{"id":1037,"date":"2017-07-27T21:28:43","date_gmt":"2017-07-28T00:28:43","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/cinemaas8\/?p=1037"},"modified":"2017-07-27T21:28:43","modified_gmt":"2017-07-28T00:28:43","slug":"o-filme-da-minha-vida-filmar-uma-ausencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/2017\/07\/27\/o-filme-da-minha-vida-filmar-uma-ausencia\/","title":{"rendered":"&#8220;O Filme da Minha Vida&#8221;: Filmar uma aus\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Entre t\u00e9cnica e linguagem, o cinema consegue se abrir de diferentes modos para conseguir seu objetivo. Um diretor capaz pode filmar um sentimento, bem como um ator traduz um passado pesado de um personagem nas rugas sob seus olhos. Com uma ainda curta mas j\u00e1 importante filmografia, o ator\/diretor Selton Mello vem se expondo como um cineasta sentimental &#8211; no bom sentido. Em sua nova obra, &#8220;O Filme da Minha Vida&#8221;, o brasileiro aposta em traduzir em imagens a aus\u00eancia sentida por seu protagonista. O resultado \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o delicada e que leva Selton Mello a um novo patamar.<\/p>\n<div id=\"attachment_1038\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1038\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/07\/o-filme-da-minha-vida-cinema-\u00e0s-8-624x416.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"367\" class=\"size-large wp-image-1038\" \/><p id=\"caption-attachment-1038\" class=\"wp-caption-text\">Luna (Bruna Linzmeyer) e Tony (Johnny Massaro)<\/p><\/div>\n<p>&#8220;O Filme da Minha Vida&#8221; \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o do romance &#8220;Um Pai de Cinema&#8221;, do chileno Antonio Sk\u00e1rmeta, famoso pelo livro &#8220;O Carteiro de Pablo Neruda&#8221;, que rendeu a adapta\u00e7\u00e3o &#8220;O Carteiro e o Poeta&#8221; (1994), de Michael Radford, Massimo Troisi. Na trama, acompanhamos Tony Terranova (o \u00f3timo Johnny Massaro), professor de franc\u00eas em uma pequena cidade no sul do Brasil na d\u00e9cada de 1960. Sonhador e perdido na mem\u00f3ria do pai, que abandonou a fam\u00edlia dois anos antes, o protagonista mal nota a paix\u00e3o da amiga Luna (Bruna Linzmeyer). De certa forma, Tony nunca teve um guia para esse tipo de joguete depois do sumi\u00e7o do pai, figura bem presente na inf\u00e2ncia do rapaz.<\/p>\n<p>O fator mais interessante da dire\u00e7\u00e3o de Selton Mello \u00e9 como ele estabelece essa dicotomia entre o pai outrora presente, mas que abdicou do conv\u00edvio familiar abruptamente. De um lado, temos os flashbacks de Tony, com o pai, Nicolas (Vincent Cassel), como guia das pequenas conquistas do filho. De outro, temos uma atmosfera de sonho, de distra\u00e7\u00e3o no presente perdido do jovem professor de franc\u00eas. Para preencher esse v\u00e3o, Tony busca conforto em Paco (Selton Mello), o embrutecido melhor amigo de Nicolas. Paco \u00e9 uma nova figura paterna, um novo guia constru\u00eddo em v\u00e1rias camadas pelo ator (que tamb\u00e9m \u00e9 diretor\/roteirista). H\u00e1 ali uma rela\u00e7\u00e3o de segundo pai, de padrasto, exposta ainda pelo apagamento gradual de Sofia (Ondina Clais Castilho), m\u00e3e de Tony.<\/p>\n<div id=\"attachment_1039\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1039\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/07\/o-filme-da-minha-vida-cinema-\u00e0s-8-2-624x261.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"230\" class=\"size-large wp-image-1039\" \/><p id=\"caption-attachment-1039\" class=\"wp-caption-text\">Como ator, Selton Mello se imp\u00f5e at\u00e9 fisicamente em cena<\/p><\/div>\n<p>O desenvolvimento mais forte de &#8220;O Filme da Minha Vida&#8221;, no entanto, \u00e9 quando Tony deixa de agir como filho e come\u00e7a a ser guia. Existem as li\u00e7\u00f5es dadas pelo pai, entrecortadas pela aproxima\u00e7\u00e3o de Paco, mas o protagonista tem uma maneira pr\u00f3pria de guiar Augusto (Jo\u00e3o Prates), seu aluno e irm\u00e3o de Luna. Aos 14 anos, o garoto vive em plena efervesc\u00eancia sexual e busca em Tony um guia. Logo ele, um professor de franc\u00eas de 20 anos, virgem e que nunca tomou qualquer iniciativa para resolver os pr\u00f3prios conflitos. Puritanismos \u00e0 parte, Paco, Tony e Augusto encontram uma nova biblioteca de sentimentos em um bordel na fronteira sul do Brasil.<\/p>\n<p>A qualidade do elenco, principalmente de Selton Mello e Johnny Massaro, ganha ainda mais for\u00e7a pelo trabalho minucioso de composi\u00e7\u00e3o dos temas propostos. No centro da trama, por exemplo, h\u00e1 o cinema na cidade fronteiri\u00e7a. L\u00e1, Tony assiste o cl\u00e1ssico &#8220;Rio Vermelho&#8221;, faroeste de Howard Hawks e Arthur Rosson e que traz no cerne um conflito que antecipa o cl\u00edmax de &#8220;O Filme da Minha Vida&#8221;. Na arte, nada \u00e9 por acaso e a escolha de refer\u00eancias declaradas abertamente em uma obra sempre revelam diferentes tons para o roteiros.<\/p>\n<div id=\"attachment_1040\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1040\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/07\/o-filme-da-minha-vida-cinema-\u00e0s-8-3-624x351.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"309\" class=\"size-large wp-image-1040\" \/><p id=\"caption-attachment-1040\" class=\"wp-caption-text\">As inser\u00e7\u00f5es de fantasia de Tony d\u00e3o novos tons \u00e0s aus\u00eancias sentidas pelo personagem<\/p><\/div>\n<p>Filmado todo em um tom s\u00e9pia, que remete a algo antigo, &#8220;O Filme da Minha Vida&#8221; tem na dire\u00e7\u00e3o de fotografia uma de suas for\u00e7as. O veterano Walter Carvalho consegue imbuir sentimento po\u00e9tico \u00e0 mem\u00f3ria de Tony com o uso rico de cores em flashbacks e no posicionamento preciso da c\u00e2mera. Note-se, por exemplo, a introdu\u00e7\u00e3o de Paco e de sua morada. H\u00e1 ali um conflito interno do personagem, sentido j\u00e1 na forma como a c\u00e2mera o aborda. Selton Mello ainda investe na autoralidade para evidenciar o deslumbramento de Tony, algo que, por mais que soe por vezes for\u00e7ado, \u00e9 efetivo na constru\u00e7\u00e3o desse arqu\u00e9tipo improv\u00e1vel de macho. \u00c9 como se, com delicadeza e um qu\u00ea de ingenuidade estilo &#8220;Am\u00e9lie Poulain&#8221;, Tony fosse um homem constru\u00eddo de forma igual por suas mem\u00f3rias e seu querer.<\/p>\n<p>Por mais que tenha uma roupagem bem convencional, &#8220;O Filme da Minha Vida&#8221; n\u00e3o se perde quando ousa. \u00c9 um longa que se debru\u00e7a na dif\u00edcil miss\u00e3o de filmar algo que n\u00e3o \u00e9 palp\u00e1vel: um sentimento, uma aus\u00eancia. Conseguir cobrir esse espa\u00e7o visualmente \u00e9 seu maior m\u00e9rito, mesmo que a obra perca alguma for\u00e7a no terceiro ato, quando o mist\u00e9rio do sumi\u00e7o do pai de Tony ganha novos contornos. Em seu terceiro longa como diretor, Selton Mello volta a c\u00e2mera para o invis\u00edvel e de l\u00e1 traz uma mala cheia de sentidos.<\/p>\n<p><strong>&#8220;O Filme da Minha Vida&#8221;, de Selton Mello, chega aos cinemas no dia 3 de agosto.<\/strong><\/p>\n<p>(andrebloc@opovo.com.br)<\/p>\n<p><strong>Cota\u00e7\u00e3o: nota 6\/8.<\/p>\n<p>Ficha t\u00e9cnica<br \/>\nO Filme da Minha Vida<\/strong> (BRA, 2017), de Selton Mello. Drama. 112 minutos. Com Johnny Massaro, Selton Mello e Vincent Cassel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre t\u00e9cnica e linguagem, o cinema consegue se abrir de diferentes modos para conseguir seu objetivo. Um diretor capaz pode filmar um sentimento, bem como&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":112,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,18],"tags":[96,507,538,653,756,758],"class_list":["post-1037","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-critica","category-nacional","tag-antonio-skarmeta","tag-nacional","tag-o-filme-da-minha-vida","tag-selton-mello","tag-um-pai-de-cinema","tag-un-padre-de-pelicula"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1037","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/users\/112"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1037"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1037\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1037"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1037"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1037"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}