{"id":21146,"date":"2023-06-04T19:39:53","date_gmt":"2023-06-04T22:39:53","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/?p=21146"},"modified":"2023-06-04T19:39:53","modified_gmt":"2023-06-04T22:39:53","slug":"o-palavrao-a-moral-e-a-mpb-em-debate","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/2023\/06\/04\/o-palavrao-a-moral-e-a-mpb-em-debate\/","title":{"rendered":"O palavr\u00e3o, a moral e a MPB em debate"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_14746\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-14746\" class=\"size-large wp-image-14746\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2017\/06\/Marcelo-Nova-em-SP-2015-740x493.jpg\" alt=\"\" width=\"740\" height=\"493\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2017\/06\/Marcelo-Nova-em-SP-2015-740x493.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2017\/06\/Marcelo-Nova-em-SP-2015-300x200.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2017\/06\/Marcelo-Nova-em-SP-2015-768x512.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2017\/06\/Marcelo-Nova-em-SP-2015-120x80.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2017\/06\/Marcelo-Nova-em-SP-2015.jpg 1500w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><p id=\"caption-attachment-14746\" class=\"wp-caption-text\">Marcelo Nova, o vocalista da banda Camisa de V\u00eanus<\/p><\/div>\n<p>Uma not\u00edcia muito curiosa me chamou a aten\u00e7\u00e3o na semana passada. Durante as atividades da Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito (CPI) que investiga o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), o deputado federal delegado \u00c9der Mauro (PL) falou: \u201cQuerer pensar em colocar na cabe\u00e7a do povo brasileiro que est\u00e1 nos assistindo que MST planta alguma coisa, que MST \u00e9 produtor. Porra nenhuma. N\u00e3o plantam nada\u201d. A frase como um todo \u00e9 prova substancial de ignor\u00e2ncia do parlamentar, mesmo que ele j\u00e1 n\u00e3o precise provar isso h\u00e1 tempos.<\/p>\n<p>No entanto, o que chocou o debate foi o uso do termo \u201cporra\u201d. \u201cN\u00e3o \u00e9 prudente para a imagem da C\u00e2mara\u201d, justificou o deputado Paul\u00e3o (PT), que pediu que a tal palavra feia fosse tirada dos anais. Boa, deputado Paul\u00e3o! A imagem da C\u00e2mara \u00e9 maravilhosa, vemos isso estampado no rosto do povo que ela representa. Ainda assim, o assunto rendeu uma discuss\u00e3o sobre se este \u00e9 ou n\u00e3o um termo adequado a constar nos anais.<\/p>\n<p>Bem menos hip\u00f3crita, a arte j\u00e1 adotou os palavr\u00f5es como uma forma de express\u00e3o da alma h\u00e1 tempos. Por exemplo, quando o pernambucano <strong>Otto<\/strong> estava roendo a separa\u00e7\u00e3o com Alessandra Negrini, ele criou sua obra prima <strong>Certa manh\u00e3 acordei de sonhos intranquilos<\/strong>. A faixa de abertura, <em>Crua<\/em>, trazia o dram\u00e1tico verso: \u201cE ter que acreditar num caso s\u00e9rio e na melancolia que dizia, mas naquela noite que eu chamei voc\u00ea fodia, fodia de noite e de dia\u201d. Tadinho&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"OTTO - Crua (Clipe Oficial) HD\" width=\"668\" height=\"376\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uK1UVLH1i2w?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Mais conformado do seu papel na rela\u00e7\u00e3o, <strong>Arnaldo Antunes<\/strong> chora o amor n\u00e3o correspondido na faixa <em>Essa mulher<\/em>, em que assume que \u201cela goza com a m\u00e3o, n\u00e3o precisa do seu pau\u201d. Ali\u00e1s, por falar em Arnaldo, os Tit\u00e3s j\u00e1 falaram alguns bons palavr\u00f5es em suas m\u00fasicas. O hino <em>Bichos escrotos<\/em> \u00e9 s\u00f3 uma delas. Mas, talvez eles n\u00e3o tenham abusado tanto quanto o Camisa de V\u00eanus, respons\u00e1vel por cl\u00e1ssicos da deseleg\u00e2ncia como <em>Silvia<\/em>, <em>Essa linda can\u00e7\u00e3o<\/em> e <em>Bota pra fud\u00ea<\/em>.<\/p>\n<p>A banda liderada por <strong>Marcelo Nova<\/strong>, de t\u00e3o fiel ao vocabul\u00e1rio de baixo cal\u00e3o, j\u00e1 era freguesa do departamento de censura que \u201ctrabalhava\u201d nos anos 1980. Tanto que, em 1986, quando supostamente a censura j\u00e1 deveria ter trocado de lugar com a democracia, eles tiveram o disco <strong>Viva<\/strong>\u00a0recolhido das lojas por que 80% das faixas trazia \u201clinguagem impr\u00f3pria\u201d. Claro, essa a\u00e7\u00e3o s\u00f3 serviu para fazer o disco vender muito mais. O mesmo aconteceu com o \u00e1lbum de estreia da <strong>Blitz<\/strong>, que chegou \u00e0s lojas com a faixa <em>Cruel cruel esquizofren\u00e9tico blues<\/em> literalmente riscada com um prego. O motivo: um prosaico \u201cputa que pariu\u201d. Depois desta propaganda oficial, o disco vendeu feito \u00e1gua e virou artigo de colecionador.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Blitz - Cruel, Cruel Esquizofren\u00e9tico Blues\" width=\"668\" height=\"501\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZUzGgSV5oJw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Pois \u00e9, bem antes das gera\u00e7\u00f5es Raimundos e MC Popokinha, os palavr\u00f5es j\u00e1 incomodavam. Ou at\u00e9 algo que fizesse men\u00e7\u00e3o a algo que parecesse com eles. <strong>Chico Buarque e Caetano<\/strong> <strong>Veloso<\/strong> viram, em 1972, um trecho de <em>B\u00e1rbara<\/em>\u00a0ser censurado. A faixa fala do romance de duas mulheres, o que para os mais conservadores j\u00e1 \u00e9 um acinte. O trecho, camuflado por palmas e cortado na navalha, falava em \u201cmergulhar no po\u00e7o escuro de n\u00f3s duas\u201d. N\u00e3o chega a ser palavr\u00e3o. Mas, numa mente criativa, pode virar.<\/p>\n<p>Estabelecida a redemocratiza\u00e7\u00e3o e o fim da censura, nos anos 1990, falar palavr\u00e3o em m\u00fasica era comum. Roger, do <strong>Ultraje a Rigor<\/strong>, sintetizou esse momento na faixa <em>Nada a declarar<\/em>, onde afirmava categoricamente que n\u00e3o tinha para dizer ou fazer. Mas garantiu o refr\u00e3o com um palavr\u00e3ozinho de duas letras, que come\u00e7a com \u201cc\u201d e termina com \u201cu\u201d. Ah sim, esse mesmo palavr\u00e3o foi usado por <strong>Caetano<\/strong> pra definir o Brasil na faixa <em>O Cu do Mundo<\/em>. Bom, h\u00e1 quem diga que esse monte de termo chulo e baixaria n\u00e3o \u00e9 coisa de artista. Mas, o compositor <strong>Rubinho Jacobina<\/strong> deixa claro em seu hit gravado com convic\u00e7\u00e3o por Andr\u00e9 Frateschi e Miranda Kassin, <em>Artista \u00e9 o caralho<\/em>.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Miranda Kassin e Andr\u00e9 Frateschi em &quot;Artista \u00e9 o caralho&quot; no Est\u00fadio Showlivre 2010\" width=\"668\" height=\"376\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vP9-uZnb-yc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma not\u00edcia muito curiosa me chamou a aten\u00e7\u00e3o na semana passada. 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