-740x461.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-content\/uploads\/sites\/89\/2019\/06\/EB-00018-Radha-and-Krishna-Walters-Museum-CC-attrib-c.-1780-pl7_w861_fnt_tr_aj98ii-300x187.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-content\/uploads\/sites\/89\/2019\/06\/EB-00018-Radha-and-Krishna-Walters-Museum-CC-attrib-c.-1780-pl7_w861_fnt_tr_aj98ii-768x479.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-content\/uploads\/sites\/89\/2019\/06\/EB-00018-Radha-and-Krishna-Walters-Museum-CC-attrib-c.-1780-pl7_w861_fnt_tr_aj98ii-120x75.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-content\/uploads\/sites\/89\/2019\/06\/EB-00018-Radha-and-Krishna-Walters-Museum-CC-attrib-c.-1780-pl7_w861_fnt_tr_aj98ii.jpg 1800w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">A l\u00f3gica autossacrificial do mito e do ritual a este respeito \u00e9 particularmente clara, mas Campbell eleva ainda mais a aposta: o casamento n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de especula\u00e7\u00e3o ociosa, mas um ato premeditado de matar o ego de algu\u00e9m que gera uma nova vida. Consequentemente, a morte sacrificial do ego alienado resulta na capacidade de promover o futuro da nossa esp\u00e9cie. Neste enigma de poderosos opostos, a realiza\u00e7\u00e3o final e o significado da vida podem ser compreendidos. Ao desenvolver a no\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o de morte (<i>todestrieb<\/i>), Freud viu nos processos da morte mais do que uma imagem: ele viu na morte um processo din\u00e2mico de autotranscend\u00eancia que \u00e9 interno \u00e0 pr\u00f3pria vida, n\u00e3o alguma intrus\u00e3o que vem de fora e que interrompe a vida, mas uma express\u00e3o do impulso interior da vida para a descend\u00eancia que retorna \u00e0 sua origem material:<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\"><i>\u201cSe tomarmos como verdade que n\u00e3o conhece exce\u00e7\u00e3o o fato de tudo o que vive morrer por raz\u00f5es internas, tornar-se mais uma vez inorg\u00e2nico, seremos ent\u00e3o compelidos a dizer que \u2018o objetivo de toda vida \u00e9 a morte\u2018, e, voltando o olhar para tr\u00e1s, que \u2018as coisas inanimadas existiram antes das vivas\u2019\u201d <\/i>(Freud em<i>\u00a0Al\u00e9m do Princ\u00edpio do Prazer<\/i>).<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Jung, por sua vez, contava com a resist\u00eancia cultural a esse problema, t\u00e3o pouco compreendido em geral e menos ainda pelos que mais se beneficiariam:<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">\u201c<i>Estamos t\u00e3o convencidos de que a morte \u00e9 simplesmente o fim de um processo, que comumente n\u00e3o nos ocorre conceber a morte como um objetivo e uma realiza\u00e7\u00e3o, \u00e0 medida que fazemos sem hesita\u00e7\u00e3o os objetivos e prop\u00f3sitos da vida juvenil em sua ascend\u00eancia\u201d<\/i>.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Morte como meta e realiza\u00e7\u00e3o da vida, como o significado final? Uma boa morte \u2014 como uma boa vida \u2014 depende da nossa capacidade de deixar ir. Embora possa ser mais dif\u00edcil vender o sentido da vida quando o seu prop\u00f3sito \u00e9 simplesmente deix\u00e1-la ir, esse \u00e9 um insight fundamental em nossa condi\u00e7\u00e3o mortal com o potencial de transformar nossa alma imortal. A prontid\u00e3o \u00e9 tudo.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">\u00a0[<strong>NORLAND TELLEZ<\/strong> \u00e9 uma artista e professor com mais de 20 anos de experi\u00eancia no setor de anima\u00e7\u00e3o. Ele se formou na CalArts em 1999 e passou a trabalhar como animador em 2D para a Walt Disney Feature Animation, assim como para a Warner Brothers. Tamb\u00e9m completou um mestrado e doutorado no estudo da mitologia no Pacifica Graduate Institute com uma disserta\u00e7\u00e3o sobre o Popol-Vuh, um cl\u00e1ssico da mitologia maia. Recebeu a Bolsa de Pesquisa Joseph Campbell em 2006. Fonte do texto: <span style=\"color: #0000ff\"><a style=\"color: #0000ff\" href=\"http:\/\/www.jcf.org\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.jcf.org<\/a><\/span>]\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO que o Santo Graal simboliza \u00e9 a mais alta realiza\u00e7\u00e3o espiritual de uma vida humana [&#8230;] Isso tem a ver com a supera\u00e7\u00e3o das&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":243,"featured_media":388,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[187],"tags":[111,139,107,11,23,140,141],"class_list":["post-385","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-arquetipo","tag-casamento","tag-freud","tag-joseph-campbell","tag-jung","tag-morte","tag-santo-graal"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/385","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/243"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=385"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/385\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":392,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/385\/revisions\/392"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/388"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=385"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=385"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/assimcaminhaahumanidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=385"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}