{"id":6226,"date":"2011-11-08T11:00:01","date_gmt":"2011-11-08T14:00:01","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/?p=6226"},"modified":"2011-11-08T11:00:01","modified_gmt":"2011-11-08T14:00:01","slug":"fausto-nilo-o-poeta-do-indizivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/2011\/11\/08\/fausto-nilo-o-poeta-do-indizivel\/","title":{"rendered":"Fausto Nilo, O poeta do indiz\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p><strong><span style=\"color: #333333\">Por Camila Holanda (@camilasholanda)<\/span><\/strong><\/p>\n<p><a rel=\"attachment wp-att-6229\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/fausto-nilo-o-poeta-do-indizivel\/fausto-nilo-2\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6229\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/22\/2011\/11\/Fausto-Nilo-2.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"377\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2011\/11\/Fausto-Nilo-2.jpg 640w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2011\/11\/Fausto-Nilo-2-300x177.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2011\/11\/Fausto-Nilo-2-120x71.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a>\u201cN\u00e3o tenho nostalgia de nada. Vamos pra frente\u201d, disse <span style=\"color: #ff0000\"><strong>Fausto Nilo<\/strong><\/span>, no in\u00edcio de uma conversa em seu escrit\u00f3rio, referindo-se \u00e0 trajet\u00f3ria de poeta. H\u00e1 39 anos, suas poesias s\u00e3o interpretadas por cantores como Moraes Moreira, Chico Buarque, Raimundo Fagner, Ney Matogrosso, Nara Le\u00e3o, Gal Costa, Mar\u00edlia Medalha, Pepeu Gomes, Maria Beth\u00e2nia, Geraldo Azevedo, Z\u00e9 Ramalho, Simone e tantos outros. Por vezes, seus versos dilaceram, elegantemente, os sentimentos que ainda estavam em equil\u00edbrio. Noutras, invadem multid\u00f5es em alegria de carnaval.<\/p>\n<p>O poeta, nascido em Quixeramobim, \u00e9 <em>low profile<\/em> e adora caminhar pelas ruas, a observar o comportamento de pessoas desconhecidas. Como diria Jo\u00e3o do Rio, ele \u00e9 um flanador.<strong><span style=\"color: #ff0000\"> Fausto<\/span> <\/strong>\u00e9 um dos maiores compositores do Brasil e arquiteto consagrado que projetou locais de refer\u00eancia em Fortaleza, como Centro Cultural Drag\u00e3o do Mar e Pra\u00e7a do Ferreira.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a esbo\u00e7ar os primeiros tra\u00e7os de desenho aos oito anos, ainda em sua cidade de origem. Aos onze, veio morar na capital, onde, anos depois, estabeleceu rela\u00e7\u00f5es de amizade que, naturalmente, o conduziram para a poesia. Durante a faculdade de Arquitetura, na d\u00e9cada de 1960, fez parte da turma conhecida como \u201cPessoal do Cear\u00e1\u201d, mas a rotula\u00e7\u00e3o n\u00e3o o agrada. \u201cQuando separa a m\u00fasica por regi\u00f5es, se reduz a densidade real do nosso trabalho no Pa\u00eds\u201d. O grupo era formado por nomes como Ednardo, Fagner, Amelinha, Teti, Rodger Rog\u00e9rio, Petr\u00facio Maia e Ricardo Bezerra.<\/p>\n<p>Fausto Nilo tardou a gravar um disco. O primeiro de quatro, veio em 1997, o <strong>Esquinas do Deserto<\/strong>, mas antes j\u00e1 havia feito algumas grava\u00e7\u00f5es para projetos culturais, como <strong><em>Cora\u00e7\u00e3o Condenado<\/em><\/strong>, em dueto com N\u00fabia Lafayette para o disco <strong>Soro<\/strong>, produzido por Fagner em1978.<\/p>\n<p>Atualmente, o poeta n\u00e3o tem projetos concretos de novo disco ou shows solo previstos em Fortaleza. Mas adianta que comp\u00f4s duas m\u00fasicas e v\u00e3o estar no pr\u00f3ximo trabalho de Fagner. Ent\u00e3o, em breve, <strong><em>Versos ardentes<\/em><\/strong> e <strong><em>Balada fingida<\/em><\/strong> poder\u00e3o ser apreciadas.<\/p>\n<p><strong>DISCOGRAFIA \u2013 Como era a rela\u00e7\u00e3o com sua turma do \u201cPessoal do Cear\u00e1\u201d?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fausto \u2013<\/strong> N\u00e3o gosto dessa defini\u00e7\u00e3o. Quando se separa por regi\u00f5es (m\u00fasica de Pernambuco, Cear\u00e1&#8230;) se reduz a densidade real do nosso trabalho no Pa\u00eds. Isso tem servido muito para nos isolar. Bem, eu fui o mais tardio a produzir algo. A nossa turma se encontrava nos bares da cidade. Eles me envolviam em tudo, eu era sempre convidado. Minha atividade principal era cantar. Era muito bom aquilo. Talvez, no bar, com a cervejinha, eu tivesse a maior quantidade de horas cantadas.<\/p>\n<p><strong>DISCOGRAFIA \u2013 Voc\u00ea cantava, mas j\u00e1 havia pensado em fazer poesia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fausto \u2013<\/strong> N\u00e3o tinha muito interesse, mas o Fagner pediu que eu fizesse uma letra. Ent\u00e3o, fiz a primeira (<strong><em>Fim do Mundo<\/em><\/strong>) e, logo, foi gravada pela Mar\u00edlia Medalha.<\/p>\n<p>\u00a0[youtube]http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=4U-bJRalg7Q[\/youtube]\n<p><strong>DISCOGRAFIA \u2013 Seu primeiro disco foi lan\u00e7ado em 1997, mas voc\u00ea j\u00e1 havia participado do disco Soro (produzido pelo Fagner). Por que voc\u00ea demorou tanto a gravar?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fausto \u2013<\/strong> O Soro era um projeto cultural de experi\u00eancia do Fagner. Eu tava muito satisfeito em ser letrista, eu adoro isso. Quando eu passei a ser um nome de refer\u00eancia, achei bacana e satisfat\u00f3rio. Mas eu nunca pensei em gravar um disco. Sempre soube que a minha voz n\u00e3o era a mais adequada para est\u00fadio. Meu timbre n\u00e3o \u00e9 de um cantor convencional, n\u00e3o \u00e9 uma voz t\u00e3o palat\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>DISCOGRAFIA \u2013 A sua primeira grava\u00e7\u00e3o foi a m\u00fasica Cora\u00e7\u00e3o Condenado, no disco Soro, como ela surgiu?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fausto \u2013 <\/strong>Eu morava no Rio de Janeiro e, um dia, eu estava com a Amelinha perto da (gravadora) CBS e vimos a N\u00fabia Lafayette sentadinha, lixando as unhas. E eu disse pra Amelinha quem era. A\u00ed, fomos l\u00e1, nos apresentamos, N\u00fabia foi muito gentil. Quando est\u00e1vamos indo embora, ela falou: \u201cEi, compositor, escreva uma letra pra mim\u201d. Aquilo foi uma coisa incr\u00edvel, fiquei emocionado pra caramba. Ent\u00e3o, um dia, eu acordei meio de ressaca e ouvi St\u00e9lio Vale e o Gracco tocando viol\u00e3o no apartamento em que morava. Comecei a improvisar, me inspirando nas m\u00fasicas que o Adelino Moreira fazia, uma par\u00f3dia, mesmo. N\u00e3o tinha papel nem caneta. A\u00ed, os amigos come\u00e7aram a chegar, porque ia ter uma feijoada. No final da tarde, estava todo mundo cantando. A\u00ed, o Fagner chamou pra eu ir gravar com a N\u00fabia nesse projeto cultural que ele ia produzir.<\/p>\n[youtube]http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=3GZ74syFyug[\/youtube]\u00a0<\/p>\n<p><strong>DISCOGRAFIA \u2013 Nas suas letras, h\u00e1 uma persist\u00eancia na cor azul. \u00c9 algo proposital ou voc\u00ea se deu conta com o passar do tempo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fausto \u2013<\/strong> Eu n\u00e3o tinha consci\u00eancia disso, at\u00e9 o dia em que fiz uma apresenta\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro e o amigo poeta Geraldo Carneiro estava na plat\u00e9ia, com a Giulia Gam, e me chamou a aten\u00e7\u00e3o para essa persist\u00eancia do azul. At\u00e9 aquele dia, eu n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o disso. Passei a ter duas posturas: o cuidado para n\u00e3o usar muito o azul e as pessoas dizerem: \u201cl\u00e1 vem o azul!\u201d e , ao mesmo tempo, quando \u00e9 vi\u00e1vel, eu uso.<\/p>\n<p><strong>DISCOGRAFIA \u2013 Ent\u00e3o, como voc\u00ea pode definir o azul de suas poesias?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fausto \u2013<\/strong> Tem palavras que ganham muitos significados indiz\u00edveis para um poeta. E que essas palavras podem traduzir v\u00e1rias circunstancias. No caso, azul. N\u00e3o \u00e9 o azul do Roberto Carlos. Mas \u00e9 o azul da dist\u00e2ncia. Acho que ele me socorre quando me falta palavra para dar uma dimens\u00e3o exata. Fiz uma nova m\u00fasica com o Fagner, agora, e ta l\u00e1 o azul de novo. \u201cMinha casa era um vento azul\u201d. S\u00e3o palavras bastante indiz\u00edveis, mas reais, po\u00e9ticas. \u00c9 dist\u00e2ncia. Pra dizer que algo est\u00e1 longe, inalcan\u00e7\u00e1vel. O trabalho de compositor n\u00e3o tem fim. Ele tenta, dessa maneira, publicar coisas que antes eram indiz\u00edveis. Cada pessoa interpreta as m\u00fasicas de acordo com sua subjetividade. As pessoas t\u00eam uma necessidade de uma decifra\u00e7\u00e3o banal. \u00c9 o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>DISCOGRAFIA \u2013 Como surge sua poesia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fausto \u2013 <\/strong>O que eu gosto \u00e9 de letrar as melodias. Eu tenho uma cole\u00e7\u00e3o enorme de melodias que as pessoas liberam ainda por fazer. S\u00f3 do Dominguinhos, eu devo ter ainda umas 40 can\u00e7\u00f5es. Porque eles v\u00e3o me dando e eu vou guardando. Quando eu recebo uma melodia, ou\u00e7o e, \u00e0s vezes, volto a ouvir. Mas se, de repente, eu me pego cantarolando, come\u00e7o a me interessar. Eu deixo que ela entre ou n\u00e3o. Porque se a m\u00fasica n\u00e3o tem for\u00e7a para entrar na minha imagina\u00e7\u00e3o e mem\u00f3ria, n\u00e3o ter\u00e1, provavelmente, para chegar aos outros. N\u00e3o digo que \u00e9 um crit\u00e9rio perfeito, mas meus parceiros sabem disso. Raramente, come\u00e7o pela primeira frase. Vai de forma desorganizada. Sei nem o que vou dizer no come\u00e7o, mas aparece uma frase que conclui. Vou entrando nessa luta. Canso um pouco, paro, vou pra outra. J\u00e1 passei 15 anos para escrever uma m\u00fasica da Suely Costa, gravada pela Nana Caymmi (<strong><em>Fuma\u00e7a das horas<\/em><\/strong>). Mas, outras vezes, em cinco minutos, escrevo. <strong><em>Lua do Leblon<\/em><\/strong>, eu escrevi e fui dormir. Mas \u00e9 muito raro. <strong><em>Retrovisor<\/em><\/strong> tamb\u00e9m foi assim. \u00c0s vezes, \u00e9 duro, tamb\u00e9m.<\/p>\n[youtube]http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=OHbMmsg-kyE[\/youtube]\n<p><strong>DISCOGRAFIA \u2013 No seu trabalho de letrista h\u00e1 muitas alus\u00f5es a temas urbanos. De que forma arquitetura e poesia convergem?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fausto \u2013<\/strong> O desenho apareceu na minha vida aos oito anos e nunca mais parei. Eu n\u00e3o tenho m\u00e1quina fotogr\u00e1fica. Viajo pelo mundo e fa\u00e7o os registros por meio de desenhos. Eu convivo muito bem com as duas atividades. Sou uma pessoa interessada nos acontecimentos de pessoas an\u00f4nimas. Poderia ser escritor, mas eu n\u00e3o sei ser.<\/p>\n<p><strong>DISCOGRAFIA \u2013 E voc\u00ea n\u00e3o tem interesse em escrever um livro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fausto \u2013<\/strong> Tenho, mas acho muito tarde, \u00e9 uma arte dif\u00edcil. Eu teria de aprender uma outra linguagem.<\/p>\n<p><strong>DISCOGRAFIA \u2013 As pessoas costumam ser saudosistas das gera\u00e7\u00f5es que passaram. O que voc\u00ea acha da nova gera\u00e7\u00e3o de MPB, como Tulipa Ruiz, Ti\u00ea, Marcelo Jeneci e B\u00e1rbara Eug\u00eania?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fausto \u2013<\/strong> Eu acho bacana e vital. Assim como minha gera\u00e7\u00e3o fazia diferente da anterior, outras vir\u00e3o e far\u00e3o diferente da gente. Eu n\u00e3o fa\u00e7o ju\u00edzo de valor, apenas a identifica\u00e7\u00e3o de diferen\u00e7as. Hoje em dia, n\u00e3o se precisa mais da m\u00e9trica, da pros\u00f3dia, e noto que isso n\u00e3o faz falta. Porque o p\u00fablico aceita. Cada um na sua. A pessoa que mais admiro na m\u00fasica brasileira chama-se Jo\u00e3o Gilberto, porque ele tem uma maneira pr\u00f3pria em que acredita e se manteve nela, atravessando ostracismos, sem se adaptar a nada e vai concluir sua vida e carreira com o mesmo projeto. O Fagner se dana quando digo isso, mas daqui a pouco, eu n\u00e3o vou mais precisar compor. Eu j\u00e1 fiz muito. \u00c9 natural que outras pessoas apare\u00e7am com uma nova maneira. Com o tempo, o que minha gera\u00e7\u00e3o faz vai interessar a um grupo cada vez menor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Camila Holanda (@camilasholanda) \u201cN\u00e3o tenho nostalgia de nada. 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