{"id":321,"date":"2016-11-08T08:00:38","date_gmt":"2016-11-08T11:00:38","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/cinemaas8\/?p=321"},"modified":"2016-11-08T08:00:38","modified_gmt":"2016-11-08T11:00:38","slug":"estranhos-no-paraiso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/2016\/11\/08\/estranhos-no-paraiso\/","title":{"rendered":"&#8220;Estranhos no Para\u00edso&#8221;: um pouco mais de nada"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_324\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-324\" class=\"size-large wp-image-324\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2016\/11\/estranhos1-624x430.jpg\" alt=\"Nada em uma praia aleat\u00f3ria na Fl\u00f3rida\" width=\"550\" height=\"379\" \/><p id=\"caption-attachment-324\" class=\"wp-caption-text\">Nada em uma praia aleat\u00f3ria na Fl\u00f3rida<\/p><\/div>\n<p>Antes de Noah Baumbach, havia Jim Jarmursh. E, para nossa sorte, ainda h\u00e1 Jim Jarmusch. Era 1984, mesmo ano em que os irm\u00e3os Coen surgiram com &#8220;Gosto de Sangue&#8221; (1984), vencendo o Festival de Sundance ainda no ber\u00e7o. Na \u00e9poca, o hoje afamado cinema independente contempor\u00e2neo norte-americano era mais conceito que pr\u00e1tica. Uma am\u00e1lgama das d\u00e9cadas de produ\u00e7\u00f5es de baixo or\u00e7amento com um parco interesse do grande p\u00fablico. Nada de investimento de grandes est\u00fadios, que s\u00f3 come\u00e7ou na d\u00e9cada de 1990. Foi nesse \u00e1rido terreno que Jim Jarmusch, um jovem norte-americano com ascend\u00eancia alem\u00e3, tcheca e irlandesa, resolveu transformar em longa o seu curta &#8220;Stranger Than Paradise&#8221; (1983): uma viagem meio existencialista, meio humor\u00edstica sobre vidas sem rumo.<\/p>\n<p>Hoje, &#8220;Estranhos no Para\u00edso&#8221; \u00e9 um marco e o Jim Jarmusch um \u00edcone. E, mais de 30 anos depois, o filme que arrebatou plateias segue vivo, novo, atual. Ali est\u00e1 mais do que a base de quem o cineasta viria a ser, mas uma verve que provava que ele j\u00e1 era &#8220;algo&#8221;. A trama segue Willie (John Lurie), um h\u00fangaro que vive uma vida pacata em Nova York, apesar de virtualmente n\u00e3o fazer nada da vida. Sua tranquilidade \u00e9 afetada pela prima Eva (Eszter Balint), que desembarca de Budapeste direto na quitinete de Willie.<\/p>\n<p>Equilibrado entre o humor negro e o drama estranho, o filme se divide em tr\u00eas segmentos. No primeiro, Willie, Eva e Eddie (Richard Edson) pouco fazem em Nova York. No segundo, um ano depois, os dois amigos visitam Eva em Cleveland. No terceiro, os tr\u00eas v\u00e3o para a Fl\u00f3rida. Juntos, eles passam por muito carteado, trambiques leves e constrangimentos m\u00fatuos.<\/p>\n<div id=\"attachment_322\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-322\" class=\"size-large wp-image-322\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2016\/11\/estranhos3-624x328.png\" alt=\"Nada em um bairro perdido de Nova York\" width=\"550\" height=\"289\" \/><p id=\"caption-attachment-322\" class=\"wp-caption-text\">Nada em um bairro perdido de Nova York<\/p><\/div>\n<p>Por mais despretensioso que soe (e seja), existe uma intelig\u00eancia em tudo pensado por Jarmusch. A no\u00e7\u00e3o geral \u00e9 de subverter completamente todas as expectativas. Existe um sadismo no fazer cinematogr\u00e1fico. Willie renega a pr\u00f3pria fam\u00edlia, se recusa a ser chamado por seu nome de batismo (Bela) e n\u00e3o oferece a m\u00ednima simpatia \u00e0 prima adolescente. Ela, por outro lado, nunca se mostra perdida, mas tamb\u00e9m n\u00e3o demonstra qualquer obstina\u00e7\u00e3o. Parece que existe apenas um latente sentimento de in\u00e9rcia movendo a exist\u00eancia dos personagens. Soa triste? Para eles, n\u00e3o. At\u00e9 essa expectativa \u00e9 quebrada.<\/p>\n<p>Em tr\u00eas diferentes cen\u00e1rios, os personagens exploram o vazio. Note-se, por exemplo, a visita de Willie e Eddie a Cleveland. Em meio a uma nevasca, eles visitam o principal ponto tur\u00edstico da cidade, o lago Erie. Repito: nevava. Muito. Logo, temos tr\u00eas personagens admirando uma imensid\u00e3o de branco. A cada ponto que visitam, eles revisitam o nada dentro de si.<\/p>\n<div id=\"attachment_325\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-325\" class=\"size-large wp-image-325\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2016\/11\/estranhos4-624x352.png\" alt=\"Nada no lago Erie, em Cleveland\" width=\"550\" height=\"310\" \/><p id=\"caption-attachment-325\" class=\"wp-caption-text\">Nada no lago Erie, em Cleveland<\/p><\/div>\n<p>A expectativa geral seria de que o trio superaria a estranheza e viveriam uma experi\u00eancia \u00fanica de aproxima\u00e7\u00e3o. Mas um dos raros momentos em que Willie busca agradar Eva \u00e9 quando tenta contar uma piada. Tenta, j\u00e1 que ele n\u00e3o lembra de muitos detalhes. Mas, claro, nada \u00e9 exatamente o que parece ser. Podia render um drama triste, mas rende uma com\u00e9dia recheada de apatia &#8211; mas nunca ap\u00e1tica.<\/p>\n<p>Para ser um filme sobre fracasso, os personagens precisavam de algum desejo. De certa forma, soa como o que Baumbach faz hoje com obras como &#8220;O Solteir\u00e3o&#8221; (2010) ou &#8220;Frances Ha&#8221; (2012) ou os irm\u00e3os Coen em &#8220;Um Homem S\u00e9rio&#8221; (2009) ou &#8220;Inside Llewyn Davies: Balada de um Homem Comum&#8221; (2013). \u00c9 uma leitura transversal de um sentimento geral de apatia. E mesmo diante de tanto t\u00e9dio, o filme consegue ser hil\u00e1rio. Todas as sequ\u00eancias com tia Lotte s\u00e3o impag\u00e1veis. Todos as resolu\u00e7\u00f5es surreais para os problemas de Eva s\u00e3o t\u00e3o erradas quanto c\u00f4micas. Toda a rela\u00e7\u00e3o de Eddie e Willie \u00e9 completamente err\u00f4nea e acertada.<\/p>\n<p>Com nada de roteiro e nada de desenvolvimento, Jarmusch praticamente come\u00e7ou a carreira impondo um padr\u00e3o de excel\u00eancia dif\u00edcil de seguir. O bom de poder (re)ver sua obra seminal 32 anos depois \u00e9 ter a certeza que aquela jovem carreira ia dar certo, e render filmes incr\u00edveis como &#8220;Homem Morto&#8221; (1995), &#8220;Flores Partidas&#8221; (2005) e &#8220;Amantes Eternos&#8221; (2013).<\/p>\n<p>(andrebloc@opovo.com.br)<\/p>\n<p>Cota\u00e7\u00e3o: nota 8\/8<\/p>\n<p><strong>Ficha t\u00e9cnica<br \/>\nEstranhos no Para\u00edso<\/strong> (EUA, 1984), de Jim Jarmusch. Com\u00e9dia\/Drama. 89 minutos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes de Noah Baumbach, havia Jim Jarmursh. E, para nossa sorte, ainda h\u00e1 Jim Jarmusch. 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