{"id":10120,"date":"2017-07-12T07:34:48","date_gmt":"2017-07-12T10:34:48","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/educacao\/?p=10120"},"modified":"2017-07-12T07:34:48","modified_gmt":"2017-07-12T10:34:48","slug":"a-parcela-mais-vulneravel-da-populacao-esta-sendo-a-mais-castigada-pelos-tres-anos-de-estagnacao-e-recessao-seguidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/2017\/07\/12\/a-parcela-mais-vulneravel-da-populacao-esta-sendo-a-mais-castigada-pelos-tres-anos-de-estagnacao-e-recessao-seguidos\/","title":{"rendered":"A parcela mais vulner\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo a mais castigada pelos tr\u00eas anos de estagna\u00e7\u00e3o e recess\u00e3o seguidos"},"content":{"rendered":"<p>A parcela mais vulner\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o, as crian\u00e7as e os adolescentes, est\u00e1 sendo a mais castigada pelos tr\u00eas anos de estagna\u00e7\u00e3o e recess\u00e3o seguidos. Mais pobres, desempregados e com a amea\u00e7a crescente da viol\u00eancia urbana, que mata mais os jovens, o futuro dessa gera\u00e7\u00e3o est\u00e1 em risco. Pesquisa in\u00e9dita da economista Sonia Rocha, do Instituto de Estudos de Trabalho e Sociedade (Iets), constatou que a pobreza entre crian\u00e7as e adolescentes de at\u00e9 14 anos aumentou mais entre 2014 e 2015. Era de 25,8% em 2014 e passou para 29%. O avan\u00e7o foi ainda maior quando se observa a faixa de pessoas de 15 a 19 anos, que agora tem 22,3% na pobreza, acima dos 17,9% do ano anterior:<\/p>\n<p>\u2014 A conjuntura econ\u00f4mica piorou. Fam\u00edlias com crian\u00e7as dependem essencialmente do mercado de trabalho, que est\u00e1 muito ruim. E os benef\u00edcios voltados para as crian\u00e7as s\u00e3o mais restritos e mais baixos que os para idosos \u2014 afirma Sonia.<\/p>\n<p>As escolas \u2014 o caminho para ter uma chance de vida melhor \u2014 s\u00e3o pouco atraentes e acabam afastando os adolescentes, na avalia\u00e7\u00e3o do movimento Todos pela Educa\u00e7\u00e3o. Dos 2,8 milh\u00f5es de crian\u00e7as e jovens que estavam fora da escola em 2015, 60,8% tinham entre 14 e 17 anos. E a taxa de frequ\u00eancia de quem tem 17 anos \u00e9 de 74,3%. Inferior \u00e0 presen\u00e7a de crian\u00e7as de 4 anos (77,3%).<\/p>\n<p>Quando deixam a escola para enfrentar o mercado de trabalho, a dificuldade aumenta. Na faixa de 14 a 24 anos, a taxa de desemprego j\u00e1 ultrapassou os 30%, o dobro da taxa m\u00e9dia da for\u00e7a de trabalho, de 13,7%, no primeiro trimestre do ano. H\u00e1 1,265 milh\u00e3o de adolescentes de 14 a 17 anos procurando trabalho, quase 10% do total de 14 milh\u00f5es de desempregados. Uma faixa et\u00e1ria que deveria estar apenas nos bancos escolares e n\u00e3o na fila do desemprego. A taxa de desocupa\u00e7\u00e3o para eles \u00e9 de 45,2%, o dobro de antes do in\u00edcio da recess\u00e3o, nos primeiros meses de 2014.<\/p>\n<p>Especialistas em mercado de trabalho apontam duas raz\u00f5es para essa explos\u00e3o nas taxas: o desemprego dos pais acaba empurrando os jovens para o mercado e a falta de experi\u00eancia e de capacita\u00e7\u00e3o dificulta ainda mais a contrata\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Quando v\u00e3o dispensar, os escolhidos s\u00e3o os jovens, que t\u00eam menos experi\u00eancia e v\u00e3o fazer menos falta no processo produtivo. Se for estagi\u00e1rio ou aprendiz, os custos de demiss\u00e3o tamb\u00e9m s\u00e3o menores. O problema \u00e9 que, ao mesmo tempo em que as portas se fecham, muitos precisam se lan\u00e7ar no mercado para ajudar a fam\u00edlia. \u00c9 uma minoria que pode, em tempos de crise, aproveitar a falta de oportunidades para investir em forma\u00e7\u00e3o \u2014 afirma Maria Andreia Parente Lameiras, economista do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea).<\/p>\n<p>E a viol\u00eancia fecha o cerco em torno dessa popula\u00e7\u00e3o. Na m\u00e9dia, h\u00e1 29 homic\u00eddios para cada cem mil habitantes. Em pa\u00edses desenvolvidos, ficam entre 0,5 e 1 por cem mil. Na popula\u00e7\u00e3o de 15 a 29 anos, a taxa \u00e9 de 60 por cem mil. Se forem homens, quase dobra: 113 mortes por cem mil.<\/p>\n<p>\u2014 Em todo o mundo, os homic\u00eddios s\u00e3o maiores nessa faixa et\u00e1ria. O jovem \u00e9 o ator principal sofrendo e cometendo crimes. O que difere no Brasil \u00e9 o patamar. E o pico da taxa era aos 25 anos, hoje \u00e9 aos 21. Estamos matando nossos jovens cada vez mais jovens \u2014 afirma Daniel Cerqueira, economista e especialista em seguran\u00e7a p\u00fablica do Ipea.<\/p>\n<p><strong>Em busca de uma vaga desde os 14 anos<\/strong><\/p>\n<p>Morreram assassinados 318 mil jovens de15 a 29 anos entre 2005 e 2015, de acordo com os dados do Sistema de Informa\u00e7\u00f5es de Mortalidade do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Somente em 2015, houve 31.269 mortos. Apesar de significar cerca de 86 homic\u00eddios por dia, \u00e9 um n\u00famero menor que os 32.436 mil de 2014.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia de Sabrina Graziele Coelho, de 35 anos, est\u00e1 sofrendo todos os efeitos da crise. Casada com Francinei Lopes da Silva, e m\u00e3e de Davi, de 15 anos, Beattriz, de 14 anos, e Cau\u00e3, de 9 anos, Sabrina perdeu o emprego em abril. O marido, em outubro. A renda minguou. S\u00f3 sobrou o Bolsa Fam\u00edlia, de R$ 202, que n\u00e3o d\u00e1 para alimentar a fam\u00edlia de cinco pessoas.<\/p>\n<p>\u2014 Minha filha fica na escola o dia inteiro e agora est\u00e1 dormindo na casa da minha m\u00e3e. Davi est\u00e1 na casa da minha irm\u00e3. Eu s\u00f3 almo\u00e7o. Pulo o caf\u00e9 da manh\u00e3 e o jantar. Muitas vezes, venho para a casa da minha m\u00e3e, que re\u00fane toda a fam\u00edlia. Aqui sempre tem comida \u2014 diz Sabrina na casa da m\u00e3e numa comunidade na Zona Norte.<\/p>\n<p>Logo que saiu do emprego de cuidadora de um idoso, que morreu em abril, Sabrina comprou bijuterias para revender e conseguir comprar uma coisa ou outra que falta para os filhos e rem\u00e9dios. O cabelo do marido e do filho, ela mesmo corta:<\/p>\n<p>\u2014 A escola n\u00e3o d\u00e1 uniforme, e Davi s\u00f3 tem uma camisa. O frio vai aumentar, e preciso comprar outra camisa de manga comprida. Tamb\u00e9m falta material escolar. A escola n\u00e3o tem dado. Mas minha fam\u00edlia ajuda muito. Um sempre d\u00e1 apoio ao outro.<\/p>\n<p><strong>Produtividade ainda menor<\/strong><\/p>\n<p>Thamires Oliveira de Souza, de 18 anos, cresceu sonhando em cursar enfermagem, mas procura emprego desde os 14 anos. O pai \u00e9 um pedreiro desempregado h\u00e1 dois anos e a m\u00e3e, empregada dom\u00e9stica. Aluna do 3\u00ba ano do ensino m\u00e9dio de uma escola p\u00fablica, procura est\u00e1gio para tentar ajudar a pagar os cursos que vem fazendo para entrar em uma universidade p\u00fablica. O pai faz bicos para custear um curso pr\u00e9-vestibular e um b\u00e1sico de administra\u00e7\u00e3o para a filha:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 dif\u00edcil n\u00e3o ter experi\u00eancia, ter de estudar e procurar um trabalho ao mesmo tempo. Estou tentando vaga de est\u00e1gio porque o dinheiro dos meus pais j\u00e1 est\u00e1 acabando e preciso me manter nesses cursos. Al\u00e9m de as vagas serem escassas, quando aparece algo, n\u00e3o casa com o hor\u00e1rio das minhas aulas, \u00e9 muito longe de onde moro ou pede ingl\u00eas intermedi\u00e1rio, que n\u00e3o tenho. Enquanto isso, cortamos qualquer luxo. Nada de comprar roupa ou cal\u00e7ado. N\u00e3o podemos fazer d\u00edvida.<\/p>\n<p>Para Maria Andreia, portas fechadas para jovens que precisam custear os pr\u00f3prios estudos podem comprometer a forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Vai afetar a especializa\u00e7\u00e3o de muitos adolescentes que t\u00eam como condi\u00e7\u00e3o para a entrada na universidade ter um emprego \u2014 avalia.<\/p>\n<p>Os impactos negativos na economia e na pr\u00f3pria trajet\u00f3ria profissional desses jovens s\u00e3o inevit\u00e1veis, observa Bruno Ottoni, pesquisador na \u00e1rea de mercado de trabalho do Instituto Brasileiro de Economia da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (Ibre\/FGV):<\/p>\n<p>\u2014 Quanto mais tempo uma pessoa fica sem emprego, mais ela demora para se inserir novamente no mercado. Quando falamos do primeiro emprego, isso \u00e9 ainda mais grave. Atrasa a aquisi\u00e7\u00e3o de experi\u00eancia. Os anos v\u00e3o passando, eles ficam mais velhos e sem experi\u00eancia. Fases de desemprego alto e longos, como o que vivemos hoje, tornam mais prec\u00e1rio o capital humano e fazem a produtividade m\u00e9dia do trabalhador brasileiro, que j\u00e1 \u00e9 baixa, cair ainda mais.<\/p>\n<p>Ottoni avalia que a falta de forma\u00e7\u00e3o dos recursos humanos pode atrasar a rea\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos nos tornando menos produtivos, e a retomada da economia demora ainda mais. \u00c9 uma condi\u00e7\u00e3o que cria um c\u00edrculo vicioso \u2014 afirma.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o para Sabrina \u00e9 imprescind\u00edvel. Os filhos nunca repetiram de ano na escola, e a filha Beattriz \u00e9 medalhista de ouro de xadrez.<\/p>\n<p>\u2014 Aqui em casa, ningu\u00e9m pode tirar menos de 7. Davi est\u00e1 estudando \u00e0 noite para tentar uma vaga de aprendiz durante o dia, mas ningu\u00e9m contrata antes dos 16 anos \u2014 diz Sabrina.<\/p>\n<p>Davi engrossa o universo de adolescentes desempregados, mas a forma\u00e7\u00e3o est\u00e1 encaminhada. N\u00e3o foi o caso de Sabrina. Trabalhando desde os 14 anos, concluiu o ensino m\u00e9dio e chegou a conseguir bolsa para cursar Gest\u00e3o Ambiental:<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o consegui cursar.<\/p>\n<p>Na sala da casa da m\u00e3e, LPs antigos do irm\u00e3o de Sabrina enfeitam a parede. \u00c9 uma lembran\u00e7a, pois ele morreu h\u00e1 27 anos, assassinado aos 17:<\/p>\n<p>\u2014 Meu filho mais velho fica na casa da minha irm\u00e3, onde h\u00e1 mais atividades oferecidas pela igreja. Ele faz luta, computa\u00e7\u00e3o, toca teclado. N\u00e3o est\u00e1 ocioso. \u00c0s vezes, os meninos veem que est\u00e1 faltando coisa dentro de casa, e o dinheiro \u00e9 f\u00e1cil l\u00e1 fora.<\/p>\n<p>Fonte: O Globo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A parcela mais vulner\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o, as crian\u00e7as e os adolescentes, est\u00e1 sendo a mais castigada pelos tr\u00eas anos de estagna\u00e7\u00e3o e recess\u00e3o seguidos. 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