{"id":13144,"date":"2015-06-29T09:30:04","date_gmt":"2015-06-29T12:30:04","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/?p=13144"},"modified":"2015-06-29T09:30:04","modified_gmt":"2015-06-29T12:30:04","slug":"a-saga-do-leao-do-norte-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/2015\/06\/29\/a-saga-do-leao-do-norte-2\/","title":{"rendered":"A saga do le\u00e3o do norte 2"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_13186\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2015\/06\/BOA5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-13186\" class=\"size-medium wp-image-13186\" alt=\"Foto: Chico Alencar\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2015\/06\/BOA5-300x450.jpg\" width=\"300\" height=\"450\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2015\/06\/BOA5-300x450.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2015\/06\/BOA5-768x1152.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2015\/06\/BOA5-740x1110.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2015\/06\/BOA5-120x180.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-13186\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Chico Alencar<\/p><\/div>\n<p><strong>O POVO \u2013 E nessa mesma \u00e9poca, voc\u00ea j\u00e1 mexia com m\u00fasica.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lenine \u2013<\/strong> Eu j\u00e1 tinha feito algumas coisas pontualmente, estudando e morando em Recife. J\u00e1 tinha feito disco independente, com o (grupo) Flor de Cactus. Mas, naquele momento, sofr\u00edamos todos com uma s\u00edndrome de vira-lata. O Nordeste no Brasil especialmente. O autoflagelativo, \u201ca gente n\u00e3o faz nada que preste\u201d. N\u00e3o tinha muito mercado e voc\u00ea tinha duas op\u00e7\u00f5es naquele momento: era Rio ou era S\u00e3o Paulo. E eu quis testar realmente. Quis saber o que, realmente, seria um futuro poss\u00edvel para mim. E, em recife, n\u00e3o dava por que tudo que eu podia fazer j\u00e1 tinha feito.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Isso tudo j\u00e1 com um trabalho autoral?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lenine \u2013<\/strong> Isso j\u00e1 iniciando, compondo. Nesses cursinhos tinha muitos festivais de m\u00fasica. E eu participei de alguns deles. Aquele momento era um term\u00f4metro pra mim.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 E que impacto teve dentro de casa quando voc\u00ea decidiu largar o curso, aos 20 anos, para fazer m\u00fasica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lenine \u2013<\/strong> Eu lembro muito disso. Estava no terceiro ano. Na mesa de jantar, onde a gente tinha plen\u00e1ria pra tudo, eu soltei a bomba. Disse assim: \u201ceu v\u00f4 trancar a faculdade e vou pro Rio\u201d. Eu passei muito cedo (no vestibular), com 17 anos, e a fam\u00edlia de uma forma muito carinhosa, por que eu sabia o quanto isso era dif\u00edcil pra eles, me deu uma passagem para ir visitar os primos no Rio. Aquilo foi marcante pra mim por que eu pude respirar um pouco uma cidade efervescente, plural. Eu achava. Hoje, eu morando depois de tantos anos, \u00e9 bem provinciana. Talvez, a \u00fanica cidade cosmopolita no Brasil seja S\u00e3o Paulo. Mas, naquele momento, eu me apaixonei pela cidade. Ent\u00e3o, passou um tempo, e, tr\u00eas anos depois, eu cheguei e disse: \u201c\u00f3, pai, vou trancar a faculdade, vou pro Rio, vou testar\u201d. Sil\u00eancio total e ele falou: \u201cpor que demorou tanto? Tr\u00eas anos e meio estudando um neg\u00f3cio. Podia ter feito esse teste antes\u201d. Ou seja, at\u00e9 nisso ele \u00e9 s\u00e1bio. Jogou tudo na minha m\u00e3o e eu fui, achando que ia ficar um tempo.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Ainda achava que iria voltar&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lenine \u2013<\/strong> Isso. Era s\u00f3 um teste. Tranquei a faculdade&#8230; Essas coisas n\u00e3o t\u00eam volta. Coincide com as descobertas do ser humano. Voc\u00ea com 20 anos, a vida&#8230; A\u00ed o filho j\u00e1 nasce em seguida. Jo\u00e3o (Cavalcanti, m\u00fasico) eu tive com 21 e ele j\u00e1 est\u00e1 fazendo 37. Todos os meus filhos s\u00e3o cariocas. S\u00e3o tr\u00eas. E, na verdade, eu n\u00e3o fui pro Rio. Eu tive a sorte de cair numa cidade do interior, a 50 metros do Rio de Janeiro que \u00e9 a Urca (risos). \u00c9 mesmo. Eu tenho conta no padeiro, no cara da farm\u00e1cia, no barbeiro, no jornaleiro. Dos 38 anos que eu t\u00f4 no Rio, t\u00f4 h\u00e1 30 na Urca. Nos outros oito anos, eu fiquei entre Jardim Bot\u00e2nico, Santa Tereza e Botafogo.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 E em Botafogo, voc\u00ea morou na Casa 9, que d\u00e1 nome ao seu selo? (A casa da Rua Teresa Guimar\u00e3es tamb\u00e9m abrigou nomes como Jards Macal\u00e9, S\u00f4nia Braga e H\u00e9lio Oiticica, todos em in\u00edcio de carreira).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lenine \u2013<\/strong> Ali era uma rep\u00fablica, n\u00e9? N\u00e3o era a casa onde eu morava. Era uma Faixa de Gaza. Um territ\u00f3rio ocupado, de para\u00edbas. E quando eu falo \u201cpara\u00edba\u201d tem essa abrang\u00eancia. T\u00f4 falando no Nordeste, por que, para algu\u00e9m que n\u00e3o conhece, pode achar que eu t\u00f4 s\u00f3 restringindo. N\u00e3o, eu t\u00f4 abrangendo. Quando digo \u201cpara\u00edba\u201d, \u00e9 do Maranh\u00e3o at\u00e9 o S\u00e3o Francisco.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Queria saber mais sobre sua chegada ao Rio de Janeiro. J\u00e1 tinha uma turma esperando l\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lenine \u2013<\/strong> N\u00e3o, todo mundo chegou um pouquinho depois, no final de 1980, 1981. Eu cheguei no final de 1979. Muito dessa liga\u00e7\u00e3o se deu por que est\u00e1vamos distantes de casa. E a\u00ed voc\u00ea aproxima naturalmente. Criou-se ali um n\u00facleo duro de cria\u00e7\u00e3o que gerou muitos trabalhos e que, at\u00e9 hoje, parte desse n\u00facleo s\u00e3o parceiros meus. Pr\u00f3ximos, queridos e c\u00famplices.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2015\/06\/BOA6.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-13192\" alt=\"BOA6\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2015\/06\/BOA6-300x450.jpg\" width=\"300\" height=\"450\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2015\/06\/BOA6-300x450.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2015\/06\/BOA6-768x1152.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2015\/06\/BOA6-740x1110.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2015\/06\/BOA6-120x180.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>O POVO \u2013 E era uma turma de pernambucanos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lenine \u2013<\/strong> Tinha tudo. Mas, nordestinos. E era assim, dava pra cair (se aproximar). Qualquer pessoa que tivesse de passagem pelo Rio podia cair. Ent\u00e3o, era um ponto de encontro de nordestinos. Mas, nem eram s\u00f3 nordestinos, por que ali terminou com a gente se encontrando com v\u00e1rios n\u00facleos de v\u00e1rias regi\u00f5es do Brasil tentando um espa\u00e7o, como n\u00f3s tamb\u00e9m est\u00e1vamos. A gente descobre ali que o Rio tinha essa coisa, como S\u00e3o Paulo, de agregar v\u00e1rios brasis ali convivendo. Ent\u00e3o, rapidamente, deixou de ser uma coisa nordestina pra ser mais dos exclu\u00eddos, dos que estavam permeando o acontecimento. A mo\u00e7ada nova querendo um lugar ao sol.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Seus dois primeiros trabalhos s\u00e3o divididos. O Baque solto (1983) com o Lula Queiroga e o Olho de peixe (1993) com o Marco Suzano&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lenine \u2013<\/strong> (interrompendo) At\u00e9 hoje meus discos s\u00e3o divididos. \u00c9 por que, no decorrer do processo, voc\u00ea assina uma autoralidade. Mas, essa autoralidade est\u00e1 dividida em v\u00e1rios momentos e de maneiras diferentes em tudo que eu fa\u00e7o. Aqui \u00e9 a coisa da missa. Como eu ritualizei isso ao ponto de o ajuntamento de v\u00e1rias assinaturas compreendem uma outra maior. Sacou? Tudo meu sempre foi coletivo. Talvez fique mais evidente por que dividimos, no Baque solto (1983) Lenine e Lula Queiroga. Mas, ali, no pr\u00f3prio desenho, ta todo mundo documentado. Ivan Santos, Br\u00e1ulio Tavares, ta todo mundo ali. Foi n\u00f3s dois por que a gente tinha feito um show, Roberto Menescal viu e disse \u201ceu quero gravar isso\u201d. Gravamos praticamente ao vivo dentro do est\u00fadio. Mas, sempre foi um n\u00facleo, sempre foi um coletivo.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 E como foi essa primeira grava\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lenine \u2013<\/strong> Foram uns 20 dias, um m\u00eas. Mas, era uma coisa que est\u00e1vamos testando no palco. Ent\u00e3o, o Baque solto foi o in\u00edcio de tudo. O palco, eu j\u00e1 tinha uma viv\u00eancia com ele. Eu j\u00e1 vinha dialogando com ele e incrementando esse processo. J\u00e1 tinha algum ch\u00e3o andado com o palco. Com o disco n\u00e3o. Ent\u00e3o, o Baque solto sofre muito com essa desinforma\u00e7\u00e3o. A gente, dois garotos de 21, 22 anos. Isso tudo pesou. A gente n\u00e3o teve ningu\u00e9m produzindo. Quem nos ajudou num determinado momento foi Luiz Roberto Bertrami. Foi carregado de imaturidade aquele primeiro momento. E s\u00f3 foi n\u00f3s dois por que o Menescal viu o show e \u00e9ramos n\u00f3s dois. Faz\u00edamos isso \u00e0 meia-noite no Teatro Ipanema, depois da \u00faltima sess\u00e3o de teatro, que terminava tipo umas 23h. A gente tinha que esvaziar tudo, montar o PA, alinhar, passar o som, pra meia-noite come\u00e7ar. Era uma correria.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 E do Baque solto para o Olho de peixe s\u00e3o 10 anos.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lenine \u2013<\/strong> Isso. Parece um hiato, n\u00e9? Mas, nesses 10 anos, eu peguei algumas cadeiras cativas nos trabalhos de alguns int\u00e9rpretes. Elba Ramalho, por exemplo. Eu exercitei a composi\u00e7\u00e3o de uma maneira muito mais profunda e passei a me encontrar nessa categoria de compositor, mas do que qualquer coisa. S\u00f3 fiz o Olho de peixe com parte de uma produ\u00e7\u00e3o que eu me sentia capaz de interpretar. Eu n\u00e3o me sinto capaz de cantar tudo que eu componho. Mais de 50% do que eu componho n\u00e3o canto. O exerc\u00edcio da composi\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais abrangente, muito maior. E o filtro \u00e9 outro. Como int\u00e9rprete, eu sou p\u00e9ssimo ator. Se eu n\u00e3o estiver 100% entronizado cada palavra que eu t\u00f4 dizendo, eu n\u00e3o consigo diz\u00ea-la. Como compositor, n\u00e3o. A equa\u00e7\u00e3o \u00e9 outra. \u00c9 tentar entrar na cabe\u00e7a do outro e imaginar palavras que possam soar verdadeiras e que ele nunca disse. \u00c9 meio psic\u00f3tico, velho. \u00c9 voc\u00ea se projetar. Tem a ver com psicofonia. Tem algumas m\u00fasicas que parece que foram psicofonadas, que n\u00e3o \u00e9 minha n\u00e3o. Tava ali, eu peguei e, se eu tivesse pego, o cara da esquina pegava.<\/p>\n<p><em>CONTINUA NO PR\u00d3XIMO POST&#8230;<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O POVO \u2013 E nessa mesma \u00e9poca, voc\u00ea j\u00e1 mexia com m\u00fasica. 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