{"id":894,"date":"2017-05-08T18:24:04","date_gmt":"2017-05-08T21:24:04","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/cinemaas8\/?p=894"},"modified":"2017-05-08T18:24:04","modified_gmt":"2017-05-08T21:24:04","slug":"melhores-amigos-as-varias-camadas-de","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/2017\/05\/08\/melhores-amigos-as-varias-camadas-de\/","title":{"rendered":"&#8220;Melhores Amigos&#8221;: as v\u00e1rias camadas de leveza"},"content":{"rendered":"<p>Uma grande, e rara, qualidade no cinema de Ira Sachs \u00e9 a compress\u00e3o. De forma simples, delicada, ele consegue juntar uma s\u00e9rie de temas e sentimentos em obras que se mant\u00e9m leves e divertidas. Por mais que exista um peso tem\u00e1tico imposto pela complexidade das discuss\u00f5es, Sachs mant\u00e9m o fluxo limpo de uma experi\u00eancia cinematogr\u00e1fica. Colorido e despretensioso, &#8220;Melhores Amigos&#8221; se prop\u00f5e uma obra coming of age, de descoberta do personagens adolescentes, mas se mostra, paralelamente, um forte retrato social de Nova York, uma abordagem sutil sobre homossexualidade e, acima de tudo, uma discuss\u00e3o sobre o conceito de profissional bem sucedido. <\/p>\n<div id=\"attachment_896\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-896\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/05\/melhores-amigos-cinema-\u00e0s-8-1-624x416.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"367\" class=\"size-large wp-image-896\" \/><p id=\"caption-attachment-896\" class=\"wp-caption-text\">Antonio\/Tony (Michael Barbieri) e Jacob\/Jake (Theo Taplitz)<\/p><\/div>\n<p>No cerne da trama est\u00e1 o fr\u00e1gil Jake Jardine (Theo Taplitz), de 13 anos. Ap\u00f3s a morte do av\u00f4, ele e os pais se mudam de Manhattan para o Brooklin, onde o patriarca da fam\u00edlia mantinha um apartamento e alugava um est\u00fadio para uma vizinha, a chilena Leonor (Paulina Garc\u00eda). Ao chegar para o vel\u00f3rio, ele conhece Tony (Michael Barbieri), jovem da mesma idade que ele, e os dois rapidamente formam um v\u00ednculo fincado, em especial, nos objetivos art\u00edsticos dos dois. Tony sonha em ser ator e estudar na escola de artes LaGuardia. Desenhista talentoso, Jake pretende ir para o mesmo local, onde o pr\u00f3prio pai tentou estudar, mas n\u00e3o passou na sele\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto os la\u00e7os dos dois jovens se estreitam e as diferen\u00e7as deles se amansam, o &#8220;fracasso&#8221; dos pais come\u00e7am a gerar conflitos. O pai de Jake \u00e9 um ator e vive em trabalhos teatrais com baix\u00edssima renda. Quem sustenta a fam\u00edlia \u00e9 a heran\u00e7a do av\u00f4 e o trabalho da m\u00e3e como psic\u00f3loga. J\u00e1 Leonor vive uma crise financeira em sua boutique de roupa autoral. Em fim de contrato de aluguel, os dois lados precisam negociar e a tens\u00e3o acaba sendo imposta no cotidiano de Jake e Tony. Dentro dessa complexidade, impressiona a qualidade das atua\u00e7\u00f5es, tanto dos jovens atores, quanto dos veteranos.  Theo Taplitz \u00e9 eficiente no papel mais dif\u00edcil, sendo um protagonista intimista. J\u00e1 Michael Barbieri, com o personagem expansivo, brilha como a parte mais divertida do longa. Greg Kinnear, que interpreta o pai de Jake, Brian, traz uma frustra\u00e7\u00e3o, uma amargura por tr\u00e1s dos olhos, enquanto a m\u00e3e, Kathy (Jennifer Ehle), tenta impor serenidade. <\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/05\/melhores-amigos-cinema-\u00e0s-8-2-624x295.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"260\" class=\"alignnone size-large wp-image-895\" \/><\/p>\n<p>Complementando o elenco, temos o fator de maior complexidade do longa. Leonor (Paulina Garc\u00eda) \u00e9 t\u00e3o fascinante quanto contradit\u00f3ria. \u00c9 nela que a fuga do manique\u00edsmo se imp\u00f5e em &#8220;Melhores Amigos&#8221;. Sol\u00edcita, amiga do falecido av\u00f4, ela se mostra presente desde o primeiro momento. Mas quanto a tens\u00e3o entre os Jardine e os Calvelli se mostram, ela n\u00e3o hesita ao abusar da crueldade com Brian. Ela, inclusive, equilibra o grande ponto fraco do roteiro, assinado por Ira Sachs e pelo brasileiro Mauricio Zacharias. Ao pressionar sempre por dinheiro, Audrey (Talia Balsam), irm\u00e3 de Brian, \u00e9 uma muleta para que o conflito entre as duas fam\u00edlias seja dos virtuosos, com todo o \u00f3dio do p\u00fablico podendo ser direcionado a Audrey.<\/p>\n<p>Tema recorrente no cinema de Ira Sachs, a homossexualidade \u00e9, dessa vez, tratada de forma org\u00e2nica, sem tomar conta da obra. Em &#8220;Deixa a Luz Acessa&#8221; (2012), o conflito \u00e9 interno contra a pr\u00f3pria sexualidade. J\u00e1 em &#8220;O Amor \u00c9 Estranho&#8221; (2014), fatores externos tiram a paz do casal de protagonistas criado por Sachs. Dessa vez, a orienta\u00e7\u00e3o sexual de um dos garotos n\u00e3o \u00e9 a raz\u00e3o de ser do longa. \u00c9 apenas mais uma camada da rela\u00e7\u00e3o entre Jake e Tony. O despertar sexual \u00e9 mais um n\u00edvel de complexidade com que os dois precisam lidar. <\/p>\n<div id=\"attachment_897\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-897\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/05\/melhores-amigos-cinema-\u00e0s-8-3-624x367.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"323\" class=\"size-large wp-image-897\" \/><p id=\"caption-attachment-897\" class=\"wp-caption-text\">A tens\u00e3o entre Leonor (Paulina Garc\u00eda) e Brian (Greg Kinnear) cresce de forma palp\u00e1vel<\/p><\/div>\n<p>Voltando ao tema da compress\u00e3o de temas, &#8220;Melhores Amigos&#8221; consegue eficientemente estabelecer uma l\u00f3gica espacial dentro de sua Nova York. Centrado na mudan\u00e7a na vida de Jake, ele estabelece uma diferencia\u00e7\u00e3o no cotidiano do jovem quando vivia isolado em Manhattan e em vida mais comunit\u00e1ria no Brooklin. Essa frieza, essa dist\u00e2ncia, fica clara quando o personagem revisita a ilha para uma matin\u00ea com os amigos. L\u00e1, Tony se mant\u00e9m expansivo, enquanto Jake se recolhe. S\u00e3o duas de infinitas possibilidade de uma megal\u00f3pole como Nova York. Tema recorrente para Sachs, a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria ressurge e, mais uma vez, se imp\u00f5e ao afeto entre os personagens. Esse carinho entre vizinhos, j\u00e1 filmado em &#8220;O Amor \u00c9 Estranho&#8221;, \u00e9 a ess\u00eancia da Nova York de Ira Sachs. Para ele, \u00e9 uma cidade que pode, e deve, se ajudar. Que pode, e deve, deixar que o sentimento se sobreponha ao lucro. Mas que raramente vai conseguir fugir da tenta\u00e7\u00e3o. Tonys e Jakes, ent\u00e3o, viram efeito colateral.<\/p>\n<p>(andrebloc@opovo.com.br)<\/p>\n<p><strong>Cota\u00e7\u00e3o: nota 6\/8.<\/p>\n<p>Ficha t\u00e9cnica<br \/>\nMelhores Amigos<\/strong> (Little Men, EUA\/BRA\/GRE, 2016), de Ira Sachs. Drama. 85 minutos. Livre. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma grande, e rara, qualidade no cinema de Ira Sachs \u00e9 a compress\u00e3o. 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