{"id":8837,"date":"2012-09-03T09:44:24","date_gmt":"2012-09-03T12:44:24","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/?p=8837"},"modified":"2020-07-23T15:14:41","modified_gmt":"2020-07-23T18:14:41","slug":"sem-perder-a-ternura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/2012\/09\/03\/sem-perder-a-ternura\/","title":{"rendered":"S\u00e9rgio Ricardo sem perder a ternura"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/sem-perder-a-ternura\/sr-foto\/\" rel=\"attachment wp-att-8847\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-8847\" title=\"SR foto\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/22\/2012\/09\/SR-foto.jpeg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"414\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/SR-foto.jpeg 640w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/SR-foto-300x194.jpeg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/SR-foto-120x78.jpeg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a>Bem distante do calor praiano de Copacabana, parte da turma da Bossa Nova come\u00e7ou a agregar o componente pol\u00edtico em suas composi\u00e7\u00f5es. Entre os representantes dessa veia mais cr\u00edtica estava Jo\u00e3o Lufti, conhecido publicamente como <span style=\"color: #ff0000\"><strong>S\u00e9rgio Ricardo<\/strong><\/span>, que este ano completou seus 80 anos (mais precisamente no \u00faltimo 18 de junho). Se mostrando feliz com a nova idade, ele continua com os olhos atentos para o que acontece no mundo e ainda disposto a protestos, como o que fez no palco da TV Record no antol\u00f3gico Festival de 1967, quando quebrou seu viol\u00e3o e jogou os peda\u00e7os para uma plateia que vaiava furiosamente.<\/p>\n<p>M\u00fasico, cineasta, escritor, agitador, a obra de <span style=\"color: #ff0000\"><strong>S\u00e9rgio Ricardo<\/strong><\/span> j\u00e1 preencheu muitos espa\u00e7os da hist\u00f3ria cultural brasileira. Parte dessa hist\u00f3ria est\u00e1 voltando \u00e0s lojas atrav\u00e9s de cinco relan\u00e7amentos que comemoram suas oito d\u00e9cadas de vida &#8211; <strong>A noite do espantalho<\/strong>, <strong>Arrebenta\u00e7\u00e3o<\/strong>, <strong>Est\u00f3ria de Jo\u00e3o-Joana<\/strong>, <strong>Do lago \u00e0 cachoeira<\/strong> e <strong>Piri, Fred, C\u00e1ssio Franklin e Paulinho de Camafeu Com S\u00e9rgio Ricardo<\/strong>. Embora conhecido por n\u00e3o gostar de entrevistas, n\u00e3o foi preciso muito esfor\u00e7o para que ele atendesse ao pedido do <strong>DISCOGRAFIA<\/strong> para uma boa conversa (por email) sobre m\u00fasica, trabalho, idade e pol\u00edtica. Esse \u00faltimo aspecto, inclusive, percorre todos os outros ao longo das suas palavras. Vamos a elas.<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-8841\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/arrebenta\u00e7\u00e3o-300x311.jpg\" alt=\"\" width=\"289\" height=\"300\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/arrebenta\u00e7\u00e3o-300x311.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/arrebenta\u00e7\u00e3o-120x124.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/arrebenta\u00e7\u00e3o.jpg 500w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 289px) 100vw, 289px\" \/>DISCOGRAFIA &#8211; Pra come\u00e7ar, gostaria de saber como est\u00e1 o S\u00e9rgio Ricardo, pessoa e compositor. O que representa pra voc\u00ea esses 80 anos?<\/strong><br \/>\n<strong>S\u00e9rgio Ricardo &#8211;<\/strong> Chego aos oitenta feliz e agradecido pelo que recebi da vida, do amor das pessoas, do carinho daqueles que admiraram meu trabalho e que abriram a cortina de meu palco, onde pude representar com toda sinceridade a pe\u00e7a modesta do meu legado. Triste, por outro lado, por n\u00e3o ter alcan\u00e7ado a f\u00f3rmula m\u00e1gica para a solu\u00e7\u00e3o dos problemas do povo que amo, em cuja fonte fui beber tudo que sou e que sei. N\u00e3o por querer me arvorar a salvador, mas por n\u00e3o ter conseguido com meus pares usar a arma poderosa da arte, \u00fanica poss\u00edvel para vencer a guerra da mediocridade que avassala o planeta, para que pud\u00e9ssemos retribuir a generosidade dos oprimidos pela d\u00e1diva contida no seu sofrimento.<\/p>\n<p><strong>DISCOGRAFIA<\/strong>\u00a0<strong>&#8211; Como parte das comemora\u00e7\u00f5es por esta data, cinco discos seus est\u00e3o voltando \u00e0s lojas. O que voc\u00ea achou desses relan\u00e7amentos?<\/strong><br \/>\n<strong>SR &#8211;<\/strong> Fico feliz com a coincid\u00eancia deste momento em que se rompem os arquivos da ditadura, para que enfim meu trabalho e de meus companheiros impedidos pela censura daquela \u00e9poca de serem divulgados, seja revelado, n\u00e3o s\u00f3 como justi\u00e7a \u00e0 nossa contribui\u00e7\u00e3o, como pela constata\u00e7\u00e3o de sua atualidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s agruras pelas quais ainda estamos passando. O tom aparentemente prof\u00e9tico de nossas can\u00e7\u00f5es n\u00e3o se deve ao talento de nossa criatividade, se n\u00e3o pela mesmice cada vez mais deteriorante da realidade que nos cerca. Se seus temas s\u00e3o hoje mais contundentes do que naquele momento, \u00e9 porque os problemas abordados se agravaram. Fico feliz por n\u00e3o ter dito asneira e triste pela constata\u00e7\u00e3o de sua correspond\u00eancia com a realidade atual.<\/p>\n<p><strong>DISCOGRAFIA<\/strong> <strong>&#8211; Uma boa parte da sua obra permanece in\u00e9dita em CD. Esses que foram escolhidos representam bem a sua hist\u00f3ria?<\/strong><br \/>\n<strong>SR &#8211;<\/strong> Parte dela, sim. Mas ainda h\u00e1 coisas a serem resgatadas. Este resgate vem revelar, mod\u00e9stia a parte, a import\u00e2ncia do meu e o trabalho de meus contempor\u00e2neos. O verdadeiro engajamento da m\u00fasica popular nascido antes do festival da Record (1967), onde, por for\u00e7a do alcance da penetra\u00e7\u00e3o em rede da comunica\u00e7\u00e3o televisiva, atribuiu-se aos jovens compositores que se revelavam nas competi\u00e7\u00f5es festivalescas o papel de arautos da contesta\u00e7\u00e3o, quando na verdade eram seguidores do movimento nascido e propagado pelos meios que t\u00ednhamos \u00e0 m\u00e3o como circuitos universit\u00e1rios, musicais pol\u00edticos em trilhas de pe\u00e7as e filmes do cinema novo e infinitos shows para levantar fundos para presos pol\u00edticos, etc. E mesmo anteriormente \u00e0 ditadura, integrados na luta desde o in\u00edcio do engajamento da cultura no movimento pol\u00edtico no come\u00e7o dos anos sessenta. Ha v\u00e1rios \u00edcones esquecidos nessa hist\u00f3ria, dignos de resgate, com trabalhos importantes que fizeram a cabe\u00e7a da gera\u00e7\u00e3o posterior amparada pela m\u00eddia, a qual se atribui incorretamente o m\u00e9rito dos \u00fanicos amorda\u00e7ados.<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-8845\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/jo\u00e3o-e-joana-300x301.jpg\" alt=\"\" width=\"299\" height=\"300\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/jo\u00e3o-e-joana-300x301.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/jo\u00e3o-e-joana-150x150.jpg 150w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/jo\u00e3o-e-joana-120x120.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/jo\u00e3o-e-joana.jpg 640w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 299px) 100vw, 299px\" \/>DISCOGRAFIA &#8211; Apesar de ter seu nome sempre ligado \u00e0 Bossa Nova, sua obra \u00e9 bastante plural e tem uma forte influ\u00eancia dos violeiros e cantadores nordestinos. Em que momento voc\u00ea percebeu que a est\u00e9tica do \u201camor, sorriso e flor\u201d n\u00e3o eram mais suficientes para sua m\u00fasica?<\/strong><br \/>\n<strong>SR &#8211;<\/strong> J\u00e1 no meu primeiro disco, no qual a m\u00fasica Zel\u00e3o se destacava como variante no estilo usual daquele movimento, cuja diferen\u00e7a estava no conte\u00fado e n\u00e3o na forma. Sua sofistica\u00e7\u00e3o musical condizia com o prop\u00f3sito da BN, mas a letra abordava a vertente da linguagem que viria desbravar a picada que me levaria de volta \u00e0 tem\u00e1tica do oprimido, como j\u00e1 havia feito com a can\u00e7\u00e3o Buqu\u00ea de Izabel, gravada por Maysa (1936 \u2013 1977), em seu disco anterior \u00e0 Bossa Nova, abordando o sentimento de uma solteirona. Mas Zel\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 se tornou meu maior sucesso como me abriu o horizonte para a den\u00fancia social, tornando-se a primeira can\u00e7\u00e3o com o sentido contestat\u00f3rio que viria nortear a vertente adotada por v\u00e1rios colegas na integra\u00e7\u00e3o de um movimento que se iniciava no Pa\u00eds. Como a reforma agr\u00e1ria era um dos temas mais contundentes, parti, com a ajuda de Glauber Rocha, que me presenteou com fitas de cantadores, e mais minha admira\u00e7\u00e3o pelo nordeste, a incorporar aquela rica e variada cultura nascida do povo, na sua forma mais pura. Logo absorvida, pois meu arabismo at\u00e1vico e minhas viv\u00eancias da inf\u00e2ncia entre camponeses, levaram-me a uma identifica\u00e7\u00e3o tal que passei a compor naquele estilo, usando meus conhecimentos musicais para criar as varia\u00e7\u00f5es mais inusitadas e pessoais, sem perder o fio da meada.<\/p>\n<p><strong>DISCOGRAFIA &#8211; Seu trabalho foi sempre ligado \u00e0s quest\u00f5es pol\u00edticas e sociais. O que voc\u00ea pensa da pol\u00edtica brasileira atual? Ainda vale a pena colocar os problemas brasileiros nas letras de m\u00fasica?<\/strong><br \/>\n<strong>SR &#8211;<\/strong> Curioso. Deparo-me de repente com o fato de que n\u00e3o fiz meu trabalho social pela conveni\u00eancia em engajamentos, mas por um impulso natural de meu sentimento voltado por minha constata\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e sincera, empurrando minha criatividade a integrar-se \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o da vida ao meu redor. N\u00e3o consigo me ver distanciado e alheio aos males que afetam a mim e a meu semelhante, mesmo quando canto o amor. Procuro dar ao meu trabalho a dignidade de me distanciar o m\u00e1ximo poss\u00edvel de externar, ainda que sub-repticiamente, um sentimento encomendado por qualquer tipo de oportunismo. Se vale ou n\u00e3o a pena esta ou aquela postura diante desse ou daquele momento, n\u00e3o faz a minha cabe\u00e7a. Sou escravo de minha inspira\u00e7\u00e3o e fa\u00e7o o que ela determina sem limita\u00e7\u00f5es. Se externamente meu trabalho coincidir com determinados chamamentos, me engajo. Do contr\u00e1rio encaro o ostracismo, como tenho feito em todos estes anos, sem o menor problema.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/sem-perder-a-ternura\/do-lago-a-cachoeira\/\" rel=\"attachment wp-att-8843\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-8843\" title=\"do lago \u00e0 cachoeira\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/22\/2012\/09\/do-lago-\u00e0-cachoeira-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/do-lago-\u00e0-cachoeira-300x300.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/do-lago-\u00e0-cachoeira-150x150.jpg 150w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/do-lago-\u00e0-cachoeira-120x120.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/do-lago-\u00e0-cachoeira.jpg 500w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>DISCOGRAFIA\u00a0&#8211; Voc\u00ea morou, durante uma \u00e9poca, em um barraco na favela. Que lembran\u00e7as mais marcantes voc\u00ea tem desse per\u00edodo?<\/strong><br \/>\n<strong>SR &#8211;<\/strong> A maior de todas foi experimentar na pr\u00f3pria pele a necessidade e a alegria de participar de uma luta pela uni\u00e3o de uma comunidade carente, e com ela vencer, em plena ditadura, uma guerra travada sem derramamento de sangue. Vit\u00f3ria alcan\u00e7ada com a alian\u00e7a de setores da sociedade, solidarizando-se com os favelados, fazendo-se impor pela lei e pela implac\u00e1vel import\u00e2ncia de uma popula\u00e7\u00e3o indignada opondo-se corajosamente contra os desmandos da ditadura, dando um basta contundente a conquistar a primeira vit\u00f3ria do povo contra o sistema vigente.<\/p>\n<p><strong>DISCOGRAFIA<\/strong>\u00a0<strong>&#8211; Al\u00e9m da m\u00fasica, o cinema sempre ocupou uma parte importante da sua vida. Como voc\u00ea avalia hoje a sua produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica?<\/strong><br \/>\n<strong>SR &#8211;<\/strong> \u00c9 a mesma avalia\u00e7\u00e3o que fa\u00e7o de minhas can\u00e7\u00f5es. Ao fazer meu primeiro filme, Menino da Cal\u00e7a Branca (1961), deparei-me coincidentemente com o nascimento do Cinema Novo, com o mesmo conte\u00fado social e pol\u00edtico dos demais filmes que se faziam na \u00e9poca. Meus outros filmes seguiram a mesma linha e assim como meus \u00faltimos relan\u00e7amentos musicais, ser\u00e3o tamb\u00e9m relan\u00e7ados talvez ainda no final do ano. N\u00e3o foram negociados em exibi\u00e7\u00f5es normais, com a desejada compet\u00eancia, por culpa de minha dualidade profissional desviar-me a concentra\u00e7\u00e3o, embora todos tenham sido convidados a participar de v\u00e1rios festivais internacionais. O cinema \u00e9 minha forma preferida de trabalhar, pois ele unifica o meu universo criativo. Poesia, m\u00fasica, pintura, representa\u00e7\u00e3o, dramaturgia, montagem, etc. Pena que seja t\u00e3o caro e t\u00e3o espor\u00e1dico.<\/p>\n<p><strong>DISCOGRAFIA\u00a0&#8211; Voc\u00ea acha que recebeu o reconhecimento devido como m\u00fasico e cineasta?<\/strong><br \/>\n<strong>SR &#8211;<\/strong> Seria uma contradi\u00e7\u00e3o ter recebido o reconhecimento do sistema contra o qual virei a boca escancarada de meus canh\u00f5es. Ser devidamente tocado no r\u00e1dio, ou em constantes apari\u00e7\u00f5es na TV, sem capitular ante os jab\u00e1s do esp\u00edrito&#8230; O reconhecimento veio, felizmente, dos meus colegas e amigos, e da parcela do meu p\u00fablico que consegue, a duras penas, um acesso ao meu trabalho.<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-8838\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/a-noite-do-espantalho-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/a-noite-do-espantalho-300x300.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/a-noite-do-espantalho-150x150.jpg 150w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/a-noite-do-espantalho-120x120.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/a-noite-do-espantalho.jpg 640w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>DISCOGRAFIA\u00a0&#8211; Entre esses relan\u00e7amentos est\u00e1 A noite do espantalho, uma trilha de forte acento nordestino. Queria que voc\u00ea falasse sobre esse disco, esse filme e as parcerias com Geraldo Azevedo e Alceu Valen\u00e7a.<\/strong><br \/>\n<strong>SR &#8211;<\/strong> O disco \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o da trilha sonora do filme e \u00e9 dos mais solicitados. Geraldo e Alceu me ca\u00edram do c\u00e9u como presente exatamente no momento em que procurava os atores do filme. A figura e o talento de Alceu se encaixaram como uma luva no personagem do Espantalho, que ganhou, com sua performance uma grandeza tamanha, que tive de reduzir sua apari\u00e7\u00e3o para n\u00e3o abocanhar o filme. Geraldinho, encarregado de me ajudar na dire\u00e7\u00e3o musical, vindo a dar maior autenticidade na linguagem musical, ainda emprestou seu talento para representar com muita sensibilidade o papel mais humano do cordel. De resto, todo o elenco de atores e t\u00e9cnicos convidados encaixaram-se de tal forma em seus pap\u00e9is, ajudando-me a transpor para a tela a linguagem dos cantadores, sua po\u00e9tica e sua magia, tendo como pano de fundo o cen\u00e1rio de Fazenda Nova, generosamente concedido por Pl\u00ednio Pacheco que associando-se ao projeto, me cedeu sua infra de atores, guarda-roupa, figurinos e cen\u00e1rio al\u00e9m de um pulso forte como diretor de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>DISCOGRAFIA\u00a0&#8211; Uma presen\u00e7a forte na sua vida foi a do Glauber Rocha, para quem voc\u00ea comp\u00f4s duas importantes trilhas. A meu ver, principalmente em Deus e o Diabo na terra do sol, \u00e9 como se trilha e filme fossem uma coisa s\u00f3. Como essas m\u00fasicas eram compostas? De que forma o pr\u00f3prio Glauber contribu\u00eda para as m\u00fasicas?<\/strong><br \/>\n<strong>SR &#8211;<\/strong> O m\u00e9rito musical \u00e9 tamb\u00e9m fruto da genialidade de Glauber. Al\u00e9m de ter-me fornecido o poema para eu musicar, interferiu na forma como deveria ser cantada e composta a m\u00fasica, enchendo-me de exemplos colhidos pelo sert\u00e3o. S\u00f3 fiz executar sua reg\u00eancia criando minhas melodias e formas de acompanhamento ao viol\u00e3o, al\u00e9m de arrancar de minha voz um arremedo dos cantadores.<\/p>\n<p><strong>DISCOGRAFIA<\/strong>\u00a0<strong>&#8211; Uma das passagens mais curiosas e lembradas da sua vida foi o Festival de 1967, revivido em document\u00e1rio recente. Certamente havia um jeito muito passional da plateia avaliar suas preferidas, principalmente renegando aquilo que n\u00e3o era claramente uma cr\u00edtica social. O que pensa quando v\u00ea aquelas imagens hoje?<\/strong><br \/>\n<strong>SR &#8211;<\/strong> Mais claramente do que a cr\u00edtica social abordada por Beto Bom de Bola, n\u00e3o me consta ter ouvido naquele festival. Eu denunciava a explora\u00e7\u00e3o dos cartolas sobre o jogador de futebol daquela \u00e9poca, que sem nenhum pudor atiravam os craques no abandono ap\u00f3s sugarem seus melhores momentos, baseado na hist\u00f3ria de Garrincha. Indignado com a tem\u00e1tica, a dire\u00e7\u00e3o da Record, de propriedade de um dos maiores cartolas de S\u00e3o Paulo (Paulo Machado de Carvalho), boicotou a apresenta\u00e7\u00e3o da m\u00fasica, manipulando o som das vaias com microfones no centro da plateia e retirando o som do retorno no palco impedindo-me de ouvir o acompanhamento da can\u00e7\u00e3o, cujo resultado \u00e9 do conhecimento de todos. Ainda bem que uma inspira\u00e7\u00e3o levou-me aquela rea\u00e7\u00e3o, tornando o gesto numa den\u00fancia contra a manipula\u00e7\u00e3o descarada que a m\u00eddia exerce sobre a cultura desse Pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/sem-perder-a-ternura\/piri-franklin-com\/\" rel=\"attachment wp-att-8840\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-8840\" title=\"piri, franklin com\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/22\/2012\/09\/piri-franklin-com-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/piri-franklin-com-300x300.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/piri-franklin-com-150x150.jpg 150w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/piri-franklin-com-120x120.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/piri-franklin-com.jpg 500w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>DISCOGRAFIA\u00a0&#8211; Esse epis\u00f3dio gerou muita discuss\u00e3o e ainda hoje \u00e9 um marco na nossa hist\u00f3ria. De que forma aquela noite do Festival marcou sua carreira?<\/strong><br \/>\n<strong>SR &#8211;<\/strong> O tiro saiu pela culatra. Aquele gesto provocou uma revers\u00e3o de expectativa e tornou-se um ato isolado de rebeldia contra as deforma\u00e7\u00f5es culturais exercidas pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o a servi\u00e7o do sistema, que a cada ano que passa corr\u00f3i as entranhas da evolu\u00e7\u00e3o natural da esp\u00e9cie, reduzindo-nos a seus escravos. Aquele gesto sintetiza o conte\u00fado de minha obra e justifica minha coer\u00eancia e minha rebeldia contra este sistema podre a inverter valores, transformando a humanidade em famintos, em n\u00famero assustadoramente crescente a cada ano que passa. Fechar os olhos para esta realidade \u00e9 assinar um atestado de coniv\u00eancia, que felizmente nunca esteve em meus planos.<\/p>\n<p><strong>DISCOGRAFIA\u00a0&#8211; Com a cria\u00e7\u00e3o da Sombras, nos anos 70, voc\u00ea atuou diretamente na luta pelos direitos autorais. Como voc\u00ea v\u00ea essa discuss\u00e3o hoje? Acha que ela est\u00e1 indo por um caminho positivo para os artistas?<\/strong><br \/>\n<strong>SR &#8211;<\/strong> A CPI do direito autoral j\u00e1 apontou seus ladr\u00f5es e agora se espera por sua condena\u00e7\u00e3o. Enquanto a justi\u00e7a n\u00e3o o fizer, teremos todos os criadores que aguardar o seu veredito para saber se enfiamos o rabo entre as pernas ou se discutimos a forma de rearrumar a casa. H\u00e1 um rio de dinheiro desviado do suor de nossos criadores para o bolso de oportunistas, cuja cara de pau, ostenta uma gargalhada de orelha a orelha, pela in\u00e9rcia da justi\u00e7a e dos \u00f3rg\u00e3os oficiais no sentido de erradicar de vez o descaramento deste setor. Enquanto o artista brasileiro n\u00e3o se convencer de que tem que lutar por seus direitos, mais na mis\u00e9ria vai ficando. A pergunta fundamental \u00e9 COMO ACORD\u00c1-LOS!!!<\/p>\n<p><strong>DISCOGRAFIA &#8211; Quais s\u00e3o seus planos atuais para cinema, disco, literatura, etc.<\/strong><br \/>\n<strong>SR &#8211;<\/strong> A vida me deu de presente um leque de op\u00e7\u00f5es. N\u00e3o tenho planos definitivos. Agarro-me ao que me for dado fazer com entrega tal que pare\u00e7o s\u00f3 saber fazer aquilo. Minha agenda \u00e9 flutuante e no momento acompanho a carreira de minha pe\u00e7a Bandeira de Retalhos representada pelos atores do N\u00f3s do Morro, enquanto aguardo a aprova\u00e7\u00e3o de dois filmes que pretendo realizar, um no morro, outro no campo, a feitura de concertos de \u201cEst\u00f3ria de Jo\u00e3o Joana\u201d, feito em parceria com Drummond de Andrade, a publica\u00e7\u00e3o de meu livro de poemas, \u201cCan\u00e7\u00e3o Calada\u201d, ainda sem editor, um novo disco com minhas can\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas (em prepara\u00e7\u00e3o) &#8230; E assim vou por no meu del\u00edrio criativo, justificando com alegria o meu tempo gasto mais com a cria\u00e7\u00e3o do que com seus resultados, numa neura incontrol\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>DISCOGRAFIA<\/strong>\u00a0<strong>&#8211; Como foi essa experi\u00eancia de ter escrito um livro infantil (<em>O Elefante adormecido<\/em>, 1989)?<\/strong><br \/>\n<strong>SR &#8211;<\/strong> Foi linda enquanto desenhava a nanquim as ilustra\u00e7\u00f5es e compunha os versos de um cordel, navegando no sonho de um \u201cElefante Adormecido\u201d. Um livro mais para adolescentes do que para crian\u00e7as. Faz tanto tempo, que j\u00e1 nem me lembro que fim o levou.<\/p>\n<p><strong>DISCOGRAFIA\u00a0&#8211; Em meio a uma produ\u00e7\u00e3o t\u00e3o rica \u2013 cinema, literatura, m\u00fasica, TV \u2013 quais s\u00e3o as atuais prioridades do S\u00e9rgio Ricardo?<\/strong><br \/>\n<strong>SR &#8211;<\/strong> Aguardar aquelas j\u00e1 expostas, e ao sabor do vento, lan\u00e7ar-me ao v\u00f4o que o espa\u00e7o me permitir, e pousar no galho que suportar o peso de minha contempla\u00e7\u00e3o dessa paisagem que me alimenta o sonho de ver seus habitantes finalmente em paz. Utopia da qual n\u00e3o abro m\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bem distante do calor praiano de Copacabana, parte da turma da Bossa Nova come\u00e7ou a agregar o componente pol\u00edtico em suas composi\u00e7\u00f5es. Entre os representantes&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":74,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10,56,104,129,274,283,358,394],"tags":[],"class_list":["post-8837","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-albuns","category-bossa-nova","category-discobertas","category-entrevistas","category-mpb","category-nacional","category-sergio-ricardo","category-trilha-sonora"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8837","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/74"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8837"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8837\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20416,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8837\/revisions\/20416"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8837"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8837"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8837"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}