{"id":18759,"date":"2018-08-20T09:00:50","date_gmt":"2018-08-20T12:00:50","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/?p=18759"},"modified":"2018-08-19T19:00:34","modified_gmt":"2018-08-19T22:00:34","slug":"mister-bossa-nova","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/2018\/08\/20\/mister-bossa-nova\/","title":{"rendered":"Jo\u00e3o Gilberto, Carnegie Hall, Ronaldo B\u00f4scoli e as mem\u00f3rias de Roberto Menescal"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_18765\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-18765\" class=\"size-large wp-image-18765\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/08\/MG_4278-740x493.jpg\" alt=\"\" width=\"740\" height=\"493\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/08\/MG_4278-740x493.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/08\/MG_4278-300x200.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/08\/MG_4278-768x512.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/08\/MG_4278-120x80.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><p id=\"caption-attachment-18765\" class=\"wp-caption-text\">Fotos: J\u00falio Caesar\/O POVO<\/p><\/div>\n<p>Roberto Batalha Menescal \u00e9 um cara de sorte. Garoto bem nascido na Ipanema do fim dos anos 1930, o carioca foi crescendo entre as paix\u00f5es pela pesca e pela m\u00fasica. Aos poucos, a segunda foi lhe puxando para uma turma que inclu\u00eda nomes como Tom Jobim, Carlos Lyra, Luiz Carlos Vinhas e outros pilares da m\u00fasica popular brasileira. O resto foi servi\u00e7o do acaso. Por acaso, estava num teatro quando Sylvia Telles o chamou para uma turn\u00ea. Por acaso, foi indicado para estudar m\u00fasica com Moacyr Santos. Por acaso, era vizinho de Nara Le\u00e3o. Por acaso, ele cancelou uma pescaria para ir a Nova York participar do hist\u00f3rico show no Carnegie Hall. Por acaso, ele trabalhava na Polygram quando surgiram candidatos a artista do n\u00edvel de Zizi Possi. S\u00f3 n\u00e3o foi por acaso que ele tornou-se um dos mais respeitados m\u00fasicos e compositores do mundo, reverenciado por estrelas internacionais como Stan Getz, Paul Winter, Andy Summers e Jo\u00e3o Gilberto. Essa parte \u00e9 fruto do esfor\u00e7o e do cuidado que ele teve com a pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Eis aqui essa hist\u00f3ria.<!--more--><\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Em outubro de 2018 voc\u00ea completa 81 anos. Como voc\u00ea est\u00e1 se sentindo nessa idade?<\/strong><br \/>\n<strong>Roberto Menescal \u2013<\/strong> Eu nunca me senti t\u00e3o bem (risos). \u00c9 muita folga, cara. Eu estou com 80 e fa\u00e7o milh\u00f5es de coisas, n\u00e3o tenho uma dor. Eu vejo o pessoal \u201cai, minha perna\u201d, o cara com 30 anos. A gente fica at\u00e9 com ci\u00fames. Deixa eu sentir uma coisinha pra saber como \u00e9 que \u00e9!<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 E s\u00e3o 80 anos em plena atividade. Viajando, trabalhando, fazendo shows, descobrindo gente&#8230;<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> Por isso. Por isso que estou com 80 anos numa boa. Porque, se voc\u00ea falar \u201cme aposentei\u201d&#8230; Putz! Isso \u00e9 morte certa, n\u00e9? E eu nunca trabalhei tanto na vida, cara. Nunca. Voc\u00ea v\u00ea: ontem eu gravei o dia inteiro, hoje j\u00e1 passei som, mais tarde fa\u00e7o show, amanh\u00e3 vou pra Recife e fa\u00e7o show, depois de amanh\u00e3 vou pra Garanhuns, fa\u00e7o show, domingo pego avi\u00e3o j\u00e1 pro teatro direto. Vou nem em casa. \u00c9 assim. Parece a Ivete Sangalo.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Quem \u00e9 esse Roberto Menescal que chegou aos 80 anos?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> Acho que sou a resultante da vida que me passou. Eu n\u00e3o fugi dela, mas tamb\u00e9m n\u00e3o foi a coisa que eu procurei. Quando a gente come\u00e7ou, que fez as primeiras m\u00fasicas, eu falei assim pro meu parceiro, o Ronaldo B\u00f4scoli: \u201cp\u00f4, isso t\u00e1 legal, n\u00e9? Alguns artistas procurando a gente. Se isso durar um ano vai ser bom&#8230;\u201d. Ele falou: \u201cvai durar mais, Beto\u201d. E foi assim. Depois desistimos de falar isso. Se voc\u00ea tiver atento e gostar do que voc\u00ea escolheu, voc\u00ea n\u00e3o tem prazo. Agora, eu tamb\u00e9m n\u00e3o fui abusado, n\u00e9? N\u00e3o fui um Vinicius de Moraes, um Tom Jobim que abusaram da vida, n\u00e9?<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Voc\u00ea foi mais comedido, n\u00e9?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> \u00c9&#8230; Eu tinha outros planos. Eles tinham tamb\u00e9m. Acho que \u00e9 uma escolha. Voc\u00ea tem direito a essa escolha. Mas eu tenho muita coisa pra fazer ainda.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Sua vida se confunde com a hist\u00f3ria da Bossa Nova e a Bossa Nova completa 60 anos esse ano. Que bossa \u00e9 essa que chegou em 2018? Em que ela se renovou e em que ela se cristalizou?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> Acho que a Bossa Nova faz uma carreira paralela ao jazz. O jazz \u00e9 mais velho, est\u00e1 fazendo 100 anos (o disco considerado como o marco do nascimento do jazz,\u00a0<em>Original Dixieland Jazz Band<\/em>, foi lan\u00e7ado em 1917). A Bossa nunca procurou ir atr\u00e1s de sucesso popular, porque a gente sabia que n\u00e3o era um sucesso popular. A gente era sofisticado pra \u00e9poca. Um pouco abusado na sofistica\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o a gente sabia que n\u00e3o \u00e9 um grupo que voc\u00ea vai l\u00e1 e \u201coba!\u201d, canta comigo, faz assim com os bra\u00e7os. A Bossa Nova nunca foi isso. Nunca ser\u00e1 tamb\u00e9m. Mas, a durabilidade \u00e9 boa, cara. Talvez melhor at\u00e9 que esses grandes sucessos que v\u00eam e acabam.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Voc\u00eas j\u00e1 tinham essa dimens\u00e3o de que n\u00e3o estavam fazendo um som popular, ent\u00e3o.<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> A gente, no come\u00e7o, nem pensou nisso. Mas come\u00e7amos a ver que era muito sofisticado. E quem gostava, quem descobria a gente era o pessoal do jazz, por exemplo. N\u00f3s descobrimos eles primeiro. Mas depois&#8230; \u201cComo \u00e9? Como \u00e9 que voc\u00ea faz? E essa levada?\u201d. E tudo de papel de m\u00fasica (partitura). \u201cPera\u00ed, mas tem um dedinho a\u00ed\u201d. Ent\u00e3o, esse pessoal que a gente amou, amava, tinha os discos todos, de repente, passa a gostar da gente, cara. Voc\u00ea v\u00ea que \u00e9 um p\u00fablico muito definido, vem com um patamar de qualidade musical. N\u00e3o estou falando que \u00e9 melhor ou pior n\u00e3o, mas voc\u00ea sabe que tem uma coisa, que \u00e9 a qualidade musical, que \u00e9 boa.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Roberto Menescal | Telefone (Roberto Menescal e Ronaldo B\u00f4scoli) | Instrumental SESC Brasil\" width=\"668\" height=\"376\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ajMy3zyS7LQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 E quando se fala em bossa nova, sempre se lembra do sucesso internacional. Que espa\u00e7o ela ocupa hoje no Brasil e internacionalmente?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> \u00c9 bem definido esse espa\u00e7o. Primeiro, no Brasil, voc\u00ea fala: \u201cmas no Brasil tem uma m\u00fasica muito popular que toca\u201d. S\u00e3o lugares diferentes. Voc\u00ea vai no Rio Grande do Sul e est\u00e1 lotado, mas \u00e9 um gueto. Fizemos S\u00e3o Paulo agora, uns dois meses atr\u00e1s, Marcos Valle, (Jo\u00e3o) Donato, Carlinhos Lyra e eu. Eu brinco que \u00e9 o show dos quatro tenores. A gente levou um susto porque, quando abriu e o p\u00fablico levanta todo&#8230; A gente fica \u201co que \u00e9 que a gente faz? Ataca ou n\u00e3o ataca? Est\u00e1 todo mundo em p\u00e9, rapaz\u201d. Quer dizer, nem a gente teve essa no\u00e7\u00e3o de que isso podia ter acontecido. Ent\u00e3o, \u00e9 um tipo de p\u00fablico. Agora, l\u00e1 fora, \u00e9 mais f\u00e1cil. (A bossa) foi a primeira m\u00fasica brasileira que entrou no exterior. Voc\u00ea tem outras. Entra m\u00fasica de Caetano (Veloso), mas depende muito da letra. Estou falando do Caetano, mas poderia ser um Chico Buarque. Agora, voc\u00ea faz um show de Bossa Nova e tem certeza de que vai ser sucesso. No Jap\u00e3o, a gente faz desde 1985 e eu n\u00e3o sabia qual era o tamanho do p\u00fablico. Vou fazer uma casa de 400 lugares? Um teatro de 600 lugares? At\u00e9 que o japon\u00eas falou assim: \u201cacho que o p\u00fablico \u00e9 maior. Vamos fazer um festival? Voc\u00ea traria uns 10 artistas?\u201d. Mas onde? \u201c\u00c9 um lugar aberto, fechado, delimitado, mas ao ar livre com um palco espetacular\u201d. T\u00e1, mas quantos lugares? \u201c10 mil\u201d. Cara&#8230; (risos) Quando a gente viu aquilo lotado, lotado&#8230; Fizemos tr\u00eas shows desses, tr\u00eas anos seguidos. Ent\u00e3o a gente come\u00e7ou a descobrir essa coisa. Fomos para a Austr\u00e1lia, por exemplo, e dizendo: \u201cna Austr\u00e1lia? Quem \u00e9 que conhece a gente? Ningu\u00e9m, n\u00e9?\u201d. E o cara (produtor): \u201cn\u00e3o, acho que est\u00e1 bem bacana\u201d. Mas onde vai ser o show? \u201cNo Opera House\u201d. E a\u00ed, quantos lugares? \u201c2 mil e n\u00e3o sei quantos\u201d. E \u00e9 assim em todo lugar que a gente chega. Su\u00e9cia, Finl\u00e2ndia, Dinamarca, \u00e9 incr\u00edvel. Agora, n\u00e3o \u00e9 popularesco.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Existe muita diferen\u00e7a entre o p\u00fablico brasileiro e o de fora?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> Depende dos lugares. No Jap\u00e3o \u00e9 o melhor p\u00fablico que a gente tem. Se eu falar assim \u201cvai minha&#8230;\u201d, eles \u201cminha tristeza e diz a ela&#8230;\u201d E tudo em portugu\u00eas. Ent\u00e3o, o interesse que eles t\u00eam pela m\u00fasica nossa \u00e9 maior at\u00e9 que o interesse interno. Eles estudam a m\u00fasica e estudam o portugu\u00eas pra entender a nossa m\u00fasica. Respeitam. Jap\u00e3o \u00e9 o melhor. E tem outros tipos de coisa, que chega a ser popularesco. Quando eu fiz a turn\u00ea com o Bossacucanova e o primeiro show foi na Dinamarca. E como \u00e9? \u00c9 um festival de m\u00fasica pop e tal. Mas ser\u00e1 que vai dar certo? A gente chegava por tr\u00e1s do palco e n\u00e3o viu o p\u00fablico. Quando eu olhei, \u201cquantas pessoas tem a\u00ed?\u201d (perguntando a algu\u00e9m da organiza\u00e7\u00e3o). \u201cUns 250 mil\u201d. Cara, Bossa Nova? Ent\u00e3o, ela at\u00e9 pode ser popular se for apresentada de uma maneira como eles (o Bossacucanova, que usa sons eletr\u00f4nicos) fazem. Mais dan\u00e7ante. S\u00e3o coisas diferentes.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Uma vez, conversando com a Joyce, ela disse que no Brasil quase n\u00e3o \u00e9 conhecida, enquanto no Jap\u00e3o n\u00e3o pode ir a uma mercearia porque \u00e9 uma estrela. Existe alguma coisa que explique essa paix\u00e3o dos japoneses pela Bossa Nova?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> A pergunta \u00e9 sempre essa. Ah, mas \u00e9 que eles gostam do Brasil! Mas, ent\u00e3o, por que n\u00e3o consomem outras coisas do Brasil? \u00c9 aquela m\u00fasica que eles se identificaram, achando at\u00e9 que a m\u00fasica n\u00e3o era brasileira. Quando o S\u00e9rgio Mendes estourou l\u00e1, que ele foi o primeiro, eles acharam que era m\u00fasica americana. Depois viram que n\u00e3o \u00e9. Ele mora nos Estados Unidos, mas a m\u00fasica \u00e9 brasileira. A\u00ed eles come\u00e7aram a se interessar. Eu n\u00e3o sei&#8230; Eu tenho um livro l\u00e1 em casa, que eu recebi de um japon\u00eas, japon\u00eas mesmo. Ele mandou e falou: \u201colha, coloquei uma foto tua na capa e outra na contracapa\u201d. Uma era eu e meu parceiro Ronaldo B\u00f4scoli e na capa era Tom Jobim, Marcos Valle, eu e Silvinha Telles. E eu perguntei \u201cqual o t\u00edtulo desse livro?\u201d. Ele falou: \u201cA Verdadeira Hist\u00f3ria da Bossa Nova\u201d. Quer dizer, \u00e9 uma paix\u00e3o que a gente ainda n\u00e3o descobriu ainda o porqu\u00ea. Eles dizem que \u00e9 muito pela sensibilidade das letras. O cara falou que \u00e9 meio samurai, do cara que mata, mas cai uma gotinha na planta e tal. N\u00e3o sei, mas est\u00e1 bom assim.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Voc\u00ea acha que a Bossa Nova deixou o mundo mais brasileiro?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> Eu acho que sim. Porque, por exemplo, o Ary Barroso fez o <em>Aquarela do Brasil<\/em>, que rodou o mundo inteiro. Mas \u00e9 uma m\u00fasica que entrou num filme. N\u00e3o foi a obra do Ary, como foi o samba. O samba s\u00f3 veio a entrar, atrav\u00e9s da Fran\u00e7a, provavelmente, porque tem muito sambista daqui pra l\u00e1, muita m\u00fasica, ent\u00e3o acabou pegando. Mas n\u00e3o \u00e9 uma m\u00fasica que entra no mundo inteiro. Apesar de ser quase uma segunda op\u00e7\u00e3o. Acho que \u00e9 na Su\u00e9cia que tem uma escola de samba de suecos. Agora, o Jap\u00e3o tem 10 escolas de samba. O Tom, por exemplo, gostava muito mais de se apresentar l\u00e1 fora do que aqui. No Brasil ele se apresentou muito pouco. Mas l\u00e1 fora ele ia aos EUA, Jap\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Voc\u00ea foi um dos integrantes do famoso show no Carnegie Hall (NY), que apresentou a Bossa ao mundo. Qual \u00e9, de fato, a import\u00e2ncia desse show, uma vez que boa parte do elenco era de iniciantes na maior casa de show dos EUA?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> \u00c9 at\u00e9 bom voc\u00ea puxar esse assunto porque tem as diverg\u00eancias. Primeiro, eu n\u00e3o sabia nem o que era Carnegie Hall. Eu, um pescador de mergulho, que n\u00e3o perdia uma pescaria nunca. Um cara do Itamaraty, o c\u00f4nsul, telefonou, se apresentou e disse: \u201cvai ter um show no Carnegie Hall e eu queria te convidar. Dia tal\u201d. \u201cAh, n\u00e3o posso. Tenho uma pescaria marcada. N\u00e3o posso. At\u00e9 aluguei um barco com os amigos\u201d. O cara ficou meio decepcionado, mas \u201cah t\u00e1. Desculpe\u201d. A\u00ed telefonou o Jobim. \u201cOh, Menesca, disse que voc\u00ea n\u00e3o vai ao Carnegie Hall. Por que?\u201d P\u00f4, ent\u00e3o eu tenho que ir, isso \u00e9 uma coisa do Brasil. E fui sem saber nem o que era Carnegie Hall. E foi a turma toda. Chegando l\u00e1, a m\u00fasica do Tom, o Desafinado, estava em primeiro lugar no hit parade. Imagina o tamanho que \u00e9 isso. E, chegando no aeroporto, eu fui o primeiro a passar o passaporte, quando olhei tinha uns oito m\u00fasicos de jazz, daqueles intoc\u00e1veis. N\u00f3s nunca vamos chegar perto. \u201cP\u00f4, olha a sorte, a gente chegando aqui e os caras tamb\u00e9m no aeroporto. Devem estar indo a algum lugar e est\u00e3o reunidos ali. O Gerry Mulligan, o Modern Jazz Quartet&#8230;\u201d. (Algu\u00e9m responde) \u201cMas eles est\u00e3o aqui pra receber voc\u00eas\u201d. \u201cEles conhecem a gente?\u201d. \u201cClaro, eles est\u00e3o aqui e voc\u00ea vai ver\u201d. A\u00ed, no que passamos, \u201coh, que prazer\u201d. Cara, aquilo pra mim&#8230; Eu todo arrepiado. Pra voc\u00ea ver como a gente era inocente. A\u00ed, cara, de noite, a gente jantava na casa do Modern Jazz Quartet, o Tom na do Gerry Mulligan, o S\u00e9rgio Mendes no Cannonball Adderley&#8230; Aquilo foi assim uma semana de festa. Ningu\u00e9m pensou mais no Carnegie Hall, at\u00e9 que o cara falou \u201camanh\u00e3 o ensaio \u00e9 l\u00e1\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18777\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/08\/MG_4479-740x493.jpg\" alt=\"\" width=\"740\" height=\"493\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/08\/MG_4479-740x493.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/08\/MG_4479-300x200.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/08\/MG_4479-768x512.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/08\/MG_4479-120x80.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 E como voc\u00ea ficou com isso?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> Ih, cara, eu n\u00e3o sou cantor, n\u00e3o trouxe minha banda. O S\u00e9rgio Mendes falou \u201cSe der, a gente faz uma coisa junto\u201d. Ah, n\u00e3o deu tempo pra ensaiar e eu falei pro cara. \u201cN\u00e3o vai dar pra fazer nada n\u00e3o\u201d. \u201cP\u00f4, mas voc\u00ea est\u00e1 aqui h\u00e1 dez dias. Hotel, estadia, tudo. N\u00e3o vai fazer nada? Ah, voc\u00ea vai cantar aqui\u201d. Ent\u00e3o, eu cantei pela primeira vez, no Carnegie Hall. E tamb\u00e9m foi pela \u00faltima. \u00c9 bonito a coisa, mas a campanha contra a gente era mortal.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Contra?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> N\u00e3o l\u00e1, mas no Brasil. Porque a gente estava entrando j\u00e1 tirando um quinh\u00e3o ali de uma turma. \u201cP\u00f4, t\u00e1 vendo esses garotos. A gente ganhava n\u00e3o sei quanto, agora \u00e9 menos 25%\u201d. Era um neg\u00f3cio barra pesada na imprensa. \u201cEsses caras est\u00e3o pensando o qu\u00ea com essas m\u00fasicas de bobagem\u201d. E eu tive que voltar antes de todo mundo porque eu ia casar. J\u00e1 estava marcado. Ent\u00e3o eu cheguei l\u00e1, a imprensa toda me esperando, logo depois do concerto, cara. Quando cheguei, o pessoal: \u201cOlhe, porque o fracasso do Carnegie Hall?\u201d. O que \u00e9? N\u00e3o estou entendendo. Fracasso? Que fracasso voc\u00eas est\u00e3o falando? E o cara mostrou uma reportagem da revista O Cruzeiro, seis p\u00e1ginas: \u201cO fracasso no Carnegie Hall\u201d. Com fotos de todos n\u00f3s e nenhuma do concerto, porque, em dois dias, voc\u00ea n\u00e3o tinha como fazer foto, revelar, mandar&#8230; J\u00e1 estava tudo preparado. E ficou um neg\u00f3cio, eu n\u00e3o entendi nada. E um cara do Brasil, o Ricardo Amaral, o rei da noite, ele era garoto, mas era um colunista social. Ele falou: \u201cvoc\u00ea tem que ir hoje pra S\u00e3o Paulo, porque eu tenho um programa e a gente tem que falar sobre isso\u201d. Eu fui pra S\u00e3o Paulo, fiz o programa com tr\u00eas caras da imprensa acabando comigo. Eu tinha uns 25 anos. E eu falei: \u201cent\u00e3o t\u00e1 bem, foi um fracasso mesmo\u201d. E o Ricardo disse \u201cn\u00e3o, pera\u00ed. Junto com voc\u00ea, veio um filme do Carnegie Hall e eu estou com ele aqui\u201d. A\u00ed passou na televis\u00e3o e foi uma maravilha. Porque passou todo mundo l\u00e1 e, no final, mostrou n\u00f3s todos filmados de costas e o p\u00fablico. Ent\u00e3o, voc\u00ea o p\u00fablico todo em p\u00e9 aplaudindo sem parar. \u201cP\u00f4, ent\u00e3o como \u00e9 que foi isso?\u201d N\u00e3o vou dizer mais nada. Agora, a barra era t\u00e3o pesada que esse filme sumiu no dia seguinte e s\u00f3 apareceu cinco anos atr\u00e1s, na TV Cultura.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Ent\u00e3o, como voc\u00ea avalia?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> A\u00ed tem duas coisas. O pessoal fala \u201cah, foi uma bagun\u00e7a\u201d. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 que foi uma bagun\u00e7a. Ao contr\u00e1rio, o interesse era tanto que, sabe quando o Trump vai falar, que tem aquele monte de microfone na frente? Foi assim. \u201cAh, um mont\u00e3o de microfone\u201d. Que bom! O Jo\u00e3o Gilberto perguntou \u201ceu canto pra onde?\u201d. Canta pra qualquer um que vai pegar. Dali em diante, nossa m\u00fasica foi pro mundo. O Tom ficou em Nova York, o Jo\u00e3o foi pra Los Angeles, o Carlos Lyra foi pro M\u00e9xico, o outro foi pra Fran\u00e7a e s\u00f3 eu que voltei porque ia casar (risos). A\u00ed, por outro lado, acabou a turma da Bossa Nova por que foi cada um pro seu lado. E a gente se reunia todo dia. Acabou tudo, mas a m\u00fasica foi pro mundo.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Eu at\u00e9 questiono esse show como um marco porque acredito que a Bossa tenha passado por v\u00e1rios marcos, v\u00e1rios momentos importantes. Tanto que \u00e9 dif\u00edcil dizer quem \u201ccriou\u201d a Bossa Nova&#8230;<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> Tem o Johnny Alf, quatro anos antes. Dick Farney, L\u00facio Alves, Silvinha Telles, que j\u00e1 cantava umas coisas mais modernas. Mas faltava a defini\u00e7\u00e3o mercadol\u00f3gica. Quando o Jo\u00e3o cantou o <em>Chega de Saudade<\/em>, opa! Uns quebraram o disco, mas a m\u00fasica foi pra r\u00e1dio e \u201cque \u00e9 isso?\u201d, \u201cque m\u00fasica diferente\u201d. Ent\u00e3o a gente marca o ano de 1958, quando saiu o compacto dele, por que o <em>Chega de Saudade<\/em> ficou uma coisa meio emblem\u00e1tica. Era Bossa Nova ou n\u00e3o era? Acho que antes, a primeira parte, n\u00e3o era (\u201cVai minha tristeza e diz a ela\u201d). Era meio samba-choro. Mas, a segunda parte, (\u201cMas, se ela voltar, que coisa linda&#8230;\u201d), a\u00ed \u00e9 Bossa Nova. Ele faz essa transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Com o tempo e o crescimento da Bossa Nova, foram surgindo nomes como Carlos Lyra, Edu Lobo, S\u00e9rgio Ricardo, que trouxeram um componente mais pol\u00edtico \u00e0 Bossa. Voc\u00ea acha que essa primeira turma era alienada?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> A primeira turma era totalmente alienada. Depois teve os Doces B\u00e1rbaros, n\u00e9? N\u00f3s \u00e9ramos os doces alienados. A gente descobriu a felicidade, eu acho. Nos compositores de samba-can\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem um que fale \u201ceu sou feliz\u201d. N\u00e3o, \u00e9 \u201csei que falam de mim. \u00d3, deus, como eu sou infeliz\u201d. \u201cNingu\u00e9m me ama, ningu\u00e9m me quer\u201d. Era tudo assim. A gente, com 18 anos, achava que todo mundo amava a gente. N\u00f3s mudamos essa coisa a\u00ed, n\u00e9? Mas mudamos com o amor, o sorriso e a flor. Vamos falar de coisa bonita, jogar pro alto, n\u00e9? Foi combinado isso. Claro, cada um tinha uma fossa, mas a gente ficava: \u201cah, fez isso, mas tudo bem\u201d. Agora, n\u00e3o \u00e9 que os outros fossem mais enfronhados na pol\u00edtica. \u00c9 que a\u00ed vem a revolu\u00e7\u00e3o e tem a turma que j\u00e1 nasceu na revolu\u00e7\u00e3o e come\u00e7a a fazer (m\u00fasica). O Carlinhos Lyra n\u00e3o. Ele veio antes, mas j\u00e1 pegaram ele no centro estudantil pra fazer o hino e foi. Mas eu tive a consci\u00eancia pra falar assim: \u201cOh, B\u00f4scoli. Vai ser muita mentira. Eu sou o rei da ca\u00e7a submarina, j\u00e1 fa\u00e7o um surfzinho, que chamam de jacar\u00e9, n\u00e9? Vamos na praia, jogamos futebol. A gente se sentiu mal de, de repente, mudar. E n\u00f3s combinamos o contr\u00e1rio. Vamos nos enterrar um pouco, deixa a onda passar, deve ser uns tr\u00eas anos de ditadura. Eu n\u00e3o sabia que ia t\u00e3o longe. Vamos cada um fazer outra coisa. A\u00ed eu comecei a estudar m\u00fasica s\u00e9rio e isso me preencheu um pouco. Depois eu fui para a Polygram e fiquei 15 anos como produtor. Mas por isso, porque eu n\u00e3o queria participar de uma coisa que n\u00e3o era a minha verdade. Eu era um garoto de Copacabana que adorava a praia. Ent\u00e3o, a gente n\u00e3o tinha consci\u00eancia. \u00c9ramos os doces alienados e \u00e9ramos felizes e sab\u00edamos.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Como voc\u00ea citou h\u00e1 pouco, Ronaldo B\u00f4scoli foi seu parceiro em in\u00fameros cl\u00e1ssicos da m\u00fasica brasileira. E ele, ora \u00e9 um vil\u00e3o, machista, que pegava todas as cantoras de sucesso, e ora ele era o poeta sens\u00edvel. Quem \u00e9 o Ronaldo B\u00f4scoli que voc\u00ea conheceu?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> Acho que ele \u00e9 dois. Como voc\u00ea falou, era supersens\u00edvel. Voc\u00ea v\u00ea nas letras dele umas coisas fant\u00e1sticas. Que frase bonita, que coisa. Mas, ao mesmo tempo eu pergunto: ser\u00e1 que n\u00e3o usava isso pra comer as cantoras? (risos) Ele era boa pinta, era um pouco mais velho que a gente e rep\u00f3rter. Ent\u00e3o, como rep\u00f3rter, ele era mais enfronhado nas coisas do mundo. Tinha um conhecimento maior do que a gente. Ele era um batalhador, mas ao mesmo tempo era um galanteador. Ele tinha aquela coisa do Sinatra, do copo de whisky aqui e o cigarro aqui. Aquilo fazia um tipo, entendeu? Uma vez um cara gritou num show: \u201co Ronaldo \u00e9 o maior mau-car\u00e1ter simp\u00e1tico do mundo. N\u00f3s adoramos esse mau-car\u00e1ter\u201d. Agora, era barra pesada. Era muito engra\u00e7ado e, \u00e0s vezes, maldosamente engra\u00e7ado. Hoje eu estava lembrando de uma vez que a gente estava preparando um cen\u00e1rio, numa televis\u00e3o, e ele foi chamar um rapaz. \u201cEi, ei voc\u00ea a\u00ed que est\u00e1 mais mal vestido\u201d. E o cara olhava assim&#8230; Mas a\u00ed voc\u00ea v\u00ea o que ele escreve, cara. Putz! Canalha total.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Voc\u00eas foram amigos at\u00e9 a morte dele, em 1994?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> Sim. E brigamos muito tamb\u00e9m. Voc\u00ea sabe a hist\u00f3ria do \u00faltimo dia dele? Ele ficou com aquela coisa toda, ligado (em aparelhos. B\u00f4scoli morreu de c\u00e2ncer na pr\u00f3stata), fora de si, j\u00e1 n\u00e3o falava mais nada. At\u00e9 que um dia o m\u00e9dico ligou pra mim e pro Miele. \u201cOlha, o Ronaldo deu uma acordada e pediu muito pra voc\u00eas virem aqui\u201d. Cheguei l\u00e1 e ele estava mal, todo ligado, com soro e tirando sangue. Eu peguei no p\u00e9 dele e disse: \u201ce a\u00ed, V\u00e9io\u201d. E ele, apontando pro sangue e pro soro, disse: \u201coi, vai de tinto ou de branco?\u201d. Era essa a figura. Deixou, pelo menos, uma coisa pra cima.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Nesses 60 anos de Bossa Nova, uma das coisas mais comentadas \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o do Jo\u00e3o Gilberto. Como voc\u00ea tem percebido essas not\u00edcias sobre ele?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> (Em tom s\u00e9rio) Primeiro, voc\u00ea \u00e9 resultante das tuas escolhas. O que voc\u00ea escolher pra tua vida \u00e9 o que voc\u00ea vai ser. E o Jo\u00e3o sempre foi complicado. N\u00e3o vou dizer a vida dele n\u00e3o. Ele foi muito complicado. Ele teve todas as chances do mundo. Eu n\u00e3o tive 10% das chances do Jo\u00e3o, mas estou a\u00ed. Ele foi adorado, amado. Dizem no Jap\u00e3o que ele teve a maior consagra\u00e7\u00e3o que um artista pode ter. N\u00e3o foi Beatles, n\u00e3o foi ningu\u00e9m. Foi o Jo\u00e3o, que foi aplaudido durante 25 minutos. Saiu na imprensa, saiu em todo canto. Tanto que ele baixou a m\u00e3o assim e ficou assim (com as m\u00e3os no viol\u00e3o e a cabe\u00e7a baixa). Cara, ser\u00e1 que ele teve um ataque? O japon\u00eas foi l\u00e1, se meteu embaixo e falou: \u201cJo\u00e3o, o que houve?\u201d. \u201cN\u00e3o sei, \u00e9 que eu n\u00e3o sei como eu vou sair daqui. Eles n\u00e3o param de bater palmas\u201d. O cara pegou ele e levou. Se n\u00e3o, de repente, eram 40 minutos. Quer dizer, o cara teve tudo isso e jogou fora. \u201cAh, isso eu n\u00e3o quero fazer\u201d, \u201cn\u00e3o quero que lancem meus discos\u201d. P\u00f4, os tr\u00eas primeiros discos dele que s\u00e3o os melhores. E n\u00e3o quer por qu\u00ea? \u201cEles mexeram no som\u201d. Mexeram pra melhor! Eu fui chamado pra um laudo t\u00e9cnico e mexeram pra melhor. Os caras tiram um pouco do chiado de fita. Limparam e n\u00e3o mexeram em mais nada. \u201cMas eu gravei com aquilo, com chiado\u201d. Ele proibiu a gente de ter esses discos, eu acho uma sacanagem que ele fez com ele e com a gente! Mas ele teve uma possibilidade, mesmo assim. Teve o \u00faltimo show dos 80 anos, que acabou n\u00e3o fazendo, mas ganhando. Ele acabou ganhando (o dinheiro do contrato), mas n\u00e3o fez. Acho que R$1,2 milh\u00e3o, n\u00e3o sei. Teve um cara, um banqueiro, que comprou os discos do Jo\u00e3o pra ajudar. \u201cTudo bem, n\u00e3o vai ser lan\u00e7ado, mas eu compro\u201d. Pelo que eu soube, foram R$ 10 milh\u00f5es. Com R$ 10 milh\u00f5es, voc\u00ea vive a vida inteira. E a\u00ed, cad\u00ea esse dinheiro? \u201cAh, n\u00e3o sei\u201d. A\u00ed, rapaz, voc\u00ea n\u00e3o pode fazer nada. \u00c9 muito simples. Que \u00e9 isso, cara? Voc\u00ea \u00e9 dono da sua vida. \u201cN\u00e3o sei como \u00e9 que muda a corda do viol\u00e3o\u201d. Tem que saber, \u00e9 teu instrumento! A\u00ed l\u00e1 \u00edamos n\u00f3s comprar corda, trocar corda. \u201cE a roupa rapaz, minha roupa t\u00e1 suja\u201d. A gente levava na tinturaria. Eu acho que ele criou uma vida e est\u00e1 pagando por ela. Infelizmente. Os filhos tamb\u00e9m n\u00e3o conseguem realizar mais nada. Ele escolheu isso e vai nisso at\u00e9 n\u00e3o sei quando.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Zizi Possi e Roberto Menescal - O Barquinho | Cantos &amp; Contos I\" width=\"668\" height=\"376\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/OFLDx58zSSs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Voc\u00ea tem contato com a Bebel Gilberto?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> Eu conheci Bebel, mas n\u00e3o a vejo h\u00e1 20 anos. Tive com ela, na \u00faltima vez, no Jap\u00e3o. Mas eu n\u00e3o sei, n\u00e3o fico tentando saber. Soube que agora o Caetano e a mulher emprestaram um apartamento, botaram ele (Jo\u00e3o Gilberto) l\u00e1. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o sei detalhe. Mas \u00e9 triste um cara que teve as possibilidades que nenhum de n\u00f3s teve ou vai ter terminar numa situa\u00e7\u00e3o dessas, n\u00e9?<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Mas Jo\u00e3o Gilberto \u00e9 um g\u00eanio?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> (sem demorar) Pra mim \u00e9 g\u00eanio, total. Eu podia eu achar e falar assim: \u201ceu acho o Jo\u00e3o um g\u00eanio\u201d. Mas tem um livro que eu acabei de ler, um branco, grosso assim (<em>Jo\u00e3o Gilberto<\/em>, de Walter Garcia, Cosac Naify, 2012). Que a\u00ed voc\u00ea v\u00ea Francis Hime dizendo assim \u201cele \u00e9 o melhor que tem\u201d. O pianista de jazz, um daqueles conhecidos, falando assim: \u201c\u00e9 o melhor cantor do mundo\u201d. Mas do mundo? E as cantoras, Billie Holliday? \u201c\u00c9, tem Billie Holliday, tem o Sinatra, mas o Jo\u00e3o \u00e9 o melhor\u201d. Quer dizer, quando os caras que s\u00e3o m\u00fasicos, que t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de falar uma coisa sobre a parte t\u00e9cnica, que falam isso, \u00e9 por que o cara \u00e9 g\u00eanio mesmo. Eu fui a um show do Jo\u00e3o escondido, n\u00e9? Voc\u00ea v\u00ea que as pessoas t\u00eam medo de fazer assim (se virando de lado). Todo mundo quietinho, pra n\u00e3o fazer um barulhinho. \u00c9 uma atmosfera m\u00e1gica que ele consegue n\u00e3o sei como. Eu fiquei impressionado.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Dois instrumentos sempre ligados a voc\u00ea s\u00e3o o viol\u00e3o e a guitarra. Quem s\u00e3o suas refer\u00eancias nesses instrumentos, hoje e no in\u00edcio da carreira?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> Acho que as refer\u00eancias continuam um pouco as mesmas. Primeiro Jo\u00e3o Gilberto no viol\u00e3o. Tinha uns caras que eu gostava, que eu acompanhava. Mas quando eu ouvi o Jo\u00e3o, o que \u00e9 isso, cara? Que perfei\u00e7\u00e3o! N\u00e3o tinha velocidade, n\u00e3o. N\u00e3o precisa. Faz devagarzinho. Ele me ensinou muita coisa. E na guitarra era o Barney Kessel (1923 \u2013 2004), que foi maravilhoso. Acho que o Barney Kessel, sem saber, adiantou a m\u00fasica brasileira em 10 anos. A gente tem que lembrar que as grava\u00e7\u00f5es eram todas com orquestra e tinha um som (ele imita o som de uma orquestra) que era a guitarra, baixo e bateria. Voc\u00ea n\u00e3o distinguia. Quando ele fez o disco com a Julie London (<em>Julie Is Her Name<\/em>, 1955), tem \u201cpom plim plim plim\u201d. O que \u00e9 isso, cara? \u00c9 a primeira que eu ou\u00e7o a guitarra explicada. A\u00ed chamei Carlos Lyra, Baden Powell, Oscar Castro Neves. Falei \u201ccada um vai pra casa e tira uma m\u00fasica dessas\u201d. Voltamos um m\u00eas depois, n\u00e3o era exatamente porque a gente n\u00e3o tinha essa qualidade a\u00ed de interpreta\u00e7\u00e3o. Mas, a m\u00fasica brasileira ganhou ali mil acordes diferentes. Quer dizer, ele foi important\u00edssimo nessa virada. A\u00ed tem v\u00e1rios outros, como Jim Hall, George Benson mais pra c\u00e1.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 E hoje, quem voc\u00ea destaca?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> No viol\u00e3o e na guitarra, eu destaco muito no Brasil o Nelson Faria, \u00e9 um craque. Rapaz, \u00e9 tanta gente. Mas, os que me tocam&#8230; Lula Galv\u00e3o \u00e9 outro craque. Uma simplicidade, mas um craque. Viol\u00e3o e guitarra, inclusive. Porque hoje, voc\u00ea v\u00ea na internet e \u201cquem \u00e9 esse cara?\u201d. Mas vamos dizer que esses (citados) me influenciaram. Mas meus \u00eddolos continuam os mesmos.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Voc\u00ea trabalhou 15 anos como produtor de gravadora, na Polygram. O que esse per\u00edodo te ensinou?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong>Primeiro, me ensinou a sair dessa bola da Bossa Nova. A gente, na \u00e9poca, era muito \u201cou \u00e9 isso ou n\u00e3o \u00e9 nada\u201d. Me lembro que quando o Edu (Lobo) ganhou o festival com Ponteio, as pessoas perguntavam \u201cviu o festival?\u201d e meu coment\u00e1rio era \u201cvi, ganhou um bai\u00e3ozinho l\u00e1\u201d. Ganhou um bai\u00e3ozinho? Depois que eu entrei para a Polygram, eu fui ver que n\u00e3o era um bai\u00e3ozinho. Era um music\u00e3o, mas, como n\u00e3o era da coisa da gente, virou um \u201cbai\u00e3ozinho\u201d. Era um \u201csambinha\u201d, um \u201crockinho\u201d, entendeu? Porque a\u00ed voc\u00ea trabalha com Caetano, Chico, Jorge Ben, Gil, Ivan Lins&#8230; A\u00ed sua cabe\u00e7a vai abrindo. Gra\u00e7as a deus! Eu trabalhei com essas pessoas todas, com Elis Regina, fiz tr\u00eas turn\u00eas com ela, inclusive. Ent\u00e3o eu aprendi muita coisa. Aprendi a gostar at\u00e9 de&#8230; Minha mulher at\u00e9 pergunta \u201cvoc\u00ea gosta?\u201d Sidney Magal! Cara, se esse cara arrebenta, arrebanha essa turma toda, ele tem um neg\u00f3cio important\u00edssimo a\u00ed por tr\u00e1s. Como a Anitta! Agora, voc\u00ea pode falar \u201ceu n\u00e3o gosto\u201d. Isso tudo a Polygram me ensinou. Mas, ao mesmo tempo, eu tinha o maior cuidado de n\u00e3o misturar a minha coisa com a Polygram. Eu passei 15 anos em que fazia m\u00fasica, mas n\u00e3o mostrava a ningu\u00e9m. Eu estava cuidando de 80 artistas. Passei, pelo menos, 12 anos sem viol\u00e3o. Quando eu voltei, voltei inclusive com Nara (Le\u00e3o), no disco <em>Um cantinho, Um viol\u00e3o<\/em> (1985), que ela pediu pra eu tirar umas m\u00fasicas, preparar e tal, eu falei \u201cdepois eu ponho um guitarrista pra fazer com voc\u00ea. T\u00e1 pronto o disco, vou te apresentar tr\u00eas pessoas\u201d. A\u00ed ela falou assim: \u201cRoberto, quem vai fazer melhor que a gente? N\u00f3s estamos h\u00e1 dois meses aqui\u201d. Nisso, eu volto. Sa\u00ed da Polygram, me deu vontade novamente, e tamb\u00e9m pra fica com a Nara a partir da doen\u00e7a dela, pra poder ficar at\u00e9 o final. Mas a Polygram foi important\u00edssima pra mim. Muita gente diz: \u201cvoc\u00ea perdeu 15 anos\u201d. Eu n\u00e3o perdi. Eu deixei de fazer uma coisa durante 15 anos, voltei a fazer, mas com uma carga maior. Hoje minha m\u00fasica \u00e9 mais abrangente.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Dos seus trabalhos como produtor, acho que o mais popular s\u00e3o as Aquarelas, com o Em\u00edlio Santiago. H\u00e1 quem ame e h\u00e1 quem odeie esse trabalho. Como voc\u00ea avalia?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> \u00c9, eu tinha o Em\u00edlio como um contratado meu na Polygram, mas eu n\u00e3o conseguia entrar no cara. \u201cL\u00e1 vem a gravadora tentar me influenciar\u201d, aquele papo que tinha. Era n\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o, mas eu consegui manter ele l\u00e1 dentro. A gravadora mesmo dizia: \u201cp\u00f4, por que voc\u00ea fica com esse cara, que vende 10 mil discos?\u201d Quando eu sa\u00ed (da Polygram), eu disse: Em\u00edlio, eu tenho um projeto pra voc\u00ea. (Em\u00edlio falando) \u201cAh, n\u00e3o. meu p\u00fablico quer outra coisa\u201d. Meu s\u00f3cio at\u00e9 falou: \u201cQue p\u00fablico, Em\u00edlio? Aqueles 30?\u201d A\u00ed ele disse: \u201cEu vou fazer, mas fa\u00e7o 1\u201d. No que fez 1, mudou a vida do cara, n\u00e9? Ele morava numa salinha do apartamento do pai dele, que tinha uma sala e quarto, com aqueles sof\u00e1s que faz virar cama. Um ano e meio depois ele estava com apartamento no pr\u00e9dio inteiro ali entre Botafogo e Flamengo, e mais a cobertura. Bem na vida, apartamento em Nova York, outro em Recife. Mudou a vida dele, porque eu sabia que o cara tinha uma condi\u00e7\u00e3o. Claro, n\u00e3o vou dizer que eu sabia que o cara ia vender 6 milh\u00f5es de discos, como vendeu no total. Quero deixar claro que eu sabia que iria melhorar, mas n\u00e3o tanto. Tinha muita gente que dizia que \u00e9 muito comercial. E \u00e9.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Conversando comigo, o Em\u00edlio at\u00e9 comentou uma vez que esse projeto foi feito para o mercado internacional.<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> Foi e funcionou muito. Eu acho o Em\u00edlio a grande voz do Brasil. At\u00e9 hoje eu acho. Apesar que tem um aqui que eu estou muito de olho. Gravei com ele, que \u00e9 o Marcos Lessa. \u00c9 impressionante. Gravamos duas m\u00fasicas. Putz! Um resultado fant\u00e1stico. E j\u00e1 defini: vou fazer um disco com ele. Pode at\u00e9 botar na entrevista. Porque eu acho que \u00e9 que um cara que, se perguntar se tem outro, eu n\u00e3o sei. Tem um tamb\u00e9m, que at\u00e9 fiz um disco com ele, que \u00e9 o Luiz Pi\u00e9 que \u00e9 muito bom. Nesse universo todo de cantores, se perguntar se tem outro, que eu saiba n\u00e3o. Esses dois s\u00e3o muito bons.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Tem inclusive um v\u00eddeo em que voc\u00ea est\u00e1 num lugar com a Mi\u00facha e o Marcos Lessa se oferece pra ir cantar com voc\u00eas. Que hist\u00f3ria \u00e9 essa?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> N\u00e3o, ele n\u00e3o se ofereceu n\u00e3o. \u00c9 num espa\u00e7o aberto do Banco do Brasil. A gente ia fazer um papo-bossa, como a gente chama. A gente conversa e toca. No meio de uma das m\u00fasicas, eu ouvi uma voz sair de uma mesa perto. Quando terminou, eu falei: aqui dessa mesa, quem \u00e9 que est\u00e1 cantando? \u201cA voz mesmo \u00e9 desse cara aqui\u201d. Vem c\u00e1, sobe aqui! P\u00f4, e ele todo envergonhado. Depois, ele at\u00e9 falou que estava morrendo de medo. \u201cVem c\u00e1, canta aqui\u201d. E ele cantou uma m\u00fasica minha, o Rio. Cara, como \u00e9 que \u00e9 isso? A\u00ed eu telefonei para o Clube da Bossa, de Bras\u00edlia, disse que tinha um cara assim. Soube que ele foi l\u00e1, cantou umas coisas, foi muito bem e n\u00e3o o vi mais. Quando vi, foi no The Voice. P\u00f4 \u00e9 aquele cara!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Nara Le\u00e3o e Roberto Menescal - O barquinho , O pato , Manh\u00e3 de carnaval\" width=\"668\" height=\"501\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5qVY8DEbbkE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Eu lembro da sua frase nesse v\u00eddeo: \u201cme d\u00e1 essa sua voz a\u00ed pra voc\u00ea ver o que eu fa\u00e7o\u201d.<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> Mas \u00e9 verdade. Se eu tenho essa voz dele, putz! Meu genro \u00e9 que faz o The Voice. \u201cCara, me arranja o telefone dele\u201d. A\u00ed eu falei com o Dalwton (Moura, jornalista) que me disse que ele estava no Rio. Mas eu moro na Barra, que \u00e9 longe. Liguei para o Marcos e ele disse \u201cn\u00e3o, eu vou na tua casa\u201d. Cara, mas eu moro longe. \u201cPois eu moro em frente a voc\u00ea\u201d. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel! \u201cDaqui a cinco minutos eu t\u00f4 a\u00ed\u201d. Pra mim, depois do Em\u00edlio, \u00e9 ele.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Qual \u00e9 a sua disposi\u00e7\u00e3o pra ouvir gente nova hoje?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> \u00c9, eu tenho esse defeito. Eu ou\u00e7o tudo, cara. Eu n\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m que ouve as coisas. Eu ou\u00e7o tudo. Desde que eu entrei na Polygram, eu conheci coisas boas por ouvir. A Zizi Possi, por exemplo. Que nome \u00e9 esse? Quem \u00e9 essa mulher? Eu tenho uma curiosidade&#8230; \u00c9 nato. Eu trouxe do Jap\u00e3o, da \u00faltima vez, 32 discos de cantora de Bossa Nova. Se a pessoa faz uma coisa boa e a gente gostou, tem a obriga\u00e7\u00e3o de \u201colha, adorei o que voc\u00ea fez\u201d. Sem interesse nenhum. Ent\u00e3o, eu tenho essa disposi\u00e7\u00e3o e \u00e9 isso que me alimenta. Se n\u00e3o, voc\u00ea vai viver dos velhos \u00eddolos a vida inteira?<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Alguns nomes foram importantes na tua hist\u00f3ria por diversos motivos. Alguns at\u00e9 j\u00e1 passaram por esta conversa, mas eu vou falar o nome e queria que voc\u00ea me dissesse uma lembran\u00e7a, um coment\u00e1rio que te vier \u00e0 cabe\u00e7a. Pra come\u00e7ar, Tom Jobim.<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> Tom \u00e9 o meu mestre at\u00e9 hoje. Eu pe\u00e7o perd\u00e3o dos meus pecados \u201cTom Jobim, me perdoa. Essa semana eu fiz isso, isso e isso\u201d. \u00c9 um cara que foi muito generoso comigo e com minha turma. Nunca falou comigo \u201cn\u00e3o faz assim. Faz assim\u201d. Nunca. Mas, falou de certa maneira. \u201cRapaz, tem uma m\u00fasica tua que eu adoro. Como \u00e9 que \u00e9 essa nota? \u00c9 assim?\u201d. N\u00e3o era n\u00e3o, mas agora \u00e9. Ningu\u00e9m fez o que ele fez.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Elis Regina.<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> Elis foi o grande pulo da m\u00fasica brasileira. At\u00e9 ent\u00e3o, eu lidava com todos os cantores e cantoras cantando baixinho. Como dizia o Jo\u00e3o Gilberto quando algu\u00e9m pedia pra ele cantar mais alto. \u201cT\u00e1 vendo aquele bot\u00e3o ali, que est\u00e1 escrito volume? Aumenta ele l\u00e1\u201d. E Elis n\u00e3o, veio explosiva que at\u00e9 me assustou. Mas eu tive sorte de, depois, a gente se conhecer e viajar. Fizemos turn\u00eas pela Europa e eu via a explos\u00e3o dela em qualquer pa\u00eds do mundo. Pra mim, \u00e9 a grande cantora brasileira de todos os tempos.<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-18767\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/08\/MG_4382-e1534639884252-740x1110.jpg\" alt=\"\" width=\"433\" height=\"650\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/08\/MG_4382-e1534639884252-740x1110.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/08\/MG_4382-e1534639884252-300x450.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/08\/MG_4382-e1534639884252-768x1152.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/08\/MG_4382-e1534639884252-120x180.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 433px) 100vw, 433px\" \/>O POVO \u2013 Sylvia Telles.<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> Sylvinha, puxa&#8230; \u00c9 quem me deu tudo de bom. Quer dizer, antes dela saber qualquer coisa, ela me via. Eu ia no teatro toda quarta-feira e ela estava fazendo um ano de teatro. Eu ia na quarta porque era mais barato, a matin\u00ea. E ela j\u00e1 olhava. Eu, normalmente na primeira fila, com 18 anos. Um dia, do palco, ela fez um neg\u00f3cio assim (fazendo um sinal com a cabe\u00e7a). Eu entendi que era pra ir l\u00e1 atr\u00e1s, depois. Eu fui. \u201cCara, voc\u00ea vem aqui h\u00e1 quanto tempo?\u201d. Quase um ano. \u201cE voc\u00ea toca?\u201d. Eu toco um pouquinho de viol\u00e3o. \u201cE voc\u00ea mora onde?\u201d. Na galeria Menescal, que era da minha fam\u00edlia. \u201cEu moro a um quarteir\u00e3o. Voc\u00ea n\u00e3o quer ir na minha casa um dia?\u201d. Era tudo que eu queria. Fui, toquei, isso ainda muito no come\u00e7o. E ela falou: \u201cvoc\u00ea tem um toque legal, cara. Vou te fazer uma proposta. Voc\u00ea n\u00e3o quer fazer uma turn\u00ea comigo?\u201d. Eu? Eu n\u00e3o tenho um ano de viol\u00e3o. \u201cCalma, calma. Eu estou gr\u00e1vida. Daqui a quatro meses, vou ter um filho. Depois tem mais tr\u00eas que eu tenho que ficar de resguardo com meu filho\u201d.\u00a0 Bom, vamos ver. Fizemos os sete meses e fizemos a minha primeira viagem de trabalho, que vinha de Manaus, passando por todos os estados at\u00e9 chegar ao Rio de Janeiro. Quando eu cheguei l\u00e1, ela falou: \u201cagora voc\u00ea \u00e9 um profissional\u201d. Ent\u00e3o, eu devo tudo \u00e0 Sylvinha. E logo ela falou assim: \u201cmas tem que estudar m\u00fasica. Vou te arranjar um bom professor\u201d. E foi o Moacyr Santos. Me deu tudo a Sylvinha. Eu estou aqui por causa de Sylvinha.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 E Nara Le\u00e3o.<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> Nara foi a irm\u00e3 que eu n\u00e3o tive. Somos quatro irm\u00e3os homens e eu conheci Nara com 11 anos de idade. Achava que ela tinha 13, 14, por que ela era desenvolvida fisicamente e culturalmente. A conheci quando eu ia fazer 15 anos e sa\u00ed procurando menina pra ir \u00e0 festa, porque minha turma s\u00f3 tinha menino. Da\u00ed em diante, ficamos irm\u00e3os. At\u00e9 o final da vida. \u00c9 uma pessoa fabulosa, n\u00e3o queria contar com sucesso. \u201cN\u00e3o quero sucesso, eu quero a m\u00fasica\u201d. Mesmo quando estourou A Banda, ela ficava: \u201cah, Roberto, eu tenho que ir aos lugares todos. E as pessoas \u2018A banda\u2019, \u2018A banda\u2019, \u2018A banda\u2019. A gente faz tantas m\u00fasicas. Eu gosto d\u2019A banda, ganhei o festival com ela e com o Chico. Mas eu n\u00e3o gosto do sucesso\u201d. Ent\u00e3o, ficamos amigos. At\u00e9 o \u00faltimo dia, cantamos juntos.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 O que \u00e9 que tem de Bossa Nova nos Beatles?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> Os Beatles quando surgiram pra mim, eu estava fazendo um show com Caymmi, Vinicius e Quarteto em Cy. Ent\u00e3o eu falei: vamos pegar umas cabeleiras e vamos imitar os Beatles aqui numa m\u00fasica. Mas, meio sacaneando. E, aos poucos&#8230; (cantarola Michelle). P\u00f4, que m\u00fasica bonita. \u00c9 dos Beatles mesmo ou eles cantavam, s\u00f3? A\u00ed eu comecei a descobrir essas coisas. At\u00e9 que um produtor, que \u00e9 do Biquini Cavad\u00e3o (Carlos Coelho), falou assim: \u201ccara, eu tenho uma ideia. Vamos fazer um disco de Beatles em Bossa Nova?\u201d. Cara, eu topo porque eu gosto de muitas coisas deles. Mas eu queria escolher nas coisas deles o que eu acho que daria pra isso. Pra n\u00e3o for\u00e7ar a barra. Ele me deu umas 30 m\u00fasicas, eu escolhi e fiz um disco de Beatles em Bossa Nova (lan\u00e7ado este ano). Pena que a gente acabou n\u00e3o fazendo projeto, porque eu estou com um projeto com a Leila Pinheiro tocando Cazuza. T\u00f4 com um projeto com a Fernanda Takai, que \u00e9 o <em>Tom da Takai<\/em>. T\u00f4 com um projeto gravando com o Bossacucanova, o Bossa Blues. Fiz um projeto com o Quarteto do Rio, que s\u00e3o os antigos Cariocas. Cara, n\u00e3o cabia mais. N\u00e3o tinha mais como entrar. Os Beatles ficam para o ano que vem. Eles esperam.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 A gente falou de Beatles, mas tamb\u00e9m tem o The Police. Voc\u00ea tem uma parceria com o Andy Summers.<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> S\u00e3o as coisas da vida. Eu gravei uma m\u00fasica com a Cris Dellano, que era o <em>Roxanne<\/em>. A gente estava gravando e eu trazia uma m\u00fasica e ela outra. E ela trouxe o <em>Roxanne<\/em> com o Sting. E um amigo, que conhece muito o Andy, disse: \u201cRoberto, o Andy Summers quer te conhecer. Ele ouviu o <em>Roxanne<\/em> e quer falar com voc\u00ea\u201d. Cacete, ele n\u00e3o gostou porque eu mudei a coisa toda. A\u00ed, fomos almo\u00e7ar juntos. Ele \u00e9 muito ingl\u00eas, muito s\u00e9rio. \u201cComo \u00e9 que voc\u00ea teve aquela concep\u00e7\u00e3o?\u201d E eu quase pedindo perd\u00e3o a ele. Ele falou: \u201c\u00e9 genial\u201d. Voc\u00ea gostou? E a\u00ed j\u00e1 sa\u00edmos de l\u00e1 \u201cvamos fazer um projeto juntos\u201d e fizemos, sa\u00edmos tocando por a\u00ed. E j\u00e1 estamos com outro projeto encaminhado, porque eu quero fazer com um neg\u00f3cio de \u201c60 anos depois\u201d. De Bossa Nova, mas com ele e com Leila. Como eu fiz com ela o disco de 30 anos de Bossa Nova, o Ben\u00e7\u00e3o Bossa Nova, eu disse: vamos pegar daquele disco umas 10 pessoas e vamos fazer nos tr\u00eas. Piano, guitarra e viol\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Pra encerrar, o que significou esse pr\u00eamio de excel\u00eancia musical da Academia do Grammy?<\/strong><br \/>\n<strong>Menescal \u2013<\/strong> Cara&#8230; (pensando) \u00c9 bacana, n\u00e9? Mas eu acho que n\u00e3o quer dizer muita coisa n\u00e3o. Eu preferi at\u00e9 do que melhor m\u00fasico, melhor n\u00e3o sei que. Porque acho que \u00e9 tipo assim \u201cbacana a vida que voc\u00ea fez por a\u00ed\u201d. Representou isso a\u00ed. \u00c9 mesmo, acho que fiz umas coisas bacanas. Mas olha, o passado foi muito bom. Mas, bicho, n\u00e3o tenho saudades do passado n\u00e3o. Eu tenho saudades do futuro. Porque \u00e9 o futuro que vai me abrindo essas possibilidades todas. T\u00f4 doido pra fazer o disco do Andy e Leila. Doido pra fazer o show dos Beatles. Ent\u00e3o \u00e9 isso, eu quero o amanh\u00e3. Estou muito feliz. E mais feliz ainda de falar assim: \u201cporra, come\u00e7amos uma coisa 60 anos atr\u00e1s, brincando, e estou vivendo dela at\u00e9 hoje\u201d. \u00c9 dif\u00edcil.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Samba do Avi\u00e3o - Cris Delanno \/ Andy Summers (The Police) \/ Roberto Menescal\" width=\"668\" height=\"376\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/petqerOq_aY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>+++++++++++++++<br \/>\n<strong>Em Fortaleza<\/strong><br \/>\nRoberto Menescal esteve em Fortaleza em julho para uma apresenta\u00e7\u00e3o no Theatro Jos\u00e9 de Alencar. Antes de ir ao show, ele recebeu a equipe do O POVO para uma conversa que deveria ser r\u00e1pida. N\u00e3o foi.<\/p>\n<p>Roberto Menescal tem uma mem\u00f3ria prodigiosa. Ele lembra dos di\u00e1logos, locais e personagens. E aborda todos os assuntos com o mesmo semblante tranquilo. O \u00fanico momento em que ficou mais s\u00e9rio foi quando falou sobre a situa\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Gilberto e da fam\u00edlia em torno dos bens do m\u00fasico.<\/p>\n<p>Menescal se orgulha de emendar v\u00e1rios projetos. Em 2018, ele lan\u00e7ou dois discos: Bossa Nova Meets The Beatles, interpretando can\u00e7\u00f5es do quarteto ingl\u00eas, e Mr. Bossa Nova, dividido com Quarteto do Rio (nova vers\u00e3o d\u2019Os Cariocas). Outros v\u00e1rios projetos est\u00e3o sendo montados com Leila Pinheiro, Marcos Lessa e outros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Roberto Batalha Menescal \u00e9 um cara de sorte. 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