{"id":6917,"date":"2012-01-19T15:13:37","date_gmt":"2012-01-19T18:13:37","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/?p=6917"},"modified":"2012-01-19T15:13:37","modified_gmt":"2012-01-19T18:13:37","slug":"30-anos-de-saudade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/2012\/01\/19\/30-anos-de-saudade\/","title":{"rendered":"30 anos de saudade"},"content":{"rendered":"<p><a rel=\"attachment wp-att-6924\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/30-anos-de-saudade\/elis-regina\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6924\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/22\/2012\/01\/elis-regina.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"337\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/01\/elis-regina.jpg 450w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/01\/elis-regina-300x225.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/01\/elis-regina-120x90.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a>S\u00e3o Paulo acordou cinzenta naquele distante 19 de mar\u00e7o de 1982. O Brasil acordou assim. Durante uma liga\u00e7\u00e3o para o namorado Samuel MacDowell, por volta das 9h30, a voz de uma das maiores cantoras da MPB foi sumindo, ficando pastosa e desarticulada. De repente um estranho sil\u00eancio e o fim. Morria<span style=\"color: #ff0000\"> <strong>Elis Regina Carvalho Costa<\/strong><\/span>, 36 anos, ga\u00facha, m\u00e3e de tr\u00eas filhos, reveladora de sucessos. A not\u00edcia se espalhou t\u00e3o r\u00e1pido que at\u00e9 o \u00fanico irm\u00e3o da cantora, Rog\u00e9rio, ficou sabendo pelo r\u00e1dio. Do outro lado do Pa\u00eds, em Fortaleza, as amigas Rosa Maria e F\u00e1tima, espalharam a cole\u00e7\u00e3o de discos pelo sof\u00e1 e promoveram uma homenagem particular regada a l\u00e1grimas e melodias.<\/p>\n<p>Os f\u00e3s de <strong><span style=\"color: #ff0000\">Elis<\/span><\/strong> j\u00e1 estavam acostumados a chorar com suas interpreta\u00e7\u00f5es arrebatadoras. Sua morte, no entanto, era dose mais forte do que se podia esperar. \u201cFoi um choque grande. Eu nem sabia que a cabe\u00e7a dela era t\u00e3o doidinha. Era como se fosse uma pessoa que conviv\u00edamos pessoalmente\u201d, relembra F\u00e1tima Bastos, 58, que assume ainda sentir uma \u201cdor imensa\u201d quando lembra daquela manh\u00e3 de ter\u00e7a-feira. \u201cTem algumas m\u00fasicas dela que me trazem imagens na mem\u00f3ria. Eu sempre quis ter uma casa no campo por conta da m\u00fasica. Ela ta viva em tudo que canta\u201d, confirma Rosa Maria, 64.<\/p>\n[youtube]http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=35FPZR24djg[\/youtube]\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o de ter perdido algu\u00e9m de dentro de casa parece uma unanimidade entre os f\u00e3s de Elis. Algo como se teimassem em assumir que ela morreu de fato. \u00c9 que sua passagem por este plano foi curta, mas suficiente para mexer com muita gente. De sua garganta poderosa, sa\u00edam as saudades do irm\u00e3o do Henfil, quaquaraquaquas debochados, hist\u00f3rias de um cora\u00e7\u00e3o dilacerado. Tamb\u00e9m sa\u00edram palavras duras, como as cr\u00edticas que fazia \u00e0s rivais Maria Bethania e Nara Le\u00e3o, ou protestos contra a invas\u00e3o dos roqueiros nos festivais de m\u00fasica. Talvez hoje, quando estaria perto dos 67 anos, esses coment\u00e1rios merecessem uma reavalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n[youtube]http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=eDr3u5MF2HQ&amp;feature=related[\/youtube]\n<p>Isso tudo fazia parte do personagem dur\u00e3o que gostava de demonstrar. Quem a conheceu mais de perto, como Rita Lee, preferia dizer que ela um \u201cdoce de pimenta\u201d. Com essa mistura de temperos, sua performance no palco era sempre explosiva. Tanto que ap\u00f3s cada show o que mais queria era uma cama onde pudesse descansar. Ciente do que podia com a voz, Elis usava seus graves e agudos pra hipnotizar o p\u00fablico. \u201cDizem que a \u00fanica coisa que me deixava quieta quando crian\u00e7a era ouvir Elis\u201d, lembra a cantora cearense Lorena Nunes, 26. Mesmo sem ter assistido a diva ao vivo, ela reconhece ali uma inspira\u00e7\u00e3o. \u201cUma excelente interpreta\u00e7\u00e3o consegue ultrapassar qualquer barreira de emo\u00e7\u00e3o. E o sentimento que ela consegue passar, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o se identificar. N\u00e3o se inspirar nela \u00e9 burrice\u201d.<\/p>\n<p><strong>Personalidade <\/strong><\/p>\n<p>Das primeiras apresenta\u00e7\u00f5es nas r\u00e1dios de Porto Alegre at\u00e9 assinar o primeiro contrato para um disco foram apenas 15 anos. T\u00edmida de doer, sua primeira apresenta\u00e7\u00e3o foi frustrante. Um sil\u00eancio lhe tomou conta e nenhuma palavra sa\u00eda da garganta. \u201cCanta, minha filha\u201d, insistia a m\u00e3e em v\u00e3o. Um nova chance s\u00f3 veio cinco anos depois. Dessa vez ela cantou e n\u00e3o parou mais. Com afina\u00e7\u00e3o perfeita e coragem de buscar o que queria, Elis conquistou espa\u00e7os nunca imaginados, chegando a ser a \u00fanica artista brasileira a se apresentar duas vezes no palco nobre do Olympia, em Paris.<\/p>\n[youtube]http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=0kye9BZlm-E&amp;feature=related[\/youtube]\n<p>Se, como cantora, sua presen\u00e7a inspirou e continua inspirando, como ser humano n\u00e3o foi diferente. O olhar altivo e o jeito seguro de se expressar da Pimentinha tamb\u00e9m ajudaram a moldar uma gera\u00e7\u00e3o de mulheres que a admirava. \u201cEla era uma rebelde, mas com causa. Era decidida, disposta e eu gosto muito de gente assim. Me inspirava muito a ter coragem\u201d, admite a dona de casa Lidu\u00edna Ferreira, 56. Atenta a todas o shows e apresenta\u00e7\u00f5es, ela at\u00e9 usava um corte de cabelo curtinho igual ao do \u00eddolo. \u201cEra feito na navalha. Eu chegava pra cortar bem curto e perguntavam \u2018\u00e9 igual ao da Elis Regina?\u2019. \u2018\u00c9, igual\u2019, respondia\u201d.<\/p>\n<p>T\u00e3o inesquec\u00edvel foi Elis, que ainda hoje se especula o que ela estaria cantando. Ainda procuraria novos compositores, como fez com Fagner e Belchior? Estaria atenta aos nomes do pop? Talvez estivesse cantando o Brasil de Cazuza ou o Monte Castelo de Renato Russo. Em sua \u00faltima entrevista, feita em 5 de janeiro de 1982, ela j\u00e1 se mostrava incomodada com os novos rumos da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica. \u201cA prepot\u00eancia ganhou outros nomes em ingl\u00eas, como mershandising e marketing. As gravadoras pensam que seu produto \u00e9 o disco. Sem o artista, aquilo \u00e9 s\u00f3 uma bolacha preta com um buraco no meio\u201d, disparou.<\/p>\n[youtube]http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=bvJt59HrA3Q&amp;feature=related[\/youtube]\n<p>Duas semanas depois, enquanto selecionava as can\u00e7\u00f5es do pr\u00f3ximo disco \u2013 Caetano Veloso, Beto Guedes e Milton Nascimento j\u00e1 estava numa lista preliminar \u2013, a artista encerrou seu show. Ela foi encontrada no ch\u00e3o do quarto inerte, naquele 19 de janeiro de 1982. No sangue corria uma combina\u00e7\u00e3o fatal de coca\u00edna e \u00e1lcool. \u201cElis era careta. No m\u00e1ximo \u2018dava uma bola\u2019\u201d, tentou defender Rita Lee, sua vizinha de s\u00edtio na serra da Cantareira, falando em bom \u201cmaconh\u00eas\u201d. Mas j\u00e1 era tarde. O cora\u00e7\u00e3o da Pimentinha j\u00e1 n\u00e3o batia. Agora era o Brasil que ia sentir saudades de Elis Regina.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e3o Paulo acordou cinzenta naquele distante 19 de mar\u00e7o de 1982. O Brasil acordou assim. 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