{"id":904,"date":"2017-05-16T08:00:11","date_gmt":"2017-05-16T11:00:11","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/cinemaas8\/?p=904"},"modified":"2017-05-16T08:00:11","modified_gmt":"2017-05-16T11:00:11","slug":"mulher-que-se-foi-longa-duracao-como-proposta-estetica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/2017\/05\/16\/mulher-que-se-foi-longa-duracao-como-proposta-estetica\/","title":{"rendered":"&#8220;A Mulher que Se Foi&#8221;: a longa dura\u00e7\u00e3o como proposta est\u00e9tica"},"content":{"rendered":"<p>Por mais que seja justo, \u00e9 triste que a longa dura\u00e7\u00e3o dos filmes de Lav Diaz puxem praticamente todas as discuss\u00f5es sobre o cinema do filipino. Mas \u00e9 natural quando &#8220;A Mulher que se foi&#8221;, sua obra mais recente, se mostra um dos filmes mais curtos da carreira de Diaz, totalizando 226 minutos &#8211; lembrando que &#8220;Evolu\u00e7\u00e3o de uma Fam\u00edlia Filipina&#8221; (2004) tem 540 minutos. Mais do que mostrar todas as nuances de uma hist\u00f3ria, o filipino gostar de esmiu\u00e7ar nuances, estender sentimentos e ampliar efeitos. O que resulta em um imenso longa baseado em um conto.<\/p>\n<div id=\"attachment_908\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-908\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/05\/a-mulher-que-se-foi-cinema-\u00e0s-8-2-624x312.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"275\" class=\"size-large wp-image-908\" \/><p id=\"caption-attachment-908\" class=\"wp-caption-text\">Minerva (Marjorie Lorico) e a m\u00e3e, Horacia (Charo Santos-Concio)<\/p><\/div>\n<p>Tendo por base o texto &#8220;Deus V\u00ea a Verdade, Mas Espera&#8221; (1872), do russo Liev Tolst\u00f3i, &#8220;A Mulher que se Foi&#8221; \u00e9 uma nova visita de Lav Diaz a uma obra de um dos grandes romancistas russos. Assim como em &#8220;Norte, O Fim da Hist\u00f3ria&#8221; (2013), adapta\u00e7\u00e3o livre do cl\u00e1ssico &#8220;Crime e Castigo&#8221; (1866), de Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, Lav Diaz tra\u00e7a um paralelo entre a injusti\u00e7a da R\u00fassia czarista do s\u00e9culo XIX e as Filipinas, igualmente desiguais ainda no fim do s\u00e9culo XX (o filme se passa em 1997).<\/p>\n<p>N\u00e3o por coincid\u00eancia, uma e outra trama se focam no senso de justi\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os, nas falhas do sistema judici\u00e1rio e na desigualdade social. &#8220;A Mulher Que se Foi&#8221;, no entanto, adiciona uma no\u00e7\u00e3o palp\u00e1vel de f\u00e9 e de bondade humanas em uma personagem central surpreendente. Horacia Somorostro (Charo Santos-Concio) ficou 30 anos presa, acusada de um assassinato que n\u00e3o cometera. Ap\u00f3s uma amiga presidi\u00e1ria confessar ser a autora do crime, ela tenta retomar a vida em um pa\u00eds completamente mudado.<\/p>\n<div id=\"attachment_907\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-907\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/05\/a-mulher-que-se-foi-cinema-\u00e0s-8-1-624x351.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"309\" class=\"size-large wp-image-907\" \/><p id=\"caption-attachment-907\" class=\"wp-caption-text\">Horacia planeja uma vingan\u00e7a<\/p><\/div>\n<p>O primeiro passo \u00e9 entrar em contato com os dois filhos, mas ela rapidamente descobre que o primog\u00eanito sumiu h\u00e1 anos. O segundo e mais importante passo \u00e9 se vingar de um ex-namorado, o respons\u00e1vel pela pris\u00e3o injusta. Horacia se muda e come\u00e7a uma vida dupla nas imedia\u00e7\u00f5es de onde morara. De dia, ela trabalha. \u00c0 noite, ela \u00e9 Renata, uma sol\u00edcita moradora de rua que tenta observar a rotina do rico Rodrigo Trinidad (Michael De Mesa), o tal ex-namorado.<\/p>\n<p>Um ponto central, diferenciador do cinema de Lav Diaz, \u00e9 a forma como ele constr\u00f3i as rela\u00e7\u00f5es dos personagens. Estendendo os sentimentos, a empatia entre os moradores dessas ruas sujas, ele transforma uma trama de \u00f3dio em um ato de amor. Aos poucos, Horacia\/Renata se foca mais em ajudar a mendiga Mameng (Jean Judith Javier), o vendedor de baluts (n\u00e3o pesquisem o que \u00e9 um balut) Corcunda (Noni Buencamino) e, em especial, a travesti Hollanda (John Lloyd Cruz). <\/p>\n<div id=\"attachment_905\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-905\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/05\/a-mulher-que-se-foi-cinema-\u00e0s-8-3-624x351.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"309\" class=\"size-large wp-image-905\" \/><p id=\"caption-attachment-905\" class=\"wp-caption-text\">Corcunda (Noni Buencamino), Horacia e Hollanda (John Lloyd Cruz)<\/p><\/div>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 questionamento sobre o car\u00e1ter de Horacia. Ela opta por uma vida entre p\u00e1rias, dentro da injusti\u00e7a da sociedade, por um objetivo. Dentro do vi\u00e9s religioso que se abre em &#8220;A Mulher Que se Foi&#8221;, ela surge como um anjo na vida de pessoas marginais. Mameng \u00e9 essencial por ressaltar o discurso de anjos e dem\u00f4nios e, com seu aspecto repugnante, mostrar que Horacia \u00e9 generosa de fato. Da mesma forma \u00e9 Hollanda, que pode at\u00e9 ser tratada como homem, mas \u00e9 cuidada de uma forma que nunca sentira antes.<\/p>\n<p>Como de costume, Lav Diaz ancora seu roteiro em di\u00e1logos densos, cheios de significados e que apontam para m\u00faltiplas conclus\u00f5es. Tudo tem seu tempo, sua dimens\u00e3o e, por mais que a dura\u00e7\u00e3o do filme seja enorme, pouco pesa. Claro, a obra \u00e9 cansativa, mas n\u00e3o \u00e9 entediante. Mas se h\u00e1 um problema de condu\u00e7\u00e3o, \u00e9 a perda de forma ao fim de &#8220;A Mulher Que se Foi&#8221;. H\u00e1 um \u00e1pice po\u00e9tico no fim do terceiro ato; ent\u00e3o, Diaz aposta em um arrastado ep\u00edlogo, fechando quest\u00f5es e retomando outros pontos lentamente. \u00c9 parte da est\u00e9tica aberta do filipino, claro, mas tira o impacto do \u00e1pice da trama. <\/p>\n<p>Fascinante, longo, rico e com um desenrolar pouco comum, o cinema de Lav Diaz \u00e9 uma perspectiva nova. \u00c9 uma forma extensa de olhar algo, ainda que n\u00e3o v\u00e1 pelo caminho \u00f3bvio da no\u00e7\u00e3o de tudo mostrar ou de descrever todas as sombras do roteiro. O excesso de di\u00e1logos expositivos e a dificuldade de se encerrar o filme, no entanto, tornam a experi\u00eancia mais lenta do que o necess\u00e1rio. Nunca menos fascinante.<\/p>\n<p>(andrebloc@opovo.com.br)<\/p>\n<p><strong>Cota\u00e7\u00e3o: nota 5\/8<\/p>\n<p>Ficha t\u00e9cnica<br \/>\nA Mulher Que se Foi<\/strong> (Ang babaeng humayo, FIL, 2016), de Lav Diaz. Drama. 226 minutos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por mais que seja justo, \u00e9 triste que a longa dura\u00e7\u00e3o dos filmes de Lav Diaz puxem praticamente todas as discuss\u00f5es sobre o cinema do&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":112,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[57,198,296,427],"class_list":["post-904","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-critica","tag-a-mulher-que-se-foi","tag-critica","tag-filipinas","tag-lav-diaz"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/904","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/users\/112"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=904"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/904\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=904"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=904"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=904"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}