{"id":13147,"date":"2015-06-29T10:00:28","date_gmt":"2015-06-29T13:00:28","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/?p=13147"},"modified":"2015-06-29T10:00:28","modified_gmt":"2015-06-29T13:00:28","slug":"a-saga-do-leao-do-norte-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/2015\/06\/29\/a-saga-do-leao-do-norte-3\/","title":{"rendered":"A saga do le\u00e3o do norte 3"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_13194\" style=\"width: 635px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2015\/06\/BOA11.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-13194\" class=\"size-large wp-image-13194\" alt=\"Fotos: Chico Alencar\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2015\/06\/BOA11-625x416.jpg\" width=\"625\" height=\"416\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-13194\" class=\"wp-caption-text\">Fotos: Chico Alencar<\/p><\/div>\n<p><strong>O POVO \u2013 O som do Lenine mistura influ\u00eancias pop com a tradi\u00e7\u00e3o nordestina. O mesmo tipo de olhar sobre a tradi\u00e7\u00e3o, mesmo que com resultados diferentes, foi feito uma d\u00e9cada antes por nomes como Fagner, Ednardo, Z\u00e9 Ramalho, Alceu Valen\u00e7a. Como nunca te ouvi falando que inventou esse ou aquele som, queria saber de que forma essa gera\u00e7\u00e3o de compositores te influenciou?<!--more--><\/strong><\/p>\n<p><strong>Lenine \u2013<\/strong> N\u00e3o existe ineditismo que resista a uma boa pesquisa bibliogr\u00e1fica. Novo \u00e9 aquilo que a gente esquece, por isso tem sabor de novo. Meu desejo n\u00e3o \u00e9 inovar, \u00e9 aumentar o n\u00edvel do papo. \u00c9 s\u00f3 o que eu desejo (risos). A gera\u00e7\u00e3o anterior tamb\u00e9m sofreu de uma certa solid\u00e3o. Eu tamb\u00e9m senti isso, mas tive a sorte de encontrar com algumas pessoas muito generosas que me ensinaram um outro caminho, de aposta numa coer\u00eancia. E a\u00ed me remonta tamb\u00e9m ao n\u00facleo familiar. Eu fico me lembrando do meu pai dizendo: \u201cpergunte sempre tr\u00eas coisas: o que voc\u00ea faz? Por que voc\u00ea faz? E pra quem voc\u00ea faz?\u201d. E isso eu nunca deixei de perguntar, mesmo antes de ousar achar que poderia ser m\u00fasico, compositor ou int\u00e9rprete. Isso n\u00e3o tem a ver com as gera\u00e7\u00f5es. Tem a ver com o ser humano, a tua forma\u00e7\u00e3o, a maneira como foi criado e a maneira como voc\u00ea acredita nisso tudo. E tamb\u00e9m por acreditar, em decorr\u00eancia disso, que eu n\u00e3o fa\u00e7o s\u00f3 entretenimento, cacete.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 E o que mais cabe no que voc\u00ea faz?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lenine \u2013<\/strong> Sabe, eu tenho um papel de educador nessa hist\u00f3ria. Ouso e prefiro acreditar que passa pela educa\u00e7\u00e3o o que eu fa\u00e7o. Eu prefiro acreditar que, de cada 100 pessoas, duas, quando termina o show, depois de dan\u00e7ar muito e de cantar comigo, v\u00e3o pra casa e \u201cporra, cara. Ele tava falando sobre isso, isso e isso\u201d. Que s\u00e3o quest\u00f5es que incomodam ou que comovem ao ponto de voc\u00ea se perguntar o que t\u00e1 fazendo nesse planeta que n\u00e3o ta querendo muda-lo pra uma coisa melhor. Isso, eu n\u00e3o acho que tenha a ver com gera\u00e7\u00e3o. Isso tem a ver com informa\u00e7\u00e3o. De que material voc\u00ea \u00e9 feito. Agora, evidentemente, quando voc\u00ea tem o desejo de fazer m\u00fasica, a\u00ed voc\u00ea vai ver o que est\u00e1 acontecendo em volta. E foi justamente Massafeira, Rodger Rog\u00e9rio, aqueles movimentos que estavam acontecendo. Tinha esse interc\u00e2mbio entre Olinda, que fazia um festival Chamin\u00e9. Eu vi Fagner a primeira vez ali. Vi Ednardo, novinho, todo cabeludo. Riponga ainda.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 O que voc\u00ea acha dessa no\u00e7\u00e3o de gera\u00e7\u00e3o, de movimentos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lenine \u2013<\/strong> As pessoas s\u00e3o levadas a falar sobre movimentos. Mas, todo movimento est\u00e9tico \u00e9 muito segregacionista. Movimento \u00e9 um bando de garoto dizendo que \u201cta tudo uma merda e eu \u00e9 que t\u00f4 fazendo a melhor coisa do mundo\u201d. Sempre \u00e9 assim. \u00c9 separatista. E eu fico me perguntando \u00e9 dos solit\u00e1rios. Onde se encaixa a\u00ed um Djavan? Onde se encaixa a\u00ed um Gonzaguinha? Onde se encaixava a\u00ed um Raul Seixas? Onde se encaixa Jorge Ben? O Brasil tem um caminh\u00e3o de exemplos dos solit\u00e1rios. Eu tenho a impress\u00e3o de que os solit\u00e1rios s\u00e3o mais solid\u00e1rios por causa dessa coisa. Foi dif\u00edcil, tem uma hora que acontece, a\u00ed voc\u00ea mensura a hist\u00f3ria, a\u00ed j\u00e1 est\u00e1 resolvida uma s\u00e9rie de coisas. J\u00e1 n\u00e3o acreditam no que se fala, para o bem ou para o mal. Tem a coer\u00eancia de saber o que faz, onde faz e por que faz, e continua sentindo o mesmo desejo e est\u00edmulo. Por que, no final das contas, para um criador, se n\u00e3o tiver isso, voc\u00ea deixa de criar. \u00c9 desejo e est\u00edmulo. Rodei, rodei, rodei e nem me lembro o que voc\u00ea perguntou (gargalhadas).<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Est\u00e1vamos falando da gera\u00e7\u00e3o anterior \u00e0 sua. Mas, eu queria pular para algumas gera\u00e7\u00f5es depois. Nos anos 90, voc\u00ea dividiu o palco com Moska, Suzano, Zeca baleiro e Chico C\u00e9sar no projeto 5 no Palco.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lenine \u2013<\/strong> \u00c9, foi um projeto da Universidade de S\u00e3o Carlos (SP) que compreendia na gente montar um espet\u00e1culo do zero e isso ser exposto. Todo o processo. Todo dia voc\u00ea mudava a lota\u00e7\u00e3o do teatro, que eram 400 lugares, por n\u00facleos de estudantes de esferas diferentes, medicina e n\u00e3o sei que l\u00e1. Era muito bacana isso. No final disso a\u00ed, a gente montou um espet\u00e1culo. O projeto foi t\u00e3o bacana que a gente rodou S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Eu lembrei esse trabalho para falar sobre a gera\u00e7\u00e3o de artistas da qual voc\u00ea faz parte. O que a turma de compositores dos anos 90 trouxe de novo para a m\u00fasica brasileira?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lenine \u2013<\/strong> \u00c9 injusto falar isso a\u00ed por que eu sou um pouquinho mais velho. Eu e Suzano.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Mas essa n\u00e3o \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o que surge forte nos anos 1990?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lenine \u2013<\/strong> Pra voc\u00ea (enf\u00e1tico). Como estou envolvido na hist\u00f3ria, eu tenho que te dizer. Na verdade \u00e9 Pedro Osmar (artista paraibano) que \u00e9 o mentor intelectual de um Chico C\u00e9sar. Pedro era meu parceiro de gera\u00e7\u00e3o. Chico \u00e9 mais novo que eu (cinco anos). Agora, n\u00e3o faz mais diferen\u00e7a, mas naquele momento fazia. Ent\u00e3o, Chico, Zeca e Moska \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o um pouquinho depois da minha, cronologicamente. Eu conheci Chico ainda fazendo as primeiras can\u00e7\u00f5es. Conhe\u00e7o os prim\u00f3rdios por que sei a alma propulsora, que foi Pedro Osmar. Pedro era mais um desse n\u00facleo duro daqui da minha gera\u00e7\u00e3o. Eu, Br\u00e1ulio Tavares, Ivan Santos, Tadeu Mathias, Lula Queiroga, Fuba, Alex Madureira, essa \u00e9 a minha gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n[youtube]https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=_Kwd5FnrW_I[\/youtube]\n<p><strong>O POVO \u2013 Que impacto o disco <i>Da lama ao caos<\/i> teve na sua vida quando voc\u00ea o ouviu a primeira vez?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lenine \u2013<\/strong> O impacto n\u00e3o se deu com o disco n\u00e3o. O impacto se deu muito antes deles gravarem o disco, quando eu tava de passagem por Recife e fui assistir num lugar estranho pra caralho, inclusive, que era um galp\u00e3o esquisito, central, no meio de uma pizzaria. Passava um corredor l\u00e1 fora e tinha um puta galp\u00e3o que eles estavam tocando. Foi muito impactante. No Rio de Janeiro tamb\u00e9m estavam acontecendo algumas coisas muito&#8230; (procurando palavras) Quando a gente fala no Manguebeat, e a gente j\u00e1 falou de movimento e eu te disse que movimento \u00e9 segregacionista, o Manguebeat n\u00e3o \u00e9 um movimento por excel\u00eancia. \u00c9 uma movimenta\u00e7\u00e3o maravilhosa, por que n\u00e3o tinha essa unidade est\u00e9tica que todo mundo achava que tinha. Quando a gente fala de Na\u00e7\u00e3o (Zumbi), embora seja mangue, \u00e9 da gera\u00e7\u00e3o do Planet Hemp, do Rappa. Acho que esse trio a\u00ed forma uma trindade de uma m\u00fasica rock contempor\u00e2neo que surgiu, praticamente, juntos. S\u00f3 que Chico, como estava isolado l\u00e1 em Recife, formou junto com uma turma a celebra\u00e7\u00e3o pelo fazer. Apesar das faltas de condi\u00e7\u00f5es. O Manguebeat tem essa coisa muito bacana de se ajudar no fazer. Os caras se ajudaram e foi um grande exorcismo. Repare. Minha Recife n\u00e3o fede. Pro Mangue, teve que haver o exorcismo. \u201cRecife fede\u201d, \u201ca lama, \u201co caos\u201d, \u201ca podrid\u00e3o\u201d. Eu, como sa\u00ed muito antes, o que levei de Recife n\u00e3o fede. S\u00f3 cheira bem (risos). Ent\u00e3o, tem diametralmente essa coisa. Como eles estavam l\u00e1, e a dificuldade de realizar era tamanha, houve um grande exorcismo. Acho bel\u00edssimo o que aconteceu com o Manguebeat, mas eu tenho que dizer que n\u00e3o foi um movimento. Foi uma maravilhosa e generosa movimenta\u00e7\u00e3o, e que abrangeu n\u00e3o s\u00f3 uma express\u00e3o est\u00e9tica, mas muitas. A gente pega de um Lirinha a um Mestre Ambr\u00f3sio, tudo \u00e9 Manguebeat pra todo mundo. Mas, um \u00e9 solar, o outro \u00e9 lunar. Um \u00e9 interiorano, o outro \u00e9 litor\u00e2neo. Mas, \u00e9 tudo Mangue. O genial foi isso. Foi um arqu\u00e9tipo. \u00c9 dif\u00edcil fazer, n\u00e9? A gente consegue. Esse tipo de coletividade que surge com o Mangue \u00e9 que foi pra mim impactante e impressionante. Se voc\u00ea botasse, antes do Mangue, dez caranguejo numa lata, o primeiro que tentasse subir os outros nove puxavam pra baixo. O Mangue chega exorcizando isso. Ent\u00e3o o Mangue tem uma coisa muito mais generosa, muito mais abrangente que eu aplaudo.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Seus discos apontam para influ\u00eancias e parcerias no mundo inteiro. Como \u00e9 o trabalho que voc\u00ea desenvolve no exterior? Que impacto esse nordeste pop tem na Europa, Am\u00e9rica do Norte?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lenine \u2013<\/strong> Bacana voc\u00ea perguntar isso por que corre simultaneamente com o meu trabalho de uma maneira geral no Brasil. Tinha essa coisa de um di\u00e1logo, que come\u00e7ou j\u00e1 no Baque solto, com uma m\u00fasica contempor\u00e2nea. Por que, na verdade, minha grande influ\u00eancia foi Milton Nascimento. Minha universidade de m\u00fasica foi o Clube da esquina, cara. Foi ele que me deu uma base harm\u00f4nica, mel\u00f3dica, r\u00edtmica, chique e refinada. A\u00ed eu descobri, j\u00e1 no primeiro disco e, depois, confirmei isso no Olho de peixe, esse di\u00e1logo que eu poderia estabelecer com essa contemporaneidade. Tinha gente parecida comigo espalhada pelo mundo todo e fazendo uma m\u00fasica contempor\u00e2nea, misturando esses elementos. De l\u00e1 pra c\u00e1, isso s\u00f3 se intensificou. E eu, realmente, fa\u00e7o isso, tenho v\u00e1rios parceiros espalhados pelo mundo. Tenho lugar pra cair em qualquer lugar desse planeta.<\/p>\n<p><em>CONTINUA NO PR\u00d3XIMO POST&#8230;<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O POVO \u2013 O som do Lenine mistura influ\u00eancias pop com a tradi\u00e7\u00e3o nordestina. 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