{"id":1192,"date":"2010-08-16T14:31:54","date_gmt":"2010-08-16T17:31:54","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/?p=1192"},"modified":"2020-06-04T19:21:42","modified_gmt":"2020-06-04T22:21:42","slug":"sentimental-demais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/2010\/08\/16\/sentimental-demais\/","title":{"rendered":"Evaldo Gouveia, um compositor sentimental demais"},"content":{"rendered":"<p><strong><span style=\"color: #ff0000\"><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/sentimental-demais\/paginas-azuis-com-evaldo-gouveiafoto-iana-soares-em-08012010\/\" rel=\"attachment wp-att-1193\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-1193\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/22\/2010\/08\/DSC_0042-300x199.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"199\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2010\/08\/DSC_0042-300x199.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2010\/08\/DSC_0042-768x511.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2010\/08\/DSC_0042-740x492.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2010\/08\/DSC_0042-120x80.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Evaldo Gouveia de Oliveira<\/span><\/strong> \u00e9 \u00edntimo dos brasileiros. At\u00e9 quem nunca esteve com ele, certamente, j\u00e1 ouviu o que ele tem a dizer em can\u00e7\u00f5es como <strong><em>O trovador<\/em><\/strong>, <strong><em>Algu\u00e9m me disse<\/em><\/strong> e <strong><em>Sentimental<\/em><\/strong>. Ao longo de uma carreira que come\u00e7ou na Cear\u00e1 R\u00e1dio Clube e chegou \u00e0 gigante R\u00e1dio Nacional, Evaldo (em fotos de Iana Soares) viu suas hist\u00f3rias de amor virarem grandes cl\u00e1ssicos nas vozes imortais de <strong><span style=\"color: #808000\">Nelson Gon\u00e7alves<\/span><\/strong>, <strong><span style=\"color: #ffcc00\">\u00c2ngela Maria<\/span><\/strong>, <span style=\"color: #ff6600\"><strong>Gal Costa<\/strong> <\/span>e <strong><span style=\"color: #0000ff\">Zizi Possi<\/span><\/strong>.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria come\u00e7a bem antes, entre Or\u00f3s e Iguatu. Desde pequeno Evaldo j\u00e1 era encantado pela m\u00fasica que vinha do r\u00e1dio. Sua idade quando come\u00e7ou a cantar na radiadora \u00e9 dif\u00edcil precisar, uma vez que, pra vencer como compositor, ele teve que mentir a idade pra parecer mais velho. At\u00e9 segunda ordem, hoje ele tem seus 80 anos, completados no \u00faltimo dia 8 de agosto. \u201cNingu\u00e9m diz que eu tenho essa idade\u201d, diz com voz firme. \u201cParei de fumar e beber. Por isso \u00e9 que eu to bem\u201d. Ali\u00e1s, data n\u00e3o \u00e9 com ele mesmo. Logo no in\u00edcio da longa conversa, numa tarde ensolarada de sexta-feira, Evaldo alerta: \u201cS\u00f3 n\u00e3o me pergunte data\u201d. No entanto, parece que as lembran\u00e7as ainda est\u00e3o fresquinhas em sua mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Com a inf\u00e2ncia dividida entre a tranquilidade do interior, quando vivia sob os cuidados do av\u00f4 delegado, e as dificuldades financeiras na capital, quando tinha que matar a fome com banana, farinha e \u00e1gua, Evaldo Gouveia sempre acalentou o desejo de ser artista. \u201cDesde pequeno sonhava em estar cantando em Copacabana e um artista passar e dizer: \u2018Menino tu tem uma voz muito bonita\u2019. Que ele me contratasse e eu tirasse minha m\u00e3e do sufoco\u201d. O sonho se realizou e hoje ele conta sua hist\u00f3ria sempre com um viol\u00e3o do lado e um sorriso no rosto.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Voc\u00ea \u00e9 nasceu em Iguatu. Que lembran\u00e7as voc\u00ea tem da sua inf\u00e2ncia?<br \/>\n<span style=\"color: #0000ff\">Evaldo Gouveia<\/span><\/strong> \u2013 Na verdade, eu nasci em Or\u00f3s. Meu av\u00f4 era sargento de pol\u00edcia e tinha o comando da pol\u00edcia l\u00e1. Quando eu nasci, o pai do Fagner, seu Fares, era amigo do meu av\u00f4 e disse: \u201cOh, Fares, venha ver meu neto que nasceu\u201d. Eu com duas horas de nascido. Me levaram l\u00e1 pra ele me ver. Como a fam\u00edlia Belchior, que era o valent\u00e3o, tava quebrando tudo l\u00e1 no Iguatu, meu av\u00f4 foi mandado pra l\u00e1. E eu fui pra Iguatu num ca\u00e7u\u00e1 de burro com oito meses de nascido. Por isso eu me considero&#8230; Me considero n\u00e3o: Eu sou iguatuense. Foi l\u00e1 que eu vivi at\u00e9 os 12 anos de idade. Me lembro muito de um carneirinho que eu tinha, que eu amava, mas n\u00e3o lembro o nome. Quando eu tinha cinco anos de idade, tinha um rapaz chamado Assis de Amancio, que tocava viol\u00e3o, e eu era doido pra aprender a tocar por causa das meninas da rua. \u00c0 noite, a gente juntava embaixo de um p\u00e9 de benjamim e ficava tocando e brincando. Quando eu comecei a aprender os tons, cantando tamb\u00e9m, diziam que eu tava tocando direitinho. Aos oito anos, eu j\u00e1 cantava na radiadora na pra\u00e7a da esta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>OP \u2013 E o que voc\u00ea cantava?<\/strong><br \/>\n<strong><span style=\"color: #0000ff\">EG \u2013<\/span><\/strong> \u201cNosso amor que eu n\u00e3o esque\u00e7o\/ E que teve o seu come\u00e7o\/ Numa festa de S\u00e3o Jo\u00e3o\u201d (\u201c\u00daltimo desejo\u201d, de Noel Rosa). Uma voz aguda pra lascar. Tinha um colegiozinho l\u00e1 que eu ia na parte da manh\u00e3, mas meu neg\u00f3cio mesmo era a m\u00fasica e ficar com as meninas ali. Minha tia tocava bandolim. Ent\u00e3o, eu fui envolvido. Todo mundo fazia um tonzinho pra mim.<\/p>\n<p><strong>OP \u2013 Voc\u00ea falou no seu av\u00f4, mas e os seus pais?<\/strong><br \/>\n<strong><span style=\"color: #0000ff\">EG \u2013<\/span><\/strong> Eu fui criado sem pai. Houve uma desaven\u00e7a de fam\u00edlia, meu pai com a minha m\u00e3e. Quando eu tinha cinco anos, ele se mandou pra Amaz\u00f4nia, pra neg\u00f3cio de borracha, e n\u00e3o o vi mais. Tu acredita que, aos 17, 18 anos de idade eu ainda perguntava a quem vinha daqueles lados: \u201cVoc\u00ea conheceu um cara chamado Jos\u00e9 Augusto? \u00c9 meu pai\u201d. A\u00ed eu perguntei a um cara e ele disse: \u201c\u00c9 um que era bo\u00eamio?\u201d. Disse: \u201cS\u00f3 era\u201d. (Resposta) \u201cAh! Mataram em Bel\u00e9m na zona\u201d. (Evaldo) \u201cRapaz, \u00e9 mesmo?!\u201d. A\u00ed aquele desengano foi total na minha vida e nunca mais eu pensei nele. (anos depois Evaldo descobriu que o pai tava vivo e foi encontr\u00e1-lo).<\/p>\n<p><strong>OP \u2013 E como foi sua mudan\u00e7a pra Fortaleza? Foi dif\u00edcil sair do interior para a cidade grande?<\/strong><br \/>\n<strong><span style=\"color: #0000ff\">EG \u2013<\/span><\/strong> N\u00f3s viemos pra capital e foi um tal de passar fome, rapaz. Minha m\u00e3e passava roupa pra soldado da pol\u00edcia. Tu imagina, ganhar dinheiro de soldado, que j\u00e1 n\u00e3o ganhava nada. E eu fui vender inhame, macaxeira e batata doce no mercado central (onde hoje funciona o Centro de Refer\u00eancia do Professor). Foi quando um dia me disseram pra ir ao show de calouros. \u201cTem um pr\u00eamio de 150 mil r\u00e9is. Tu vai l\u00e1 e se inscreve\u201d.<\/p>\n<p><strong>OP \u2013 E o que voc\u00ea gostava de ouvir nesta \u00e9poca? Tinha um artista preferido?<\/strong><br \/>\n<strong><span style=\"color: #0000ff\">EG \u2013<\/span><\/strong> M\u00fasica pra mim era m\u00fasica. Toda qualidade de m\u00fasica boa. Eu ia pro pezinho do r\u00e1dio e pegava a letra o tom. Eu j\u00e1 nasci artista. Eu ouvia Dircinha (Batista), Linda (Batista), do Nelson (Gon\u00e7alves). Mas, o preferido era o S\u00edlvio Caldas. \u201cMinha vida era um palco iluminado\u201d (cantando \u201cCh\u00e3o de estrelas\u201d, de Silvio Caldas e Orestes Barbosa). Puta que pariu! Eu j\u00e1 acompanhava as serestas. Era um per\u00edodo dif\u00edcil dentro da minha casa. Ent\u00e3o, num s\u00e1bado me levaram pra cantar num programa de calouros e eu cantei \u201cCaminhemos\u201d, do Herivelto Martins. \u201cN\u00e3o, eu n\u00e3o posso lembrar que te amei&#8230;\u201d. meu filho, quando eu vi aqueles 150 pau dentro do meu bolso, foi a maior alegria da minha vida. Passei uma semana comendo galinha. E eu tinha a minha torcida. Ent\u00e3o, eu disse: \u201cEu vou de novo\u201d. Fui e foi mais 150.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/sentimental-demais\/paginas-azuis-com-evaldo-gouveiafoto-iana-soares-em-08012010-3\/\" rel=\"attachment wp-att-1195\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-1195\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/22\/2010\/08\/DSC_0193-300x199.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"199\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2010\/08\/DSC_0193-300x199.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2010\/08\/DSC_0193-768x511.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2010\/08\/DSC_0193-740x492.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2010\/08\/DSC_0193-120x80.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>OP \u2013 Voc\u00ea, ent\u00e3o, come\u00e7ou a cantar profissionalmente com o Trio Nag\u00f4. Como foi esse come\u00e7o?<br \/>\n<span style=\"color: #0000ff\">EG \u2013<\/span><\/strong> Eu era muito encabulado, tanto que eu cantava olhando pros p\u00e9s. Mas, fui contratado pela Cear\u00e1 R\u00e1dio Clube pra fazer parte do casting. Um dia o Trio Irakitan cantou em Fortaleza e eu fiquei com aquele neg\u00f3cio na cabe\u00e7a. Um dia cheguei para o M\u00e1rio Alves e disse \u201cvamos montar um trio?\u201d. (Resposta) \u201cRapaz, voc\u00ea ta doido? Sou um homem de 40 anos e tenho seis filhos\u201d. Mas ele gostava quando ele cantava e eu fazia uma segunda voz. Insisti dizendo que seria s\u00f3 pra cantar em casa de amigo. O M\u00e1rio era considerado a voz do Cear\u00e1 e \u201cPr\u00edncipe da tesoura\u201d, o melhor alfaiate de Fortaleza. Ent\u00e3o eu chamei o Epaminondas (de Souza). Come\u00e7amos a ensaiar \u201cAve Maria do Morro\u201d, \u201cJezebel\u201d e \u201cBoiadeiro\u201d. Fizemos os arranjos, come\u00e7amos a cantar e espalhamos por a\u00ed o Trio<\/p>\n<p><strong>OP \u2013 Foi com eles que voc\u00ea trocou Fortaleza pelo sudeste, fazendo shows no Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo. Como foi esta chegada por l\u00e1?<br \/>\n<span style=\"color: #0000ff\">EG \u2013<\/span><\/strong> Foi neg\u00f3cio pra matar todo mundo. N\u00f3s fomos com tudo. N\u00f3s ficamos 15 dias dentro no Hotel Excelsior, que era o melhor hotel de S\u00e3o Paulo, e pronto. \u00c0 noite, a gente descia via aquele monte de bicha l\u00e1, que eu tinha era medo. Passei dois dias sem tomar banho porque n\u00e3o achei o chuveiro. Eu n\u00e3o conhecia chuveiro! Aqui eu tomava banho de cuia. A r\u00e1dio tinha dado todo o esquema, mas n\u00f3s \u00e9 que n\u00e3o fomos alerta pra procurar. Foi quando o diretor da r\u00e1dio foi l\u00e1, pediu desculpas e disse: \u201ctem mais de 100 pessoas esperando pra conhecer voc\u00eas. Voc\u00eas entram amanh\u00e3\u201d. Na nossa estreia, o audit\u00f3rio da Tupi estava de p\u00e9. O diretor, de cara, perguntou se a gente podia ficar um m\u00eas e deu um tanto de dinheiro pra fazer cinco programas. Topam? Ora, com o dinheiro e n\u00f3s todos duros.<\/p>\n<p><strong>OP \u2013 E sua ida para o Rio de Janeiro&#8230;<br \/>\n<span style=\"color: #0000ff\">EG \u2013<\/span><\/strong> Tinha que cantar no C\u00e9sar de Alencar, se n\u00e3o, n\u00e3o valia nada. N\u00f3s combinamos de ir, pegar um t\u00e1xi no aeroporto e procurar um hotelzinho barato. Hoje eu passo l\u00e1 e vejo, Hotel Ara\u00fajo, um rendez vous perto da central do Brasil que \u00e9 o maior reduto de malandro do mundo. Ningu\u00e9m dormia com a zoada \u00e0 noite. Tamb\u00e9m, eu fui pedir uma coisa baratinha! Depois, chegamos na R\u00e1dio Nacional e eu j\u00e1 me espantei com o elevador. Nos apresentamos dizendo que \u00e9ramos do Cear\u00e1. A secret\u00e1ria disse que n\u00e3o tinha espa\u00e7o, s\u00f3 pra dali a um m\u00eas. Fiquei com l\u00e1grimas nos olhos. Quando fomos embora, que chegamos na porta do elevador, o M\u00e1rio encontrou um amigo, produtor aqui do Cear\u00e1, que era o primeiro redator da R\u00e1dio Nacional, e foi aquele abra\u00e7o. O M\u00e1rio contou o que tinha acontecido e ele \u201cconversa fiada, vem c\u00e1\u201d. Nos levou direto para sala do C\u00e9sar. Ele marcou da gente cantar no Teatro Jo\u00e3o Caetano. Chegamos meio dia e ficamos vendo l\u00e1 os artistas. Quando chegou a nossa vez, o Cesar disse \u201cvou chamar agora tr\u00eas campos de avia\u00e7\u00e3o\u201d, cabe\u00e7a chata, n\u00e9? E eu pensei, \u201cdeixa s\u00f3 a gente come\u00e7ar a cantar\u201d. Ele ficou doidim, a plateia aplaudia de p\u00e9. Ele at\u00e9 convidou pra ir cantar na boate dele em Copacabana, disse que ia ter cach\u00ea e nunca pagou. No segundo m\u00eas, a R\u00e1dio Nacional contratou o Trio Nag\u00f4.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/sentimental-demais\/paginas-azuis-com-evaldo-gouveiafoto-iana-soares-em-08012010-4\/\" rel=\"attachment wp-att-1196\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-1196\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/22\/2010\/08\/DSC_0319-300x199.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"199\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2010\/08\/DSC_0319-300x199.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2010\/08\/DSC_0319-768x511.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2010\/08\/DSC_0319-740x492.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2010\/08\/DSC_0319-120x80.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>OP \u2013 Aos 29 anos, veio sua primeira composi\u00e7\u00e3o, \u201cDeixe que ela se v\u00e1\u201d, feita com Gilberto Ferraz e gravada pelo Nelson Gon\u00e7alves. Como nasceu essa composi\u00e7\u00e3o? Como ela chegou ao Nelson Gon\u00e7alves?<br \/>\n<span style=\"color: #0000ff\">EG \u2013<\/span><\/strong> Eu tinha namorada chamada Elo\u00edna, o corpo mais bonito do teatro, um amigo perguntou por ela e eu respondi, \u201cah, deixe que ela se v\u00e1. N\u00e3o quero nem saber\u201d. E eu fiz uma melodia \u201cdeixe que ela se v\u00e1, n\u00e3o lhe diga que n\u00e3o, que n\u00e3o\u201d (cantando). Nessa brincadeira, quando chegava a turma eu cantava. E num \u00e9 que eu terminei a can\u00e7\u00e3o! E eles diziam que tava bonito. O L\u00facio Alves disse que tava bonito. Um dia, no bar da R\u00e1dio Nacional, o M\u00e1rio Lago me chamou e disse pra eu mostrar minha m\u00fasica para o Nelson Gon\u00e7alves, que tava l\u00e1. E ele disse, \u201cleva na RCA Victor (gravadora) que eu gravo\u201d. Passou seis meses, e ele sem me dizer nada. Um dia eu tava num bar, no banheiro, e o pessoal me chamando por que tava tocando minha m\u00fasica. N\u00e3o deu um m\u00eas, saiu a letra no jornal. Comprei vinte jornais e mandei pro Cear\u00e1, pros amigos todos. O Gilberto era um companheiro meu que s\u00f3 botou duas palavras na letra, mas eu disse \u201cfica a\u00ed na parceria\u201d.<\/p>\n<p><strong>OP \u2013 Em seguida, veio \u201cEu e deus\u201d, composta com Pedro Caetano e gravada por Nora Ney. Essa teve hist\u00f3ria?<\/strong><br \/>\n<strong><span style=\"color: #0000ff\">EG \u2013<\/span><\/strong> Foi mesmo! A Nora Ney passou mim e disse \u201cmenino\u201d \u2013 nessa \u00e9poca meu nome era \u201cmenino do Trio Nag\u00f4\u201d \u2013 \u201ctu que \u00e9 o Evaldo? Aquela m\u00fasica \u00e9 tua? Menino, que coisa bonita. Tu n\u00e3o tem outra n\u00e3o?\u201d. Eu respondi, \u201ce mais bonita\u201d. Mas eu n\u00e3o tinha nada. Fui pra casa, encontrei o Pedro Caetano, disse o que tava acontecendo e ele \u201ctu quer fazer agora?\u201d. Vambora. E ela gravou.<\/p>\n<p><strong>OP \u2013 O que acha dessas suas primeiras composi\u00e7\u00f5es comparando com as novas?<br \/>\n<span style=\"color: #0000ff\">EG \u2013<\/span><\/strong> Eu melhorei harmonicamente.<\/p>\n<p><strong>OP \u2013 Mas voc\u00ea j\u00e1 gosta dessas primeiras?<\/strong><br \/>\n<strong><span style=\"color: #0000ff\">EG \u2013<\/span><\/strong> \u00c9 perfei\u00e7\u00e3o! Eu j\u00e1 vim derrubando os outros. Recebi at\u00e9 amea\u00e7a quando ganhei meu primeiro samba na Portela. Disseram pra minha m\u00e3e, \u201cdiga a seu filho que tome cuidado se n\u00e3o ele morre na primeira esquina de Madureira\u201d. A\u00ed, eu ganhei o segundo samba e me mandei pra S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><strong>OP \u2013 Em 1958, voc\u00ea conheceu o Jair Amorim (1915 \u2013 1993) que se tornou um dos seus principais parceiros. Como voc\u00eas se conheceram?<\/strong><br \/>\n<strong><span style=\"color: #0000ff\">EG \u2013<\/span><\/strong> Um dia disseram que eu tava ganhando muito dinheiro com a m\u00fasica que o Nelson gravou. E eu perguntei como. \u201cOra, com direitos autorais\u201d. E eu l\u00e1 sabia o que era direitos autorais! \u201cRapaz, vai l\u00e1 na UBC (Uni\u00e3o Brasileira de Compositores), procura o Jair Amorim, que \u00e9 o secret\u00e1rio, e se associa l\u00e1. Onde tocar tua m\u00fasica tu ta ganhando\u201d. Minha vida era ganhar com o Trio e a vendagem dos discos. Quando ele falou em Jair Amorim, meu cora\u00e7\u00e3o bateu. Quando cheguei l\u00e1, que me apresentei, disseram que ele (Jair) queria muito falar comigo. Estranhei porque nunca tinha dito que iria l\u00e1. Na certa ele j\u00e1 me conhecia e tava querendo um parceiro. E, assim, nasceu a dupla.<\/p>\n<p><strong>OP \u2013 Fora da parceria, voc\u00eas tamb\u00e9m eram amigos pr\u00f3ximos?<\/strong><br \/>\n<strong><span style=\"color: #0000ff\">EG \u2013<\/span><\/strong> O Jair s\u00f3 fazia m\u00fasica comigo. Jair sem Evaldo Gouveia n\u00e3o fazia nada. Eu fazia m\u00fasica, dava toda a ideia, ele ia pra janela e fazia letra. Ele at\u00e9 podia fazer m\u00fasica, mas n\u00e3o era o forte dele. Eu chegava de madrugada em Copacabana, ia pro bar onde o Tom (Jobim) tocava e ficava com o Tom, Vin\u00edcius e a corriola toda. Eu era da mesma laia deles. Mas o Jair era outro tipo de gente. A mulher do Jair era muito&#8230; toda&#8230; (ele prefere n\u00e3o falar). Ele \u00e9 20 anos mais velho que eu. N\u00f3s \u00e9ramos amigos. A mulher at\u00e9 tinha ci\u00fames por que dizia que era eu quem levava ele, mas era o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/sentimental-demais\/paginas-azuis-com-evaldo-gouveiafoto-iana-soares-em-08012010-5\/\" rel=\"attachment wp-att-1205\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-1205\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/22\/2010\/08\/DSC_0056-300x199.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"199\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2010\/08\/DSC_0056-300x199.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2010\/08\/DSC_0056-768x511.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2010\/08\/DSC_0056-740x492.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2010\/08\/DSC_0056-120x80.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>OP \u2013 Mas, com a parceria, voc\u00eas estavam sempre<\/strong> <strong>pr\u00f3ximos.<\/strong><br \/>\n<strong><span style=\"color: #0000ff\">EG \u2013<\/span><\/strong> N\u00e3o, por que a mulher dele&#8230; t\u00e1 louco&#8230; No dia que ele falou que queria me conhecer, ele me disse \u201cEvaldo, eu to vi\u00favo\u201d. Eu pensava que ele tinha perdido a mulher, mas era vi\u00favo de parceria. Eu encontrei o Jair na UBC e fui pro Bar do Gouveia. Chegava l\u00e1, era um litro de whisky e tal. Eu nunca tinha colocado whisky na boca, ent\u00e3o misturava com guaran\u00e1 pra dar certo. Fomos pra l\u00e1, sentamos e o gar\u00e7om veio servir. Tinha que botar na medida, n\u00e3o podia derramar, por que o Jair n\u00e3o gostava de choro. Eu botei o gole na boca, foi em cima dele. Eu vomitei. Eu l\u00e1 sabia que aquele neg\u00f3cio era ruim daquele jeito. \u201cSeu Jair, o senhor me desculpe\u201d. Deixei l\u00e1, e tomei um guaran\u00e1. O tempo passou e eu dizia pra ele \u201co culpado \u00e9 voc\u00ea\u201d. Eu fui o maior bebedor de whisky do Brasil. Parei de beber quando vi todo mundo morrendo, at\u00e9 o Jair.<\/p>\n<p><strong>OP \u2013 A primeira m\u00fasica que voc\u00eas fizeram juntos foi \u201cConversa\u201d&#8230;<br \/>\n<span style=\"color: #0000ff\">EG \u2013<\/span><\/strong> (Lembrando) Foi! Foi essa mesmo, que eu gravei com a Hebe Camargo, que na \u00e9poca namorava o Jo\u00e3o Calmon (ex-diretor da Cear\u00e1 R\u00e1dio Clube). Naquela \u00e9poca, mocinha, ela vinha aqui pro Cear\u00e1. Depois a Ala\u00edde Costa regravou. A\u00ed, acabou tempo ruim. Deixei de ser o \u201cmenino\u201d e era \u201copa, Evaldo Gouveia, tudo bem?\u201d. Veio reportagem, eu sa\u00eda demais na (revista) Radiolandia. Eu s\u00f3 vivia em teatro. Uma vez o Chico Anysio disse que ia a Lisboa \u201cmas o (violonista) M\u00e3o de Vaca ta com \u2018n\u00e3o sei quem\u2019 no Chile, tu tem viol\u00e3o el\u00e9trico?\u201d. (resposta imediata) \u201ce dos bons\u201d. Mentira, mas dois dias depois eu tava voando com o Chico.<\/p>\n<p><strong>OP \u2013 Muitas das suas can\u00e7\u00f5es com o Jair, como \u201cSentimental demais\u201d, \u201cAlgu\u00e9m me disse\u201d, \u201cO trovador\u201d&#8230;<br \/>\n<span style=\"color: #0000ff\">EG \u2013<\/span><\/strong> (interrompendo) \u201cO trovador\u201d foi assim, o Jair Amorim falou assim pra mim \u201cEvaldo, eu queria ver se eu fazia uma marcha rancho tipo Lamartine Babo\u201d. \u201cEngra\u00e7ado, de fato, falta fazer uma marcha-rancho, n\u00e9, Jair?\u201d. E eu comecei, \u201csonhei que um dia eu era um trovador\u201d. Ele disse, \u201cnos velhos tempos que n\u00e3o voltam mais\u201d. Eu disse, \u201cpronto! Ta pronta\u201d. E foi num minuto.<\/p>\n<p><strong>OP \u2013 E o cantor que fez sucesso com essas m\u00fasicas foi o Altemar Dutra (1940 \u2013 1983). Como era a rela\u00e7\u00e3o de voc\u00eas?<\/strong><br \/>\n<strong><span style=\"color: #0000ff\">EG \u2013<\/span><\/strong> Ali o neg\u00f3cio foi s\u00e9rio. O (radialista Osvaldo) Sargentelli (1924 \u2013 2002) me chamou na R\u00e1dio Guanabara, \u201ceu tenho uma novidade aqui\u201d. Ele tinha uma considera\u00e7\u00e3o muito grande por mim. Quando ele disse isso, eu me mandei pra l\u00e1. (Sargentelli) \u201cTa vendo esse menino aqui? Ele trouxe uma carta do Esp\u00edrito Santo, mas ele n\u00e3o precisa de mim. Ele precisa \u00e9 de voc\u00ea, por que ele \u00e9 cantor. Ele canta todo o repert\u00f3rio de voc\u00eas\u201d. Levei pra o Altemar pra almo\u00e7ar l\u00e1 em casa e ele come\u00e7ou a cantar. Altemar sempre foi cantor no Esp\u00edrito Santo. Ficamos l\u00e1 conversando, bebendo, e, no dia seguinte, levei ele l\u00e1 na r\u00e1dio. Ele fez o teste, passou, e tr\u00eas meses depois gravou. Nossa rela\u00e7\u00e3o era de lascar, era de copo. Rela\u00e7\u00e3o de copo \u00e9 danado, n\u00e9? Quando eu fazia uma can\u00e7\u00e3o e mostrava pra ele, ele batia com pernas e fazia \u201cEh! Eh!\u201d, querendo dizer que era um novo sucesso.<\/p>\n<p><strong>OP \u2013 Ele foi seu melhor int\u00e9rprete?<\/strong><br \/>\n<strong>EG \u2013<\/strong> N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 que tenha sido o melhor. \u00c9 que a voz dele se adaptava e ele cantava a dupla com amor.<\/p>\n<p><strong>OP \u2013 E quem foi seu melhor int\u00e9rprete?<\/strong><br \/>\n<strong><span style=\"color: #0000ff\">EG \u2013<\/span><\/strong> N\u00e3o sei at\u00e9 hoje. Acho que fui eu mesmo, s\u00f3 que eu n\u00e3o quis. Eu fui o cara mais procurado nos anos 60, mas tinha medo por causa do Cear\u00e1. Tinha medo de eu gravar e estourar tudo a\u00ed e o povo dizer que eu tinha abandonado o Trio Nag\u00f4. Mas o Trio Nag\u00f4 acabou por eles mesmos.<\/p>\n<p><strong>OP \u2013 E como anda seu trabalho hoje?<br \/>\n<span style=\"color: #0000ff\">EG \u2013<\/span><\/strong> O mais importante \u00e9 que a minha cabe\u00e7a sempre foi boa. Eu plantei a minha vida, justamente pra hoje. Hoje, eu canto pela necessidade de p\u00fablico, mas tamb\u00e9m n\u00e3o vou de gra\u00e7a. Se for um amigo, eu vou legal. Mas, sempre, n\u00e3o. A minha vida sempre foi assim. Eu comprei muitos im\u00f3veis no Rio de Janeiro e, hoje, vivo de renda. Eu adoro o Rio. \u00c9 a cidade mais linda do mundo.<\/p>\n<p><strong>OP \u2013 Voc\u00ea gosta muito de contar suas hist\u00f3rias e, hoje em dia, muitos artistas est\u00e3o vendo suas hist\u00f3rias vivarem filmes. Se fossem fazer um filme sobre sua vida, como voc\u00ea gostaria que fosse a primeira cena?<br \/>\n<span style=\"color: #0000ff\">EG \u2013<\/span><\/strong> (para um pouco, olha pra cima e diz com um sorriso) Cantando uma can\u00e7\u00e3o e beijando uma mulher bonita. Era num teatro, por que eu nasci dentro da m\u00fasica e minha vida sempre foi o teatro, namorando mulher de teatro, e tinha que ser mulher bonita. Namorada de Evaldo Gouveia tinha que ser bonita.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Evaldo Gouveia de Oliveira \u00e9 \u00edntimo dos brasileiros. At\u00e9 quem nunca esteve com ele, certamente, j\u00e1 ouviu o que ele tem a dizer em can\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":74,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1192","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1192","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/74"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1192"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1192\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20272,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1192\/revisions\/20272"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1192"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1192"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1192"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}