{"id":232,"date":"2016-10-17T20:00:04","date_gmt":"2016-10-17T23:00:04","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/cinemaas8\/?p=232"},"modified":"2016-10-17T20:00:04","modified_gmt":"2016-10-17T23:00:04","slug":"13a-emenda-melhor-obra-exclusiva-da-netflix-ate-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/2016\/10\/17\/13a-emenda-melhor-obra-exclusiva-da-netflix-ate-hoje\/","title":{"rendered":"&#8220;A 13\u00aa Emenda&#8221;: Melhor obra exclusiva da Netflix at\u00e9 hoje"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_235\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-235\" class=\"size-large wp-image-235\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2016\/10\/13-624x404.jpg\" alt=\"&quot;De escravo a criminoso em uma emenda&quot;\" width=\"550\" height=\"356\" \/><p id=\"caption-attachment-235\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;De escravo a criminoso em uma emenda&#8221;<\/p><\/div>\n<p>Liberdade. Justi\u00e7a. Igualdade. Em pouco mais de dez anos de carreira, a cineasta norte-americana Ava Duvernay j\u00e1 se estabeleceu como uma das mais importantes ativistas negras dentro da arte. Com qualidade impressionante, ela conseguiu encontrar sua voz ao expor o hist\u00f3rico racista e a d\u00edvida social dos Estados Unidos com sua popula\u00e7\u00e3o afrodescendente. Se &#8220;Selma: Uma Luta Pela Igualdade&#8221;, cinebiografia de Martin Luther King, j\u00e1 foi candidato forte de melhor filme norte-americano de 2014, o document\u00e1rio &#8220;A 13\u00aa Emenda&#8221; estabelece DuVernay como uma das mais importantes cineastas do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Disponibilizado na rede de streaming pago Netflix no \u00faltimo dia 7 de outubro, o filme tra\u00e7a um paralelo entre a escravid\u00e3o de negros e a situa\u00e7\u00e3o atual dos presos nos Estados Unidos. O foco \u00e9 uma reconstru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da 13\u00aa Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o dos EUA, que dita que &#8220;N\u00e3o haver\u00e1, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito a sua jurisdi\u00e7\u00e3o, nem escravid\u00e3o, nem trabalhos for\u00e7ados, <strong>salvo como puni\u00e7\u00e3o de um crime<\/strong> pelo qual o r\u00e9u tenha sido devidamente condenado&#8221;. Note-se o grifo. Salvo como puni\u00e7\u00e3o de um crime.<\/p>\n<p>A partir disso, DuVernay mostra, com um dom\u00ednio do fato invej\u00e1vel, a hist\u00f3ria de desigualdade racial dos EUA &#8212; bem semelhante \u00e0quela que tamb\u00e9m ignoramos no Brasil. Com um time de fontes lotado de ativistas do direito negro e de c\u00e1tedras de universidades, a diretora passeia por momentos hist\u00f3ricos desde o lan\u00e7amento da obra-prima racista &#8220;O Nascimento de uma Na\u00e7\u00e3o&#8221; (1915), de D. W. Griffith, at\u00e9 o fortalecimento do movimento &#8220;Black Lives Matter&#8221; (ou &#8220;Vidas negras s\u00e3o importantes&#8221;).<\/p>\n<p>S\u00f3 nesses dois extremos j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel ser ver o alcance da obra. Ao falar do filme de 1915, considerado por muitos o primeiro blockbuster do cinema, a diretora mostra o poder da m\u00eddia. A obra, adaptada de livro do criador do culto supremacista branco Ku Klux Klan (KKK), retrata o homem negro como, em suma, estupradores criminosos. Com a for\u00e7a imag\u00e9tica do arquivo e depoimentos bem montados, DuVernay mostra o quanto o filme chegou a influenciar at\u00e9 as atitudes da KKK, que viveu um renascimento ap\u00f3s 1915.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-236\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2016\/10\/13b-624x417.jpg\" alt=\"13b\" width=\"550\" height=\"368\" \/><\/p>\n<p>Acima de tudo, a diretora se preocupa em dar o contexto do racismo e mostrar como o poder p\u00fablico encontrou mecanismos para perseguir negros. A preocupa\u00e7\u00e3o dos republicanos Richard Nixon (presidente de 1969 a 1974) e Ronald Reagan (presidente dos EUA de 1981 a 1989) em defender a &#8220;Lei e a Ordem&#8221;, o discurso conservador de Bill Clinton (1993 &#8211; 2001) e todo o jogo corporativo para manter o trabalho for\u00e7ado como pol\u00edtica de mercado \u00e9 apresentada de forma cristalina. \u00c9, ao mesmo tempo, uma obra sobre racismo, educa\u00e7\u00e3o, controle da m\u00eddia e anticapitalismo. Ela vai do discurso ativista pelos direitos civis ao escancaramento do cerne corrupto da rela\u00e7\u00e3o entre empresas e pol\u00edticos. A parte sobre o Alec, o Conselho Legislativo Americano de Troca, mostra o descaramento da promiscuidade nas rela\u00e7\u00f5es de empres\u00e1rios e legisladores, o que funciona quase como um pren\u00fancio de propostas de privatiza\u00e7\u00e3o de alguns \u00f3rg\u00e3os estatais no Brasil.<\/p>\n<p>Paralelamente, &#8220;A 13\u00aa Emenda&#8221; lapida dramas humanos profundos. O rapaz, negro, preso injustamente e que passou tr\u00eas anos encarcerado por se negar a confessar algo que nunca fizera. A ativista que correu o risco de pris\u00e3o perp\u00e9tua ap\u00f3s ser perseguida por ser negra. O assassinato de Fred Hampton, o carism\u00e1tico l\u00edder do Partido dos Panteras Negras, morto aos 21 anos. As mortes recentes de cidad\u00e3os afroamericanos, v\u00edtimas de viol\u00eancia policial e que estimularam a cria\u00e7\u00e3o do &#8220;Black Lives Matter&#8221;. \u00c9 um mundo de injusti\u00e7as que criou discrep\u00e2ncias ilustradas a todo momento por DuVernay.<\/p>\n<p>O document\u00e1rio, em seus 100 minutos, \u00e9 quase uma enciclop\u00e9dia ilustrada. Ele d\u00e1 um contexto social complexo e, ao mesmo tempo, familiar para o p\u00fablico brasileiro. Afinal, a discrep\u00e2ncia l\u00e1 e c\u00e1 a popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 minoria da sociedade como um todo e maioria da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria (segundo o doc, os percentuais s\u00e3o de 9% e 40% nos EUA, respectivamente). &#8220;A 13\u00aa Emenda&#8221; mostra, ilustra, que n\u00e3o h\u00e1 coincid\u00eancia. Existe persegui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica, existem projetos para encarceramento em massa, existe um porqu\u00ea para a popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria norte-americana somar mais de 2,3 milh\u00f5es de pessoas (25% dos presos do mundo, segundo o filme).<\/p>\n<div id=\"attachment_237\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-237\" class=\"size-large wp-image-237\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2016\/10\/13c-624x351.gif\" alt=\"A ativista e professora universit\u00e1ria Angela Davis\" width=\"550\" height=\"309\" \/><p id=\"caption-attachment-237\" class=\"wp-caption-text\">A ativista e professora universit\u00e1ria Angela Davis<\/p><\/div>\n<p>Para, digamos, dar liga ao filme, outro acerto de DuVernay. A trilha musical, com nomes que v\u00e3o de Nina Simone a Public Enemy, entrecorta o drama e mostra a raiva que pulsa nos artistas negros. Dessa forma, o filme mostra um card\u00e1pio diversificado de talentos que ultrapassa gera\u00e7\u00f5es e estilos (jazz, rap, rock, blues, etc), mas sempre com uma tem\u00e1tica recorrente.<\/p>\n<p>Se a produ\u00e7\u00e3o exclusiva da Netflix \u00e9, at\u00e9 hoje, mais pop e acess\u00edvel, com &#8220;A 13\u00aa Emenda&#8221; o servi\u00e7o mostra que \u00e9 capaz de ousar e investir em quem tem algo a dizer. Ava DuVernay representa a comunidade, o movimento negro. Ela diz aquilo que voc\u00ea (ou eu), cheio de privil\u00e9gios brancos, nem sabia que precisava ouvir.<\/p>\n<p><strong>Cota\u00e7\u00e3o: nota 8\/8<\/strong><\/p>\n<p>andrebloc@opovo.com.br<\/p>\n<p><strong>Ficha t\u00e9cnica<\/strong><br \/>\n<strong>A 13\u00aa Emenda<\/strong> (EUA, 2016), de Ava DuVernay. Document\u00e1rio. 100 minutos. <strong>Dispon\u00edvel na Netflix.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Liberdade. Justi\u00e7a. Igualdade. 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