{"id":20725,"date":"2021-03-11T21:29:14","date_gmt":"2021-03-12T00:29:14","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/?p=20725"},"modified":"2021-03-12T20:56:04","modified_gmt":"2021-03-12T23:56:04","slug":"coluna-mimi-rocha-17-miles-camaleao-davis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/2021\/03\/11\/coluna-mimi-rocha-17-miles-camaleao-davis\/","title":{"rendered":"Coluna Mimi Rocha 17: Miles &#8220;Camale\u00e3o&#8221; Davis"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_20726\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-20726\" class=\"wp-image-20726 size-large\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2021\/03\/Miles-Davis-Birth-Of-The-Cool-3-CREDIT-Herman-Leonard-Photography-LLC-1000-740x444.jpg\" alt=\"\" width=\"740\" height=\"444\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2021\/03\/Miles-Davis-Birth-Of-The-Cool-3-CREDIT-Herman-Leonard-Photography-LLC-1000-740x444.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2021\/03\/Miles-Davis-Birth-Of-The-Cool-3-CREDIT-Herman-Leonard-Photography-LLC-1000-300x180.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2021\/03\/Miles-Davis-Birth-Of-The-Cool-3-CREDIT-Herman-Leonard-Photography-LLC-1000-768x461.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2021\/03\/Miles-Davis-Birth-Of-The-Cool-3-CREDIT-Herman-Leonard-Photography-LLC-1000-120x72.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2021\/03\/Miles-Davis-Birth-Of-The-Cool-3-CREDIT-Herman-Leonard-Photography-LLC-1000.jpg 1000w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><p id=\"caption-attachment-20726\" class=\"wp-caption-text\">Miles Davis e seu insepar\u00e1vel companheiro, o instrumento<\/p><\/div>\n<p>Definir um estilo musical e ser fiel a ele durante a carreira \u00e9 um grande desafio enfrentado\u00a0por artistas, principalmente aqueles que est\u00e3o come\u00e7ando agora.\u00a0Diante de tantas op\u00e7\u00f5es e subg\u00eaneros a disposi\u00e7\u00e3o, a fidelidade de um purista se v\u00ea comprometida com tantas distra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Peguemos o samba, por exemplo, e suas vertentes mais conhecidas: samba duro, de breque, partido alto, pagode, samba enredo, samba de roda, samba can\u00e7\u00e3o, samba rock (diga se de passagem, que nem \u00e9 um nem outro&#8230;), sambalan\u00e7o, sambossa, samba reggae, samba jazz, samba funk, playgode, sambanejo, etc&#8230; A\u00ed que voc\u00ea j\u00e1 v\u00ea a encrenca em que se meteu.<\/p>\n<p>Mesmo em estilos calcados na variedade e improvisa\u00e7\u00e3o, como o jazz, e suas v\u00e1rias encarna\u00e7\u00f5es, m\u00fasicos consagrados enfrentam cr\u00edtica de radicais de que teriam se vendido aos modismos, viraram comerciais e perderam a ess\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Miles Davis,<\/strong> o grande g\u00eanio maldito, come\u00e7ou a carreira nos anos 1940, substituindo o tamb\u00e9m trompetista Dizzy Gillespie (aquele da bochecha cheia quando tocava) na famosa banda do saxofonista Charlie Parker, que fazia muito sucesso principalmente entre os outros m\u00fasicos com o jazz bebop, um estilo definido por trocas r\u00e1pidas de acordes, modula\u00e7\u00f5es constantes (mudan\u00e7as de tom), temas curtos e com andamentos (velocidade) acelerados. Ou seja, era m\u00fasica pra virtuosos e at\u00e9 hoje \u00e9 ensinado em escolas de m\u00fasica mundo afora atraindo ainda m\u00fasicos jovens querendo mostrar \u201cligeireza\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Charlie Parker - Donna Lee\" width=\"668\" height=\"376\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/D_iZPUCMgow?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>S\u00e3o temas cl\u00e1ssicos do estilo: <em><strong>Donna Lee<\/strong><\/em> (que <strong>Miles<\/strong> jura que \u00e9 dele, mas sai como sendo de Charlie Parker), <em><strong>Ko-ko<\/strong><\/em>, <em><strong>Antrophology<\/strong><\/em>, <em><strong>Cherokee<\/strong><\/em>, <em><strong>A Night In Tunisia<\/strong><\/em>, <em><strong>Groovin High<\/strong><\/em>, entre outras.<\/p>\n<p><strong>Miles<\/strong> cansou rapidamente de tocar somente pra outros m\u00fasicos, se juntou ao maestro Gil Evans e criaram juntos o cool jazz, com o hist\u00f3rico <strong>The Birth of the Cool<\/strong>, gravado entre 1949 e 1950 mas s\u00f3 lan\u00e7ado em 1957 quando ele j\u00e1 estava em outra onda. O foco aqui eram m\u00fasicas mais orquestrais, influ\u00eancias eruditas. Seu grupo era um noneto que inclu\u00edam tuba e french horn, que n\u00e3o eram instrumentos usuais em jazz. Os arranjos eram mais texturais e menos \u00eanfase na improvisa\u00e7\u00e3o. Os temas tinham andamentos de lentos a m\u00e9dio e eram bem curtos. Um programa da TV americana mostra o famoso grupo em a\u00e7\u00e3o na \u00e9poca.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Miles Davis &amp; Gil Evans 1959\" width=\"668\" height=\"501\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/GFaK4q0pxcQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Quando todo mundo embarcou na onda \u201ccool\u201d, que influenciou at\u00e9 a o nossa Bossa Nova (vai virar coluna&#8230;) o camale\u00e3o <strong>Miles<\/strong> j\u00e1 estava inovando dessa feita com o hard bop, um estilo mais vigoroso que tinha influ\u00eancias do bebop, do blues e usava standards (temas e can\u00e7\u00f5es populares ) como base para os arranjos e improvisa\u00e7\u00f5es. O novo estilo se cristalizou quando ele assinou com o selo Prestige, na metade dos anos 1950, e montou seu primeiro quinteto que trazia o jovem saxofonista John Coltrane, que faria fama mais adiante.<\/p>\n<p>Com esse excepcional grupo, ele lan\u00e7ou quatros obras primas em conceito, musicalidade e at\u00e9 na arte das capas: <em><strong>Relaxin<\/strong><\/em>, <em><strong>Cookin<\/strong><\/em>, <em><strong>Steamin <\/strong><\/em>e <em><strong>Workin<\/strong><\/em>. <strong>Miles<\/strong> estava numa das suas melhores fases como instrumentista. \u00c9 dif\u00edcil selecionar as melhores mas destaco: <em><strong>Airegin<\/strong><\/em>, <em><strong>Tune-Up<\/strong><\/em>, <em><strong>Four<\/strong><\/em>, <em><strong>When I fall in love<\/strong><\/em> e\u00a0<em><strong>It could happen to you<\/strong><\/em>.<\/p>\n<p>A sorte dele mudou com a apresenta\u00e7\u00e3o no lend\u00e1rio Newport Jazz Festival (ele reclamou por anos que nunca recebeu o cach\u00ea&#8230;) em julho de 1955 que o levou a assinar com a Columbia Records e passar a ter status quase de um Sinatra, com todos os mimos e recursos que uma grande gravadora poderia lhe dar. Com isso tamb\u00e9m vieram os excessos (drogas, romance complexos, acidentes&#8230;), mas o legado musical \u00e9 inquestion\u00e1vel nesse que foi seu mais longevo contrato.<\/p>\n<p>Com ajuda do sensacional produtor Teo Macero, est\u00fadios de ponta e fama tamb\u00e9m entre os m\u00fasicos que agora at\u00e9 pagavam pra fazer parte de sua banda, <strong>Miles<\/strong> lan\u00e7ou discos seminais come\u00e7ando por<strong> Round Midnight<\/strong> e seguindo com os cl\u00e1ssicos <strong>Milestones<\/strong> (que prenuncia a sua pr\u00f3xima fase), <em><strong>Someday My Prince Will come<\/strong><\/em>, a trilogia mais orquestral com o velho amigo Gil Evans (<em><strong>Miles Ahead<\/strong><\/em>, <em><strong>Porgy &amp; Bess <\/strong><\/em>e <em><strong>Sketches of Spain<\/strong><\/em>), e v\u00e1rios shows mundo afora que hoje s\u00e3o relan\u00e7ados em edi\u00e7\u00f5es especiais. O som do seu trompete agora era mais suave (usava uma surdina, esp\u00e9cie de abafador que se tornou a sua trademark) e contido.<\/p>\n<p>Em 1959, <strong>Miles<\/strong> chama de volta Coltrane, recuperado das drogas, o pianista branco Bill Evans com influ\u00eancias de Debussy, e grava o disco de jazz mais vendido e famoso de todos os tempos, <strong>Kind Of Blue<\/strong>.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Miles Davis - So What (Official Video)\" width=\"668\" height=\"376\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zqNTltOGh5c?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>O disco foi gravado em apenas duas sess\u00f5es curtas, sem nenhum ensaio ou prepara\u00e7\u00e3o anterior, numa igreja antiga transformada num est\u00fadio em Nova Iorque. Era o in\u00edcio da nova fase dele, o modal jazz.<\/p>\n<p>Na m\u00fasica modal voc\u00ea trabalha os modos (escalas) ao inv\u00e9s de tonalidades, e <strong>Miles<\/strong> abusou do minimalismo (nem existia na \u00e9poca, rss&#8230;) em temas enxutos por\u00e9m marcantes. O pianista Bill Evans foi parceiro em duas m\u00fasicas <em><strong>So What<\/strong><\/em> e <em><strong>Blue in Green<\/strong>,<\/em> mas nunca recebeu o cr\u00e9dito.<\/p>\n<p>O disco \u00e9 todo excepcional e a banda \u00e9 um espet\u00e1culo \u00e0 parte (John Coltrane &#8211; sax tenor; Cannonball Aderley &#8211; sax alto; Paul Chambers &#8211; baixo; Jimmy Cobb &#8211; bateria). Al\u00e9m de <strong>Miles<\/strong> e Bill, o pianista bluesy Winton Kelly toca na faixa <em><strong>Freddie The Freeloader<\/strong><\/em>. Completam o disco as cl\u00e1ssicas <em><strong>All Blues<\/strong><\/em> e <em><strong>Flamenco Sketches<\/strong><\/em>. Cada faixa tem sua m\u00e1gica e o disco nunca foi reproduzido na \u00edntegra ao vivo na \u00e9poca do lan\u00e7amento (Coltrane saiu da banda para carreira solo), era imposs\u00edvel melhor\u00e1-lo&#8230;<\/p>\n<p>A moda da Bossa Nova nos EUA, nos anos 1960, fez com que a gravadora for\u00e7asse <strong>Miles<\/strong> a embarcar, mas ele, mesmo gostando do estilo, se recusou. Entretanto, mesmo assim, foi lan\u00e7ado contra a sua vontade o irregular <em><strong>Quiet Nights<\/strong><\/em>, onde ele faz vers\u00f5es quase evit\u00e1veis de <em><strong>Corcovado<\/strong><\/em> e <em><strong>Aos p\u00e9s da cruz<\/strong><\/em>.<\/p>\n<p><strong>Miles<\/strong> segue conquistando a Europa em shows e discos memor\u00e1veis com grupos que variam bastante os m\u00fasicos (alguns j\u00e1 famosos em carreira solo e outros, por <strong>Miles<\/strong> ser ruim de pagar, evitam tocar com ele). Destaco os obrigat\u00f3rios discos <strong>Four and More<\/strong>, <strong>My Funny Valentine<\/strong> (ambos gravados no mesmo dia em dois sets) e <strong>Miles Davis in Europe<\/strong>.<\/p>\n<p>Saindo de uma fase de drogas, brigas conjugais e contratuais, <strong>Davis<\/strong> monta um novo quinteto, que seria o seu mais duradouro e famoso, com jovens m\u00fasicos de forma\u00e7\u00f5es e influ\u00eancias distintas. Todos virtuosos em seus instrumentos.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Miles Davis Quintet Live at Teatro dell&#039;Arte in Milan, Italy on October 11, 1964\" width=\"668\" height=\"501\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kJq3j4rA0o0?start=1200&#038;feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>O mais experiente era Wayne Shorter, grande compositor e saxofonista (que depois fez fortuna com a banda fusion Weather Report). Completavam o time Herbie Hancock (piano), Ron Carter (baixo) e\u00a0 o baterista de 16 anos Tony Williams.<\/p>\n<p>Com eles, <strong>Miles<\/strong> criou um estilo que ficou sem nome, mas que fez hist\u00f3ria. Com algumas exce\u00e7\u00f5es a m\u00fasica \u00e9 complexa dif\u00edcil de ouvir, com influ\u00eancia de compositores de vanguarda eruditos, as improvisa\u00e7\u00f5es (solos) em sua maioria n\u00e3o seguem o padr\u00e3o tradicional do jazz (tema ou forma da can\u00e7\u00e3o AABA), s\u00e3o mais abstratas, livres e a intera\u00e7\u00e3o entre os m\u00fasicos \u00e9 quase telep\u00e1tica, mas requerem uma audi\u00e7\u00e3o mais cuidadosa e repetida para melhor compreens\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda assim alguns temas viraram standards e s\u00e3o tocados at\u00e9 hoje por m\u00fasicos do mundo todo. Destaco <em><strong>Footprints<\/strong><\/em>, <em><strong>E.S.P.<\/strong><\/em>, <em><strong>Pinocchio<\/strong><\/em>, <em><strong>Fall<\/strong><\/em>, <em><strong>Nefertiti <\/strong><\/em>(essa no estilo <em>Bolero de Ravel<\/em>, onde uma \u00fanica melodia \u00e9 repetida v\u00e1rias vezes com mudan\u00e7as de intensidade e nuances).<\/p>\n<p>No final dos anos 1970, o Jazz tinha sido varrido das r\u00e1dios e clubes americanos pelo sucesso avassalador da m\u00fasica pop (leia-se Motown) e pela invas\u00e3o do rock brit\u00e2nico (Beatles, Stones&#8230;). Na Calif\u00f3rnia, o movimento &#8220;flower power&#8221; dos hippies e os negros com a black music (James Brown, Aretha Franklin, Stevie Wonder&#8230;), <strong>Miles<\/strong>, que vinha de turn\u00eas na Europa e nos EUA, j\u00e1 era coisa de \u201cvelho\u201d&#8230;<\/p>\n<p>Era hora de nova mudan\u00e7a!\u00a0Fazer m\u00fasicos jovens de jazz, ouvir Jimmi Hendrix, Sly and The Family Stone, eletrificar os instrumentos\u00a0foi a sa\u00edda e assim surgiu o jazz rock fusion.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Miles Davis - Bitches Brew (Live In Copenhagen, 1969)\" width=\"668\" height=\"501\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/eE_D6Kve1SM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Em discos seminais e de muito sucesso entre universit\u00e1rios, hipongas e com nariz torcido de antigos f\u00e3s, cr\u00edticos de jazz ele lan\u00e7a dois petardos: <strong>In a Silent Way<\/strong> e <strong>Bitches Brew<\/strong>. Traz alguns m\u00fasicos da Inglaterra pra banda (destaco o guitarrista John Mclaughlin, que faria fama em seguida com a Mahavishnu Orchestra), o pianista e compositor Joe Zawinul (austr\u00edaco que seria parceiro de Wayne no grupo fusion Weather Report), al\u00e9m de v\u00e1rios m\u00fasicos novos e talentosos, como os pianistas Keith Jarrett e Chick Corea (rec\u00e9m falecido), que tamb\u00e9m fizeram fama ap\u00f3s essa passagem pela banda de <strong>Miles<\/strong>.<\/p>\n<p>Esses discos se caracterizam por longas jam sessions (temas improvisados na hora) que foram depois editadas (as melhores partes) pelo produtor Teo Macero. S\u00e3o bastante texturais e com grooves repetitivos e hipn\u00f3ticos, por n\u00e3o terem uma melodia ou tema bem definido exigem tamb\u00e9m audi\u00e7\u00e3o atenta.<\/p>\n<p>O estilo fusion depois virou um pastiche de temas pop tocados por m\u00fasicos virtuosos e com subg\u00eaneros, como o smooth jazz, que tem v\u00e1rias r\u00e1dios nos EUA especializadas.<\/p>\n<p><strong>Miles<\/strong> ainda lan\u00e7ou alguns discos cl\u00e1ssicos no estilo at\u00e9 1974 (<strong>On The\u00a0 Corner<\/strong>, <strong>Jack Johnson<\/strong>, <strong>Agharta<\/strong> e\u00a0<strong>Pangea<\/strong>), al\u00e9m de muita coisa ao vivo\u00a0 &#8211; como o <strong>Live Evil<\/strong>, que traz na banda o percussionista brasileiro Airto Moreira. Airto apresentou Hermeto Pascoal a <strong>Miles<\/strong>, que se impressionou com a facilidade do albino em compor e incluiu duas m\u00fasicas dele nesse disco (<em><strong>Litle Church<\/strong><\/em> e\u00a0<em><strong>Nem um talvez<\/strong><\/em>). Como era sua caracter\u00edstica, <strong>Davis<\/strong> n\u00e3o deu o cr\u00e9dito. Hermeto at\u00e9 hoje diz que daria mais m\u00fasicas sem problema.<\/p>\n<p>Em meados dos anos 1970, <strong>Miles<\/strong> teve um longo per\u00edodo sab\u00e1tico (problemas com sa\u00fade, drogas e mulheres) s\u00f3 voltando \u00e0 ativa no come\u00e7o dos anos 1980 com um flerte com a m\u00fasica pop. Gravou m\u00fasicas de Michael Jackson e Cindy Lauper, teve influ\u00eancias declaradas de Prince e at\u00e9 da banda de rock Journey.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Miles Davis - Live in Montreal (1985).avi\" width=\"668\" height=\"501\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZaNOxZUPn5s?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Lan\u00e7ou uma nova gera\u00e7\u00e3o de m\u00fasicos. Caso do genial multi-instrumentista Marcus Miller, que produziu seu melhor disco dessa fase final, o sensacional <strong>Tutu<\/strong> (dedicado ao bispo Desmond Tutu). E ainda dos guitarristas Mike Stern e John Scofield, que hoje s\u00e3o grandes nomes do jazz contempor\u00e2neo com carreiras solo consolidadas.<\/p>\n<p>Sempre incans\u00e1vel na sua procura por algo novo, <strong>Miles<\/strong>, de uma certa forma, previu o sucesso que a m\u00fasica negra dos guetos &#8211; o Hip-Hop e o Rap &#8211; fariam no futuro e seriam o novo mainstream quando lan\u00e7ou, em 1992, seu \u00faltimo disco <strong>Doo-Bop<\/strong>, com o m\u00fasico e Dj Easy Mo Bee .<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Miles Davis &amp; Chaka Khan: Human Nature (live in Montreux 1989)\" width=\"668\" height=\"376\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xZ5E4Jo3lpU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Ap\u00f3s sua morte, foi lan\u00e7ado, em 1993, o \u00e1lbum e v\u00eddeo do show p\u00f3stumo <strong>Miles &amp; Quincy: Live At Montreux<\/strong>, que agradou de novo os puristas (era o <strong>Miles<\/strong> que eles gostavam) por ter releituras de m\u00fasicas de \u00e1lbuns cl\u00e1ssicos dele com Gil Evans, com arranjos e execu\u00e7\u00e3o da incr\u00edvel orquestra de Quincy Jones. <strong>Miles<\/strong> j\u00e1 estava bem debilitado e teve ajuda do jovem trompetista Wallace Roney em muitas m\u00fasicas. O resultado pode ser considerado satisfat\u00f3rio se pensarmos como uma merecida homenagem ao seu legado.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Summertime - Miles Davis with Quincy Jones\" width=\"668\" height=\"376\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/K1pWm4pHSy4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Antes de morrer perguntado se tinha saudade da era do ouro do jazz, desdenhou: &#8220;Voc\u00ea chama de era de ouro m\u00fasicos negros drogados tocando por uma esmola em clubes de brancos ricos que n\u00e3o entendem nem prestam aten\u00e7\u00e3o na m\u00fasica ???&#8221;<\/p>\n<p>No rock temos um camale\u00e3o chamado David Bowie, mas a\u00ed \u00e9 assunto pra uma pr\u00f3xima coluna.<\/p>\n<p>Boa audi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em><strong>Mimi Rocha \u00e9 m\u00fasico e produtor. Ele escreve nesse espa\u00e7o quinzenalmente<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Definir um estilo musical e ser fiel a ele durante a carreira \u00e9 um grande desafio enfrentado\u00a0por artistas, principalmente aqueles que est\u00e3o come\u00e7ando agora.\u00a0Diante de&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":74,"featured_media":20726,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[720,90,167,177,178,264,728],"tags":[],"class_list":["post-20725","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-coluna-do-mimi","category-criticas","category-internacional","category-jazz","category-jimi-hendrix","category-michael-jackson-2","category-mimi-rocha"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20725","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/74"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20725"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20725\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20741,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20725\/revisions\/20741"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20726"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20725"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20725"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20725"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}