{"id":295,"date":"2016-11-01T20:00:54","date_gmt":"2016-11-01T23:00:54","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/cinemaas8\/?p=295"},"modified":"2016-11-01T20:00:54","modified_gmt":"2016-11-01T23:00:54","slug":"garota-no-trem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/2016\/11\/01\/garota-no-trem\/","title":{"rendered":"&#8220;A Garota no Trem&#8221;: Entre a leviandade e a cumplicidade"},"content":{"rendered":"<p><strong>AVISO:<\/strong> Esse texto cont\u00e9m revela\u00e7\u00f5es que podem ser consideradas <strong>spoiler<\/strong>.\u00a0Um texto\u00a0limpo\u00a0n\u00e3o levantaria toda a discuss\u00e3o que o filme prop\u00f5e.<\/p>\n<div id=\"attachment_296\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-296\" class=\"size-large wp-image-296\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2016\/10\/garota-1-624x354.jpg\" alt=\"Rachel (Emily Blunt): A Garota no Trem, sabe?\" width=\"550\" height=\"312\" \/><p id=\"caption-attachment-296\" class=\"wp-caption-text\">Rachel (Emily Blunt): A Garota no Trem, sabe?<\/p><\/div>\n<p>Para discutir o efeito de &#8220;A Garota no Trem&#8221;, suspense de Tate Taylor baseado no romance de Paula Hawkings, \u00e9 importante tra\u00e7ar os paralelos da nova obra com o sucesso &#8220;Garota Exemplar&#8221; (2014), de David Fincher, a partir do livro de Gillian Flynn. S\u00e3o sinopses relativamente parecidas, roteiros com semelhan\u00e7as ineg\u00e1veis, desenvolvimentos espelhados e, no fim, conclus\u00f5es quase opostas. No fim das contas, h\u00e1 um paradoxo entre qualidade est\u00e9tica e proposta social entre os dois.<\/p>\n<p>&#8220;Garota Exemplar&#8221; \u00e9 um thriller como poucos. Inteligente, com atua\u00e7\u00f5es brilhantes, instigante, ele consegue surpreender e manter a aten\u00e7\u00e3o mesmo com sua estrutura de tr\u00eas atos quebrados. O problema, no entanto, \u00e9 na constru\u00e7\u00e3o das personagens femininas. \u00c9 quase um clich\u00ea vitimista de homens brancos heterossexuais, que acusam o feminismo e o politicamente correto de destru\u00edrem o mundo. No filme, praticamente todas as mulheres apresentam sintomas de histeria e um senso de drama apurado. Controladoras, maquiav\u00e9licas, capazes de &#8220;destru\u00edrem a vida de um homem honesto&#8221;. Amy Dunne (Rosamund Pyke) chega a simular um estupro, algo que praticamente s\u00f3 existe numa mente machista.<\/p>\n<p>&#8220;A Garota no Trem&#8221;, por sua vez, \u00e9 um filme cheio de buracos. A trama acompanha tr\u00eas mulheres diferentes, mas com destinos ligados: Rachel (Emily Blunt), Megan (Haley Bennett) e Anna (Rebecca Ferguson). Quem guia o olhar \u00e9 Rachel, mulher divorciada, infeliz e com um quadro avan\u00e7ado de alcoolismo. Diariamente, ela passa diante da casa de Megan e inveja sua vida. Diariamente, ela tenta n\u00e3o olhar duas casas acima, onde Anna vive com Tom (Justin Theroux), ex-marido de Rachel. Um dia, Megan some e Rachel, que vive epis\u00f3dios recorrentes de amn\u00e9sia alcoolica, vira a principal suspeita.<\/p>\n<div id=\"attachment_297\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-297\" class=\"size-large wp-image-297\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2016\/10\/garota-2-624x288.jpg\" alt=\"Megan (Haley Bennett): A Garota na Sacada?\" width=\"550\" height=\"254\" \/><p id=\"caption-attachment-297\" class=\"wp-caption-text\">Megan (Haley Bennett): A Garota na Sacada?<\/p><\/div>\n<p>Esses buracos na mem\u00f3ria de Rachel s\u00e3o o recurso narrativo mais forte e mais falho do longa. Os peda\u00e7os de lembran\u00e7as surgem a todo tempo na tela. S\u00f3 que, para funcionar como suspense, &#8220;A Garota do Trem&#8221; precisa mentir. Descaradamente. Flashbacks falsos s\u00e3o jogados na tela, de forma que a verdade se esconda ainda mais a fundo. Dessa forma, o <em>plot twist<\/em> (reviravolta da trama) parece mais surpreendente. Acaba sendo um suspense desonesto, que usa de artif\u00edcios para manter o interesse.<\/p>\n<p>Se &#8220;Garota Exemplar&#8221; se divide entre tr\u00eas partes quase independentes, &#8220;A Garota no Trem&#8221; se ancora nos pontos de vista das tr\u00eas personagens principais. O filme, no entanto, sempre pende mais para Rachel, que at\u00e9 dispensavelmente narra as primeiras cenas. Esse olhar enviesado d\u00e1 menos espa\u00e7o para disputa de vers\u00f5es, algo que claramente \u00e9 proposto por &#8220;Garota Exemplar&#8221;. Dessa vez, o discurso \u00e9 quase todo de Rachel e somos levados a gostar de uma protagonista destro\u00e7ada. Quando funciona, a obra parece mais m\u00e9rito de Emily Blunt, que se mant\u00e9m toler\u00e1vel mesmo quando a personagem \u00e9 odi\u00e1vel, do que do diretor Tate Taylor.<\/p>\n<div id=\"attachment_298\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-298\" class=\"size-large wp-image-298\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2016\/10\/garota3-624x351.jpg\" alt=\"Anna (Rebecca Ferguson): A Garota com o Beb\u00ea?\" width=\"550\" height=\"309\" \/><p id=\"caption-attachment-298\" class=\"wp-caption-text\">Anna (Rebecca Ferguson): A Garota com o Beb\u00ea?<\/p><\/div>\n<p>A diferen\u00e7a, e a import\u00e2ncia da obra de Taylor, reside na conclus\u00e3o. Ainda que penda ao melodrama panflet\u00e1rio, o texto claramente prop\u00f5e uma no\u00e7\u00e3o de sororidade, de irmandade de mulheres contra a opress\u00e3o. A constru\u00e7\u00e3o de Megan j\u00e1 demonstra isso, quando homens e a diminuem ao discutir maternidade. Sua morte, com um grito contra o assassino fecha o caix\u00e3o da discuss\u00e3o. H\u00e1, ali, uma batalha entre os sexos. Entre mulheres oprimidas por um homem controlador.<\/p>\n<p>O \u00e1pice, apesar de meio corrido e sem toda a tens\u00e3o que poderia ter, \u00e9 a uni\u00e3o de duas pessoas que se odeiam e se descobrem v\u00edtimas da mesma pessoa. Mais que isso, duas mulheres que se aceitam como v\u00edtimas e decidem lutar. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia o close de Anna jogando uma p\u00e1 de cal sobre o marido. Ali \u00e9 ela aceitando que viveu (ou viveram) uma mentira.<\/p>\n<p>Tanto &#8220;Garota Exemplar&#8221; como &#8220;A Garota no Trem&#8221; s\u00e3o filmes sobre relacionamentos abusivos. Se n\u00e3o h\u00e1 viol\u00eancia f\u00edsica, h\u00e1 o controle e a forma como algu\u00e9m \u00e9 apagado pelo seu c\u00f4njuge. Num contexto onde a mulher \u00e9 quase sempre abusada pelo homem, como em nossa sociedade machista, o filme mais recente tem uma proposta social bem mais acertada. Como cinema, por\u00e9m, \u00e9 claramente o contr\u00e1rio. Quem sabe, um dia, Hollywood resolva deixar uma mulher dirigir um longa sobre relacionamentos abusivos, baseado em romance de uma escritor. Seria sonhar demais?<\/p>\n<p><strong>Cota\u00e7\u00e3o: nota 4\/8.<\/strong><\/p>\n<p>(andrebloc@opovo.com.br)<\/p>\n<p><strong>Ficha T\u00e9cnica<\/strong><br \/>\n<strong>A Garota no Trem<\/strong> (EUA, 2016), de Tate Taylor. Suspense. 112 minutos. Com Emily Blunt, Haley Bennett e Rebecca Ferguson.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>AVISO: Esse texto cont\u00e9m revela\u00e7\u00f5es que podem ser consideradas spoiler.\u00a0Um texto\u00a0limpo\u00a0n\u00e3o levantaria toda a discuss\u00e3o que o filme prop\u00f5e. Para discutir o efeito de &#8220;A&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":112,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[51,191,198],"class_list":["post-295","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-critica","tag-a-garota-no-trem","tag-com-spoilers","tag-critica"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/295","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/users\/112"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=295"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/295\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=295"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=295"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=295"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}