{"id":1288,"date":"2026-04-10T11:02:09","date_gmt":"2026-04-10T14:02:09","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/docedu\/?p=1288"},"modified":"2026-04-10T11:02:09","modified_gmt":"2026-04-10T14:02:09","slug":"artigo-o-que-realmente-protege-nossos-adolescentes-no-mundo-digital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/docedu\/2026\/04\/10\/artigo-o-que-realmente-protege-nossos-adolescentes-no-mundo-digital\/","title":{"rendered":"Artigo | O que realmente protege nossos adolescentes no mundo digital?"},"content":{"rendered":"<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td valign=\"top\">\n<div>\n<p><i>Por Celso Hartmann*<\/i><\/p>\n<div>\n<p>Vivemos um tempo curioso. Em uma sociedade profundamente polarizada, h\u00e1 um ponto de converg\u00eancia raro: a preocupa\u00e7\u00e3o com os impactos das redes sociais nas mentes de nossas crian\u00e7as e adolescentes. Respons\u00e1veis de diferentes vis\u00f5es pol\u00edticas, educadores, legisladores, todos compartilham a mesma inquieta\u00e7\u00e3o: qual \u00e9 o melhor caminho para protegermos nossas crian\u00e7as?<\/p>\n<p>Alguns pa\u00edses passaram a discutir ou implementar a proibi\u00e7\u00e3o de redes sociais para menores de 16 anos, entre eles Austr\u00e1lia e Reino Unido. Este \u00faltimo lan\u00e7ou recentemente a campanha \u201cYou Won\u2019t Know Until You Ask\u201d, incentivando os pais a conversarem abertamente com os seus filhos sobre conte\u00fados inadequados que eventualmente encontrem durante o uso de telas. S\u00e3o duas respostas distintas ao mesmo problema: uma aposta na restri\u00e7\u00e3o; a outra, no di\u00e1logo, que parecem, em um primeiro olhar, conflitantes, mas devem ser tratadas como complementares.<\/p>\n<p>Como diretor de escola, tenho convic\u00e7\u00e3o de que o caminho mais consistente, saud\u00e1vel e sustent\u00e1vel a longo prazo, ou seja, formador e educativo, \u00e9 o do di\u00e1logo sustentado pela corresponsabilidade entre fam\u00edlia e escola.<\/p>\n<p>A proibi\u00e7\u00e3o ampla parece, \u00e0 primeira vista, uma solu\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo simples e definitiva. Se h\u00e1 risco, elimina-se o acesso. No entanto, solu\u00e7\u00f5es simples para problemas complexos costumam carregar efeitos colaterais importantes.<\/p>\n<p>Primeiro, h\u00e1 a dificuldade pr\u00e1tica de implementa\u00e7\u00e3o. Jovens encontram maneiras de contornar restri\u00e7\u00f5es, como o uso de VPNs e de outras ferramentas para desbloquear o acesso a conte\u00fado proibido. Segundo, h\u00e1 o risco de migra\u00e7\u00e3o para ambientes digitais menos regulados e que podem oferecer riscos ainda maiores: migrar de um chat de jogo bloqueado para uma ferramenta de comunica\u00e7\u00e3o que dificulta o rastreamento das pessoas que a acessam. Terceiro, h\u00e1 um vi\u00e9s de censura impl\u00edcito quando o Estado decide, de forma abrangente, que determinado grupo n\u00e3o pode participar de um espa\u00e7o que hoje \u00e9 central na circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o, cultura e conviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, as redes sociais n\u00e3o s\u00e3o apenas fontes de risco. S\u00e3o tamb\u00e9m espa\u00e7os de pertencimento para jovens que se sentem isolados, seja por quest\u00f5es geogr\u00e1ficas ou de identidade e pertencimento a um determinado grupo. S\u00e3o canais de informa\u00e7\u00e3o, ainda que misturem conte\u00fado de qualidade com desinforma\u00e7\u00e3o. Simplesmente interditar esse universo pode significar ignorar sua complexidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou, com isso, afirmando que devamos negligenciar perigos reais. Conte\u00fados sobre automutila\u00e7\u00e3o, dist\u00farbios alimentares, pornografia, desafios perigosos e cyberbullying exigem resposta firme das plataformas e regula\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel do Estado. Mas regular n\u00e3o \u00e9 o mesmo que interditar indiscriminadamente.<\/p>\n<p>A campanha brit\u00e2nica parte de um dado inquietante: muitos pais nunca conversaram com seus filhos sobre o que consomem on-line. Isso revela algo essencial: o problema n\u00e3o \u00e9 apenas tecnol\u00f3gico; \u00e9 relacional.<\/p>\n<p>Nenhuma lei substitui uma conversa honesta entre pais e filhos. Nenhum filtro digital substitui a constru\u00e7\u00e3o de senso cr\u00edtico advinda da educa\u00e7\u00e3o. Nenhum bloqueio autom\u00e1tico desenvolve maturidade \u2014 pelo contr\u00e1rio, pode estimular a tentativa de desbloqueio sem medir as consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Educa\u00e7\u00e3o digital \u00e9, antes de tudo, educa\u00e7\u00e3o moral e emocional, educa\u00e7\u00e3o familiar. E isso, claro, ocorre em casa, na informalidade das conversas cotidianas, e se fortalece na escola, por meio de projetos estruturados e muita orienta\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica.<\/p>\n<p>Precisamos ensinar nossos jovens a perguntar o que est\u00e3o consumindo, como o que est\u00e3o acessando os faz sentir, se o que acessam apresenta conte\u00fado confi\u00e1vel e os motivos pelos quais eles acessam determinada informa\u00e7\u00e3o. Essa compet\u00eancia n\u00e3o nasce da proibi\u00e7\u00e3o, mas sim do di\u00e1logo.<\/p>\n<p>Recentemente completou-se um ano da lei que proibiu o uso de celulares no ambiente escolar. Essa \u00e9 uma boa oportunidade para refletir sobre o tema com equil\u00edbrio. Sou favor\u00e1vel \u00e0 restri\u00e7\u00e3o do uso de celulares na escola. E explico o motivo: a escola \u00e9 um espa\u00e7o de foco, conviv\u00eancia presencial, escuta e constru\u00e7\u00e3o intelectual. \u00c9 um ambiente em que o estudante precisa aprender a sustentar a aten\u00e7\u00e3o, a desenvolver disciplina interna e a interagir sem a media\u00e7\u00e3o constante de telas. A restri\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um ato de nega\u00e7\u00e3o da tecnologia, mas um gesto pedag\u00f3gico: h\u00e1 tempo e espa\u00e7o para cada coisa.<\/p>\n<p>Quando proibimos o celular na sala de aula, estamos ensinando algo maior do que \u201cn\u00e3o usar o aparelho\u201d. Estamos ensinando que existem contextos que exigem foco total e atividades que n\u00e3o podem competir com notifica\u00e7\u00f5es infinitas provenientes das m\u00faltiplas ferramentas instaladas atualmente em um celular. A distra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sempre bem-vinda.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma aprendizagem fundamental tamb\u00e9m para o mundo adulto, que a crian\u00e7a e o adolescente precisam adquirir. No trabalho, haver\u00e1 momentos de concentra\u00e7\u00e3o profunda e momentos de uso intenso da tecnologia como ferramenta produtiva. Maturidade \u00e9 saber transitar entre esses ambientes.<\/p>\n<p>Perceba a diferen\u00e7a: na escola, a restri\u00e7\u00e3o \u00e9 contextual e pedag\u00f3gica. N\u00e3o \u00e9 uma proibi\u00e7\u00e3o existencial da tecnologia, mas uma organiza\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel de seu uso, aprendizado para o futuro.<\/p>\n<p>Defendo que as proibi\u00e7\u00f5es devem ser empregadas com parcim\u00f4nia e foco. Crian\u00e7as em tenra idade, por exemplo, n\u00e3o possuem maturidade cognitiva e emocional para navegar em ambientes digitais sem supervis\u00e3o. Nesse caso, limites mais r\u00edgidos fazem sentido.<\/p>\n<p>Mas \u00e0 medida que avan\u00e7amos na adolesc\u00eancia, o desafio deixa de ser afastar completamente e passa a ser ensinar a usar. Blindar integralmente pode atrasar o desenvolvimento da autonomia. Expor sem orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 irrespons\u00e1vel. O caminho do meio \u00e9 educar para o uso consciente.<\/p>\n<p>A prote\u00e7\u00e3o real dos jovens n\u00e3o vir\u00e1 de uma decis\u00e3o \u00fanica de um determinado governo ou juiz, mas da soma de tr\u00eas movimentos: di\u00e1logo com os pais, escolas que educam para o uso cr\u00edtico da tecnologia, plataformas que assumem responsabilidade por seus algoritmos e s\u00e3o auditadas e cobradas quanto a seus conte\u00fados e designs viciantes.<\/p>\n<p>Se queremos preparar nossos adolescentes para o futuro, n\u00e3o podemos simplesmente exclu\u00ed-los do mundo digital; precisamos capacit\u00e1-los para o uso consciente. O desafio n\u00e3o \u00e9 afast\u00e1-los das telas a qualquer custo, \u00e9 ensin\u00e1-los a us\u00e1-las no tempo certo, no espa\u00e7o adequado e com maturidade. Entre a proibi\u00e7\u00e3o ampla e a permissividade irrestrita, existe um caminho mais exigente e muito mais eficaz: o da educa\u00e7\u00e3o. E educa\u00e7\u00e3o, sabemos bem, \u00e9 sempre um trabalho compartilhado.<\/p>\n<p>*\u00a0<strong><em>Celso Hartmann \u00e9 diretor executivo dos col\u00e9gios da Rede Positivo<\/em><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Celso Hartmann* Vivemos um tempo curioso. 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