{"id":19148,"date":"2018-11-08T12:43:07","date_gmt":"2018-11-08T14:43:07","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/?p=19148"},"modified":"2018-11-08T12:43:33","modified_gmt":"2018-11-08T14:43:33","slug":"documentarista-werinton-kermes-fala-sobre-a-influencia-de-clementina-de-jesus-na-mpb","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/2018\/11\/08\/documentarista-werinton-kermes-fala-sobre-a-influencia-de-clementina-de-jesus-na-mpb\/","title":{"rendered":"Documentarista Werinton Kermes fala sobre a influ\u00eancia de Clementina de Jesus na MPB"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19149\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/11\/clementina-jesus-04.jpg\" alt=\"\" width=\"940\" height=\"612\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/11\/clementina-jesus-04.jpg 940w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/11\/clementina-jesus-04-300x195.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/11\/clementina-jesus-04-768x500.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/11\/clementina-jesus-04-740x482.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/11\/clementina-jesus-04-120x78.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 940px) 100vw, 940px\" \/><\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil definir a <strong>Clementina de Jesus<\/strong>. Ela era mais que cantora, mais que int\u00e9rprete, mais que artista. Ela era um s\u00edmbolo de uma hist\u00f3ria, de um povo, de uma heran\u00e7a, de uma miscigena\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo em que isso tudo vinha \u00e0 tona quando ela soltava a voz, era preciso um tempo at\u00e9 absorver tudo. E \u00e9 esse impacto que Werinton Kermes tenta transmitir no filme <strong>Rainha Quel\u00e9<\/strong>. Lan\u00e7ado em 2012, o document\u00e1rio integra a programa\u00e7\u00e3o da Sess\u00e3o Sonora deste domingo, 11, no Cineteatro S\u00e3o Luiz. Atual secret\u00e1rio de Cultura de Sorocaba, o jornalista e fot\u00f3grafo tem uma larga produ\u00e7\u00e3o de livros e filmes. Entre os document\u00e1rios, ele contou sobre a vida buc\u00f3lica da cidade de Alexandra, no Paran\u00e1 (no filme <em>A Bicicleta e o Caranguejo<\/em>, 2012) e sobre o compositor Jo\u00e3o do Vale. Sobre Clementina, ele n\u00e3o economiza elogios e detalha a import\u00e2ncia de valorizar uma mulher t\u00e3o esquecida na cultura brasileira. Confira.<!--more--><\/p>\n<p><strong>OPOVO \u2013 Qual a import\u00e2ncia de falar em Clementina de Jesus nos dias de hoje?<\/strong><br \/>\n<strong>Werinton Kermes \u2013<\/strong> Falar de Clementina \u00e9 importante em qualquer tempo. Mas neste, ainda mais. Negra, pobre, dom\u00e9stica, com uma voz rascante e \u00fanica, diferente de tudo o que havia nas m\u00eddias da \u00e9poca, chegou ao palco e aos meios de comunica\u00e7\u00e3o depois dos 60 anos. \u00c9 importante que a imagem de Clementina chegue \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es pelo fato de que ela \u00e9 uma das refer\u00eancias matriciais da cultura brasileira. Sua m\u00fasica foi um manancial de oralidade e mem\u00f3ria de matriz africana no Brasil. Ela nos faz lembrar o quanto somos todos negros. O quanto devemos aos negros.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Como e quando surgiu a ideia de fazer esse document\u00e1rio? E por onde voc\u00ea come\u00e7ou a pesquisa? Que facilidades e que dificuldades teve na produ\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\n<strong>Werinton \u2013<\/strong> A ideia surgiu nos idos de 1980, quando vi Clementina no palco, em minha cidade (Sorocaba, SP). Mas s\u00f3 come\u00e7amos a materializar a ideia entre 2010 e 2012. O aux\u00edlio foi um livro de Herom Coelho, pesquisador, que nos ajudou a sistematizar as informa\u00e7\u00f5es. As dificuldades foram as de sempre. Falta de patroc\u00ednio e\u00a0 a dificuldade da fam\u00edlia entender a necessidade de que estas informa\u00e7\u00f5es circulem. As facilidades: a receptividade dos entrevistados. O nome de Clementina abriu as portas e muitos artistas se mostraram dispostos a falar sobre ela com amor e encantamento.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Clementina de Jesus - &quot;Marinheiro S\u00f3&quot; (1982)\" width=\"668\" height=\"501\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/RQMBOlzajEg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Seu filme foi feito em 2012 como uma v\u00eddeo-reportagem e distribu\u00eddo em escolas. Como foi a repercuss\u00e3o desse trabalho entre os estudantes?<\/strong><br \/>\n<strong>Werinton \u2013<\/strong> A repercuss\u00e3o desde o primeiro momento tem sido de estupefa\u00e7\u00e3o, porque quase ningu\u00e9m a conhece entre os jovens. \u00c9 um document\u00e1rio did\u00e1tico, nesse aspecto. E em seguida h\u00e1 o interesse. O filme gerou trabalho de conclus\u00e3o de curso em jornalismo que depois virou livro. Segue at\u00e9 hoje em mostras, em salas de aula, espa\u00e7os alternativos. Em geral as pessoas se assustam com a for\u00e7a vocal, a presen\u00e7a de palco, o respeito dos artistas por Clementina, e se perguntam: como eu n\u00e3o a conhecia? Entre os pr\u00eamios que o document\u00e1rio recebeu, est\u00e3o os da escolha do p\u00fablico, como no festival de Porto Velho, em que nem est\u00e1vamos concorrendo na mostra oficial. Mas a aceita\u00e7\u00e3o do filme pelo p\u00fablico foi t\u00e3o grande e emocionada que nos deram um reconhecimento do p\u00fablico.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Outro filme est\u00e1 sendo lan\u00e7ado, da Ana Rieper, sobre Clementina. Voc\u00ea conhece esse outro filme? O que seu tem de diferente?<\/strong><br \/>\n<strong>Werinton \u2013<\/strong> N\u00e3o conhe\u00e7o o filme da Ana Rieper. Mas, pela sinopse, \u00e9 poss\u00edvel ver que o filme de Ana teve apoio da fam\u00edlia, pois h\u00e1 um depoimento do neto, Bira. Tamb\u00e9m n\u00e3o tivemos depoimento de Herm\u00ednio Bello, um nome fundamental na descoberta de Clementina. E talvez nosso foco esteja mais nela do que na cultura de Valen\u00e7a e regi\u00e3o. A falta de recursos e de patroc\u00ednio, o fato da produ\u00e7\u00e3o ter sido completamente independente tamb\u00e9m nos imp\u00f5e limites que talvez sejam menores no filme de Ana.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Queria saber sobre a pesquisa que deu origem ao filme. Que fontes voc\u00ea usou? Que entrevistados foram mais relevantes?<\/strong><br \/>\n<strong>Werinton \u2013<\/strong> A fonte foi o livro organizado por Herom Coelho, Clementina de Jesus, que re\u00fane textos de diversos pesquisadores. Depois foram arquivos das TVs , sobretudo a cultura, arquivos de imagem do pr\u00f3prio Herom. Um depoimento fundamental foi o de Jo\u00e3o Bosco. Al\u00e9m dele, Paulinho da Viola, por terem convivido muito com ela e terem hist\u00f3rias pessoais de reconhecimento, inclusive deles mesmos como m\u00fasicos. Jo\u00e3o Bosco afirma que Clementina foi quem o fez olhar para si mesmo e se reconhecer como brasileiro.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Se a gente for falar de heran\u00e7a art\u00edstica de Clementina de Jesus, voc\u00ea v\u00ea algum outro artista que deu continuidade ao que ele fez? \u00c9 poss\u00edvel falar de influ\u00eancias que ela deixou para a m\u00fasica brasileira?<\/strong><br \/>\n<strong>Werinton \u2013<\/strong> N\u00e3o existe nenhuma outra voz, nada que se compare \u00e0 Clementina. O Jo\u00e3o Bosco talvez seja um exemplo ainda presente, nas vocaliza\u00e7\u00f5es que realiza. Elza Soares, com outra voz e outro comportamento, talvez tenha um qu\u00ea de Clementina. Mas h\u00e1 Clementinas por a\u00ed, lavando roupa e cantando. H\u00e1 Clementinas nos palcos e nas ruas de Fortaleza. H\u00e1 muitas. Apenas n\u00e3o veem \u00e0 luz porque n\u00e3o h\u00e1 interesse das m\u00eddias. Clementina \u00e9 uma voz popular. Est\u00e1 nos terreiros de candombl\u00e9, no jongo, nas rodas de partido alto. A cultura popular resiste. Apenas n\u00e3o \u00e9 vista pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Por isso se v\u00ea a sua fortaleza. Ela resiste apesar do descaso, da fome, da falta de recursos e apoio, at\u00e9 mesmo apesar da falta de reconhecimento e inclusive persegui\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma cultura de gente brava, forte, que\u00a0 sobrevive apesar de tudo.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 \u00c9 poss\u00edvel dizer que Clementina n\u00e3o era uma artista de f\u00e1cil assimila\u00e7\u00e3o. O primeiro contato com sua arte pode causar uma estranheza, at\u00e9 que se entenda todos os elementos que est\u00e3o ali envolvidos. Voc\u00ea lembra como foi a primeira vez em que teve contato com a obra dele?<\/strong><br \/>\n<strong>Werinton \u2013<\/strong> Foi na d\u00e9cada de 1970. Houve um show em Sorocaba. O p\u00fablico n\u00e3o apareceu porque choveu muito, muito mesmo. Ela veio ao palco, magn\u00edfica. Cantou para meia d\u00fazia de pessoas encantadas com aquela presen\u00e7a. Era de se estranhar, mas havia uma qu\u00ea de sagrado, por ser uma senhora, negra, quase uma entidade. Al\u00e9m da voz, havia nela seguran\u00e7a, autoridade, sacralidade. Como uma rainha, uma deusa. O arqu\u00e9tipo da m\u00e3e, a m\u00e3e de todos.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Qual era o ponto forte de sua arte?<\/strong><br \/>\n<strong>Werinton \u2013<\/strong> A raiz. Isso transbordava dela. E todos os entrevistados falam o mesmo. No palco ela crescia e era a pr\u00f3pria \u00c1frica no Brasil.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Voc\u00ea tamb\u00e9m tem um filme sobre o Jo\u00e3o do Vale. Que semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as existem entre esses dois personagens, o Jo\u00e3o e a Clementina?<\/strong><br \/>\n<strong>Werinton \u2013<\/strong> Os dois negros, pobres. Os dois com nenhuma escolaridade. Os dois com enorme reconhecimento dos artistas consagrados. A diferen\u00e7a talvez esteja na obstina\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o que quis ser artista e foi atr\u00e1s disso, se mudou para o Rio de Janeiro e vendeu suas composi\u00e7\u00f5es para se tornar conhecido. Clementina nunca buscou ser artista. Aconteceu&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"CLARA NUNES Partido Alto com Clementina\" width=\"668\" height=\"376\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bO_7pj92hww?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 Apesar de ser uma gigante, pouco se fala em Clementina de Jesus hoje. Que mem\u00f3ria existe dela para as novas gera\u00e7\u00f5es? Existem museus, livros, ruas, pra\u00e7as, homenagens a ela?<\/strong><br \/>\n<strong>Werinton \u2013<\/strong> H\u00e1 muitas ruas no Brasil chamadas Clementina de Jesus. Mas, sobre a obra, o que h\u00e1 \u00e9 um vazio. Um sil\u00eancio. Quantos daqueles que moram em uma rua com esse nome sabem quem foi Clementina? Se fosse poss\u00edvel dar um presente \u00e0 Quel\u00e9, o mais relevante, mais do que uma caixa com discografia, um museu ou um novo document\u00e1rio, o melhor presente seria o do reconhecimento de nossas ra\u00edzes. Todos somos negros no Brasil. Ou no sangue, ou na cultura. Esse reconhecimento seria fundamental. Mas com ele, a institui\u00e7\u00e3o da voz de Quel\u00e9, de sua obra, como patrim\u00f4nio imaterial brasileiro. A obra de algu\u00e9m t\u00e3o importante e definitivo, um s\u00edmbolo maior de nossa condi\u00e7\u00e3o mesti\u00e7a, n\u00e3o poderia ficar ref\u00e9m do desejo e do ju\u00edzo dos herdeiros. Ela \u00e9 um patrim\u00f4nio brasileiro. E nem sempre os descendentes t\u00eam essa consci\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>O POVO \u2013 No ano passado, marcou-se 30 anos da morte de Clementina. Se voc\u00ea pudesse dar a ela um presente, o que daria?<\/strong><br \/>\n<strong>Werinton \u2013<\/strong> Clementina \u00e9 remanescente de quilombo. Seria um presente se tantos quilombolas n\u00e3o fossem assassinados no Brasil todos os anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 dif\u00edcil definir a Clementina de Jesus. Ela era mais que cantora, mais que int\u00e9rprete, mais que artista. Ela era um s\u00edmbolo de uma hist\u00f3ria,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":74,"featured_media":19149,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[692,129,145,283],"tags":[],"class_list":["post-19148","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-clementina-de-jesus","category-entrevistas","category-filmes","category-nacional"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19148","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/74"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19148"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19148\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19151,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19148\/revisions\/19151"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19149"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19148"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19148"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19148"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}