{"id":1134,"date":"2017-09-19T23:11:56","date_gmt":"2017-09-20T02:11:56","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/cinemaas8\/?p=1134"},"modified":"2017-09-19T23:11:56","modified_gmt":"2017-09-20T02:11:56","slug":"mae-apoteose-de-horror-biblico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/2017\/09\/19\/mae-apoteose-de-horror-biblico\/","title":{"rendered":"&#8220;M\u00e3e!&#8221;: apoteose de horror b\u00edblico"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Chega \u00e0 choupana o camp\u00f4nio\/ Encontra a m\u00e3ezinha ajoelhada a rezar\/ Rasga-lhe o peito o dem\u00f4nio\/ Tombando a velhinha aos p\u00e9s do altar\/ Tira do peito sangrando\/ Da velha m\u00e3ezinha o pobre cora\u00e7\u00e3o\/ E volta a correr proclamando<br \/>\n\/ &#8220;Vit\u00f3ria, vit\u00f3ria, tem minha paix\u00e3o&#8221;&#8221; (Vicente Celestino, em &#8220;Cora\u00e7\u00e3o Materno&#8221;)<\/p>\n<p>Amor de m\u00e3e \u00e9 um dos clich\u00eas (verdades?) mais antigos da humanidade. No mundo crist\u00e3o ocidental, Maria, m\u00e3e do filho de Deus, \u00e9 talvez o s\u00edmbolo m\u00e1ximo de dedica\u00e7\u00e3o. No s\u00e9timo longa-metragem da carreira, Darren Aronofsky aposta no ethos religioso para traduzir um sentimento de forma surreal e abertamente imag\u00e9tica. Em &#8220;M\u00e3e!&#8221;, religiosidade, amor, adora\u00e7\u00e3o e vaidade se misturam em um denso horror surrealista.<\/p>\n<div id=\"attachment_1137\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1137\" class=\"size-large wp-image-1137\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/09\/mother-cinema-\u00e0s-8-1-624x416.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"367\" \/><p id=\"caption-attachment-1137\" class=\"wp-caption-text\">A casa vira uma extens\u00e3o da personalidade da personagem de Jennifer Lawrence<\/p><\/div>\n<p>Profundamente aleg\u00f3rico, o filme parte de um casal sem nome, formado pelo hospedeiro (Javier Bardem), um genial artista em bloqueio criativo, e sua esposa (Jennifer Lawrence), figura de dedica\u00e7\u00e3o total ao amado. Os dois vivem isolados na casa onde ele cresceu e que ela resolveu reformar nos m\u00ednimos detalhes. Logo de cara, &#8220;M\u00e3e!&#8221; escancara sua alegoria mais \u00f3bvia, pareando o cora\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a com o pulsar figurativo do casar\u00e3o. Quebrando o isolamento do casal, um velho m\u00e9dico (Ed Harris) aparece durante a noite e o &#8220;hospedeiro&#8221; o acolhe na pr\u00f3pria casa, sem ouvir a opini\u00e3o da esposa.<\/p>\n<p>\u00c9 esse silenciamento, mostrado de forma pouco discreta, que d\u00e1 forma ao filme. Mesmo dentro do jogo de met\u00e1foras, a protagonista pode ser vista como todas as mulheres em busca de voz na sociedade. Ningu\u00e9m a leva a s\u00e9rio, por mais que suas posi\u00e7\u00f5es sejam sempre l\u00f3gicas. Ela tem opini\u00f5es engolidas e as queixas s\u00e3o tratadas como histeria. O principal terror trabalhado no filme \u00e9 a realidade de um mundo onde 50% da popula\u00e7\u00e3o precisa lutar, gritar, para ser levada a s\u00e9rio. Aronofsky nunca foi um diretor sutil, o que pode ser bom ou ruim. Nesse caso, ele usa a caracter\u00edstica em favor de uma oportunidade de escancarar nosso machismo patriarcal de forma bem crua.<\/p>\n<div id=\"attachment_1135\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1135\" class=\"size-large wp-image-1135\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/09\/mother-cinema-\u00e0s-8-2-624x351.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"309\" \/><p id=\"caption-attachment-1135\" class=\"wp-caption-text\">S\u00f3 passando para lembrar que a Michelle Pfeiffer \u00e9 dona de toda cena em que aparece<\/p><\/div>\n<p>Aos poucos, &#8220;M\u00e3e!&#8221; se transforma em um ensaio sobre a puls\u00e3o destrutiva do trabalho. O poeta interpretado por Javier Bardem aceita mais e mais f\u00e3s dentro de casa, em uma esp\u00e9cie de s\u00e9quito em torno de si. A personagem de Jennifer Lawrence acaba engolida, tanto pela massa de gente quanto pelo sentimento de confus\u00e3o mental. Reiteradamente, o filme mostra o fasc\u00ednio do &#8220;hospedeiro&#8221; pelo status messi\u00e2nico que sua obra adquire. Prega\u00e7\u00f5es, \u00eddolos, signos e toda a sorte de jogos religiosos se acumulam, todas orbitando o homem. Os filhos do m\u00e9dico, interpretados por Domhnall e Brian Gleeson, por exemplo, s\u00e3o refer\u00eancias nada misteriosas aos tr\u00e1gicos irm\u00e3os b\u00edblicos Caim e Abel.<\/p>\n<p><strong>Nesse ponto, cuidado com spoilers.<\/strong> Na maior tradi\u00e7\u00e3o de apoteose de Aronofsky, a trama ganha um ritmo cada vez mais fren\u00e9tico no terceiro ato, quando o s\u00e9quito do Homem explode em adora\u00e7\u00e3o. Ali, ele escancara os ideais b\u00edblicos que guiaram o roteiro. Claro, a trama esconde alegorias, mas \u00e9 bem claro que o personagem todo-poderoso de Javier Bardem \u00e9 uma vis\u00e3o ca\u00f3tica do Deus crist\u00e3o. Egoc\u00eantrico, cruel, machista, centralizador, mesquinho (pelo menos segundo a B\u00edblia), capaz de sacrificar o pr\u00f3prio filho por vaidade e maior extens\u00e3o do seu poder. Jennifer Lawrence, como consequ\u00eancia, \u00e9 claramente Maria, tratada como subalterna desse ser superior. A casa, um imenso \u00fatero, aproxima as refer\u00eanias b\u00edblicas e simbolismo a uma aspecto visual, palp\u00e1vel. Um prato cheio para o estilo apote\u00f3tico de Aronofsky.<\/p>\n<div id=\"attachment_1136\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1136\" class=\"size-large wp-image-1136\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/09\/mother-cinema-\u00e0s-8-3-624x351.png\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"309\" \/><p id=\"caption-attachment-1136\" class=\"wp-caption-text\">Aos poucos, a trama vai ficando cada vez mais densa e dif\u00edcil<\/p><\/div>\n<p>De certa forma, &#8220;M\u00e3e!&#8221; \u00e9 tanto o mais rigoroso quanto o mais desleixado dos filmes do diretor de &#8220;R\u00e9quiem para um Sonho&#8221; (2000), &#8220;O Lutador&#8221; (2008) e &#8220;Cisne Negro&#8221; (2010). Os planos longos, a c\u00e2mera pr\u00f3xima, os cortes precisos contrastam com o caos absoluto da trama, em especial do terceiro ato. \u00c9 um caos planejado, o que n\u00e3o deixa de ser frustrante. Aronofsky nunca se perde e o excesso de controle n\u00e3o deixa o filme trabalhar mais no surrealismo do que no metaf\u00f3rico. Acaba que, assim, o filme empalidece frente a, por exemplo, o excepcional &#8220;O Ornit\u00f3logo&#8221; (2016), de Jo\u00e3o Pedro Rodrigues. Os dois longas trabalham temas religiosos com uma abordagem embebida de simbolismos, mas o filme portugu\u00eas \u00e9 mais generoso em seu caos particular. Aronofsky aposta excessivamente no impacto imag\u00e9tico, na for\u00e7a bruta da cor, quando podia se dobrar mais aos sentimentos, \u00e0 viagem interna.<\/p>\n<p>Por outro lado, &#8220;M\u00e3e!&#8221; \u00e9 um filme corajoso, se o considerarmos uma obra produzida na escala industrial hollywoodiana. \u00c9 um horror que questiona o car\u00e1ter messi\u00e2nico das religi\u00f5es ocidentais, que ataca temas atuais como viol\u00eancia de g\u00eanero, aliena\u00e7\u00e3o parental, cultos a personalidades, de uma forma que foge do envelopamento de g\u00eanero (e de temas). \u00c9 um impacto raro e bem-vindo para a supersatura\u00e7\u00e3o do cinema norte-americano. Pode n\u00e3o ser t\u00e3o poderoso quanto os estudo-espelho que Aronofsky fez na dualidade entre o bal\u00e9 de &#8220;Cisne Negro&#8221; e o drama de &#8220;O Lutador&#8221;, mas \u00e9 um novo, nov\u00edssimo, estudo tem\u00e1tico e de g\u00eanero de um diretor que se permite ousar.<\/p>\n<p>&lt;iframe width=&#8221;560&#8243; height=&#8221;315&#8243; src=&#8221;https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hJkZWhDcMi0&#8243; frameborder=&#8221;0&#8243; allowfullscreen&gt;&lt;\/iframe&gt;<\/p>\n<p>(andrebloc@opovo.com.br)<\/p>\n<p>O filme entra em cartaz na quinta-feira, 21 de setembro de 2017.<\/p>\n<p><strong>Cota\u00e7\u00e3o: nota 6\/8<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ficha t\u00e9cnica<br \/>\nM\u00e3e!<\/strong> (<em>Mother!<\/em>, EUA, 2017), de Darren Aronofsky. Horror\/Drama. 18 anos. 120 minutos. Com Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer e Kristen Wiig.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Chega \u00e0 choupana o camp\u00f4nio\/ Encontra a m\u00e3ezinha ajoelhada a rezar\/ Rasga-lhe o peito o dem\u00f4nio\/ Tombando a velhinha aos p\u00e9s do altar\/ Tira do&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":112,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[101,350,374,383,385,453,501],"class_list":["post-1134","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-critica","tag-aronofsky","tag-horror","tag-j-law","tag-javier-bardem","tag-jennifer-lawrence","tag-mae","tag-mother"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1134","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/users\/112"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1134"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1134\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1134"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1134"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1134"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}