{"id":358,"date":"2016-11-24T08:00:52","date_gmt":"2016-11-24T11:00:52","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/cinemaas8\/?p=358"},"modified":"2016-11-24T08:00:52","modified_gmt":"2016-11-24T11:00:52","slug":"chegada-lingua-do-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/2016\/11\/24\/chegada-lingua-do-tempo\/","title":{"rendered":"&#8220;A Chegada&#8221;: a l\u00edngua do tempo"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_363\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-363\" class=\"size-large wp-image-363\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2016\/11\/arrival2-624x416.jpg\" alt=\"Amy Adams e o imenso artefato\/nave alien\u00edgena\" width=\"550\" height=\"367\" \/><p id=\"caption-attachment-363\" class=\"wp-caption-text\">Amy Adams e o imenso artefato\/nave alien\u00edgena<\/p><\/div>\n<p>Comunica\u00e7\u00e3o, humanidade, extraterrestres, armas nucleares. H\u00e1 d\u00e9cadas a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica explora esse espectro, fruto do nosso fasc\u00ednio com um universo em constante expans\u00e3o. Nesse \u00ednterim, j\u00e1 surgiram o cl\u00e1ssico &#8220;Contatos Imediatos de Terceiro Grau&#8221; (1977), de Steven Spielberg, com abordagem mais direta do tema, ou at\u00e9 a obra-prima &#8220;Contato&#8221; (1997), de Robert Zemeckis, que explora o conceito de multiverso. Com a robusta companhia de Spielberg e Zemeckis, Denis Villeneuve se prop\u00f5e a um risco bem recompensado em seu &#8220;A Chegada&#8221;.<\/p>\n<p>A obra abre com uma s\u00e9rie de mem\u00f3rias dolorosas da linguista Louise Banks com sua filha, Hannah. Assim, de supet\u00e3o, o encadeamento do passado tem pouca for\u00e7a, mas, com o desenrolar do roteiro, sua fun\u00e7\u00e3o clareia. Professora universit\u00e1ria, Banks \u00e9 convocada pelo ex\u00e9rcito norte-americano a tentar estabelecer um di\u00e1logo com seres extraterrestes que pousaram 12 mon\u00f3litos em diferentes (e estranhos) pontos do globo. Mas mais do que um filme sobre essa possibilidade de conversa, &#8220;A Chegada&#8221; \u00e9 sobre a constitui\u00e7\u00e3o de um pensamento.<\/p>\n<p>O principal m\u00e9rito do longa, a primeira fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de Villeneuve (salvo se voc\u00ea contar a se\u00e7\u00e3o final de &#8220;O Homem Duplicado&#8221;\/2013), \u00e9 a forma com que ele concatena as informa\u00e7\u00f5es. Se por vezes os di\u00e1logos entre cientistas soam artificiais, eles ao mesmo tempo ajudam a deixar a trama mais clara de forma org\u00e2nica. O filme \u00e9, de v\u00e1rias formas, sobre di\u00e1logo. A informa\u00e7\u00e3o mais importante para o \u00e1pice do filme, por exemplo, \u00e9 explicada no segundo ato, quando Louise e o f\u00edsico Ian Donnelly (Jeremy Renner) discutem a hip\u00f3tese de Sapir\u2013Whorf (ou a relatividade lingu\u00edstica), segundo a qual a estrutura de uma l\u00edngua falada influencia diretamente na cogni\u00e7\u00e3o e na vis\u00e3o de mundo de uma pessoa.<\/p>\n<div id=\"attachment_362\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-362\" class=\"size-large wp-image-362\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2016\/11\/arrival3-624x328.png\" alt=\"A l\u00edngua escrita dos hept\u00e1podes\" width=\"550\" height=\"289\" \/><p id=\"caption-attachment-362\" class=\"wp-caption-text\">A l\u00edngua escrita dos hept\u00e1podes<\/p><\/div>\n<p>A partir do momento em que esse paradigma-conceito \u00e9 institu\u00eddo, Villeneuve tem a chance de explorar a comunica\u00e7\u00e3o visual entre os humanos e os hept\u00e1podes (os tais ETs). De forma did\u00e1tica, o filme tamb\u00e9m explica conceitos mais simples como o de pal\u00edndromo (uma palavra que pode ser lida em ambos os sentidos) e jogo de soma nula (em que a vit\u00f3ria de um jogador n\u00e3o significa a derrota de outro). O didatismo, ali\u00e1s, apesar de eficiente \u00e9 meio \u00f3bvio, ao sublinhar parte das a\u00e7\u00f5es. Talvez seja sinal dos tempos, j\u00e1 que &#8220;Contato&#8221; \u00e9 mais complexo e menos confessional. Quando muito mastigado, soa que o filme est\u00e1 duvidando da intelectualidade do p\u00fablico. A atua\u00e7\u00e3o quase sem f\u00f4lego de Amy Adams, no entanto, ajuda a impor profundidade, mesmo quando o di\u00e1logo surge do nada.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m disso, no entanto, &#8220;A Chegada&#8221; \u00e9 uma lufada de ar em um g\u00eanero cada vez mais impregnado pela a\u00e7\u00e3o desenfreada. Se at\u00e9 a cl\u00e1ssica s\u00e9rie &#8220;Jornada nas Estrelas&#8221; ganhou roupagem de fantasia, seria f\u00e1cil Villeneuve apostar mais nos militares do que na linguista e no f\u00edsico. Mas se a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 novidade, o centro duro da trama \u00e9 o mais puro suspense, especialidade do canadense. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 classuda, imponente e ainda mostra um lado mais delicado de Villeneuve, ausente no brutal &#8220;Os Suspeitos&#8221; (2013). Ali\u00e1s, com esse filme, somados a &#8220;Inc\u00eandios&#8221; (2010) e o j\u00e1 citado &#8220;O Homem Duplicado&#8221;, o diretor se estabelece cada vez mais como um art\u00edfice do mist\u00e9rio bem constru\u00eddo. Vale tamb\u00e9m dividir o m\u00e9rito do roteiro de Eric Heisserer, baseado na hist\u00f3ria de Ted Chiang.<\/p>\n<div id=\"attachment_364\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-364\" class=\"size-large wp-image-364\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2016\/11\/arrival-624x351.jpg\" alt=\"&quot;A Chegada&quot; conta ainda com uma bela fotografia\" width=\"550\" height=\"309\" \/><p id=\"caption-attachment-364\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;A Chegada&#8221; conta ainda com uma bela fotografia<\/p><\/div>\n<p>Por fim, &#8220;A Chegada&#8221; \u00e9 um filme que, h\u00e1 20 anos, poderia soar mais do mesmo. Hoje, no entanto, o contexto social, que vai da uni\u00e3o a tens\u00e3o a cada momento, \u00e9 uma boa resposta para uma realidade crescentemente conservadora. Afinal, quando a possibilidade de uma guerra nuclear contra seres super-avan\u00e7ados surge, \u00e9 inevit\u00e1vel n\u00e3o se pensar em Donald Trump apertando o bot\u00e3o vermelho. Em suma, a obra pode n\u00e3o ser uma obra-prima como &#8220;Contato&#8221; ou &#8220;Contatos Imediatos de Terceiro Grau&#8221;, mas, felizmente, Villeneuve consegue conquistar o objetivo de uma fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica: pensar o futuro para discutir o presente.<\/p>\n<p>(andrebloc@opovo.com.br)<\/p>\n<p><strong>Cota\u00e7\u00e3o: nota 6\/8.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ficha T\u00e9cnica<br \/>\nA Chegada (EUA, 2016)<\/strong>, de Denis Villeneuve. Fic\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica\/Suspense. 106 minutos. 10 anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comunica\u00e7\u00e3o, humanidade, extraterrestres, armas nucleares. 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