{"id":989,"date":"2017-07-07T08:00:25","date_gmt":"2017-07-07T11:00:25","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/cinemaas8\/?p=989"},"modified":"2017-07-07T08:00:25","modified_gmt":"2017-07-07T11:00:25","slug":"divindades-imigrantes-de-deuses-americanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/2017\/07\/07\/divindades-imigrantes-de-deuses-americanos\/","title":{"rendered":"As divindades imigrantes de &#8220;Deuses Americanos&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>T\u00e3o importante quanto a qualidade de uma obra, o timing de lan\u00e7amento pode ser o fator definidor do sucesso. A adapta\u00e7\u00e3o de &#8220;Deuses Americanos&#8221; (2001), premiado romance do escritor, quadrinista e roteirista ingl\u00eas Neil Gaiman, quicava de est\u00fadio em est\u00fadio sendo tachado de inadapt\u00e1vel. A\u00ed veio a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos e o cerne da obra se mostrou essencial demais para ser ignorado.<\/p>\n<div id=\"attachment_990\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-990\" class=\"size-large wp-image-990\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/07\/american_gods_cinema_\u00e0s_8_3-624x351.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"309\" \/><p id=\"caption-attachment-990\" class=\"wp-caption-text\">Shadow (Ricky Whittle) e o senhor Wednesday (Ian McShane)<\/p><\/div>\n<p>A primeira temporada, com oito epis\u00f3dios, foi disponibilizada semanalmente no servi\u00e7o pago de streaming Amazon Prime Video entre 30 de abril e 18 de junho e, de cara, deixou uma marca. O grande m\u00e9rito da adapta\u00e7\u00e3o, criada por Bryan Fuller (de &#8220;Pushing Daisies&#8221; e &#8220;Hannibal&#8221;) e Michael Green, \u00e9 conseguir manter o esp\u00edrito moral do romance intacto, ainda que incluindo sub-tramas, novos personagens e reviravoltas modificadas. Em &#8220;Deuses Americanos&#8221;, somos apresentados a Shadow Moon (Ricky Whittle), ex-presidi\u00e1rio que \u00e9 solto com dias de anteced\u00eancia para poder lidar com a bizarra morte da esposa. Na viagem de volta, ele conhece o carism\u00e1tico trambiqueiro Wednesday (Ian McShane), que oferece algum objetivo para uma vida de algu\u00e9m sem prumo.<\/p>\n<div id=\"attachment_991\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-991\" class=\"size-large wp-image-991\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/07\/american_gods_cinema_\u00e0s_8_3-624x351.png\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"309\" \/><p id=\"caption-attachment-991\" class=\"wp-caption-text\">O &#8220;leprechaun&#8221; Mad Sweeney (Pablo Schreiber)<\/p><\/div>\n<p>At\u00e9 a\u00ed, tudo \u00e9 linear. S\u00f3 que &#8220;Deuses Americanos&#8221;, livro e seriado, se move nas entrelinhas. Cada um dos oito epis\u00f3dios se inicia com uma esp\u00e9cie de pre\u00e2mbulo, algo que encerrava os cap\u00edtulos do romance. Nessa introdu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o vemos Shadow, Wednesday ou qualquer dos personagens centrais. Vamos ao passado norte-americano. Vemos criminosos brit\u00e2nicos sendo enviados para os EUA para viver um regime de servid\u00e3o. Vemos escravos africanos, desesperados, pedindo ajuda em navios negreiros. Vemos deuses da morte eg\u00edpcios, oferecendo alento a quem dedicou respeito a eles. Vemos guerreiros vikings perdidos fazendo sacrif\u00edcios a Odin em busca de uma viagem segura de volta para a Escandin\u00e1via. Ou seja, acompanhamos a chegada dos imigrantes que formaram a diversidade e imensid\u00e3o dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s o contato com Wednesday, Shadow come\u00e7a a descobrir uma esp\u00e9cie de sombra no mundo em que vive (com perd\u00e3o do trocadilho). Ele briga com um autodenominado leprechaun (duende m\u00edtico irland\u00eas), consegue formar uma tempestade usando a concentra\u00e7\u00e3o, e, aos poucos, substitui o niilismo puro por uma cren\u00e7a absoluta. Para discutir moral, &#8220;Deuses Americanos&#8221; investe em religiosidade. Isso fica claro logo de cara, principalmente na brilhante introdu\u00e7\u00e3o do segundo epis\u00f3dio, &#8220;O segredo das colheres&#8221;. Ali, dentro de um navio negreiro, um escravo pede ajuda a uma aranha, que se transforma em Anansi, o deus africano das hist\u00f3rias. Em um mon\u00f3logo de tirar o f\u00f4lego, a personifica\u00e7\u00e3o da divindade reconstr\u00f3i a trajet\u00f3ria de racismo que ajudaria a formar a identidade dos Estados Unidos. Como apenas um deus poderia fazer, ele causa medo e espanto ao contar uma hist\u00f3ria que come\u00e7ava a ser escrita ali, dentro de um navio, e que continuaria sendo escrita em sangue negro at\u00e9 hoje.<\/p>\n<div id=\"attachment_992\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-992\" class=\"size-large wp-image-992\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/cinemaas8\/wp-content\/uploads\/sites\/57\/2017\/07\/american_gods_cinema_\u00e0s_8_3-624x416.jpe\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"367\" \/><p id=\"caption-attachment-992\" class=\"wp-caption-text\">Cada apari\u00e7\u00e3o da M\u00eddia (Gillian Anderson) \u00e9 mais espetacular. Nessa, ela imita Marilyn Monroe<\/p><\/div>\n<p>Para al\u00e9m do timing e do roteiro bem podado, &#8220;Deuses Americanos&#8221; ganha for\u00e7a com um casting preciso. Ricky Whittle tem a imposi\u00e7\u00e3o f\u00edsica que Shadow pede, enquanto Ian McShane traz sorriso e d\u00favida a cada frase. A entediada presen\u00e7a de Emily Browning tamb\u00e9m \u00e9 das mais precisas. Mas quem \u00e9 dona da s\u00e9rie \u00e9 Gillian Anderson (a eterna Scully, de &#8220;Arquivo X&#8221;), que faz a personifica\u00e7\u00e3o da M\u00eddia. \u00c9 a partir dela que o conflito entre os deuses antigos, representados pela misteriosa figura do senhor Wednesday, e dos deuses novos, da tecnologia, \u00e9 explicada. Um conflito entre tradi\u00e7\u00e3o e progresso, entre mito e ci\u00eancia. Ao representar a m\u00eddia, a atriz surge vestida de Lucille Ball, de David Bowie, de Marilyn Monroe e delicia a cada presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Assim como no livro de Neil Gaiman, &#8220;Deuses Americanos&#8221; rapidamente se transforma de um drama de personagem em um road-movie que viaja por um passado mitol\u00f3gico norte-americano. E, de destino em destino, a s\u00e9rie consegue aumentar a expectativa sobre a identidade real de Wednesday. As dicas s\u00e3o muitas e, para quem conhece v\u00e1rias mitologias pode adivinhar rapidamente, mas o momento da revela\u00e7\u00e3o \u00e9 o segundo melhor desta primeira temporada. O problema \u00e9 que esse momento demora, bastante, e os epis\u00f3dios 5, 6 e 7 perdem de vista o bom ritmo inicial e final da s\u00e9rie. Mas, lembremos, \u00e0s vezes o timing consegue superar os pormenores de uma produ\u00e7\u00e3o. E, bem, &#8220;Deuses Americanos&#8221; mostra que, desde a origem, os EUA s\u00e3o um pa\u00eds feito de imigrantes criminosos, escravos e fugitivos e que agora tem um presidente protecionista e que persegue estrangeiros. A ironia cobra seu pre\u00e7o.<\/p>\n<p>(andrebloc@opovo.com.br)<br \/>\n<strong><br \/>\nFicha t\u00e9cnica<br \/>\nDeuses Americanos<\/strong> (American Gods, EUA, 2017), de Bryan Fuller e Michael Green. Drama. Epis\u00f3dios de 55 minutos. Amazon Prime Video\/canal Starz. Temporada de oito epis\u00f3dios baseados no romance de Neil Gaiman<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>T\u00e3o importante quanto a qualidade de uma obra, o timing de lan\u00e7amento pode ser o fator definidor do sucesso. 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