{"id":571,"date":"2017-01-25T08:00:02","date_gmt":"2017-01-25T11:00:02","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/cinemaas8\/?p=571"},"modified":"2017-01-25T08:00:02","modified_gmt":"2017-01-25T11:00:02","slug":"eu-daniel-blake-discurso-sublinhado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/2017\/01\/25\/eu-daniel-blake-discurso-sublinhado\/","title":{"rendered":"&#8220;Eu, Daniel Blake&#8221;: discurso sublinhado"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_576\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-576\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/01\/I-Daniel-Blake-Cannes-624x416.jpeg\" alt=\"Daniel e a fam\u00edlia de Katie\" width=\"550\" height=\"367\" class=\"size-large wp-image-576\" \/><p id=\"caption-attachment-576\" class=\"wp-caption-text\">Daniel e a fam\u00edlia de Katie<\/p><\/div>\n<p>De certa forma, a trajet\u00f3ria do cineasta brit\u00e2ntico Ken Loach e do protagonista de &#8220;Eu, Daniel Blake&#8221;, seu filme mais recente, se aproximam. Embevecido de ideais socialistas, o diretor de &#8220;Ventos da Liberdade&#8221; (2006) \u00e9 quase um oper\u00e1rio de cinema, com mais de 50 anos dedicados\u00a0a uma arte que, por vezes, tenta afastar algumas discuss\u00f5es de si. Daniel Blake (Dave Johns), por sua vez, \u00e9 um veterano carpinteiro que gostaria, sem sucesso, seguir sua voca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>V\u00edtima de um ataque card\u00edaco grave, Daniel recebe um aux\u00edlio governamental enquanto n\u00e3o tem libera\u00e7\u00e3o m\u00e9dica para voltar ao trabalho. Um dia, por\u00e9m, ele tem esse direito cancelado e teria de voltar ao of\u00edcio &#8211; mas sua sa\u00fade n\u00e3o permite. Sem poder trabalhar e perdendo a renda mensal, ele se mete no emaranhado burocr\u00e1tico ingl\u00eas e precisa buscar outros aux\u00edlios do Estado para pagar as contas. \u00c9, em suma, um homem honesto sendo esmagado pela desumaniza\u00e7\u00e3o do sistema. \u00c9 como um cineasta cheio de boas inten\u00e7\u00f5es, mas barrado de fazer mais filmes por uma barreira governamental de fomento \u00e0 arte.<\/p>\n<div id=\"attachment_577\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-577\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/01\/I-Daniel-Blake-Cannes2-624x416.jpg\" alt=\"Dan e Katie\" width=\"550\" height=\"367\" class=\"size-large wp-image-577\" \/><p id=\"caption-attachment-577\" class=\"wp-caption-text\">Dan e Katie<\/p><\/div>\n<p>Passado na Newcastle (Inglaterra) dos tempos atuais, &#8220;Eu, Daniel Blake&#8221; se vale de um discurso pol\u00edtico bem polido e de um personagem-t\u00edtulo virtuoso para cativar. Todos os personagens centrais parecem, assim como Daniel, tentar fugir de uma realidade de pobreza. Enquanto o protagonista luta contra a burocracia, o vizinho China (Kema Sikazwe) tenta um esquema internacional para ficar rico vendendo t\u00eanis abaixo do pre\u00e7o de mercado. Daniel conhece ainda Katie (Hayley Squires), m\u00e3e solteira de duas crian\u00e7as e que acabara de &#8220;ser mudada&#8221; para Newcastle dentro de um sistema de habita\u00e7\u00e3o do governo ingl\u00eas. Essa fauna, toda da classe oper\u00e1ria brit\u00e2nica e todos com dilemas morais semelhantes, d\u00e3o um sentido cont\u00ednuo na trama.<\/p>\n<p>Loach, no entanto, continua um diretor puramente discursivo. Com uma estrutura extremamente formal, &#8220;Eu, Daniel Blake&#8221; busca sempre o di\u00e1logo como resolu\u00e7\u00e3o da trama. As conversas, sempre ilustrativas, tiram qualquer impacto visual que o roteiro pedia. \u00c9 quase uma legendagem constante do que acontece em tela. A falta de criatividade na montagem chega a irritar, principalmente no fim de cada sequ\u00eancia em um datado &#8220;fade to black&#8221; (quando a tela fica preta ao fim de uma cena). Falta dinamismo, falta velocidade. Nesse ponto, Loach parece t\u00e3o pouco atualizado com a linguagem cinematogr\u00e1fica quanto Daniel Blake com a internet.<\/p>\n<div id=\"attachment_578\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-578\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/01\/I-Daniel-Blake-Cannes3-624x416.jpg\" alt=\"Por vezes, o filme prefere o caminho mais f\u00e1cil: o panflet\u00e1rio\" width=\"550\" height=\"367\" class=\"size-large wp-image-578\" \/><p id=\"caption-attachment-578\" class=\"wp-caption-text\">Por vezes, o filme prefere o caminho mais f\u00e1cil: o panflet\u00e1rio<\/p><\/div>\n<p>Esse excesso discursivo tamb\u00e9m tira um pouco o tom da trama. Por vezes, a obra parece flertar com o melodrama, principalmente nas parcerias de Daniel com China e Katie, mas o drama e o discurso pol\u00edtico sempre se imp\u00f5em. O espectador \u00e9 excessivamente guiado para a emo\u00e7\u00e3o, o que acaba antecipando cada novo passo do filme, deixando a trama previs\u00edvel. Essa discuss\u00e3o pol\u00edtica, inclusive, \u00e9 expositiva e paternalista. Loach n\u00e3o apenas apresenta o dilema, mas precisa sublinhar os culpados (para ele, o governo e os &#8220;tories&#8221;, o partido conservador). De certa forma, ele exime seus personagens e ressalta valores humanos, em um purismo quase ing\u00eanuo.<\/p>\n<p>Recheado de verdade e verossimilhan\u00e7a, &#8220;Eu, Daniel Blake&#8221; vai al\u00e9m de dar sua mensagem. \u00c9 um filme que martela um discurso, ainda que seja forte e importante (e, permita-me dizer, correto). Uma estrutura e produ\u00e7\u00e3o quadradas e lineares, no entanto, acabam dissipando a possibilidade for\u00e7a imag\u00e9tica que Daniel podia ter. <\/p>\n<p>(andrebloc@opovo.com.br)<\/p>\n<p>Cota\u00e7\u00e3o: nota 4\/8<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De certa forma, a trajet\u00f3ria do cineasta brit\u00e2ntico Ken Loach e do protagonista de &#8220;Eu, Daniel Blake&#8221;, seu filme mais recente, se aproximam. 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