{"id":453,"date":"2016-12-28T20:00:47","date_gmt":"2016-12-28T23:00:47","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/cinemaas8\/?p=453"},"modified":"2016-12-28T20:00:47","modified_gmt":"2016-12-28T23:00:47","slug":"animais-noturnos-e-machos-feridos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/2016\/12\/28\/animais-noturnos-e-machos-feridos\/","title":{"rendered":"&#8220;Animais Noturnos&#8221; e machos feridos"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_462\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-462\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2016\/12\/noturno-624x415.jpg\" alt=\"Se por vezes o filme prima pelo senso est\u00e9tico...\" width=\"550\" height=\"366\" class=\"size-large wp-image-462\" \/><p id=\"caption-attachment-462\" class=\"wp-caption-text\">Se por vezes o filme prima pelo senso est\u00e9tico&#8230;<\/p><\/div>\n<p>O que \u00e9 um homem? Mais que isso, o que significa a masculinidade? \u00c9 virilidade? \u00c9 responsabilidade? Talvez seja sensibilidade. Em &#8220;Animais Noturnos&#8221;, Tom Ford apresenta a reconex\u00e3o entre um ex-casal para trabalhar, em passado real e tempo fict\u00edcio, a imposi\u00e7\u00e3o do mundo sobre a personalidade de um homem. De um &#8220;macho ferido&#8221;.<\/p>\n<p>O grande m\u00e9rito da obra \u00e9, facilmente, o roteiro inteligente e bem montado. Adaptado pelo pr\u00f3prio Tom Ford do romance &#8220;Tony e Susan&#8221;, de Austin Wright, a trama se abre quando Edward (Jake Gyllenhaal) manda o manuscrito de seu novo livro para sua ex-mulher, Susan (Amy Adams). Violento e arrebatador, a obra liter\u00e1ria surge como um desdobramento daquilo que poderia ocorrer caso Edward e Susan permanecessem casados e com uma filha, India (Ellie Bamber).<\/p>\n<p>A montagem se divide entre tr\u00eas tempos. O passado, quando Susan n\u00e3o apoiou a carreira liter\u00e1ria de Edward e acabou se separando dele de forma traum\u00e1tica para o abandonado. O presente, quando a Susan e seu novo marido, Hutton (Armie Hammer), tentam driblar uma crise financeira e domiciliar, enquanto lutar para manter as apar\u00eancias. E h\u00e1 ainda o passado liter\u00e1rio, narrado no livro em uma tr\u00e1gica viagem pelo Texas em que Susan, Tony (alter-ego de Edward) e India s\u00e3o abordados por um violento grupo de, digamos, caipiras. Esse encontro &#8211; estrada, \u00e0 noite, dois carros, duas mulheres e quatro homens -, tem um n\u00edvel de tens\u00e3o impressionante, equilibrado pelo duelo entre Tony e Ray (Aaron Taylor-Johnson).<\/p>\n<div id=\"attachment_463\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-463\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2016\/12\/noturno2-624x398.jpg\" alt=\"... outras vezes tudo parece limpo demais\" width=\"550\" height=\"351\" class=\"size-large wp-image-463\" \/><p id=\"caption-attachment-463\" class=\"wp-caption-text\">&#8230; outras vezes tudo parece limpo demais<\/p><\/div>\n<p>Aos poucos, o filme vai revelando que o mesmo problema que resultou na separa\u00e7\u00e3o de Edward e Susan ajuda a desencadear o conflito entre Ray e Tony. Sens\u00edvel, Edward \u00e9 visto como fraco. Pouco viril. Na literatura, ele extrapola a responsabilidade dele. Ao mesmo tempo, existe ali um vi\u00e9s de covardia, de vingan\u00e7a pessoal contra a mulher que o abandonou. Da\u00ed, no livro, Edward se traveste de dor e desejo de retalia\u00e7\u00e3o para recuperar a masculinidade de seu autor. <\/p>\n<p>Bem constru\u00eddo e bem atuado, o filme acaba pecando por escolhas mais \u00f3bvias de Tom Ford. O senso est\u00e9tico apurado pelo estilista\/diretor acaba for\u00e7ando uma decupagem previs\u00edvel em uma trama que \u00e9 tudo menos isso. Vez por outra, a tens\u00e3o se dissipa por uma dire\u00e7\u00e3o de c\u00e2mera repetitiva, que s\u00f3 sublinha as linhas de roteiro. Existe ainda uma afeta\u00e7\u00e3o excessiva no visual do filme, algo que por vezes soa higienizado quando o mundo \u00e0 volta \u00e9 sujeira. Assim como em &#8220;Direito de Amar&#8221; (2009), o filme de Tom Ford parece carecer de &#8220;pegada&#8221;, de algo mais visceral. <\/p>\n<p>H\u00e1 ainda uma quest\u00e3o chave do roteiro e que parece cada vez mais recorrente e inc\u00f4moda. E aviso, esse par\u00e1grafo pode ser considerado <strong>spoiler<\/strong>. No \u00e1pice da tens\u00e3o, naquela sequ\u00eancia entre Tony e Ray, a consequ\u00eancia final \u00e9 o estupro e assassinato de m\u00e3e e filha. Ou seja, a viol\u00eancia sexual \u00e9 usada como recurso narrativo para questionar uma suposta falta de masculinidade, falta de virilidade. \u00c9 verdade, trata-se de uma obra fict\u00edcia dentro de uma obra fict\u00edcia. Mas ali, a mulher surge s\u00f3 como recurso. Meu inc\u00f4modo com isso foi tanto que me fez questionar at\u00e9 o quanto gostei de &#8220;O Sil\u00eancio do C\u00e9u&#8221;, que tem uma trama semelhante ao livro fict\u00edcio dentro de &#8220;Animais Noturnos&#8221;. As conclus\u00f5es e o vi\u00e9s feminino na obra brasileira, no entanto, d\u00e1 um vi\u00e9s bem mais democr\u00e1tico ao longa. A proposi\u00e7\u00e3o do homem que deixa de ter uma filha porque a esposa decide abortar \u00e9 tamb\u00e9m uma angula\u00e7\u00e3o completamente enviesada para o lado do macho ferido. Mas, veja bem, n\u00e3o \u00e9 como se ele fosse retratado como v\u00edtima sempre, j\u00e1 que a obra liter\u00e1ria de Edward \u00e9 uma vingan\u00e7a tardia.<\/p>\n<div id=\"attachment_464\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-464\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2016\/12\/noturno3-624x557.jpg\" alt=\"Jake Gyllenhaal chorando na chuva: melhor subg\u00eanero de Hollywood\" width=\"550\" height=\"491\" class=\"size-large wp-image-464\" \/><p id=\"caption-attachment-464\" class=\"wp-caption-text\">Jake Gyllenhaal chorando na chuva: melhor subg\u00eanero de Hollywood<\/p><\/div>\n<p>Em uma coisa, por\u00e9m, a cena do estupro acerta. Mesmo quando a mulher \u00e9 v\u00edtima, o ponto de vista \u00e9 masculino. Porque bem ou mal, &#8220;Animais Noturnos&#8221; \u00e9 a narrativa de um macho tra\u00eddo, castrado. Que se v\u00ea v\u00edtima da pr\u00f3pria natureza. \u00c9 homem, h\u00e9tero, branco, diante de uma realidade muito mais recorrente a uma mulher. E, criatura de privil\u00e9gios, esse sujeito n\u00e3o sabe como agir.<\/p>\n<p><strong>Cota\u00e7\u00e3o: nota 5\/8.<\/strong><br \/>\nFicha t\u00e9cnica<br \/>\nAnimais Noturnos (EUA, 2016). Drama\/Suspense. De Tom Ford. Com Jake Gyllenhaal e Amy Adams.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que \u00e9 um homem? Mais que isso, o que significa a masculinidade? \u00c9 virilidade? \u00c9 responsabilidade? Talvez seja sensibilidade. 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