{"id":20562,"date":"2020-11-11T13:37:28","date_gmt":"2020-11-11T16:37:28","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/?p=20562"},"modified":"2020-11-13T19:00:41","modified_gmt":"2020-11-13T22:00:41","slug":"coluna-11-sabor-de-mote-e-glosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/2020\/11\/11\/coluna-11-sabor-de-mote-e-glosa\/","title":{"rendered":"Coluna Mimi Rocha 11 &#8211; Sabor de Mote e Glosa"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-20563 size-large\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2020\/11\/belchior-mote_e_glosa_1974-740x741.jpg\" alt=\"\" width=\"740\" height=\"741\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2020\/11\/belchior-mote_e_glosa_1974-740x741.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2020\/11\/belchior-mote_e_glosa_1974-300x300.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2020\/11\/belchior-mote_e_glosa_1974-150x150.jpg 150w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2020\/11\/belchior-mote_e_glosa_1974-768x769.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2020\/11\/belchior-mote_e_glosa_1974-120x120.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2020\/11\/belchior-mote_e_glosa_1974.jpg 1000w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><\/p>\n<p>Tem sabores e sensa\u00e7\u00f5es que ficam marcados pra sempre na nossa lembran\u00e7a: o primeiro banho de mar, o primeiro picol\u00e9, primeiro beijo, gole de cerveja e por a\u00ed vai.\u00a0Para o artista da m\u00fasica, o lan\u00e7amento do primeiro disco, ainda mais na \u00e9poca de ouro das grande gravadoras do Sul maravilha, tinha tamb\u00e9m esse sabor especial.\u00a0Dito isso quero come\u00e7ar aqui na coluna a falar de primeiros discos de alguns artistas que considero fazerem parte da minha forma\u00e7\u00e3o musical.<\/p>\n<p>Vou come\u00e7ar pelo nosso menestrel-mor <strong>Belchior<\/strong> e seu disco de 1974 que ficou conhecido como <strong>Mote e Glosa<\/strong>.<\/p>\n<p>Bel j\u00e1 tinha lan\u00e7ado dois compactos simples, (mini lp com um m\u00fasica de cada lado) em 1971 pela Copacabana (<em>Na Hora do Almo\u00e7o <\/em>e <em>Quem me Dera<\/em>) e em 1973 pela Chantecler (<em>Sorry Baby <\/em>e <em><span style=\"text-decoration: underline\">A Palo Seco<\/span><\/em>), mas foi s\u00f3 em 1974 que juntou um conjunto de can\u00e7\u00f5es que veio a ser a sua estreia em LP (long play).<\/p>\n<p>O disco foi produzido por Marcus Vinicius, um m\u00fasico pernambucano radicado na Para\u00edba e que chegou em 1969 no Rio de Janeiro para estudar arranjo e composi\u00e7\u00e3o no conceituado Instituto Villa Lobos. Foi atrav\u00e9s de Walter Silva, radialista e produtor conhecido por ter lan\u00e7ado o disco do Pessoal do Cear\u00e1 (com Ednardo, Rodger Rog\u00e9rio e Teti), que Marcus chegou a <strong>Belchior<\/strong>. Segundo ele, passavam a noite organizando as m\u00fasicas, no dia seguinte ele fazia o arranjo e orquestra\u00e7\u00e3o, e mostrava ao <strong>Bel<\/strong>. Uma pena que a ficha t\u00e9cnica seja muito reduzida, s\u00f3 cita o est\u00fadio (Sonima), alguns t\u00e9cnicos (Zorro, \u00cdndio e Carlinhos), fot\u00f3grafo (Mario Luis Thompson), capa (Oscar Paolillo) e n\u00e3o cita o nome de nenhum m\u00fasico participante.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Belchior &quot;A Palo Seco&quot;, 1974\" width=\"668\" height=\"501\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bCPvpCQCJo0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>A bolacha abre com a faixa t\u00edtulo, num ponteio de viola logo seguido de uma guitarra distorcida e a letra com influ\u00eancia de poesia concreta, que permeia o disco quase todo, anuncia: &#8221; \u00c9 o novo, \u00e9 o novo&#8230; Voc\u00ea que \u00e9 muito vivo me diga qual \u00e9 o novo&#8221;, sinalizando uma ruptura com o \u00faltimo movimento musical inovador que foi a Tropic\u00e1lia, que ele explicitaria na frase \u201cEm que um antigo compositor baiano me dizia tudo \u00e9 divino, tudo \u00e9 maravilhoso\u201d, da m\u00fasica <strong><em>Apenas um Rapaz Latino Americano <\/em><\/strong>do disco <strong>Alucina\u00e7\u00e3o<\/strong><em>. <\/em>A m\u00fasica tem boas interven\u00e7\u00f5es de flauta e uma sanfona num clima meio bai\u00e3o que d\u00e3o o tom do que vir\u00e1 por a\u00ed.<\/p>\n<p>Tr\u00eas hits est\u00e3o em suas primeiras vers\u00f5es aqui registradas. <em><strong>A Palo Seco<\/strong><\/em>, a m\u00fasica mais cult bacaninha at\u00e9 hoje entre os novos f\u00e3s do <strong>Bel<\/strong>, que teve grava\u00e7\u00f5es de Ednardo, Fagner, L\u00f3s Hermanos e Oswaldo Montenegro, tem um arranjo com um longo e bonito solo de sax e orquestra\u00e7\u00e3o bem cuidada de cordas. Lembra os arranjos de Hareton Salvanini, o &#8220;George Martin do Pessoal do Cear\u00e1&#8221;.<\/p>\n<p><em><strong>Na Hora do Almo\u00e7o<\/strong><\/em> j\u00e1 era vencedora do IV Festival Universit\u00e1rio e vem com arranjo de cordas em Ostinatto (repeti\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica), lembrando toques Beatles de <em>Strawberry Fields<\/em> <em>Forever<\/em> e os acordes de <em>Dear Prudence.<\/em> \u00c9 sucesso at\u00e9 hoje nas rodas de viol\u00e3o em fogueiras. <strong><em>Todo Sujo de Batom<\/em><\/strong>\u00a0s\u00f3 teria a vers\u00e3o definitiva no disco <strong>Cora\u00e7\u00e3o selvagem<\/strong>, mas n\u00e3o faz feio com violinos e saxes em contraponto com a letra que fala de algo que parece termos j\u00e1 vivido em algum lugar do passado&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Luau MTV Los Hermanos - (10) \u00c0 Palo Seco\" width=\"668\" height=\"501\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/H0iXFQvfzqg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong><em>Senhor dono da Casa <\/em><\/strong>e <em>\u00a0<strong>Rodagem <\/strong><\/em>j\u00e1 prenunciam temas recorrentes, como a vida na cidade grande sem esquecer as ra\u00edzes. A primeira com os versos \u201cJuntei as economias pra gastar nos maus dias&#8230;&#8221; e segunda que tem at\u00e9 um clima de m\u00fasica sertaneja: \u201csemana que entra, no primeiro dia, te encontro na feira, Luzia\u201d.<\/p>\n<p>O lado mais experimental do disco, flerta com o erudito, m\u00fasica e poesia concreta como em <strong><em>Bebelo <\/em><\/strong>que come\u00e7a com improvisa\u00e7\u00f5es livres, cai num tema de viola em clima tern\u00e1rio, at\u00e9 chegar num un\u00edssono (melodia feita por dois instrumentos ou voz) de viol\u00e3o e voz sensacional,\u00a0e finalizar com o poema concretista inspirado nos poetas e irm\u00e3os Haroldo e Augusto de Campos.<\/p>\n<p>Seguem <em><strong>M\u00e1quina I<\/strong><\/em> e <strong><em>II<\/em><\/strong>, a primeira em vers\u00e3o instrumental com influ\u00eancia de orquestra\u00e7\u00f5es dos Beatles, mostrando o talento de orquestrador de Marcus Vinicius, numa \u00e9poca que isso ainda era poss\u00edvel em disco de lan\u00e7amento de um cantor de MPB. A segunda parte brinca com as s\u00edlabas da palavra &#8220;M\u00e1quina&#8221; e termina com uma m\u00e1quina de escrever dando o ritmo.\u00a0<strong><em>Cemit\u00e9rio<\/em><\/strong> j\u00e1 nos mostra o lado mais sacro de <strong>Belchior<\/strong>, que foi educado em um convento durante a juventude, mas finaliza com a frase &#8220;tudo \u00e9 interior que babiloniou\u201d. Mais genial imposs\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Oswaldo Montenegro - A Palo Seco (Acustico)\" width=\"668\" height=\"501\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/AaumGKCytLE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Apesar dos hits citados e do lado experimental, pra mim a cereja do bolo do disco \u00e9 a faixa <strong><em>Passeio<\/em><\/strong>, que conheci em 2014 atrav\u00e9s do cantor e compositor <strong>Jonnata Doll<\/strong>, no show que fizemos em homenagem ao <strong>Belchior<\/strong> na primeira edi\u00e7\u00e3o do festival Maloca Drag\u00e3o. Hoje, tamb\u00e9m faz parte do repert\u00f3rio de v\u00e1rios artistas de gera\u00e7\u00f5es recentes sendo <strong>Daniel Groove<\/strong> um deles.<\/p>\n<p>A can\u00e7\u00e3o \u00e9 daquelas que nos d\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o de que j\u00e1 ouvimos antes, com a cad\u00eancia de acordes bem surrada por Dylan, Lennon e outros hits do pop anos 1960 e 70. S\u00f3 acho que o tom dele seria melhor um pouco mais baixo. Mas n\u00e3o compromete em nada a vers\u00e3o final.<\/p>\n<p>Traz ainda uma letra que merece ser apresentada aqui na \u00edntegra:<\/p>\n<p>&#8221; Vamos andar<br \/>\nPelas ruas de S\u00e3o Paulo,<br \/>\nPor entre os carros de S\u00e3o Paulo,<br \/>\nMeu amor, vamos andar e passear.<br \/>\nVamos sair pela rua da Consola\u00e7\u00e3o,<br \/>\nDormir no parque, em plena quarta-feira,<br \/>\nE sonhar com o domingo em nosso cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Meu amor, meu amor, meu amor:<br \/>\nA eletricidade desta cidade<br \/>\nMe d\u00e1 vontade de gritar<br \/>\nQue apaixonado eu sou.<\/p>\n<p>Nesse cimento, meu pensamento e meu sentimento<br \/>\nS\u00f3 t\u00eam o momento de fugir no disco voador.<br \/>\nMeu amor, meu amor, meu amor!&#8221;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Maloca Drag\u00e3o- Jonnata Doll canta Passeio,m\u00fasica de Belchior.\" width=\"668\" height=\"376\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/69lZBNJ78c4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>O disco <strong><em>Mote E Glosa <\/em><\/strong>envelheceu bem e recentemente foi relan\u00e7ado em vinil 180 gramas, e pude conferir como tem uma qualidade incr\u00edvel tamb\u00e9m no aspecto sonoro, de mixagem, defini\u00e7\u00e3o dos instrumentos, voz.\u00a0Nos shows que fiz com <strong>Belchior<\/strong>, no per\u00edodo entre 1998 e 2007, os\u00a0 hits citados <em><strong>Na Hora do Almo\u00e7o<\/strong>, <strong>A Palo Seco<\/strong><\/em> e <strong><em>Todo Sujo de Batom<\/em><\/strong> sempre estiveram no repert\u00f3rio.<\/p>\n<p><em><strong>Mimi Rocha \u00e9 m\u00fasico e produtor. Ele escreve nesse espa\u00e7o quinzenalmente<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tem sabores e sensa\u00e7\u00f5es que ficam marcados pra sempre na nossa lembran\u00e7a: o primeiro banho de mar, o primeiro picol\u00e9, primeiro beijo, gole de cerveja&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":74,"featured_media":20563,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42,720,90,189,283],"tags":[],"class_list":["post-20562","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-belchior","category-coluna-do-mimi","category-criticas","category-jonatta-doll-os-garotos-solventes","category-nacional"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20562","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/74"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20562"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20562\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20574,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20562\/revisions\/20574"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20563"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20562"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20562"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20562"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}