{"id":812,"date":"2017-04-07T18:47:45","date_gmt":"2017-04-07T21:47:45","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/cinemaas8\/?p=812"},"modified":"2017-04-07T18:47:45","modified_gmt":"2017-04-07T21:47:45","slug":"o-olhar-diferenciador-em-o-ornitologo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/2017\/04\/07\/o-olhar-diferenciador-em-o-ornitologo\/","title":{"rendered":"O olhar diferenciador em &#8220;O Ornit\u00f3logo&#8221;"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_814\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-814\" class=\"size-large wp-image-814\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/04\/ornit\u00f3logo1-624x261.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"230\" \/><p id=\"caption-attachment-814\" class=\"wp-caption-text\">Quem olha e quem \u00e9 observado em &#8220;O Ornit\u00f3logo&#8221;?<\/p><\/div>\n<p>Existem limites na percep\u00e7\u00e3o de cada pessoa. N\u00e3o s\u00f3 por uma quest\u00e3o de sensibilidade, mas de viv\u00eancias, disposi\u00e7\u00f5es, quereres. A arte, pautada no olhar e na identifica\u00e7\u00e3o, vibra ao estender essas fronteiras do que se entende. Dito isto, \u00e9 natural ter repulsa por \u201cO Ornit\u00f3logo\u201d, do portugu\u00eas Jo\u00e3o Pedro Rodrigues. Surrealista, antinarrativo, antinaturalista, a produ\u00e7\u00e3o franco-luso-brasileira \u00e9 uma das propostas mais originais a chegar \u00e0s salas de cinema em um per\u00edodo recente. E at\u00e9 por isso, uma das mais contradit\u00f3rias.<\/p>\n<p>Para esmiu\u00e7ar esses limiares de percep\u00e7\u00e3o, entro na minha experi\u00eancia pessoal. O primeiro atrativo \u00e9 visual, com uma dire\u00e7\u00e3o de fotografia bem posta, recheada de uma c\u00e2mera subjetiva e que joga olhares animais e humanos uns contra os outros. Em seguida, h\u00e1 um interesse sexual, que perpassa um roteiro constru\u00eddo entre rela\u00e7\u00f5es homossexuais e pervers\u00f5es. De cara, desperta-se um interesse na narrativa. S\u00f3 que Jo\u00e3o Pedro prefere dar uma guinada e apostar em um desenrolar mais a Bu\u00f1uel do que a Truffaut, \u00edcones do surrealismo e do cinema narrativo, respectivamente. A proposta de roteiro faz uma curva brusca para o surreal e se perde em di\u00e1logos sem conte\u00fado, declamados de forma pouco natural.<\/p>\n<div id=\"attachment_815\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-815\" class=\"size-large wp-image-815\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/04\/ornit\u00f3logo2-624x261.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"230\" \/><p id=\"caption-attachment-815\" class=\"wp-caption-text\">Do b\u00edblico ao profano, o filme se abre para interpreta\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas<\/p><\/div>\n<p>Ao fim dos 117 minutos de \u201cO Ornit\u00f3logo\u201d, me veio uma sensa\u00e7\u00e3o ruim. Dez minutos de pensamento livre depois, o filme se dissolvia e ganhava significados, interpreta\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias minhas. Fernando (Paul Hamy) \u00e9 um ornit\u00f3logo, o que significa que ele observa p\u00e1ssaros em seus habitats. O olhar do ornit\u00f3logo modifica quem os animais s\u00e3o? Aos poucos, o observador come\u00e7a a ser observado. De alvos, os p\u00e1ssaros se fazem algozes, com olhos bem mais perscrutadores. A partir da\u00ed, Fernando come\u00e7a uma transforma\u00e7\u00e3o, uma esp\u00e9cie de achatamento do tempo que o une a mem\u00f3rias de s\u00e9culos anteriores.<\/p>\n<p>Nessa viagem, ele \u00e9 raptado por um casal de chinesas cat\u00f3licas e l\u00e9sbicas, se depara com amazonas, salva vidas de animais, perde a pr\u00f3pria identidade. Ali, se mostram signos de Santo Ant\u00f4nio, nascido em Lisboa (Portugal) no s\u00e9culo XII, morto em P\u00e1dua (It\u00e1lia) no s\u00e9culo XIII. Religi\u00e3o \u00e9 uma base forte de interpreta\u00e7\u00e3o da obra, mas isso pouco precisa importar. \u201cO Ornit\u00f3logo\u201d visa se desdobrar a cada mente, ser apossada por cada espectador de forma \u00fanica. A mim, a religi\u00e3o \u00e9 tema distante.<\/p>\n<div id=\"attachment_813\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-813\" class=\"size-large wp-image-813\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/04\/ornit\u00f3logo3-624x261.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"230\" \/><p id=\"caption-attachment-813\" class=\"wp-caption-text\">Se nada mais fizer sentido, o cen\u00e1rio estonteante consegue distrair um pouco do caos<\/p><\/div>\n<p>O que me pega \u00e9 a possibilidade de uma obra se desdobrar em tantas, todas \u00fanicas. Jo\u00e3o Pedro parte para uma abordagem fenomenol\u00f3gica, uma no\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia subjetiva. O sujeito e o meio s\u00e3o partes da mesma cadeia e, assim, se transformam. \u201cO Ornit\u00f3logo\u201d, da forma como senti dias depois, \u00e9 um filme sobre olhar. A interpreta\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria que Jo\u00e3o Pedro Rodrigues tinha ao filmar \u00e9 de pouco interesse. Muito mais forte, para mim, \u00e9 a forma como eu me aposso da obra. E, para voc\u00ea, deve valer o mesmo. Melhor do que o que eu senti, o que o diretor sentiu, \u00e9 o que voc\u00ea sentiu: seja deleite ou repulsa.<\/p>\n<p>\u201cO Ornit\u00f3logo\u201d pode ser uma obra bastante herm\u00e9tica, \u201cpara cr\u00edtico ver\u201d. E \u00e9. Ela pede muito e n\u00e3o parece dar nada em troca. Mas h\u00e1 ali uma provoca\u00e7\u00e3o muito maior do que o cinema narrativo \u2013 e mesmo o autoral independente \u2013 se presam a fazer.<\/p>\n<p>O melhor de tudo \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel que nada dessa interpreta\u00e7\u00e3o tenha sido projetada por Jo\u00e3o Pedro Rodrigues e isso seja um del\u00edrio meu. Porque, no fim das contas, n\u00e3o importa qual era o objetivo. O ponto central \u00e9 que \u201cO Ornit\u00f3logo\u201d me impulsionou a pensar, continuar pensando, e chegar a um lugar que eu n\u00e3o sabia que existia antes.<\/p>\n<p>(andrebloc@opovo.com.br)<\/p>\n<p><strong>Cota\u00e7\u00e3o: nota 7\/8.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ficha t\u00e9cnica<\/strong><br \/>\n<strong> O Ornit\u00f3logo<\/strong> (POR\/FRA\/BRA, 2016), de Jo\u00e3o Pedro Rodrigues.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existem limites na percep\u00e7\u00e3o de cada pessoa. 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