{"id":21283,"date":"2024-04-06T16:20:55","date_gmt":"2024-04-06T19:20:55","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/?p=21283"},"modified":"2024-04-06T16:22:03","modified_gmt":"2024-04-06T19:22:03","slug":"amaro-freitas-venceu-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/2024\/04\/06\/amaro-freitas-venceu-o-brasil\/","title":{"rendered":"Amaro Freitas venceu o Brasil"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_21284\" style=\"width: 678px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-21284\" class=\"size-large wp-image-21284\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2024\/04\/WhatsApp-Image-2024-04-04-at-14.48.53-1024x768.jpeg\" alt=\"\" width=\"668\" height=\"501\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2024\/04\/WhatsApp-Image-2024-04-04-at-14.48.53-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2024\/04\/WhatsApp-Image-2024-04-04-at-14.48.53-300x225.jpeg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2024\/04\/WhatsApp-Image-2024-04-04-at-14.48.53-768x576.jpeg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2024\/04\/WhatsApp-Image-2024-04-04-at-14.48.53-1536x1152.jpeg 1536w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2024\/04\/WhatsApp-Image-2024-04-04-at-14.48.53-100x75.jpeg 100w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2024\/04\/WhatsApp-Image-2024-04-04-at-14.48.53-600x450.jpeg 600w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2024\/04\/WhatsApp-Image-2024-04-04-at-14.48.53.jpeg 1600w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 668px) 100vw, 668px\" \/><p id=\"caption-attachment-21284\" class=\"wp-caption-text\">Amaro Freitas, pianista pernambucano, se apresenta em Paris (Foto: Hamilton Filho)<\/p><\/div>\n<p>Um mel\u00f3dico \u201clararar\u00e1larar\u00e1\u201d cantado em un\u00edssono pela plateia encerrou, antes do tradicional bis, a participa\u00e7\u00e3o do pianista pernambucano <strong>Amaro Freitas<\/strong> na quadrag\u00e9sima primeira edi\u00e7\u00e3o do Festival Banlieues Bleues em Paris no in\u00edcio desse abril. Banlieues Bleues em tradu\u00e7\u00e3o direta significa \u201csub\u00farbios azuis\u201d.<\/p>\n<p>Uma noite fria, um lugar interessante, um caboverdiano simp\u00e1tico e sorridente vertendo vinho \u201crouge\u201d, um vendedor de p\u00e9rolas musicais em formas de LP que n\u00e3o pude comprar porque n\u00e3o caberia na mala, muitas propagandas de shows fabulosos, uma aura de expectativa, com pouco atraso na programa\u00e7\u00e3o diversa e rica.<\/p>\n<p>A m\u00fasica, explicou de forma afetuosa o pianista pernambucano que est\u00e1 sendo justamente exaltado pelo mundo, fora feito para sua m\u00e3e Rosilda. Estou me referindo \u00e3 m\u00fasica do \u201clararar\u00e1larar\u00e1\u201d. E o \u201clararar\u00e1larar\u00e1\u201d, que come\u00e7ou timidamente, foi tomando corpo \u00e0 medida que o p\u00fablico foi perdendo o medo. Foram muitas repeti\u00e7\u00f5es conduzidas por Amaro e obedecidas com prazer por todos n\u00f3s. Com gestos simples com o dedo, com o rosto, com a voz, mandando repetir, repetir, para o encaixe em uma parte mais mel\u00f3dica que se apresentava como um refr\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma sala inusitada, toda de madeira quando vista por fora, e de car\u00e1ter super intimista para quem ocupa uma das suas poucas dezenas de cadeiras formando um \u201cU\u201d em cuja parte aberta estava o piano e a \u00e1rea de sa\u00edda e chegada do m\u00fasico. Ok, parece igual a todas, mas n\u00e3o \u00e9. \u00c9 diferente nas paredes pretas, no clima \u201cnoir\u201d, no teto baixo, nas madeiras soltas do piso da entrada que faziam barulho mas n\u00e1o atrapalhava, em um simplismo elegante.<\/p>\n<p>A fileira da frente fica a um metro do m\u00fasico, que ao se mover at\u00e9 poderia ser tocado por quem a ocupa. Apenas tr\u00eas fileiras de cadeiras. A mais distante do instrumento fica a tr\u00eas ou quatro metros, configurando assim uma super intimidade entre m\u00fasica, m\u00fasico e os felizes asseclas. \u00c9 pequeno, mas o que ocorre l\u00e1 dentro \u00e9 gigante.<\/p>\n<p>Amaro j\u00e1 lan\u00e7ou &#8220;Sangue Negro&#8221; (2016), &#8220;Rasif&#8221; (2018), \u201cSankofa\u201d (2021) e agora lan\u00e7a &#8220;Y\u2019Y&#8221; (L\u00ea-se eey-eh, eey-eh). Foi o &#8220;Y\u2019Y&#8221;, de profundidade amaz\u00f4nica que predominou em sua apresenta\u00e7\u00e3o. Piano e outros instrumentos simulando sons da floresta, das \u00e1guas, do ar, da colossal regi\u00e3o brasileira que aqui na Fran\u00e7a desperta fervor. Ali\u00e1s, um artista suingado, r\u00edtmico, alegre, tocando a Amaz\u00f4nia era tudo que os franceses queriam ouvir.<\/p>\n<p>Conheci Amaro Freitas por meio do disco &#8220;Sangue Negro&#8221;. N\u00e3o sei se foi o algoritmo ou algu\u00e9m que me o apresentou, mas o impacto foi imediato. O fraseado \u00e9 novo, o jazz \u00e9 m\u00fasica do mundo, mas sobretudo tem sua assinatura. Lembro de buscar na internet algo escrito a respeito daquele jovem e a leitura m\u00e9dia era \u201cse \u00e9 assim o disco de estreia, imagine o que ele ser\u00e1 capaz de fazer\u201d.<\/p>\n<p>Amaro venceu o Brasil, o que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Jovem negro da periferia de um pa\u00eds assassino de adolescentes pobres, quis fazer jazz quando ganhou um disco do Chick Corea. Mas para isso \u00e9 preciso ser bem \u00edntimo das teclas de um piano. E a\u00ed mora um dos muitos problemas. Como ser \u00edntimo de um instumento, se sequer l\u00e1pis e papel, que seria mais natural, \u00e9 facilitado para brasileiros que n\u00e3o t\u00eam pais ricos e pele branca? Como ter piano para praticar? Como fazer os pais acreditarem e conseguirem proporcionar aulas de piano? Como encontrar um projeto social que oferte piano, ao inv\u00e9s de curso b\u00e1sico de eletricista ou c\u00f3pias de chaves? Por \u00f3bvio, nada contra eletricistas, nem chaveiros, mas em um pa\u00eds que mais apresenta muros que estradas, a prioridade \u00e9 a sobreviv\u00eancia. Arte fica para depois, se der&#8230;<\/p>\n<p>Outra maneira de entender onde esse jovem chegou \u00e9 ouvindo \u201cCais\u201d onde faz a cama para Criolo e Milton Nascimento. Tr\u00eas g\u00eanios negros que venceram o Brasil e que hoje fazem m\u00fasica que n\u00e3o \u00e9 para r\u00e1pido consumo. Essa tr\u00edade deixou nas redes esse b\u00e1lsamo. Sugiro conferir.<\/p>\n<p>Voz potente, sorriso convincente, empatia, carisma, uma doce sauda\u00e7\u00e3o num tom ameno, quase indolente, agradece, mexe nas cordas do piano colocando ali, elementos estranhos que v\u00e3o trazer novos sons. \u201c\u00c9 o novo, \u00e9 o novo, \u00e9 o novo, \u00e9 o novo\u201d como disse Belchior. Assim surge mais um artista fabuloso em um incr\u00edvel, cen\u00e1rio de m\u00fasica instrumental verde e amarelo com Thiago Fran\u00e7a, Orquestra Voadora, Yamandu Costa, Hamilton de Holanda, Banda da Quebrada, N\u00f4made Orquestra, Hurtmold, Thiago Almeida, Cain\u00e3 Cavalcante e muitos outros.<\/p>\n<p>Pois bem, a impress\u00e3o que d\u00e1 \u00e9 que Amaro n\u00e3o foi para S\u00e3o Paulo ou Rio de Janeiro ser percebido, para da\u00ed \u201cfazer sucesso\u201d e voltar por cima. Dando entrevista pelas ruas de Nova York tem o mesmo sorriso de quem \u201cpulou\u201d etapas antes obrigat\u00f3rias. Quem caminha com ele nas ruas dos EUA \u00e9 a pr\u00f3pria periferia. Periferia \u00e9 entorno. \u00c9 o entorno que Amaro carrega consigo. Na volta, com o sucesso na bagagem, n\u00e3o pedir\u00e1 ben\u00e7\u00e3os aos grandes centros urbano-musicais. Porque ele venceu o Brasil. Venceu o Brasil com sorriso no rosto, o suor da ancestralidade e o sangue, negro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um mel\u00f3dico \u201clararar\u00e1larar\u00e1\u201d cantado em un\u00edssono pela plateia encerrou, antes do tradicional bis, a participa\u00e7\u00e3o do pianista pernambucano Amaro Freitas na quadrag\u00e9sima primeira edi\u00e7\u00e3o do&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":74,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[90,177,283],"tags":[],"class_list":["post-21283","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-criticas","category-jazz","category-nacional"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21283","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/74"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21283"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21283\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21285,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21283\/revisions\/21285"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21283"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21283"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21283"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}