{"id":18600,"date":"2018-07-25T16:20:12","date_gmt":"2018-07-25T19:20:12","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/?p=18600"},"modified":"2018-07-18T16:20:35","modified_gmt":"2018-07-18T19:20:35","slug":"frank-sinatra-x-nelson-goncalves-os-reis-da-voz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/2018\/07\/25\/frank-sinatra-x-nelson-goncalves-os-reis-da-voz\/","title":{"rendered":"Frank Sinatra x Nelson Gon\u00e7alves: Os reis da voz"},"content":{"rendered":"<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Frank Sinatra - New York, New York (Live At Budokan Hall, Tokyo, 1985)\" width=\"668\" height=\"501\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/TK0Vdb1RUCk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Da origem simples ao estrondoso sucesso nacional, <span style=\"color: #000080\"><strong>Nelson Gon\u00e7alves<\/strong><\/span> precisou lutar muito para se manter no pante\u00e3o da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica. Sua produ\u00e7\u00e3o constante de discos, num determinado momento, at\u00e9 teria chamado a aten\u00e7\u00e3o de um colega de profiss\u00e3o nascido na Am\u00e9rica do Norte, impressionado com as mais de duas mil grava\u00e7\u00f5es do cantor brasileiro: esse colega era <span style=\"color: #0000ff\"><strong>Frank Sinatra<\/strong><\/span>. O encontro com \u201ca voz\u201d era uma das muitas hist\u00f3rias que \u201co bo\u00eamio\u201d contava repetidas vezes, mas que carece de provas, testemunhas ou mesmo veracidade \u2013 assim como esse n\u00famero absurdo de can\u00e7\u00f5es. Ainda assim, em muitos outros pontos, a vida destes dois gigantes da interpreta\u00e7\u00e3o parecia se encontrar.<!--more--><\/p>\n<p>Francis Albert Sinatra e Antonio Gon\u00e7alves Sobral eram filhos de imigrantes europeus, nascidos com apenas quatro anos de diferen\u00e7a. O jovem casal Marty e Dolly Sinatra veio da It\u00e1lia para se instalar na pequena Hoboken, cidade do estado de New Jersey onde tiveram um \u00fanico filho nascido num penoso parto a f\u00f3rceps no dia 12 de dezembro de 1915. Marty, analfabeto, se virava como fabricante de cadeiras e garrafas, ou outros empregos. Ao contr\u00e1rio da esposa, mulher forte, exigente e com fama de \u201cboca suja\u201d, ele era um sujeito calado que passou invis\u00edvel pela vida do herdeiro famoso.<\/p>\n<p>https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=4qvj4azDOXU<\/p>\n<p>Em 21 de junho de 1919, no munic\u00edpio sul-rio-grandense de Santana do Livramento, era vez de Antonio nascer, filho de um casal de imigrantes portugueses. Ainda pequeno, ele foi levado pelos pais para S\u00e3o Paulo, onde se instalou a fam\u00edlia simples que se sustentava com os bicos do pai. Entre muitos outros, um desses bicos era de m\u00fasico mambembe que tocava em feiras e vendia composi\u00e7\u00f5es. Quando Antonio come\u00e7ou a mostrar aptid\u00e3o para o canto, o pai se fazia de cego para acompanhar o filho no viol\u00e3o e garantir uma emo\u00e7\u00e3o a mais na plateia que respondia com gorjetas.<\/p>\n<p>A carreira de ambos come\u00e7ou cedo, mas por caminhos diferentes. F\u00e3 de Bing Crosby, Sinatra cruzou o Rio Hudson para cantar no bar que os pais mantinham em Nova York. Inicialmente, s\u00f3 ele tinha certeza do pr\u00f3prio talento. A m\u00e3e, inclusive, tentou de todas as formas faz\u00ea-lo desistir at\u00e9 ser vencida e conseguir, a qualquer custo, uma vaga no trio vocal que viria a se chamar Hoboken Four. Quando o quarteto estreou num programa popular de r\u00e1dio, o sucesso foi imediato. Em grande parte, esse sucesso se devia \u00e0 presen\u00e7a do jovem cantor de olhos azuis que foi se tornando um crooner bem popular.<\/p>\n<p>https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=sj43E1KIOf4<\/p>\n<p>Para Antonio, o caminho foi inverso. Apelidado desde crian\u00e7a como \u201cCarusinho do Br\u00e1s\u201d, em refer\u00eancia ao tenor italiano Enrico Caruso (1873 \u2013 1921), j\u00e1 era famoso pela voz, mas precisou se virar para ganhar dinheiro depois de ser expulso da escola \u2013 ele jogou um tinteiro da cabe\u00e7a de uma professora que o chamara justamente de \u201cCaruso\u201d. Uma das profiss\u00f5es que o interessou foi de boxeador (curiosamente, outra das profiss\u00f5es de Marty Sinatra) e at\u00e9 chegou a campe\u00e3o paulista na categoria meio-m\u00e9dio. Quando decidiu levar a s\u00e9rio a carreira de cantor, achou que Antonio Gon\u00e7alves era \u201cnome de dono de armaz\u00e9m\u201d e assumiu o \u201cNelson\u201d. Em seguida, se inscreveu num programa de calouros para tentar a sorte.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de <strong><span style=\"color: #0000ff\">Sinatra<\/span><\/strong>, quando chegou a hora de <span style=\"color: #000080\"><strong>Nelson Gon\u00e7alves<\/strong><\/span> cantar no programa de Aur\u00e9lio Campos, a voz n\u00e3o saiu. Nova tentativa, e nada. Arrasado com o fracasso, ele deu um tempo naquela ideia e voltou a trabalhar no bar que o irm\u00e3o tinha na avenida S\u00e3o Jo\u00e3o. E foi l\u00e1 que ele teve uma ideia torta, mas que acabou funcionando: aprendeu a burlar recibos e montou um caixa dois para tentar a sorte no Rio de Janeiro. Ao chegar na Cidade Maravilhosa, foi bater na porta das r\u00e1dios e gravadoras atr\u00e1s de uma chance. Por ser gago (o que lhe rendeu o apelido de \u201cMetralha\u201d), poucos queriam lhe dar a oportunidade de um teste. Se Dolly tentou fazer <span style=\"color: #0000ff\"><strong>Sinatra<\/strong> <\/span>desistir da m\u00fasica, Ary Barroso foi claro ao sugeriu sugerir que Nelson voltasse a ser gar\u00e7om. Mas ele n\u00e3o era de desistir e seguiu batendo de porta em porta at\u00e9 chegar \u00e0 RCA, gravadora onde gravou o primeiro disco e teve \u00f3tima repercuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Musicalmente, <strong><span style=\"color: #0000ff\">Frank<\/span> <\/strong>e <span style=\"color: #000080\"><strong>Nelson<\/strong> <\/span>atuavam em campos equivalentes. Se o primeiro deu voz quase que integralmente aos standards do American Songbook, o segundo lan\u00e7ou\u00a0 ou deu uma cara pr\u00f3pria a muito do que hoje chamamos de \u201ccl\u00e1ssicos da m\u00fasica brasileira\u201d, do samba-can\u00e7\u00e3o ao bai\u00e3o. O repert\u00f3rio valioso, escorado em arranjos feitos pelos melhores do mundo, fez essas duas vozes de timbres graves brilharem e fazerem escola para muitos que vieram em sequ\u00eancia. Ambos int\u00e9rpretes, sempre tinham os melhores compositores por perto oferecendo novas can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=sbR9ygxXzZk<\/p>\n<p>Ambos bo\u00eamios, tamb\u00e9m tiveram rela\u00e7\u00f5es \u00edntimas com os bares e boates. Por exemplo, uma das hist\u00f3rias mais famosas de <span style=\"color: #0000ff\"><strong>Sinatra<\/strong> <\/span>foi de quando ele ligou para o Bar Veloso, em Ipanema, para convidar Tom Jobim para gravar um disco em parceria. Curiosamente, foi tamb\u00e9m num bar \u2013 pr\u00f3ximo \u00e0 R\u00e1dio Nacional \u2013 que M\u00e1rio Lago sugeriu ao cearense Evaldo Gouveia que mostrasse sua nova composi\u00e7\u00e3o, <em><strong>Deixe que ela se v\u00e1<\/strong><\/em>\u00a0para <span style=\"color: #000080\"><strong>Nelson Gon\u00e7alves<\/strong><\/span>, presente no recinto. \u201cLeva l\u00e1 na RCA que eu gravo\u201d, disse o cantor. Seis meses depois, sem saber se a grava\u00e7\u00e3o tinha acontecido, Evaldo estava no banheiro do mesmo bar quando foi chamado pelos amigos pra ouvir no r\u00e1dio sua m\u00fasica na voz do maior cantor do Brasil da \u00e9poca.<\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff\"><strong>Frank<\/strong> <\/span>e <strong><span style=\"color: #000080\">Nelson<\/span> <\/strong>souberam aproveitar bem suas oportunidades. Gravaram muitos discos, tornaram-se \u00eddolos populares e ganharam muito dinheiro. Num determinado ponto da vida, ambos tamb\u00e9m provaram a queda. O brasileiro foi \u00e0 sarjeta por conta da coca\u00edna que at\u00e9 o levou preso (por tr\u00e1fico) durante um m\u00eas. De <span style=\"color: #0000ff\"><strong>Frank<\/strong> <\/span>n\u00e3o \u00e9 sabida a mesma atra\u00e7\u00e3o pelo p\u00f3 quanto era pelo Jack Daniels. Para o norte-americano, seu per\u00edodo de pen\u00faria aconteceu quando come\u00e7ou um t\u00f3rrido romance com Ava Gadner. Ainda casado com a namorada de inf\u00e2ncia Nancy (Nelson Gon\u00e7alves tamb\u00e9m foi casado com uma Nancy, a Montez, que era vedete), <strong><span style=\"color: #0000ff\">Sinatra<\/span> <\/strong>virou um prato cheio para a imprensa quando foi visto com uma das figuras mais populares do cinema. Como resposta, ele saia batendo em jornalistas que perseguiam sua intimidade.<\/p>\n<p>https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=X1eEqCGPGS4<\/p>\n<p>Por sorte, ambos tinham a m\u00fasica como t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o. Depois de um tratamento para se livrar do v\u00edcio e de voltar para S\u00e3o Paulo para \u201cse livrar dos amigos cheiradores\u201d,<span style=\"color: #000080\"><strong> Nelson Gon\u00e7alves<\/strong> <\/span>foi aos poucos retomando a carreira, voltando a fazer shows e recuperando o tempo perdido. Com o disco <strong>A Volta do Bo\u00eamio<\/strong> (1967), o retorno estava coroado e ele seguiu a vida com sua quinta esposa, Maria Lu\u00edsa, e a estrada com uma s\u00e9rie de projetos art\u00edsticos. Entre eles, dois fizeram bastante sucesso. O primeiro foi uma s\u00e9rie de duetos com astros da m\u00fasica brasileira como Tim Maia, Alcione, Faf\u00e1 de Bel\u00e9m, Milton Nascimento e Lob\u00e3o. O segundo foi o <strong>Ainda \u00e9 Cedo\u00a0<\/strong>(1997), disco de despedida em que deu voz aos compositores da cena roqueira nacional como Rita Lee, Renato Russo, Lulu Santos e Herbert Vianna.<\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff\"><strong>Sinatra<\/strong> <\/span>odiava o rock em seus primeiros anos de carreira. Dizia que era m\u00fasica de m\u00e1s maneiras e poucos recursos, \u201ccantada, tocada e escrita na maior parte por est\u00fapidos e cretinos\u201d. Acabou se rendendo aos g\u00eanios dos anos 1960 e gravou o \u00e1lbum <strong>My Way<\/strong> (1969), que al\u00e9m do estouro da can\u00e7\u00e3o t\u00edtulo, tinha composi\u00e7\u00f5es de Stevie Wonder, Beatles, Paul Simon e Ray Charles. D\u00e9cadas depois, aos 78 anos, consagrado como a maior voz do mundo, Sinatra vendeu milh\u00f5es de c\u00f3pias, ganhou muito pr\u00eamios e tocou em r\u00e1dios de diversos perfis com aquele que seria seu \u00faltimo projeto. Em dois volumes, <strong>Duets<\/strong> era a sua s\u00e9rie de duetos com astros dos mais variados quilates. Tom Jobim, Tony Bennett, Bono Vox, Carly Simon, Chrissie Hynde, Willie Nelson&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Nelson Gon\u00e7alves - Nada por Mim\" width=\"668\" height=\"501\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZXyZ8pBIxS8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>A lista de convidados de<strong><span style=\"color: #0000ff\"> Frank Sinatra<\/span><\/strong>, bem como de <span style=\"color: #000080\"><strong>Nelson Gon\u00e7alves<\/strong><\/span>, expressam o tamanho do prest\u00edgio que constru\u00edram ao longo de quase 60 anos de uma carreira que chegou ao fim em 1998. A de Nelson se encerrou no dia 18 de abril, aos 78 anos, e a de Frank em 14 de maio, quando contava 82. Nestas datas, ambos sofreram um ataque card\u00edaco e morreram. Na letra de<em><strong> My Way<\/strong><\/em>, Sinatra faz um balan\u00e7o da vida, assume erros, exageros, derrotas, mas se orgulha de ter feito \u00e0 sua maneira. Com Nelson n\u00e3o foi muito diferente, tendo tamb\u00e9m pago um pre\u00e7o alto pelas pr\u00f3prias escolhas. No fim das contas, deixaram um legado inesquec\u00edvel de sucessos, uma marca indel\u00e9vel na m\u00fasica popular e lendas que alimentam os mitos que eles foram.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da origem simples ao estrondoso sucesso nacional, Nelson Gon\u00e7alves precisou lutar muito para se manter no pante\u00e3o da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica. 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