{"id":72,"date":"2016-09-14T20:01:58","date_gmt":"2016-09-14T23:01:58","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/cinemaas8\/?p=72"},"modified":"2016-09-14T20:01:58","modified_gmt":"2016-09-14T23:01:58","slug":"aquarius-o-som-da-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/2016\/09\/14\/aquarius-o-som-da-resistencia\/","title":{"rendered":"Aquarius: O som da resist\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-75\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2016\/09\/Aquarius-300x188.jpg\" alt=\"aquarius\" width=\"300\" height=\"188\" \/><\/p>\n<p>Dizer que \u201cAquarius\u201d \u00e9 um retrato redondo de Recife, de Pernambuco, do Nordeste, do Brasil, n\u00e3o \u00e9 uma hip\u00e9rbole. Na verdade, se \u00e9 para ficar entre as figuras de linguagem, a afirma\u00e7\u00e3o soa quase um eufemismo, j\u00e1 que essa marca j\u00e1 transborda no longa-metragem \u201cO Som ao Redor\u201d e em curtas como \u201cEletrodom\u00e9stica\u201d e \u201cRecife Frio\u201d, todos do pernambucano Kleber Mendon\u00e7a Filho. \u201cAquarius\u201d, por\u00e9m, \u00e9 mais do que uma cr\u00edtica consegue falar. \u00c9 o triunfo do conjunto de fatores em uma obra lotada de sabores. Uma prova de que uma t\u00e9cnica apurada pode, e deve, servir a ideais afiados.<\/p>\n<p>Antes de sociopol\u00edtica, antes de discurso te\u00f3rico, \u201cAquarius\u201d \u00e9 vigor puro com nome e sobrenome. \u00c9 at\u00e9 dif\u00edcil delimitar o limite entre a for\u00e7a da personagem Clara e o qualidade c\u00eanica de Sonia Braga. A primeira apari\u00e7\u00e3o da atriz n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um grande momento do filme \u2013 \u00e9 um dos maiores acontecimentos do cinema nacional. Clara \u00e9 introduzida mais jovem, interpretada por Barbara Colen, na Recife dos anos 1980. Riso f\u00e1cil, cabelos curtos de quem recente lutara contra um c\u00e2ncer. O t\u00fanel do tempo traz \u00e0 praia de Boa Viagem de hoje e o coque nas madeixas long\u00edssimas se imp\u00f5e. Aquela \u00e9 uma sobrevivente que cresceu tanto quanto os cabelos.<\/p>\n<p>O roteiro, tamb\u00e9m de Kleber Mendon\u00e7a Filho, \u00e9 inteligente desde essa elipse inicial. Ali, nos anos 1980, o diretor introduz a mem\u00f3ria afetiva. O valor da hist\u00f3ria, que se sobrep\u00f5e ao mercantil. A Clara de 30 e tantos, espelhada na figura-guia de tia L\u00facia (Thaia Perez), um espelho de quem a sobrinha viria a ser. Os conflitos come\u00e7am com a imposi\u00e7\u00e3o do famoso \u201cprogresso\u201d, aquela palavra pomposa para se falar de especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. \u00danica moradora do edif\u00edcio Aquarius, ela \u00e9 assediada pelos donos de uma empresa de engenharia que deseja fazer seu nov\u00edssimo empreendimento onde \u201cera\u201d a casa de Clara (e de L\u00facia antes dela).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-76\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2016\/09\/aquarius-2-300x186.jpeg\" alt=\"aquarius-2\" width=\"300\" height=\"186\" \/><\/p>\n<p>Clara \u00e9 algu\u00e9m que ousa dizer n\u00e3o. Ali\u00e1s, quem n\u00e3o se intimida de gritar. Afinal, assim como no filme anterior de Mendon\u00e7a Filho, o som \u00e9 figura essencial para a trama. Se em \u201cO Som ao Redor\u201d os barulhos da vizinhan\u00e7a entremeavam uma atmosfera de terror, em \u201cAquarius\u201d a m\u00fasica se mostra uma resposta \u00e0 opress\u00e3o. A cena final, um espelho do longa anterior, retorna com barulhos intermitentes expondo uma quebra de status quo. \u00c9 o grito de quem decidiu lutar at\u00e9 o fim por seus princ\u00edpios.<\/p>\n<p>A personagem, bem resolvida consigo intelectual, social e at\u00e9 sexualmente, \u00e9 aquele contraponto que falta na nossa sociedade cada vez mais conservadora. \u00c9 aquela nossa amiga que ousa responder quando diante de uma opress\u00e3o machista num \u00f4nibus. Aquele manifestante que enfrenta o poder ocupando um local p\u00fablico em vias de uma \u201cmodifica\u00e7\u00e3o rumo ao progresso\u201d.<\/p>\n<p>Tudo isso, por\u00e9m, n\u00e3o significa que Clara n\u00e3o tenha seus dilemas. A quest\u00e3o \u00e9 que mesmo dentro da contradi\u00e7\u00e3o pequeno-burguesa \u2013 que, por vezes, esquece o nome de uma empregada dom\u00e9stica que trabalhara na casa de amigos d\u00e9cadas antes \u2013, a personagem imp\u00f5e o que acredita \u00e0 sua mem\u00f3ria. \u00c9 a\u00ed que o afeto vence o mercado. Que o povo escala o monstrengo do capitalismo.<\/p>\n<p><strong>Cota\u00e7\u00e3o: nota 7\/8<\/strong><\/p>\n<p><strong>Andr\u00e9 Bloc (<\/strong><strong>andrebloc@opovo.com.br)<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"AQUARIUS - Trailer legendado\" width=\"668\" height=\"376\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/VB-5rodvHUc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Originalmente publicada no Caderno Vida&amp;Arte, do jornal O POVO.<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Ficha t\u00e9cnica:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Aquarius<\/strong> (2016, BRA). Drama. 142 minutos. 16 anos. De Kleber Mendon\u00e7a Filho. Com Sonia Braga, Irandhir Santos e Maeve Jinkins.<\/p>\n<p><strong>Filme em cartaz em Fortaleza no Cinema do Drag\u00e3o &#8211; Funda\u00e7\u00e3o Joaquim Nabuco, Cineteatro S\u00e3o Luiz, UCI Kinoplex Iguatemi e Cin\u00e9polis RioMar.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dizer que \u201cAquarius\u201d \u00e9 um retrato redondo de Recife, de Pernambuco, do Nordeste, do Brasil, n\u00e3o \u00e9 uma hip\u00e9rbole. Na verdade, se \u00e9 para ficar&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":112,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[99,198],"class_list":["post-72","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-critica","tag-aquarius","tag-critica"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/users\/112"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=72"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=72"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=72"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=72"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}