{"id":640,"date":"2017-02-13T20:00:39","date_gmt":"2017-02-13T23:00:39","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/cinemaas8\/?p=640"},"modified":"2017-02-13T20:00:39","modified_gmt":"2017-02-13T23:00:39","slug":"redemoinho-e-o-revolto-passado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/2017\/02\/13\/redemoinho-e-o-revolto-passado\/","title":{"rendered":"&#8220;Redemoinho&#8221; e o revolto passado"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_643\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-643\" class=\"size-large wp-image-643\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/02\/redemoinho-624x223.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"197\" \/><p id=\"caption-attachment-643\" class=\"wp-caption-text\">Gildo (J\u00falio Andrade), Luzimar (Irandhir Santos) e a ponte<\/p><\/div>\n<p>Um time de futebol, uma ponte e uma cicatriz para toda a vida. Movendo-se entre dois tempos, o passado e o presente, &#8220;Redemoinho&#8221;, estreia de Jos\u00e9 Luiz Villamarim no cinema, mant\u00e9m o rigor visual do especialista em televis\u00e3o e adiciona um discurso sofisticado que se equilibra entre o dito e o n\u00e3o dito. Baseado no romance\u00a0\u00a0&#8220;O Mundo Inimigo&#8221;, de Luiz Ruffato e com roteiro de George Moura, o longa nacional \u00e9 uma obra forte, equilibrada, sobre o quanto \u00e9 dif\u00edcil fugir do passado.<\/p>\n<p>No filme, os amigos de inf\u00e2ncia Luzimar (Irandhir Santos) e Gildo (J\u00falio Andrade) se reencontram mais de 20 anos ap\u00f3s um evento traum\u00e1tico os separar. O primeiro fez sua vida das migalhas da cidade de Cataguases, no interior mineiro, enquanto o outro buscou completude em S\u00e3o Paulo, com carro do ano, esposa e filhos. Em pleno Natal, eles se encontram por acaso e uma cerveja vai se estendendo indefinitivamente.<\/p>\n<p>Existem dois fatores fortes, marcantes, que se destacam na obra. O primeiro dele, mais evidente, \u00e9 a forma como o passado \u00e9 mostrado de forma nebulosa. O tal evento traum\u00e1tico \u00e9 mostrado duas vezes em flashbacks, mas nenhum dos participantes \u00e9 nomeado ou a ocorr\u00eancia esclarecida. Ao mesmo tempo, Luzimar e Gildo claramente anseiam por um fechamento da quest\u00e3o, mas nenhum tem coragem de citar o fato ao outro. Cabe ao espectador tatear por respostas.<\/p>\n<div id=\"attachment_641\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-641\" class=\"size-large wp-image-641\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/02\/redemoinho3-624x351.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"309\" \/><p id=\"caption-attachment-641\" class=\"wp-caption-text\">Um reencontro pode trazer mais mal que bem<\/p><\/div>\n<p>A outra quest\u00e3o que se imp\u00f5e com for\u00e7a \u00e9 o car\u00e1ter sensorial da obra, que guia a forma como buscamos respostas. Primeiro o som que invade as cenas e tem em Luzimar, que possui um grau de surdez, um ponto de inflex\u00e3o. Quando o protagonista tira o aparelho auditivo, ouvimos um zumbido constante. \u00c9 como se ele n\u00e3o fosse surdo, mas usasse o objeto para abafar essa voz constante na pr\u00f3pria mente. H\u00e1 ainda rimas visuais, que esclarecem desde a sequ\u00eancia inicial o quanto a grande ponte vermelha da cidade \u00e9 essencial no desenrolar da trama. Tudo isso \u00e9 muito mais intu\u00eddo do que dito.<\/p>\n<p>Inteligentemente, Villamarim consegue fugir do caminho f\u00e1cil de enfrentamento entre os dois protagonistas, que, dessa forma, transformariam a obra em um burocr\u00e1tico longa de di\u00e1logos.<\/p>\n<p>Aos poucos, a trama vai se explicando, se abrindo ao espectador. Por mais que o roteiro perca em polimento, sendo duro principalmente em momentos de tens\u00e3o, h\u00e1 uma intelig\u00eancia ao se explorar a forma como o trauma afetou outras pessoas. A conversa ao lado do campo de futebol, por exemplo, se desenrola com uma for\u00e7a descomunal. Gildo cita o time do grupo de amigos na inf\u00e2ncia e pergunta para Luzimar sobre o destino de cada. O amigo, ent\u00e3o, cita alguns e solta que um deles j\u00e1 morreu. &#8220;De qu\u00ea?&#8221;. &#8220;Cacha\u00e7a&#8221;, responde, deixando no ar que o alcoolismo podia tamb\u00e9m ter nascido do trauma de inf\u00e2ncia. Talvez Gildo saiba, mas a op\u00e7\u00e3o de deixar isso fora de cena faz a trama crescer.<\/p>\n<p>&#8220;Redemoinho&#8221; \u00e9 tamb\u00e9m, em muitos momentos, um drama sobre relacionamentos fraturados. N\u00e3o h\u00e1 equil\u00edbrio entre Gildo e sua m\u00e3e, Marta (C\u00e1ssia Kis). H\u00e1 uma dist\u00e2ncia entre Luzimar e sua esposa, Toninha (Dira Paes). A op\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ter filhos \u00e9 emblem\u00e1tica, bem como o fato de Gildo visitar a m\u00e3e em Cataguases e n\u00e3o levar a mulher e os filhos. Tudo isso tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 dito. H\u00e1 um sil\u00eancio, quebrado &#8220;tr\u00eas ou quatro vezes por dia&#8221; pela passagem de trem pela cidade. S\u00e3o sons de mem\u00f3ria, de lembran\u00e7a, de dor.<\/p>\n<div id=\"attachment_642\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-642\" class=\"size-large wp-image-642\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/02\/redemoinho2-624x261.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"230\" \/><p id=\"caption-attachment-642\" class=\"wp-caption-text\">H\u00e1 uma dist\u00e2ncia crescente entre os protagonistas e os outros personagens<\/p><\/div>\n<p>O elenco de apoio, ali\u00e1s, \u00e9 um acerto atr\u00e1s do outro. Somando-se \u00e0s atua\u00e7\u00f5es da dupla de protagonistas e mostra um rigor na dire\u00e7\u00e3o. Os coadjuvante, no entanto, t\u00eam pouco tempo de tela para dizer o que deviam. Embriagados de cerveja e de si, Gildo e Luzimar os ignoram, fogem e o filme perde a chance de dar mais alguns passos. O que, de certa forma, faz sentido para uma trama sobre amargor, frustra\u00e7\u00e3o. Sobre a cicatriz do passado.<\/p>\n<p>Destaque-se ainda Zunga (Demick Lopes), um dos presentes no trauma de inf\u00e2ncia e que se quebrou de forma irrepar\u00e1vel. Assim, Villamarim estabelece o limite m\u00e1ximo (de sanidade) para seus dois protagonistas e, de certa maneira, at\u00e9 poderia perdo\u00e1-los. Ou ser\u00e1 que o ato de inf\u00e2ncia, que condenou Zunga e Marquinhos, n\u00e3o oferece perd\u00e3o para Gildo e Luzimar?<\/p>\n<p>Cota\u00e7\u00e3o: nota 6\/8<\/p>\n<p>Ficha t\u00e9cnica<br \/>\nRedemoinho (BRA, 2017), de Jos\u00e9 Luiz Villamarim. Drama. 100 minutos. Com Irandhir Santos, J\u00falio Andrade, Dira Paes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um time de futebol, uma ponte e uma cicatriz para toda a vida. 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