{"id":1171,"date":"2017-10-15T22:39:33","date_gmt":"2017-10-16T01:39:33","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/cinemaas8\/?p=1171"},"modified":"2017-10-15T22:39:33","modified_gmt":"2017-10-16T01:39:33","slug":"detroit-um-soco-no-estomago","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/2017\/10\/15\/detroit-um-soco-no-estomago\/","title":{"rendered":"&#8220;Detroit em Rebeli\u00e3o&#8221; &#8211; Um soco no est\u00f4mago"},"content":{"rendered":"<p>Detroit, 1967. Ap\u00f3s anos de tratamentos e oportunidades desiguais, a popula\u00e7\u00e3o negra de uma das maiores cidades dos Estados Unidos vai \u00e0s ruas em protestos que descambam em destrui\u00e7\u00e3o, saques e viol\u00eancia. Dois anos ap\u00f3s a popula\u00e7\u00e3o afro-americana ganhar direito a voto, a desigualdade ainda galopava e os guetos cresciam em grandes cidades. \u201cDetroit em Rebeli\u00e3o\u201d, de Kathryn Bigelow, conta diferentes hist\u00f3rias que se juntam e uma das mais polarizadas ilustra\u00e7\u00f5es do racismo que o cinema j\u00e1 fez.<\/p>\n<div id=\"attachment_1172\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1172\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/10\/detroit-624x358.png\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"316\" class=\"size-large wp-image-1172\" \/><p id=\"caption-attachment-1172\" class=\"wp-caption-text\">Krauss (Will Poulter) e Greene (Anthony Mackie): a tens\u00e3o racial corta do come\u00e7o ao fim<\/p><\/div>\n<p>De um lado, temos Fred (Jacob Latimore) e Larry (Algee Smith), dois homens negros que buscam na m\u00fasica uma oportunidade de ascens\u00e3o social. Paralelamente, acompanhamos os policiais Krauss (Will Poulter), Flynn (Ben O&#8217;Toole) e Demens (Jack Reynor), que tentam, em v\u00e3o, conter uma popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o entendem. No meio de campo, o seguran\u00e7a Dismukes (John Boyega, em atua\u00e7\u00e3o espetacular) tenta negociar tanto com for\u00e7as policiais, quanto com jovens revoltados. <\/p>\n<p>Baseado em fatos reais, \u201cDetroit em Rebeli\u00e3o\u201d remonta, a partir de relatos, o que acontece ap\u00f3s o encontro de tr\u00eas policiais brancos armados e um grupo de sete homens negros desarmados. Antes disso, por\u00e9m, Bigelow demarca a hierarquia social conquistada por uma arma em uma cena tensa e ilustrativa em que um homem negro, Carl (Jason Mitchell) usa um rev\u00f3lver para interpretar uma abordagem policial para um p\u00fablico de dois desconhecidos e duas mo\u00e7as brancas. Por mais que soe banal ap\u00f3s as diversas sequ\u00eancias de viol\u00eancia e tortura, a cena estabelece a atmosfera de viol\u00eancia e tens\u00e3o social que dominavam Detroit \u2013 e que ainda \u00e9 realidade diariamente nos EUA e no Brasil.<\/p>\n<div id=\"attachment_1173\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1173\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/10\/detroit2-624x417.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"368\" class=\"size-large wp-image-1173\" \/><p id=\"caption-attachment-1173\" class=\"wp-caption-text\">Dismukes (John Boyega) sempre aparece distante, quase saindo de cena<\/p><\/div>\n<p>Mais uma vez em parceria com o roteirista Mark Boal, a diretora de \u201cGuerra ao Terror\u201d (2008) e \u201cA Hora Mais Escura\u201d (2012) assume um papel de mediadora, representada pelo personagem de John Boyega. Tratado como vendido, como escravo, pelos negros, e como servi\u00e7al pelos caucasianos, o personagem tenta mudar um cen\u00e1rio de barb\u00e1rie negociando. Ele tenta ser a voz da raz\u00e3o e, diante de um quadro irrevers\u00edvel, tenta impedir que os policiais matem os homens inocentes simplesmente por estar ali. O que, claro, \u00e9 bem pouco. O que mais d\u00f3i em \u201cDetroit em Rebeli\u00e3o\u201d \u00e9 ver personagens de car\u00e1ter sem se impor. Eles assistem, julgar, questionando, mas n\u00e3o levantam um bra\u00e7o para impedir. A atmosfera de medo \u00e9 tanta que o filme chega a flertar com a trama de horror. Mas \u00e9 obra de crime, de tens\u00e3o racial e dos diferentes pesos da criminalidade negra e policial branca.<\/p>\n<p>Nessa medida, fica claro que o filme de Bigelow n\u00e3o \u00e9 sobre o papel dos negros na tens\u00e3o racial. Eles s\u00e3o v\u00edtimas hist\u00f3ricas e tem uma retalia\u00e7\u00e3o devida, por mais que soe desproporcional. \u201cDetroit em Rebeli\u00e3o\u201d \u00e9 sobre o papel hist\u00f3rico do racismo na constru\u00e7\u00e3o da hierarquia social e sobre o quanto, mesmo hoje, n\u00f3s, brancos, pouco fazemos para mudar a situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que a diretora faz do filme uma experi\u00eancia t\u00e3o revoltante. Os sentimentos ali n\u00e3o s\u00e3o pac\u00edficos e o objetivo \u00e9 despertar uma raiva. Ou melhor, escancarar o quanto essa sensa\u00e7\u00e3o pauta a rela\u00e7\u00e3o entre  brancos e negros em pa\u00edses que cresceram nos ombros de escravos, como Estados Unidos e Brasil.<\/p>\n<div id=\"attachment_1174\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1174\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/10\/detroit3-624x351.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"309\" class=\"size-large wp-image-1174\" \/><p id=\"caption-attachment-1174\" class=\"wp-caption-text\">Fred (Jacob Latimore) e Larry (Algee Smith)<\/p><\/div>\n<p>Em 2008, em \u201cGuerra ao Terror\u201d, Bigelow d\u00e1 o contexto internacional da era George W. Bush e sua cruzada no Oriente M\u00e9dio em busca de armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa (ou petr\u00f3leo, se formos ser mais honestos). J\u00e1 2012, com o elogi\u00e1vel e critic\u00e1vel \u201cA Hora Mais Escura\u201d, Barack Obama entra em cena e a parte \u00e9tica da tortura fica mais nebulosa. Em certa medida, \u201cDetroit em Rebeli\u00e3o\u201d \u00e9 uma extens\u00e3o e uma resposta ao filme anterior de Kathryn Bigelow\/Mark Boal. Aqui, a cr\u00edtica \u00e0 tortura \u00e9 clara e indissoci\u00e1vel da trama. Ao mesmo tempo, brancos racistas e movimentos anti-fascistas parece um contexto t\u00e3o de 1967 quanto dos Estados Unidos de Donald Trump. O fato de \u201cDetroit em Rebeli\u00e3o\u201d assumir o ponto de vista das v\u00edtimas podia ser critic\u00e1vel, mas ao disseminar o discurso, Bigelow faz seu filme mais brutal dessa bem norte-americana trilogia de dor e pesar.<\/p>\n<p>Outra dor que \u201cDetroit em Rebeli\u00e3o\u201d desperta \u00e9 a previsibilidade. Intimamente, n\u00f3s sabemos desde o come\u00e7o quem morre e quem vive, quem atira e quem \u00e9 alvejado. A gente sabe porque a gente j\u00e1 viu, a gente sempre v\u00ea, l\u00ea nos jornais. Podem ser tr\u00eas, quatro, oito jovens negros na Detroit de 1967. Podem ser uma centena de presidi\u00e1rios desarmados em um pres\u00eddios de S\u00e3o Paulo em 1992. Podem ser at\u00e9 jovens negros, sem antecedentes criminais, que calharam de estar nas ruas da Grande Messejana, em Fortaleza, numa noite de novembro de 2015. \u201cDetroit em Rebeli\u00e3o\u201d reverbera n\u00e3o por ser baseado em uma hist\u00f3ria real, mas por retratar uma infinitude de outras tramas ver\u00eddicas.<\/p>\n<p><strong>(andrebloc@opovo.com.br)<\/p>\n<p>Cota\u00e7\u00e3o: nota 8\/8<\/strong><\/p>\n<p><em>O filme est\u00e1 em cartaz nos cinemas nacionais<\/em><\/p>\n<p><strong>Ficha T\u00e9cnica<br \/>\nDetroit em Rebeli\u00e3o<\/strong> (<em>Detroit<\/em>, EUA, 2017), de Kathryn Bigelow. Drama\/Crime. 18 anos. 143 minutos. Com John Boyega, Jacob Latimore e Will Poulter. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Detroit, 1967. Ap\u00f3s anos de tratamentos e oportunidades desiguais, a popula\u00e7\u00e3o negra de uma das maiores cidades dos Estados Unidos vai \u00e0s ruas em protestos&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":112,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7,8,14],"tags":[54,228,229,332,393,406,465],"class_list":["post-1171","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cinema-do-dragao","category-critica","category-melhores-de-2017","tag-a-hora-mais-escura","tag-detroit","tag-detroit-em-rebeliao","tag-guerra-ao-terror","tag-john-boyega","tag-kathryn-bigelow","tag-mark-boal"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1171","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/users\/112"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1171"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1171\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1171"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1171"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1171"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}