{"id":8999,"date":"2012-09-20T11:46:55","date_gmt":"2012-09-20T14:46:55","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/?p=8999"},"modified":"2012-09-20T11:46:55","modified_gmt":"2012-09-20T14:46:55","slug":"musica-do-ceara-multipla-e-generosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/2012\/09\/20\/musica-do-ceara-multipla-e-generosa\/","title":{"rendered":"M\u00fasica do Cear\u00e1 \u2013 M\u00faltipla e generosa"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #888888\"><strong>Por Pedro Rog\u00e9rio (M\u00fasico, pesquisador e professor da Universidade Federal do Cear\u00e1)<\/strong><\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_9000\" style=\"width: 586px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/?attachment_id=9000\" rel=\"attachment wp-att-9000\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-9000\" class=\"size-full wp-image-9000\" title=\"e01c5c04\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/22\/2012\/09\/e01c5c04.jpg\" alt=\"\" width=\"576\" height=\"295\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/e01c5c04.jpg 576w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/e01c5c04-300x154.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/e01c5c04-120x61.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 576px) 100vw, 576px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-9000\" class=\"wp-caption-text\">Palco do TJA durante a realiza\u00e7\u00e3o do Massafeira (1979)<\/p><\/div>\n<p align=\"left\">A m\u00fasica cearense \u00e9 m\u00faltipla e generosa, afinal estamos nos referindo a uma m\u00fasica brasileira. E assim como em qualquer outra regi\u00e3o deste pa\u00eds de variados climas e situa\u00e7\u00f5es sociais, n\u00f3s temos caracter\u00edsticas regionais marcantes; no Cear\u00e1 localizamos refer\u00eancias musicais que remetem ao sert\u00e3o, \u00e0 cultura praieira e \u00e0 paisagem urbana. Neste cen\u00e1rio encontramos o canto dos violeiros, dos reisados, dos emboladores, os corais das igrejas, as bandas de m\u00fasica dos munic\u00edpios \u2013 que funcionam como escolas de pr\u00e1tica instrumental -, a m\u00fasica popular, erudita, instrumental, cantada, simples e sofisticada. Essas classifica\u00e7\u00f5es (artificiais) n\u00e3o s\u00e3o fixas, taxativas, nem exaustivas e por vezes se misturam nas obras de nossos compositores; aqui apenas lembramos nossa diversidade. Vamos, ent\u00e3o, viajar um pouco por essa riqueza musical.<\/p>\n<p align=\"left\">A presen\u00e7a do gado no sert\u00e3o traz com ele os aboios, este encantamento que \u00e9 ver o homem manter uma liga\u00e7\u00e3o t\u00e3o direta com o rebanho atrav\u00e9s do canto. Uma mistura de lamento, for\u00e7a e encanto, o que traduz a vida do vaqueiro em meio a dureza de sua lida, sua resist\u00eancia e a m\u00e1gica de la\u00e7ar o boi com a voz.<\/p>\n<p align=\"left\">Um dos nomes de maior refer\u00eancia da m\u00fasica cearense \u00e9 Alberto Nepomuceno (1864-1920), grande compositor nacionalista, abolicionista que entre outros feitos trouxe a l\u00edngua portuguesa para a m\u00fasica dita erudita, desafiou a aristocracia musical ao promover a realiza\u00e7\u00e3o do concerto de viol\u00e3o do compositor Catulo da Paix\u00e3o Cearense no Instituto Nacional de M\u00fasica e foi um dos primeiros incentivadores do ent\u00e3o estreante Heitor Villa-Lobos.<\/p>\n<p align=\"left\">J\u00e1 nas d\u00e9cadas de 1920, 30 e 40 encontramos uma forte presen\u00e7a das radiadoras nas cidades, que eram verdadeiras professoras de m\u00fasica para toda a popula\u00e7\u00e3o. Em Quixeramobim, por exemplo, existia \u201cA Voz de Cristal\u201d, que era um servi\u00e7o de alto-falantes que formou em grande medida o gosto musical de um dos letristas da can\u00e7\u00e3o cearense mais celebrado: Fausto Nilo.<\/p>\n<div id=\"attachment_9001\" style=\"width: 297px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/?attachment_id=9001\" rel=\"attachment wp-att-9001\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-9001\" class=\"size-full wp-image-9001\" title=\"vocalistas_tropicais_1_1\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/22\/2012\/09\/vocalistas_tropicais_1_1.jpg\" alt=\"\" width=\"287\" height=\"250\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/vocalistas_tropicais_1_1.jpg 287w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/vocalistas_tropicais_1_1-120x105.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 287px) 100vw, 287px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-9001\" class=\"wp-caption-text\">Os Vocalistas Tropicais<\/p><\/div>\n<p align=\"left\">Essas radiadoras eram presen\u00e7as encantadoramente marcantes; mas, de onde vinham os discos que ali tocavam? Vinham das f\u00e1bricas de discos que tinham como sede a ent\u00e3o Capital Federal &#8211; o Rio de Janeiro &#8211; ou o centro comercial brasileiro \u2013 S\u00e3o Paulo. Logo, os primeiros artistas que se projetaram nacionalmente embarcaram nesta viagem em busca de fazer circular mais amplamente sua arte. Assim, Humberto Teixeira empreende esfor\u00e7os no Rio de Janeiro que, em parceria com Luiz Gonzaga, opera um dos fen\u00f4menos mais impressionantes da m\u00fasica brasileira em termos de difus\u00e3o da cultura nordestina. Este \u00e9 o per\u00edodo em que encontramos dois grupos vocais que tamb\u00e9m influenciaram a m\u00fasica brasileira, trata-se de Quatro Azes e um Coringa e Os Vocalistas \u00a0Tropicais.<\/p>\n<p align=\"left\">Com a chegada do r\u00e1dio nas resid\u00eancias, que era um m\u00f3vel de distin\u00e7\u00e3o nas salas das resid\u00eancias, as fam\u00edlias foram imersas em um mundo musical atrav\u00e9s da voz de grandes cantores como Vicente Celestino, Chico Alves, Silvio Caldas sendo este per\u00edodo conhecido como a \u201c\u00e9poca de ouro do r\u00e1dio\u201d influenciando fortemente a m\u00fasica cearense. Importante se faz registrar uma das emissoras mais importantes daquele momento que era a Cear\u00e1 R\u00e1dio Clube.<\/p>\n<p align=\"left\">As refer\u00eancias v\u00e3o se multiplicando com a Bossa Nova, The Beatles, Rolling Stones, os movimentos contra a guerra do Vietn\u00e3, a inven\u00e7\u00e3o do anticoncepcional que revoluciona as rela\u00e7\u00f5es entre homem e mulher levando \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o feminina e na d\u00e9cada de sessenta com o golpe militar a classe intelectual e art\u00edstica, justamente por ter uma maior capacidade cr\u00edtica se op\u00f5e \u00e0quele estado de coisas. E \u00e9 a Universidade o espa\u00e7o de relativa autonomia onde exercitam sua liberdade de express\u00e3o. Neste contexto surge a Tropic\u00e1lia na Bahia, o Clube da Esquina em Minas Gerais e, n\u00e3o por acaso, o Pessoal do Cear\u00e1 revelando nomes como Belchior, Ednardo, Fagner, Fausto Nilo, Rodger, Petr\u00facio Maia, T\u00e9ti, Ricardo Bezerra entre muitos outros. Estes artistas s\u00e3o deposit\u00e1rios da ideia antropof\u00e1gica da Semana de Arte Moderna de 1922. Um dos intelectuais que era considerado o guru desta gera\u00e7\u00e3o \u2013 Augusto Pontes \u2013 assim escreveu na capa do disco <strong>Meu corpo minha embalagem todo gasto na viagem<\/strong> que ficou mais conhecido pelo seu subt\u00edtulo \u201cPessoal do Cear\u00e1\u201d: \u201cEnfim comemos muito a cultura nacional e sempre querendo que a &#8216;comida&#8217; fosse melhor. Continuamos nesse banquete, mas, come\u00e7amos a botar os pratos na mesa, para distribuir o nosso angu &#8230;&#8221;.<\/p>\n<p align=\"left\"><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/?attachment_id=9003\" rel=\"attachment wp-att-9003\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-9003\" title=\"soro\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/22\/2012\/09\/soro-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/soro-300x300.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/soro-150x150.jpg 150w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/soro-768x768.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/soro-740x740.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/soro-120x120.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2012\/09\/soro.jpg 1181w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Chegando \u00e0 d\u00e9cada de 1980 encontramos dois marcadores hist\u00f3ricos que s\u00e3o os discos <strong>Soro<\/strong> produzido por Raimundo Fagner que reuniu artistas do quilate de Cirino, Nonato Luiz, Ferreira Gullar, Abel Silva, Belchior, Geraldo Azevedo, Fausto Nilo, Nubia Lafayette; e seu irm\u00e3o <strong>Massafeira<\/strong> que promoveu o encontro entre a gera\u00e7\u00e3o Pessoal do Cear\u00e1 e os novos artistas \u00e1vidos por fazer circular suas m\u00fasicas, como \u00c2ngela Linhares, R\u00e9gis Soares, Rog\u00e9rio Soares, Stone, Vicente Lopes, L\u00facio Ricardo, Mona Gadelha, Francisco Casaverde, Gracco, Caio Silvio,\u00a0 St\u00e9lio Valle, Chico Pio, Wagner Costa, Alano de Freitas, Pachelli Jamacar\u00fa, entre outros. Olhando para essa produ\u00e7\u00e3o podemos perceber a multiplicidade e poder inventivo de nossos compositores, m\u00fasicos e int\u00e9rpretes. Estamos aqui em um momento de abertura pol\u00edtica e a for\u00e7a da liberdade no comportamento dos artistas come\u00e7a a encontrar um maior espa\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"left\">D\u00e9cadas de 1990 e s\u00e9culo XX continuamos com uma \u00f3tima produ\u00e7\u00e3o que encara os desafios das novas configura\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, com suas facilidades tecnol\u00f3gicas e tamb\u00e9m novas formas de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o. Encontramos grandes artistas como K\u00e1tia Freitas, David Duarte, Marcus Caff\u00e9, Eug\u00eanio Leandro, Amaro Pena, Dilson Pinheiro, Ana Fonteles, Parahyba, Serr\u00e3o entre muito e muitos outros que enriquecem nossa m\u00fasica. Cidad\u00e3o Instigado ganhou o mundo faz muito tempo com os m\u00fasicos Rian Batista, Dustan Galas, Fernando Catatau, Regis Damasceno, Boquinha. E agora, o Bora Cear\u00e1 Autoral Criativo unindo a produ\u00e7\u00e3o de Alan Mendon\u00e7a, Davi Silvino, Edinho Villas Boas, Marco Leonel Fukuda, Carlos Hardy, Joyce Cust\u00f3dio, Wilton Matos, Lenine Rodrigues e saibam que tem muito mais nessa generosidade musical cearense.<\/p>\n<p>Continuamos nesta boa peleja de nos reconhecermos do tamanho que merecemos em quantidade, qualidade e variedade polif\u00f4nica, transmitindo ao Brasil e ao Mundo as belas poesias, melodias, harmonias e riqueza r\u00edtmica do Cear\u00e1.\u00a0 Assim podemos concluir nossa viagem musical afirmando que o Cear\u00e1 \u00e9 musical, do xote ao rock, do xaxado ao tecno, do bai\u00e3o \u00e0s guar\u00e2nias, do forr\u00f3 ao bolero, do maracatu ao carimb\u00f3 e quem quiser pode depositar mais riquezas neste matul\u00e3o brasileiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Pedro Rog\u00e9rio (M\u00fasico, pesquisador e professor da Universidade Federal do Cear\u00e1) A m\u00fasica cearense \u00e9 m\u00faltipla e generosa, afinal estamos nos referindo a uma&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":74,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10,90,126,274,283,293,299],"tags":[],"class_list":["post-8999","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-albuns","category-criticas","category-em-fortaleza","category-mpb","category-nacional","category-no-ceara","category-o-melhor-disco-cearense"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8999","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/74"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8999"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8999\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8999"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8999"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/discografia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8999"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}