{"id":21077,"date":"2022-11-04T11:51:47","date_gmt":"2022-11-04T14:51:47","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/?p=21077"},"modified":"2022-11-04T11:52:01","modified_gmt":"2022-11-04T14:52:01","slug":"em-ultimo-registro-elza-soares-evidencia-inconstancia-e-relevancia-de-sua-obra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/2022\/11\/04\/em-ultimo-registro-elza-soares-evidencia-inconstancia-e-relevancia-de-sua-obra\/","title":{"rendered":"Em \u00faltimo registro, Elza Soares evidencia inconst\u00e2ncia e relev\u00e2ncia de sua obra"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_21078\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-21078\" class=\"size-large wp-image-21078\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2022\/11\/elza-soares-municipal-740x494.jpg\" alt=\"\" width=\"740\" height=\"494\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2022\/11\/elza-soares-municipal-740x494.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2022\/11\/elza-soares-municipal-300x200.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2022\/11\/elza-soares-municipal-768x512.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2022\/11\/elza-soares-municipal-1536x1025.jpg 1536w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2022\/11\/elza-soares-municipal-2048x1366.jpg 2048w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2022\/11\/elza-soares-municipal-120x80.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><p id=\"caption-attachment-21078\" class=\"wp-caption-text\">Elza Soares Ao vivo no Municipal passeia pela hist\u00f3ria da cantora, dando espa\u00e7o para trabalhos mais recentes<\/p><\/div>\n<p>Quando deixou a favela da \u00c1gua Santa, no Rio de Janeiro, pra encarar uma carreira art\u00edstica, <strong>Elza Soares<\/strong> j\u00e1 havia provado muito do lado mais amargo da vida. Negra, pobre, casada \u00e0 for\u00e7a quando ainda era crian\u00e7a, foi m\u00e3e pouco depois, sofreu viol\u00eancia dom\u00e9stica e viu seus filhos morrerem de fome. Nada foi f\u00e1cil e se aventurar num programa de calouros na tentativa de levar o pr\u00eamio e algum dinheiro pra casa ainda n\u00e3o trazia a expectativa de estrelato. No m\u00e1ximo, o jantar daquele dia.<\/p>\n<p>Quis o destino que o Brasil visse ali uma das vozes mais extraordinariamente originais que se tem not\u00edcia. Era jazz em ess\u00eancia, embora ela n\u00e3o tivesse a m\u00ednima no\u00e7\u00e3o do que fosse jazz. Da\u00ed em diante, a carioca nascida em 23 de junho de 1930 deu in\u00edcio a uma carreira marcada por momentos de aclama\u00e7\u00e3o absoluta e outros de total ostracismo. Entre um e outro, o que sobrava era sua marra, sua coragem pra enfrentar cada situa\u00e7\u00e3o de cabe\u00e7a erguida e insistir na profiss\u00e3o de cantora que escolheu.<\/p>\n<p>Os altos e baixos dessa estrada que <strong>Elza Soares<\/strong> carregou no pr\u00f3prio bra\u00e7o \u00e9 que marcam o \u00e1lbum <strong>Ao vivo no Municipal<\/strong>. Previsto para ser filmado no Morro da Urca em 2020, o espet\u00e1culo foi transferido de data e local por causa da pandemia do coronavirus. Aconteceu no imponente Theatro Municipal de S\u00e3o Paulo, nos dias 17 e 18 de janeiro deste ano e tornou-se o derradeiro canto da sambista que faleceu no dia 20. S\u00e3o 15 faixas selecionadas para evidenciar um discurso. Ignorando sucessos comerciais, a ideia \u00e9 reverenciar a biografia de <strong>Elza<\/strong>.<\/p>\n<p>Numa trajet\u00f3ria marcada por tantos recome\u00e7os e tantas promessas de perenidade, <strong>Elza<\/strong> abre com <em><strong>Meu Guri<\/strong><\/em> (Chico Buarque), numa dilacerante vers\u00e3o de voz e piano que ela apresentou pela primeira vez no disco <strong>Trajet\u00f3ria<\/strong> (1997). Vindo na esteira da sua muito bem recebida participa\u00e7\u00e3o na s\u00e9rie \u201cCasa de Samba\u201d (1996), o disco teve uma produ\u00e7\u00e3o luxuosa da gravadora Universal, que logo a deixou de lado. Na sequencia, ela foi para a pequena Eldorado, onde gravou o esquecido <strong>Carioca da Gema<\/strong> (1999), de onde agora ela recupera a bossa <em><strong>Balan\u00e7o Zona sul<\/strong><\/em>.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Malandro\" width=\"668\" height=\"501\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0d_g4tXtdeI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>A t\u00f4nica de <strong>Ao vivo no Municipal<\/strong> \u00e9 moderna, com arranjos puxados pro rock, pro eletr\u00f4nico, pra subvers\u00e3o que <strong>Elza<\/strong> sempre prezou. E \u00e9 nessa embalagem que ela entrega <em><strong>Se acaso voc\u00ea chegasse<\/strong><\/em>, seu primeiro sucesso, l\u00e1 dos anos 1960. Na d\u00e9cada seguinte, ela lan\u00e7aria o modern\u00edssimo <strong>Elza Pede Passagem<\/strong>, de onde pesca o sambarock <em><strong>Saltei de banda<\/strong><\/em>. Vivendo o turbulento casamento com Garrincha, a cantora come\u00e7ava a viver seu primeiro momento de queda nessa \u00e9poca. Vendo as gravadoras darem mais aten\u00e7\u00e3o a outras sambistas, como Clara Nunes, ela buscou a Tapecar para poder gravar com mais liberdade criativa. A estreia na pequena gravadora foi com o compacto <em><strong>Salve a Mocidade<\/strong><\/em>. Depois de uma s\u00e9rie de projetos de menor repercuss\u00e3o, foi para os Estados Unidos viver um autoex\u00edlio art\u00edstico.<\/p>\n<p>O retorno oficial foi depois da promessa n\u00e3o cumprida que foi <strong>Trajet\u00f3ria<\/strong>. Elza lan\u00e7ou pelo pequeno selo Maianga o aclamado <em><strong>Do c\u00f3ccix at\u00e9 o pesco\u00e7o<\/strong><\/em> (2002), que abre com a biogr\u00e1fica <em><strong>Dura na Queda<\/strong><\/em> e continua com a explosiva <em><strong>A carne<\/strong><\/em>. Sucesso de cr\u00edtica e p\u00fablico, ela estava de volta ao centro da MPB, e no ano seguinte lan\u00e7ou <strong>Vivo Feliz<\/strong>, na esteira do seu relacionamento com o rapper Anderson Lug\u00e3o. Com muitos loops, beats e efeitos estranhos, o \u00e1lbum foi corajoso e inovador, mas n\u00e3o teve a divulga\u00e7\u00e3o ideial. O bom repert\u00f3rio trouxe o sucesso maior de Paulo Vanzolini (<em><strong>Volta por cima<\/strong><\/em>) e uma composi\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria Elza (<em><strong>Lata d\u2019\u00e1gua<\/strong><\/em>), que carrega toda a dor e impon\u00eancia de sua err\u00e1tica luta pela vida e pela arte.<\/p>\n<p>Depois de tantas quedas e levantadas, <strong>Elza Soares<\/strong> teve chance de viver mais um renascimento em sua \u00faltima d\u00e9cada de vida. Com o lan\u00e7amento de <strong>A mulher do fim do mundo<\/strong> (2015), ela se viu pr\u00f3xima da juventude, pode falar de forma contempor\u00e2nea sobre feminismo, negritude e injusti\u00e7a social. Se conectando os netos dos seus primeiros f\u00e3s, ela seguiu com <strong>Deus \u00e9 mulher<\/strong> (2018) e <strong>Planeta Fome<\/strong> (2019) dando sua voz aos novos compositores brasileiros. O que viria a seguir? Uma nova queda? A tranquilidade de uma carreira \u00e0 altura de sua obra? O tempo resolveu essa quest\u00e3o e <strong>Elza Soares<\/strong> realizou o seu maior sonho de vida. Ela cantou at\u00e9 o \u00faltimo instante.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Mulher Do Fim Do Mundo\" width=\"668\" height=\"501\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/N_9a6SvP7CI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Repert\u00f3rio de Elza Soares Ao vivo no Municipal:<\/p>\n<ol>\n<li><strong>Meu Guri<\/strong> (Chico Buarque\/ \u201cTrajet\u00f3ria\u201d, 1997)<\/li>\n<li><strong>Dura Na Queda<\/strong> (Chico Buarque\/ \u201cDo c\u00f3ccix at\u00e9 o pesco\u00e7o\u201d, 2002)<\/li>\n<li><strong>O Morro<\/strong> (Tom Jobim\/ Billy Blanco\/ \u201cSenhora da Terra\u201d, 1979)<\/li>\n<li><strong>Lata D&#8217;\u00c1gua<\/strong> (Elza Soares\/ \u201cVivo feliz\u201d, 2003)<\/li>\n<li><strong>Comportamento Geral<\/strong> (Gonzaguinha\/ \u201cPlaneta fome\u201d, 2019)<\/li>\n<li><strong>Se Acaso Voc\u00ea Chegasse<\/strong> (Lupic\u00ednio Rodrigues\/ Felisberto Martins\/ \u201cSe acaso voc\u00ea chegasse\u201d, 1960)<\/li>\n<li><strong>Balan\u00e7o Zona Sul<\/strong> (Tito Madi\/ \u201cCarioca da Gema\u201d, 1999)<\/li>\n<li><strong>Malandro<\/strong> (Jorge Arag\u00e3o\/ Jotab\u00ea\/ \u201cLi\u00e7\u00e3o de vida\u201d, 1976)<\/li>\n<li><strong>A Carne<\/strong> (Seu Jorge\/ Marcelo Yuka\/ Ulisses Cappelletti\/ \u201cDo c\u00f3ccix at\u00e9 o pesco\u00e7o\u201d, 2002)<\/li>\n<li><strong>Volta Por Cima<\/strong> (Paulo Vanzolini\/ \u201cVivo feliz\u201d, 2003)<\/li>\n<li><strong>Maria da Vila Matilde<\/strong> (Douglas Germano\/ \u201cA mulher do fim do mundo\u201d, 2015)<\/li>\n<li><strong>Saltei de Banda<\/strong> (Z\u00e9 Rodrix\/ Luiz Carlos S\u00e1\/ \u201cElza Pede Passagem\u201d, 1972)<\/li>\n<li><strong>Salve A Mocidade<\/strong> (Luiz Reis\/ compacto, 1974)<\/li>\n<li><strong>Banho<\/strong> (Tulipa Ruiz\/ \u201cDeus \u00e9 mulher\u201d, 2018)<\/li>\n<li><strong>A Mulher do Fim do Mundo<\/strong> (R\u00f4mulo Fr\u00f3es\/ Alice Coutinho\/ \u201cA mulher do fim do mundo\u201d, 2015)<\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando deixou a favela da \u00c1gua Santa, no Rio de Janeiro, pra encarar uma carreira art\u00edstica, Elza Soares j\u00e1 havia provado muito do lado mais&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":74,"featured_media":13749,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[81,86,90,125,157,274,283],"tags":[],"class_list":["post-21077","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-chico-buarque","category-clara-nunes","category-criticas","category-elza-soares","category-gonzaguinha","category-mpb","category-nacional"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21077","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/74"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21077"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21077\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21079,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21077\/revisions\/21079"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13749"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21077"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21077"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21077"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}