{"id":451,"date":"2016-12-20T08:00:31","date_gmt":"2016-12-20T11:00:31","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/cinemaas8\/?p=451"},"modified":"2016-12-20T08:00:31","modified_gmt":"2016-12-20T11:00:31","slug":"neruda-o-poeta-e-o-fingidor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/2016\/12\/20\/neruda-o-poeta-e-o-fingidor\/","title":{"rendered":"&#8220;Neruda&#8221;: o poeta \u00e9 o fingidor"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o foi Pablo Neruda, mas Fernando Pessoa\u00a0quem disse que &#8220;O\u00a0poeta \u00e9 um fingidor\/\u00a0Finge t\u00e3o completamente\/ Que chega a fingir que \u00e9 dor\/ A\u00a0dor que deveras sente&#8221;. Fosse sobre o portugu\u00eas, a frase serviria de ep\u00edgrafe da cinebiografia fake &#8220;Neruda&#8221;, de Pablo Larra\u00edn, sobre a persegui\u00e7\u00e3o que o escritor e ent\u00e3o senador comunista chileno sofreu na d\u00e9cada de 1940.<\/p>\n<p>Os limites entre obra e protagonista, portanto, s\u00e3o o centro da adapta\u00e7\u00e3o. Primeiro, entenda-se at\u00e9 que ponto foi a realidade e lembre-se que o filme \u00e9 baseado em roteiro original de Guillermo Calder\u00f3n, n\u00e3o em biografia de Neruda. O poeta de fato era o grande intelectual chileno e sempre denunciou mandos e desmandos do governo local internacionalmente. Comunista convicto ap\u00f3s participar da Guerra Civil Espanhola, ele era um stalinista ferrenho e via o ditador sovi\u00e9tico como her\u00f3i &#8211; chegando a admitir culpa anos depois, se dizendo respons\u00e1vel por disseminar o &#8220;culto \u00e0 personalidade&#8221; de St\u00e1lin no mundo. Em 1945, ele foi eleito senador e, meses depois, entrou oficialmente para o Partido Comunista. Em 1948, ap\u00f3s romper com o presidente Gonz\u00e1lez Videla, ele fez um discurso inflamado e acabou sendo exilado, ap\u00f3s 13 meses fugindo da pris\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Neruda&#8221; \u00e9 focado nesses 13 meses. Ou no que o poeta poderia romantizar sobre esses tempos. Poeta dos versos largos e do sofrimento do povo que vive da terra, Neruda (Luis Gnecco) \u00e9 retratado com a indol\u00eancia com que o conservadorismo trata comunistas. Gordo, pregui\u00e7oso, sonhador e envelhecido aos 44 anos, ele goza da fama galgada por seus versos mais melosos, enquanto divide drinques com lideran\u00e7as do Partido e a velha aristocracia. Nos primeiro ato do filme, existe um suspiro de tridimensionalidade no personagem, quando o mesmo tem uma discuss\u00e3o recheada de uma fina ironia com Arturo Alessandri (Jaime Vadell), ex-presidente chileno e ent\u00e3o l\u00edder do Senado. <\/p>\n<p>O antinaturalismo na montagem da obra funciona nesses embates, com cortes bruscos e mudan\u00e7as de cen\u00e1rio para ressaltar nuances. At\u00e9 o fim do primeiro ato, a obra parece, de fato, original, interessante, viva. Parece. A artificialidade, no entanto, vai ganhando peso. A falta de profundidade em todo aquele denso contexto pol\u00edtico do Chile de 1948 \u00e9 t\u00e3o surreal que parece obra de Neruda. S\u00f3 que falta de profundidade n\u00e3o era l\u00e1 caracter\u00edstica do escritor.<\/p>\n<p>O aspecto mais interessante do longa acaba sendo a biografia (tamb\u00e9m falsa) de \u00d3scar Peluchonneau (Gael Garc\u00eda Bernal), o grande perseguidor de Neruda. Hist\u00f3ria sofrida (falsa), espelhada na pr\u00f3pria trajet\u00f3ria de Neruda, ele \u00e9 apaixonado por Neruda de uma forma que s\u00f3 perseguidores implac\u00e1veis s\u00e3o capazes. A narra\u00e7\u00e3o em off, do pr\u00f3prio Bernal, tenta trazer dilemas, novas facetas aos dois lados da hist\u00f3ria. Mais uma vez, s\u00f3 tenta. O n\u00edvel de afeta\u00e7\u00e3o em tudo torna a experi\u00eancia gradualmente mais intrag\u00e1vel, com os 107 minutos se arrastando no \u00f3bvio e lento ato final.<\/p>\n<p>Por mais original que a biografia falsa soe, ela segue uma proposta linear e tradicionalista. Visualmente quadrado, o filme perde em unidade e tenta compensar em emo\u00e7\u00e3o, caindo na vala comum do sentimentalismo. E como \u00e9 dif\u00edcil gostar de qualquer um dos protagonistas, o longa do competente Pablo Larra\u00edn (de &#8220;No&#8221; e &#8220;O Clube&#8221;) se arrasta. <\/p>\n<p>O que fica de bom \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o dos di\u00e1logos. O j\u00e1 citado embate entre Neruda e Alessandri \u00e9 delicioso, bem como a revela\u00e7\u00e3o de Delia del Carril (Mercedes Mor\u00e1n) sobre a natureza da obra biogr\u00e1fica. De certa forma, parece que o filme busca o floreio para se fazer iconoclasta. Mas para se prejudicar uma imagem, \u00e9 necess\u00e1rio um retrato mais cristalino. Se o objetivo era glorificar a capacidade criativa de Neruda, o resultado foi fazer com que o que o poeta tocasse soasse aborrecido, lento e chato. Soa como se o poeta conseguisse transformar a a\u00e7\u00e3o constante da persegui\u00e7\u00e3o em um falat\u00f3rio repetitivo sobre legado. <\/p>\n<p><strong>Cota\u00e7\u00e3o: nota 3\/8.<\/strong><\/p>\n<p>Ficha t\u00e9cnica<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o foi Pablo Neruda, mas Fernando Pessoa\u00a0quem disse que &#8220;O\u00a0poeta \u00e9 um fingidor\/\u00a0Finge t\u00e3o completamente\/ Que chega a fingir que \u00e9 dor\/ A\u00a0dor que deveras&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":112,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[198,514],"class_list":["post-451","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-critica","tag-critica","tag-neruda"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/451","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/users\/112"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=451"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/451\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=451"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=451"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=451"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}