{"id":1194,"date":"2017-11-16T18:44:34","date_gmt":"2017-11-16T21:44:34","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/cinemaas8\/?p=1194"},"modified":"2017-11-16T18:44:34","modified_gmt":"2017-11-16T21:44:34","slug":"o-matador-crueldades-de-um-sertao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/2017\/11\/16\/o-matador-crueldades-de-um-sertao\/","title":{"rendered":"&#8220;O Matador&#8221;: as crueldades de um sert\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Olha, vou come\u00e7ar sendo sincero e elogiando a disposi\u00e7\u00e3o da Netflix em ter uma adapta\u00e7\u00e3o de um romance regionalista nordestino como seu primeiro filme brasileiro. E \u00e9 importante pontuar o ineditismo disso, mesmo diante dos muitos, muitos, muitos problemas de &#8220;O Matador&#8221;, de Marcelo Galv\u00e3o. Baseado na obra &#8220;O Cabeleira&#8221;, do cearense Franklin T\u00e1vora, o filme retrata duas gera\u00e7\u00f5es de assassinos no canga\u00e7o nordestino, naquela vers\u00e3o nacional dos faroestes norte-americanos. O problema \u00e9 que a obra j\u00e1 surge t\u00e3o datada quanto o conceito de romance regionalista nordestino, com uma produ\u00e7\u00e3o que pende para a condescend\u00eancia ao tentar pintar um sert\u00e3o recheado de crueldade.<\/p>\n<div id=\"attachment_1197\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1197\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/11\/o-matador-marcelo-galvao-2017-netflix-9-624x416.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"367\" class=\"size-large wp-image-1197\" \/><p id=\"caption-attachment-1197\" class=\"wp-caption-text\">Cabeleira, na casa de Blanchard<\/p><\/div>\n<p>Com uma narra\u00e7\u00e3o em off ininterrupta (assim como a trilha musical), &#8220;O Matador&#8221; abre com um pai de duas crian\u00e7as contando a hist\u00f3ria de dois matadores para dois sujeitos mal-encarados em um rinc\u00e3o do Nordeste. Algo que mira na Sherazade, do livro de contos &#8220;As Mil e uma Noites&#8221;, mas que acaba prejudicando todo o andamento do longa. O narrador, ent\u00e3o, apresenta o tem\u00edvel Janu\u00e1rio Sete Orelhas (Deto Montenegro), um mortal assassino, cego na ambi\u00e7\u00e3o de acumular turmalina para\u00edba, maior riqueza desse Nordeste entre o realismo e o mitol\u00f3gico. Em uma noite de fome e de chuva, o matador encontra um beb\u00ea, que decide salvar e criar. Dentro da l\u00f3gica do estere\u00f3tipo de sert\u00e3o bruto, o beb\u00ea nem um nome ganha.<\/p>\n<p>J\u00e1 na vida adulta, o tal beb\u00ea vai para a cidade em busca de Sete Orelhas. L\u00e1, com os talentos de matador polidos pela conviv\u00eancia com o pai adotivo, ele assume o lugar de Janu\u00e1rio como jagun\u00e7o do franc\u00eas Monsieur Blanchard (Etienne Chicot) e assume o nome de Cabeleira (Diogo Morgado). O impulso emocional do filme, portanto, \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre Cabeleira e Sete Orelhas. S\u00f3 em a profundidade \u00e9 substitu\u00edda por viol\u00eancia gr\u00e1fica. E pior, viol\u00eancia graficamente mal acabada. &#8220;O Matador&#8221; n\u00e3o trabalha, n\u00e3o pole nenhum de seus personagens. Tudo \u00e9 viol\u00eancia non-sense. S\u00e3o mulheres indefesas, homens violentos e um tratamento absolutamente superficial a tudo. Marcelo Galv\u00e3o n\u00e3o \u00e9 l\u00e1 um diretor conhecido pela regularidade. Mas esse faroeste do canga\u00e7o parece ter sido feito no autom\u00e1tico.<\/p>\n<div id=\"attachment_1195\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1195\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/11\/o-matador-624x416.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"367\" class=\"size-large wp-image-1195\" \/><p id=\"caption-attachment-1195\" class=\"wp-caption-text\">A inf\u00e2ncia de Cabeleira<\/p><\/div>\n<p>Os aspectos m\u00e1gicos surgem raros e n\u00e3o funcionam. O realismo passa longe. O design de produ\u00e7\u00e3o parece a todo momento esquecer que se trata de uma obra de \u00e9poca, que se passa no come\u00e7o do s\u00e9culo XX. \u00c9 irritante ver a tipografia que n\u00e3o combina, a linguagem que n\u00e3o era da \u00e9poca, o visual que s\u00f3 aposta no soturno. N\u00e3o h\u00e1 um respiro de humanidade, de cor, de beleza ou emo\u00e7\u00e3o nesse canga\u00e7o ca\u00f3tico. O m\u00e1ximo que h\u00e1 \u00e9 a afinidade do narrador-pai com os dois filhos. Mas os di\u00e1logos artificiais beiram o amadorismo, com crian\u00e7as que n\u00e3o falam como crian\u00e7as. \u00c9 um caos absoluto, que passa ainda pela dic\u00e7\u00e3o de Diogo Morgado como Cabeleira, atrapalhada ainda pelo som pouco demarcado no filme.<\/p>\n<p>Para uma obra que trabalha os rinc\u00f5es, com pessoas \u00e0 margem da sociedade, &#8220;O Matador&#8221; podia ainda ter um tratamento mais decente \u00e0s minorias. O problema do personagem de Igor Cotrim, por exemplo, n\u00e3o s\u00e3o os trejeitos efeminados. A quest\u00e3o \u00e9 que a afeta\u00e7\u00e3o parece querer remeter \u00e0 ascend\u00eancia franc\u00eas do filho de Monsieur Blanchard. E \u00e9 ainda mais inc\u00f4modo que o tal antagonista surja como estuprador de homens. \u00c9 uma imagem que n\u00e3o deveria existir. Al\u00e9m disso, o filme ainda faz uma indica\u00e7\u00e3o que d\u00e1 a entender que todos os asi\u00e1ticos s\u00e3o parecidos &#8211; algo que \u00e9 claramente racista, por mais que possa se justificar diegeticamente.<\/p>\n<div id=\"attachment_1196\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1196\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/11\/bfa2324c1488b74a58013c35b078b6f64a21e355-624x351.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"309\" class=\"size-large wp-image-1196\" \/><p id=\"caption-attachment-1196\" class=\"wp-caption-text\">Cabeleira e a terceira gera\u00e7\u00e3o de matadores<\/p><\/div>\n<p>&#8220;O Matador&#8221; incomoda. E por todas as raz\u00f5es erradas. A aus\u00eancia de empatia com os personagens n\u00e3o surge das rela\u00e7\u00f5es fragmentadas do contexto da \u00e9poca, mas da inaptid\u00e3o de estabelecer esses v\u00ednculos. \u00c9 uma obra datada, uma emula\u00e7\u00e3o de western falha e sem as caracter\u00edsticas pr\u00f3prias que tornam os faroestes de canga\u00e7o t\u00e3o ricos. S\u00f3 que \u00e9 bom que se olhe para o Nordeste e que se produza filmes originais no Brasil. O m\u00e9rito de &#8220;O Matador&#8221; \u00e9 apenas social, nunca f\u00edlmico.<\/p>\n<p>(andrebloc@opovo.com.br)<\/p>\n<p>Filme dispon\u00edvel na plataforma online Netflix.<br \/>\n<strong><br \/>\nCota\u00e7\u00e3o: nota 1\/8.<\/p>\n<p>Ficha t\u00e9cnica<br \/>\nO Matador<\/strong> (BRA, 2017), de Marcelo Galv\u00e3o. Faroeste. 99 minutos. 18 anos. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Olha, vou come\u00e7ar sendo sincero e elogiando a disposi\u00e7\u00e3o da Netflix em ter uma adapta\u00e7\u00e3o de um romance regionalista nordestino como seu primeiro filme brasileiro&#8230;.<\/p>\n","protected":false},"author":112,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,18,24],"tags":[277,301,462,515,531,543],"class_list":["post-1194","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-critica","category-nacional","category-streaming","tag-exclusivo","tag-filme-nacional","tag-marcelo-galvao","tag-netflix","tag-o-cabeleira","tag-o-matador"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1194","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/users\/112"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1194"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1194\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1194"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1194"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1194"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}