{"id":890,"date":"2017-05-05T17:55:51","date_gmt":"2017-05-05T20:55:51","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/cinemaas8\/?p=890"},"modified":"2017-05-05T17:55:51","modified_gmt":"2017-05-05T20:55:51","slug":"vermelho-russo-e-os-dilemas-de-representacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/2017\/05\/05\/vermelho-russo-e-os-dilemas-de-representacao\/","title":{"rendered":"&#8220;Vermelho Russo&#8221; e os dilemas de representa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_893\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-893\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/05\/vermelho-russo-cinema-\u00e0s-8-624x351.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"309\" class=\"size-large wp-image-893\" \/><p id=\"caption-attachment-893\" class=\"wp-caption-text\">Marta (Martha Nowill) e Manu (Maria Manoella) na pra\u00e7a Vermelha, em Moscou<\/p><\/div>\n<p>De um lado, as amigas Marta (Martha Nowill) e Manu (Maria Manoella). Do outro, as personagens Helena e Sofia, da pe\u00e7a &#8220;Tio V\u00e2nia&#8221;, drama cl\u00e1ssico de Anton Tch\u00e9kov e famoso na dire\u00e7\u00e3o de Constantin Stanislavski. Entre os dois duetos, um mundo que estreita a cada ensaio das atrizes. &#8220;Vermelho Russo&#8221;, segundo longa-metragem do\u00a0diretor, roteirista e ator Charly Braun, aposta na autofic\u00e7\u00e3o para borrar os limites entre o real e o representativo. O resultado \u00e9 um\u00a0misto de drama e com\u00e9dia equilibrada\u00a0com um toque de questionamento sobre as artes.<\/p>\n<p>Ao lado de um colega diretor argentino, uma atriz portuguesa e outra latina, as brasileiras Martha e Manoella fazem uma oficina do sistema Stanislavski de atua\u00e7\u00e3o em plena Moscou &#8211; ainda que balbuciem quase nada em russo. Misto de document\u00e1rio com obra ficcional, &#8220;Vermelho Russo&#8221; parte do cerne conceitual da arte da representa\u00e7\u00e3o, segundo os conceitos do famoso diretor russo. Para ele, o realismo psicol\u00f3gico era chave para uma atua\u00e7\u00e3o convincente, em vista de que os atores deveriam trazer viv\u00eancias de emo\u00e7\u00f5es aut\u00eanticas para a cena. Ou seja, mais do que interpretar, eles deviam resgatar as pr\u00f3prias hist\u00f3rias pessoais para imbuir o material de realismo.<\/p>\n<div id=\"attachment_891\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-891\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/05\/vermelho-russo-cinema-\u00e0s-8-3-624x351.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"309\" class=\"size-large wp-image-891\" \/><p id=\"caption-attachment-891\" class=\"wp-caption-text\">Aos poucos, a dist\u00e2ncia entre as duas aumenta<\/p><\/div>\n<p>&#8220;Vermelho Russo&#8221; \u00e9, em suma, uma extrapola\u00e7\u00e3o desse jogo entre personagens e atores. Ao mesmo tempo em que o limite entre document\u00e1rio e fic\u00e7\u00e3o \u00e9 borrado, a rela\u00e7\u00e3o entre as duas protagonistas acaba afetada pelas viv\u00eancias de suas personagens. Mergulhadas no processo de montagem da &#8220;Tio V\u00e2nia&#8221;, Marta e Manu ficam cada vez mais indissoci\u00e1veis das personagens cl\u00e1ssicas de Tch\u00e9kov. J\u00e1 a no\u00e7\u00e3o de autofic\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 borrada numa no\u00e7\u00e3o de filme ficcional baseado em um relato real de viagem de uma das atrizes (Martha). \u00c9 um filme de processo, de mergulho, mas tamb\u00e9m h\u00e1 um distanciamento atingido posteriormente. <\/p>\n<p>Apesar da conceitua\u00e7\u00e3o imbrincada, o ritmo de &#8220;Vermelho Russo&#8221; \u00e9 dos mais agrad\u00e1veis. De cara, o senso de humor calcado na no\u00e7\u00e3o de constrangimento e falta de comunica\u00e7\u00e3o, remete ao &#8220;Encontros e Desencontros&#8221; (2003), de Sofia Coppola, no qual dois norte-americanos se perdem e se encontram em pleno Jap\u00e3o. A refer\u00eancia, ali\u00e1s, \u00e9 at\u00e9 assumida no roteiro, quando uma das personagens se engana e chama o pa\u00eds de Jap\u00e3o. H\u00e1 ainda algo que remete ao semidocumental &#8220;O Olmo e a Gaivota&#8221;, de Petra Costa e Lea Glob, e o document\u00e1rio &#8220;Moscou&#8221;, de Eduardo Coutinho &#8211; n\u00e3o coincidentemente, ambas partem de textos de Tch\u00e9kov, &#8220;A Gaivota&#8221; e &#8220;Tr\u00eas Irm\u00e3s&#8221;, respectivamente.<\/p>\n<div id=\"attachment_892\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-892\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/05\/vermelho-russo-cinema-\u00e0s-8-2-624x351.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"309\" class=\"size-large wp-image-892\" \/><p id=\"caption-attachment-892\" class=\"wp-caption-text\">Manu e Marta no palco, ensaiando &#8220;Tio V\u00e2nia&#8221;<\/p><\/div>\n<p>A qu\u00edmica entre Martha Nowill e Maria Manoella \u00e9 tamb\u00e9m essencial para essa leveza. \u00c9, tamb\u00e9m, um filme sobre culturas, que quebra uma vis\u00e3o sisuda e fria dos russos, mas reitera o despojamento t\u00edpico do brasileiro. Esse humor acaba essencial para que a dramaticidade da parte final do longa n\u00e3o engula o processo e a conceitua\u00e7\u00e3o. H\u00e1 um conflito de ego entre as atrizes, que surge da vaidade pessoal, da vaidade profissional e do pr\u00f3prio mergulho laboral, mas que o ritmo da obra n\u00e3o se quebra pelo tato c\u00f4mico de Charly Braun.<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de autofic\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda ressaltada no personagem Tatu (Esteban Feune de Colombi), diretor argentino que participa do mesmo processo das meninas. Claramente um avatar do diretor do filme, ele calca a parte do document\u00e1rio como algu\u00e9m que registra a mudan\u00e7as que as protagonistas enfrentam. Eles, ali\u00e1s, todos dividem os dias em uma esp\u00e9cie de mistura de hotel com retiro de artistas do cinema russo. \u00c9 como se o distante e frio pa\u00eds se dobrasse em ensinamentos a gera\u00e7\u00f5es de todo o mundo, o que \u00e9 mostrado de forma carinhosa, terna, mesmo que sem uma l\u00edngua compartilhada entre os personagens. \u00c9 uma op\u00e7\u00e3o de design de produ\u00e7\u00e3o que traz uma riqueza e adiciona ainda mais na j\u00e1 citada leveza de &#8220;Vermelho Russo&#8221;. Nos toques de humor, intelig\u00eancia e dramaticidade, Charly Braun oferece uma obra que prop\u00f5e muita teoria, mas n\u00e3o se perde em conceitua\u00e7\u00e3o barata. A dedica\u00e7\u00e3o principal \u00e9 entreter.<\/p>\n<p>(andrebloc@opovo.com.br)<\/p>\n<p><strong>Cota\u00e7\u00e3o: nota 6\/8<\/p>\n<p>Ficha t\u00e9cnica<br \/>\nVermelho Russo<\/strong> (BRA\/POR\/RUS, 2016), de Charly Braun. Com\u00e9dia\/Drama. 90 minutos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De um lado, as amigas Marta (Martha Nowill) e Manu (Maria Manoella). Do outro, as personagens Helena e Sofia, da pe\u00e7a &#8220;Tio V\u00e2nia&#8221;, drama cl\u00e1ssico&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":112,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[113,198,697,730,764],"class_list":["post-890","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-critica","tag-autoficcao","tag-critica","tag-tchekov","tag-tio-vania","tag-vermelho-russo"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/890","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/users\/112"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=890"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/890\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=890"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=890"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=890"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}